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Full text of "A revolução portuguesa"

a Husrtnn. l m 

| Papelaria, Tipagrsfia, Livraria, 

ENCADERNAÇÃO 

52, H. de Alcântara. 52-A 

Telf, 37 915-lisbôa 



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^M=i^r 



POR 

ARMANDO RIBEIRO 



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A REVOLUÇÃO PORTUGUESA 

SEGUNDA PARTE 

EM PLENA REVOLUÇÃO 

( Continuação) 



XXI 
O AT^GèTJE IDAS BATERIAS 

A retirada. — Dos altos da Penitenciaria ao Rocio 



o determinar o engate das peças e á irisante si- 
tuação de uma derrota que os outros lhe pare- 
ciam impor, o capitão Henrique de Paiva Cou- 
ceiro, se não viu, desde logo, a ruína da monar- 
chia, teve o intuitivo reflexo de um mau fim 
da realeza de Portugal, e de que a elle iria ser 
aggregado. 
o lance da vinda de Cascaes a Sete Rios, e do 
combate da Penitenciaria, até ao terminar das hostilidades, toi 
o primeiro passo para a amargurada odysseia do official. 
D'elle deixou as impressões. 
Vejamol as, pelo próprio transmittidas : (*) 
«Henrique de Paiva Couceiro estava passando o verão em 
Cascaes, n'uma casa da Avenida Valbom, onde habita também 

(♦) «O Correio da Manhã» de 2 de Novembro de Í910. 




facto, 



ARMANDO RIBEIRO 



seu sogro, o sr. conde de Paraty, ha pouco ainda ministro de 
Portugal em Vienna de Áustria* 

«Estava dormindo quando pelas quatro horas da madruga- 
da de 4 de Outubro um guarda fiscal foi bater á porta de sua 
casa para lhe communicar que de Queluz, pelo telephone, pe- 
diam a sua immediata comparência no quartel. 

«O primeiro comboio para Lisboa era ás 5 horas e 4b mi- 
nutos. Paiva Couceiro tomou-o, e ao chegar a Paço d'Arcos 
apeou-se, seguindo a pé para Queluz. 

«Pelo trajecto nada se passara de extraordinário. Dizia se 
apenas que se tinham dado acontecimentos anormaes em Lis» 
boa e que se não podia passar de Algés. 

«Eram 9 horas da manha quando chegou a Queluz, ao 
quartel onde está instailada a bateria de artilharia de que fazia 
parte. Ahi toi informado de que toda a to-ça disponível, consti- 
tuindo uma bateria composta de 4 peças e de 4 carros, com as 
munições necessárias para 25o tiros — únicas existentes no 
paiol do quartel — sairá pelas 4 horas e 20 minutos da manhã 
com destino ao paço das Necessidades, sob o commando do ca- 
pitão Machado e levando como officiaes os tenentes Correia Ne- 
ves, Rocha, Gusmão, Pissarra e Valdez. 

«Paiva Couceiro seguiu immediatamente, a cavallo, para as 
Necessidades, acompanhado de uma ordenança. 

«Quando chegou ás portas da Ajuda viu que lhe era im- 
possível passar, porque a guarda fiscal retirara, deixando o 
portão fechado e amarrado com arames. 

«Teve de dar então a volta pela Portella e no Alto da cal- 
çada da Ajuda encontrou os officiaes de cavallaria, os srs. Oli- 
veira e Ramos, seguidos por um carro de mantimentos para as 
tropas de cavallaria, que — informaram esses officiaes — deviam 
estar em caminho pela estrada de Bemfica, assim como a bate- 
ria do grupo a cavallo de Queluz. 

«Pouco passava das 1 1 horas da manhã quando, finalmen- 
te, ahi pelas alturas de Sete Rios, Couceiro alcançou a bateria 
de que fazia parte. A columna estacionava ao longo da estrada. 

« — Quem commanda aqui ? perguntou o valente official 
ao sr. capitão Vieira. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 



« — Coronel Albuquerque, respondeu o interpellado. 

a — Onde está? 

t — Lá mais para deante. 

«Segundos depois estiva Paiva Couceiro junto do chefe da 
oolumna a quem, fazendo a continência, disse a phrase do es 
tylo : 

« — Commandante do grupo a cavallo apresenta-se. 

«E lego a seguir: 

a — Que serviço tenho a fazer? 

«Recebi a missão, disse-lhe então o coronel Albuquerque, 
de atacar o núcleo revoltoso que oceupa o quartel de artilharia 
I e Rotunda da Avenida. 

« — Com que tropas? perguntou Couceiro. 

« — Com a brigada de cavallaria, a bateria a cavallo e uma 
força de infantaria 2, respondeu o sr. coronel Alburquerque. 

«Embora naturalmente estranhasse que, dispondo o quar- 
tel general de cinco regimentos de infantaria, de toda a guarda 
municipal e da engenharia e da guarda fiscal, destinasse para o 
ataque ao redueto único da revolta apenas uma fracção minima 
dos eflectivos, com a aggrava«ne ainda de a constituir na sua 
maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa menos própria 
para o assalto de muros ou barricadas, — Paiva Couceiro limi- 
tou-se a dizer: 

« — N'esse caso temos de proceder primeiro á escolha da 
posição de artilharia. 

«N'este sentido foi suggerida a pos ção do lado tie Rilha- 
folles, mas um oflkial de cavallaria que estava próximo infor- 
mou que de uma propriedade adjacente alguém lhe dissera po- 
der se attingir o objectivo que se tinha em vista, Uto é, fazer 
fogo, sobre a Rotunda. 

« — Então vamos ao reconhecimento, disse Paiva Cou- 
ceiro. 

«E tomando por uma azinhaga á direita, acompanhado por 
um tenente de cavallaria, cremos que de nome Menezes, o que 
nos não foi possivel averiguar, e entrando n'um portão de quin- 
ta, subiram por entre vinhas e olivaes em rampa suave, até um 
planalto onde, a curta distancia, se avistava á direita a Peniten- 



ARMANDO RIBEIRO 



ciaria e á esquerda a casa de habitação do sr. Henrique de Men- 
donça, o rico proprietário da ilha de S. Thomé. 

«Era evidente que aquella posição servia. Voltando para 
junto da columna, os dois officiaes assim o communicaram ao 
sr. coronel Albuquerque, a quem Paiva Couceiro disse que pre- 
cisava de infantaria por quanto, attendendo á proximidade do 
quartel de artilharia i, tacil seria que as immediações da posi- 
ção estivessem occupadas pelos revoltosos. 

«Marchou portanto a bateria, levando na frente a pequena 
columna de infantaria 2, que, segundo parece, tinha menos de 
cem praças, seguindo o mesmo trajecto antes seguido pelos dois 
officiaes, 

«Chegados ao bordo do planalto, a infantaria desenvolveu- 
se em atiradores avançando até ao muro que fechava a proprie- 
dade pelo lado da estrada da Circumvalação, emquanto a bate- 
ria, alguns metros atráz, seguia o movimento desenvolvida em 
linha. 

«Na estrada e terras que a marginavam pelo sul, foram co- 
lhidos pelos atiradores e no entretanto a bateria mettia se em 
combate: — duas peças ao lado uma da outra, junto ao tapu- 
me que estava vedando um intervallo não murado, e uma ter- 
ceira em frente de uma cancella que mais para a esquerda 
abria sobre a estrada. 

«A quarta peça ficara na rectaguarda por não haver mais 
aberturas no muro, nem permittir a sua altura atirarse-lhe por 
cima. 

«Ao mesmo tempo, os officiaes procuravam pôr-se ao facto 
das posições defensivas dos revoltosos. 

«No portão de entrada do quartel de artilharia 1 via-se uma 
peça; em frente da antiga casa de saúde de Entremuros, esta- 
vam collocadas duas ou três. 

cPara essas peças se preparou o tiro, avaliando-se a distan- 
cia n'uns 600 a 700 metros. 

« — Tapume abaixo! ordenou-se então. 

cE as praças, rapidamente, derrubaram para o lado da es- 
trada o mal seguro taboado. 

«Postas assim as peças a descoberto, ia-se principiar o togo, 



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A REVOLUÇÃO PORTUGUESA 

SEGUNDA PARTE 

EM PLENA REVOLUÇÃO 

( Continuação) 



XXI 



A retirada. — Dos altos da Penitenciaria ao Rocio 



o determinar o engate das peças e á frisante si- 
tuação de uma derrota que os outros lhe pare- 
ciam impor, o capitão Henrique de Paiva Cou- 
ceiro, se não viu, desde logo, a ruína da monar- 
chia, teve o intuitivo reflexo de um mau fim 
da realeza de Portugal, e de que a elíe iria ser 
aggregado. 
facto, o lance da vinda de Cascaes a Sete Rios, e do 
combate da Penitenciaria, até ao terminar das hostilidades, toi 
o primeiro passo para a amargurada odysseia do official. 
D'elle deixou as impressões. 
Vejamol as, pelo próprio transmittidas : (*) 
«Henrique de Paiva Couceiro estava passando o verão em 
Cascaes, n'uma casa da Avenida Valbom, onde habita também 

(#) «0 Correio da Manha» de 2 de Novembro de 1910. 
vol. jy 




ARMANDO RIBEIRO 



seu sogro, o sr. conde de Paraty, ha pouco ainda ministro de 
Portugal em Vienna de Áustria* 

«Estava dormindo quando pelas quatro horas da madruga- 
da de 4 de Outubro um guarda fiscal foi bater á porra de sua 
casa para lhe communicar que de Queluz, pelo telephone, pe- 
diam a sua immediata comparência no quartel. 

«O primeiro comboio para Lisboa era ás 5 horas e 45 mi- 
nutos. Paiva Couceiro tomou-o, e ao chegar a Paço d'Arcos 
apeou-se, seguindo a pé para Queluz. 

«Pelo trajecto nada se passara de extraordinário. Dizia se 
apenas que se tinham dado acontecimentos anormaes em Lis- 
boa e que se não podia passar de Algés. 

«Eram 9 horas da manhã quando chegou a Queluz, ao 
quartel onde está installada a bateria de artilharia de que fazia 
parte. Ahi toi informado de que toda a fo r ça disponível, consti- 
tuindo uma bateria composta de 4 peças e de 4 carros, com as 
munições necessárias para 25o tiros — únicas existentes no 
paiol do quartel — sairá pelas 4 horas e 20 minutos da manhã 
com destino ao paço das Necessidades, sob o commando do ca- 
pitão Machado e levando como officiaes os tenentes Correia Ne- 
ves, Rocha, Gusmão, Pissarra e Valdez. 

«Paiva Couceiro seguiu immediatamente, a cavallo, para as 
Necessidades, acompanhado de uma ordenança. 

tQuando chegou ás portas da Ajuda viu que lhe era im- 
possível passar, porque a guarda fiscal retirara, deixando o 
portão fechado e amarrado com arames. 

«Teve de dar então a volta pela Portella e no Alto da cal- 
çada da Ajuda encontrou os officiaes de cavallaria, os srs. Oli- 
veira e Ramos, seguidos por um carro de mantimentos para as 
tropas de cavallaria, que — informaram esses officiaes — deviam 
estar em caminho pela estrada de Bemfica, assim como a bate- 
ria do grupo a cavallo de Queluz. 

«Pouco passava das 1 1 horas da manha quando, finalmen- 
te, ahi pelas alturas de Sete Rios, Couceiro alcançou a bateria 
de que fazia parte. A columna estacionava ao longo da estrada. 

« — Quem commanda aqui ? perguntou o valente official 
ao sr. capitão Vieira. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 



« — Coronel Albuquerque, respondeu o interpellado. 

« — Onde está ? 

t — Lá mais para deante. 

«Segundos depois estava Paiva Couceiro junto do chefe da 
•columna a quem, fazendo a continência, disse a phrase do es 
tylo : 

t — Commandante do grupo a cavallo apresenta-se. 

«E lego a seguir: 

a — Que serviço tenho a fazer? 

t Recebi a missão, disse-lhe então o coronel Albuquerque, 
de atacar o núcleo revoltoso que oceupa o quartel de artilharia 
I e Rotunda da Avenida. 

« — Com que tropas? perguntou Couceiro. 

« — Com a brigada de cavallaria, a bateria a cavallo e uma 
força de infantaria 2, respondeu o sr. coronel Alburquerque. 

«Embora naturalmente estranhasse que, dispondo o quar- 
tel general de cinco regimentos de infantaria, de toda a guarda 
municipal e da engenharia e da guarda fiscal, destinasse para o 
ataque ao redueto único da revolta apenas uma fracção minima 
dos eflectivos, com a aggravante ainda de a constituir na sua 
maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa menos própria 
para o assalto de muros ou barricadas, — Paiva Couceiro limi- 
tou-se a dizer: 

« — N'esse caso temos de proceder primeiro á escolha da 
posição de artilharia, 

«N'este sentido foi suggerida a pos ção do lado \ç Rilha- 
folles, mas um official de cavallaria que estava próximo infor- 
mou que de uma propriedade adjacente alguém Ibe dissera po- 
der se attingir o objectivo que se tinha em vista, isto é, fazer 
fogo, sobre a Rotunda. 

« — Então vamos ao reconhecimento, disse Paiva Cou* 
ceiro. 

«E tomando por uma azinhaga á direita, acompanhado por 
um tenente de cavallaria, cremos que de nome Menezes, o que 
nos não foi possivel averiguar, e entrando n'um portão de quin- 
ta, subiram por entre vinhas e olivaes em rampa suave, até um 
planalto onde, a curta distancia, se avistava á direita a Peniten- 



ARMANDO RIBEIRO 



ciaria e á esquerda a casa de habitação do sr. Henrique de Men- 
donça, o rico proprietário da ilha de S. Thomé. 

«Era evidente que aquella posição servia. Voltando para 
junto da columna, os dois officiaes assim o communicaram ao 
sr. coronel Albuquerque, a quem Paiva Couceiro disse que pre- 
cisava de infantaria por quanto, attendendo á proximidade do 
quartel de artilharia i, fácil seria que as immediações da posi- 
ção estivessem occupadas pelos revoltosos. 

«Marchou portanto a bateria, levando na frente a pequena 
columna de infantaria 2, que, segundo parece, tinha menos de 
cem praças, seguindo o mesmo trajecto antes seguido pelos dois 
officiaes. 

«Chegados ao bordo do planalto, a infantaria desenvolveu- 
se em atiradores avançando até ao muro que fechava a proprie- 
dade pelo lado da estrada da Circumvalação, emquanto a bate- 
ria, alguns metros atráz, seguia o movimento desenvolvida em 
linha. 

«Na estrada e terras que a marginavam pelo sul, foram co- 
lhidos pelos atiradores e no entretanto a bateria mettia se em 
combate: — duas peças ao lado uma da outra, junto ao tapu- 
me que estava vedando um intervallo não murado, e uma ter- 
ceira em frente de uma cancella que mais para a esquerda 
abria sobre a estrada. 

«A quarta peça ficara na rectaguarda por não haver mais 
aberturas no muro, nem permittir a sua altura atirarse-lhe por 
cima. 

«Ao mesmo tempo, os officiaes procuravam pôr-se ao facto 
das posições defensivas dos revoltosos. 

«No portão de entrada do quartel de artilharia 1 via-se uma 
peça; em frente da antiga casa de saúde de Entremuros, esta- 
vam collocadas duas ou três. 

«Para essas peças se preparou o tiro, avaliando-se a distan- 
cia n'uns 600 a 700 metros. 

« — Tapume abaixo! ordenou^se então. 

«E as praças, rapidamente, derrubaram para o lado da es- 
trada o mal seguro taboado. 

«Postas assim as peças a descoberto, ia-se principiar o fogo, 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 



quando sobre as peças rebentaram três granadas dos revoltosos. 
Ficaram íeridos logo o capitão Vieira, o cabo ordenança e va- 
rias praças. Caíram mortas algumas muares, tresmalharam-se 
os cavallos e as parelhas dos armões que ainda não tinham se- 
guido para logar abrigado. 

«Conjuntamente deuse também a fuga de uma parte, talvez 
metade, da torça de infantaria e de algumas praças da bateria. 




'&.:«-- 



PAIVA COUCEIRO 



«Deve dizer se como relativa justificação ou attenuante d'es- 
te ultimo lamentável acontecimento, que esses soldados, no que 
diz respeito ao grupo de artilharia — pois no que respeita a in- 
fantaria não pudemos averigual-o — eram simples recrutas de 
io mezes, porquanto as praças que estavam no segundo anno 
de serviço tinham sido licenceadas em setembro, depois das elei- 
ções, o que provavelmente também suecedera com infantaria 2. 

vol. iv — n. 2 



10 ARMANDO RIBEIRO 



«Comtudo haviam ficado firmes no seu posto os officiaes e 
sargentos da bateria e alguns dos serventes, o que permittiu que 
immediatamente se rompesse o fogo de resposta. 

«Ao mesmo tempo, parte dos officiaes e sargentos tratavam 
de reparar os effeitos da desordem do primeiro momento, apa- 
nhando os cavallos que se haviam tresmalhado, conduzindo os 
armões para posição desenfiada, fazendo entrar as praças nos 
seus logares e conduzindo os feridos para a enfermaria que o 
dr. Bogalho, medico da bateria de Queluz, improvisara nas ha- 
bitações existentes á entrada da quinta. 

«Alguns soldados de infantaria 2, deitados em cima de uns 
telheiros adjacentes á parte interna do muro, sustentavam tiro- 
teio com a gente armada que de diâerentes pontos procurava 
attingir as forças ríeis. As granadas provenientes, umas, das pe- 
ças que se avistavam em frente do quartel de artilharia, e outras, 
de peças que se não distinguiam, continuavam estalando sobre 
a columna, não produzindo grande parte quaesquer avarias por 
estalarem do lado de fora do muro, mas causando algumas del- 
ias varias baixas entre as tropas. 

«Depois de cerca de três quartos de hora de togo, parecen- 
do desamparadas as peças que se viam junto do quartel, Paiva 
Couceiro mandou sair a infantaria pela cancella, e a ordem foi 
cumprida, saindo o tenente de infantaria Vianna — cremos que 
c esse o seu nome, mas havemos de averigual-o porque é justo 
que fique registado, pois procedeu como um bravo — á frente 
de trinta e tantas praças que, atravessando a estrada, se esten- 
deram em atiradores sobre o terreno livre da banda cpposta. 

«Poucos minutos depois recolhiam com algumas baixas. 

«A bateria continuava o seu serviço e meia hora ou três 
quartos de hora depois, parecendo abrandar o fogo dos revolto- 
sos, novamente Paiva Couceiro mandou sair a infantaria. 

«Convém observar n'esta altura que, depois da debandada 
parcial que se dera aos primeiros tiros, ninguém, ao que pare- 
ce, tratara de fazer voltar aos seus logares os fugitivos. 

«Assim a infantaria ficara definitivamente reduzida a uma 
pequeníssima parte que, salvo erro, não ultrapassava em nume- 
ro uns 5o homens. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 11 



«O coronel Bessa, o major Rocha e um outro official, ma- 
jor ou capitão — não pudemos averiguai o, — permaneciam junto 
do muro e abrigados por elle, sem se intrometterem nc com- 
inando activo dos soldados. 

«Estes, por sua parte, excepção leita de uns 8 ou 10 que 
valorosamente collaboraram sempre na linha de fogo, abriga- 
vam-se sentados no sopé interno do muro, bastante alheios ás 
phases da luta. E ahi se deixaram ficar, quando pela segunda 
vez Paiva Couceiro mandou que a infantaria saisse. 

«Paiva Couceiro apeou-se então e invectivou os em ter- 
mos. . . pouco parlamentares, aos quaes cederam por fim cerca 
de vinte praças, que sairam com Paiva Couceiro e o tenente de 
infantaria Vianna, já acima citado, e cujas qualidades de brio, 
e de coragem merecem menção especial. 

«Era o momento psychologico de prenunciar o assalto ao 
quartel de artilharia. Assim o julgou Paiva Couceiro, mas re- 
presentaria falta militar grave o tental-o com pouco mais de 
duas dezenas de homens, que um só tiro de peça do lado op« 
posto destroçaria sem duvida. 

«Resolveu então Paiva Couceiro fazer constar ao cominan- 
do da Divisão que com três companhias de infantaria, das quaes 
uma da municipal, podia proceder-se a esse ataque. E a com- 
municação foi feita. 

«Meia hora depois chegava á linha de fogo o capitão Mar- 
tins de Lima, acompanhado pelos tenentes Estevão Wanzeller e 
Ramos vindos do quartel general. 

retiramo-nos, acompanhados até á porta por Paiva Couceiro que 
ao despedir se, nos disse: 

« — Devo dizer-lhts que aquillo que de menos agradável, 
n8 narração que fizeram e na entrevista que tiveram e que aca- 
bam de me lêr, possa suppôr se a respeito do procedimento e da 
passividade de alguns dos officiaes a quem n'ellas fazem referen- 
cias, explico o eu como um resultado natural e lógico do estado 
d'alma, de indifirerença, de aborrecimento e de desconsolo, que 
o curso dos negócios públicos nos últimos tempos vinha crean-. 
do no espirito publico em geral e dos officiaes em particular 



12 ARMANDO RIBEIRO 



Aquelles mesmos, que ali cruzaram os braços, cumpriram brio- 
samente o seu dever em outras circumstancias. . . É* essa a mi- 
nha convicção* 



A retirada íez-se portanto. 

Era o complemento da debandada, por vontade própria. 

Resolveraa alem, impulsionandoa, o general commandan- 
te da brigada de cavallaria, António de Carvalhal da Silveira 
Telles de Carvalho. 

Este, poucas horas antes chegara ao quartel do iargo de S. 
Domingos como tardio conhecedor da revolução. 

O coronel Alfredo de Albuquerque, informa assim esse ac- 
to de comparência e de ignorância dos successos : (*) 

«General António Carvalhal. — Morava na Avenida Duque 
de Loulé, mas não parece ter sentido os tiros da artilharia que 
atroaram Lisboa durante toda a noite. Só teve conhecimento 
«official» da revolução (declaração do próprio, no jornal o a Dia» 
de g de Novembro de ioio) por volta das 7 horas da manhã, 
e diz que foi «oficialmente», por que antes — «já sabia do que 
se tratava porque fui prevenido por pessoa de íamilia que cos- 
tumava ir aos banhos a Algés e que regressara n'essa manhã a 
casa, por não poder passar para a Rotunda.» 

«Só compareceu no Quartel General quando «officialmen- 
tc» foi chamado.» 

Chegando, o general António Carvalhal ao corrente foi pos- 
to de todos os planos ordenados. 

A columna já seguira a caminho do seu destino ignoto 

Como encargo recebia apenas o de vigilar sobre a interce- 
pção, ao povo, dos locaes próximos do commando supre- 
mo. 

O governo foi apparecendo e ao avançar das horas, resalta- 
vam as perguntas. 



(*) Os Cem Dias Funestos», por Joaquim Leitão. — Pagioa 334. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 13 



Não se sabia ali da columna que sahindo das Necessidades 
devia procurar attingir a Rotunda 

De discussão em discussão, de perspectiva em perspectiva, 
valeu o ministério que, se perturbado se mostrara no con- 
selho civil, junto aos militares ganhou ânimos e concei- 
tos. 

Era a influencia do local. 

Houve assim opiniões certas, embora melindrosas. 

Do governo, presente, alguém, approvado o ataque extra- 
nhou que eile não tivesse o commando d'um general, existindo 
ali trez, Manuel Raphael Gorjao, António Júlio de Sousa Ma- 
chado, António Carvalhal. 

Dirigiu-se mesmo ao general António Carvalhal, que, em- 
bora tivesse ali occssião de auxiliar a democracia, não julgou 
conveniente seguir com as torças, onde entravam lanceiros 2, 
dados como fieis á causa monarchica. 

Allegando só cumprir as ordens do commandante da divi- 
são, teve por este a casual acquiescencia aos seus desejos, pela 
determinação de que o seu serviço era no quartel para o substi- 
tuir, em caso de necessidade e proceder á vigilância sobre a to- 
madia das emboccaduras das ruas. 

Não era de fatigar, esse trabalho de táctica do official gene- 
ral e a divisão, se bem que inconsciente e guiada, ciemos, pelo 
fatalismo das coisas, não collocando á frente das tropas fieis esse 
vulto de encoberto revoltado, deu aso á sua attitude de franca 
adhesão á revolta. 

A uma directa responsabilidade corresponde uma restricta 
linha de conducta inherenre a essa responsabilidade; 

Parece, todavia, que a esse primitivo declinar de comman- 
do presidiu um pouco de ma! estar enfermiço do commando su- 
perior, não lhe deixando precisar attitudes nem factos. 

Divergências houve pois sobre o momento em que a missão 
foi incumbida ao general Carvalhal. 

Assim, disse este (-), apoz a affirmativa do conhecimento 
da marcha da columna do coronel Albuquerque: 



(#) -O Dia- de 10 de Novembro de 1910. 



14 ARMANDO RIBEIRO 



«O tempo decorria, as granaJas iam rebentando, os minis- 
tros vinham apparecendo, e um d'elles extranhou que o ataque 
não fosse commandado por um general. Como esse ministro se 
dirigiu directamente a mim, rtspondi-lhe então: 

«Só cumpro as ordens do commandante da divisão e este 
determinou-me que não me afiastasse do quaitel general, para 
o substituir, se assim fosse necessário, estando eu encarregado 
de verificar se as diflerentes embocaduras das ruas estão conve- 
nientemente guarnecidas.» 

De contrario aspecto apresenta (*) a investidura no encargo 
o coronel José Joaquim de Castro, chefe do estado maior: 

« A iniciativa do general pela oflensiva sobre a Rotunda, 
foi logo adoptada, e fixou-se qu* o destacamento para essa acção 
seria composto por infantaria 16, que estava fiel, uns cento e 
vinte homens, cavallaria 2 e a bateria de Queluz, tudo sob o 
commando do coronel Albuquerque, de lanceiros 2. Todavia, 
pela consideração de maior importância qut deveria dar-se a 
esse destacamento, foi o sr. general Carvalhal convidado a assu- 
mir o seu commando, tendo também sido pedida a cooperação 
do tenente coronel Garcia Guerreiro, como official do serviço de 
estado maior.» 

Com razão foi evidenciado (»*) pelo conselheiro Teixeira 
de Sousa, esse equivoco do coronel José Joaquim de Castro, pe- 
lo qual se poderia deduzir que o commando da columna desde 
o inicio da marcha confiado estivera ao general Carvalhal. 

A fazer-se fé por esse definir de casos, occorreria interro- 
gar que razões influiriam para o detrimento da intenção, não con- 
summada logo á chegada do official e até apresentandose como 
de diverso thema o serviço confiado? 

E' certo que á assistência do commandante da brigada de 
cavallaria correspondeu a ordem de retirada, mas esta fe^se ante 
um descripto fracasso e uma apregoada impossibilidade de pro- 
seguir a acção. 



(*) Notas ao «Diário dos Vencidos» por Joaquim Leitão. — Pagina 325 
(**) Teixeira de Sousa -«Para a historia da Revolução» — 2.° volume 
Pagina 359 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA - 15 



Nao teve a analyse que as circumstancias exigiam, mas dif - 
ficil era ambicionar serenidade n'esse quasi geral período de 
desorientação. 

Facto é, todavia, e authenticando o desnorteamento causa- 
dor de tanta controvérsia, que o commandante da brigada de 
cavallaria, apenas teve a incumbência da marcha até Sete Rios, 
"depois da i hora da tarde, ás extranhezas do governo eá escassez 
de noticias, trazendo até vislumbres de reproducção da scena 
passada de madrugada, em Alcântara, com convallaria 4. 

N'um inútil aguardar de informes, haviam passado as ho- 
ras. 

A essa ignorância, perturbante, do que se teria passado com 
o troço destinado a exercer pressão sobre a Rotunda, correspon- 
deu o formular da singularidade de não se haver organisado 
uma columna forte que envolvesse, a sério, o acampamento re- 
belde, forçando-o a render-se. 
Era cerca da 1 hora da tarde. 

Pensou se então em auxiliar o núcleo que deveria estar ope- 
rando nos altos da Penitenciaria. 

Proposto foi assim que um dos generaes presentes seguisse, 
para com as tropas necessárias, coadjuvar a acção da columna 
presumida dà chefia exclusiva do coronel Alfredo de Albuquer- 
que. 

Lembrado o general Carvalhal, commettia se-lhe o encargo 
de, com praças de cavallaria, ir ao encontro da columna. 

O official, embora mais propenso á democracia, não quiz 
toiavia arcar com qualquer attribuida responsabilidade de al- 
gum lance contrario á realeza e procurando rodear-se de ele- 
mentos fieis á causa monarchica, suscitava ao commando da 
divisão, a conveniência de, visto tratar-se de ataque, ser acom- 
panhado pelo tenente-coroneí António José Garcia Guerreiro, 
que desempenharia as funcçÕes de chefe de estado maior. 

O escolhido de confiança era, como official ás ordens de D. 
Manuel II. 

Não valeu o entrave de se encontrará paisana e sem armas, 
em notável anomalia com as circumstancias, desde a madruga- 
da conhecidas. 



16 ARMANDO RIBEIRO 

E' tacto que se quiz depois attenuar esse aspecto pacifista, 
com as allegaçoes demonstrativas de não pertencer Garcia Guer- 
reiro ao estado maior de divisão nem aos serviços do quartel 
general, e apenas exercer o cargo de lente da Escola do Exercito. 

Era porem militar e combatente e isso bastava para que as 
prerogativas especiaes, se derruíssem, mercê das contingên- 
cias graves de uma revolta, em progressivo avança. 

Garcia Guerreiro, não se aflastou todavia do campo onde 
foi chamado, e, mesmo á paisana, se dispôz a partir com a co- 
lumna. 

Recebendo do general Carvalhal, um revolver, o tenente co- 
ronel Guerreiro dava-se por apto a seguir, como substituto do 
chete do estado maior de cavallaria, ausente em Cintra, o major 
João Pereira Bastos. 

Este, talvez de momento não servisse a Carvalhal, por de- 
mocrata convicto e tanto que a Republica, á sua victoria, lhe 
confiaria a chefia do estado maior da i. a divisão militar, coiro 
primeiro degrau para a ascensão á cadeira de ministro da guerra. 

Esses prémios malsinados foram pela falta de acção no mo- 
vimento de Outubro, mas colheria melhores bases de acceita- 
ção se, vistas retropectivas o não indicassem como elemento alto 
junto do almirante Cândido do? Reis, que, por instancias junto 
do então ministro Sebastião Custodio de Sousa Telles, o fizera 
recolocar em Lisboa, apoz uma transferencia motivada no citar 
do seu nome como chete do estado maior na tentativa revolu- 
cionaria de 28 de Janeiro de 1908. 

O general Carvalhal, teve pois por bem escolhido o ciliciai 
ás ordens do rei. 

Resolvido foi a opção por um caminho que, sem passar pela 
Avenida fosse dar á Penitenciaria, para o encontro com o tro- 
ço de Alfredo de Albuquerque, que pelas ordens ali deveria 
estar. 

Achado esse trajecto, ante attentc estudo do mappa de Lis- 
boa, e a postos os que deviam partir, dava-se a ordem de mar- 
cha, cerca das 2 horas da tarde. 

A gg' c gado já então havia sido, mais outro elemento afiecto 
ao regimen; o capitão Alfredo Pedreira Martins de Lima. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 17 

A elle entregue foi o commando de 40 soldados de caval- 
laria 4, que, com o 2. esquadrão da guarda municipal, antes 
confiado ao capitão Júlio César dos Santos Segurado > formavam 
o núcleo enviado ao encontro das forças atacantes da Rotunda. 

De diminuta confiança era o esquadrão de cavallaria 4, no- 
tável já pelo destroço em Alcântara e a célere cavalgada d'aii 
ao Paço da Rainha, sob o commando do coronel Jesuino Gre- 
gório Pessoa de Amorim, fazendo depois o tropel d'ali até ao 
quartel general. 

Assignala-lhe os passos uma manifesta contrariedade á cau- 
sa monarchica ; 

«Cavallaria 4, em Alcântara, ao que me consta, não deu 
um tiro, sendo o regimento posto em debandada pelo elemento 
civil d'esse heróico bairro, que contra elle lançou algumas bom- 
bas; os soldados republicanisados por uma activa propaganda, 
aproveitaram a occasião e tugiram. 

«O tenente Carvalho, com o seu esquadrão, depois de ter 
marchado e contra-marchado, sem nos hostilisar, foi se-me apre- 
sentar á Rotunda na manhã de 5, prestando óptimos serviços 
de exploração, quando foi do alarme do avanço de artilharia 3 
com dois regimentos de infantaria sobre Lisboa » (*) 

O official mencionado era o tenente João Ferreira Nunes de 
Carvalho, promovido depois a capitão para a guarda republica- 
na, sendo-lhe mais tarde ( 1 9 1 3) confiado o commando do 1 ° 
esquadrão d'aquelle corpo militar. 



Para que a inacção o não tolhesse, e para maior solemnida- 
de imprimir á segunda força sahida do quartel general, encor- 
porado foi portanto o resto de cavallaria 4 no regimento de An 
tonio Carvalhal. 

O assaz modesto contingente procurou attingir o seu fim, to 
mando pela calçada de Sant'Anna, Escola do Exercito, Estepha 



(#J Relatório de Machado Santos.— Pagina 141. 
vol. iv — fl. 3 



18 ARMANDO RIBEIRO 



nia, Campo Pequeno, onde registava o travar longiquo de com- 
bate em Sete Rios. !S $ sS S 

Entre Bemfica e Campolide deparava o general Carvalhal,, 
com a força do coronel Altredo de Albuquerque, que, a uma 
nova debandada da infantaria, e á chegada d'esta até á frente 
dos lanceiros } fizera evolução á esquerda, retrocedendo por Sete 
Rios. 

Albuquerque procurou pelo telephone do Jardim Zoológico, 
participar o que se passava ao quartel general. 

Não o poude fazer. 

Voltou ao posto. 

Foi n'essa altura que chegou o general António Carvalhal. 

O commandante de cavailaria 2, informava o enviado do 
quartel general dos críticos resultados do ataque ao acampa- 
mento sedicioso. 

Descreveu o lance que ás baterias trouxera feridos, a deban- 
dada de infantaria 2, com o seu resto semi-desíallecido pela fo- 
me; o meio desamparo do grupo de Queluz. 

Os núcleos revolucionários estavam todavia ali representa- 
dos, virtualmente, pelo official superior recem-vindo. 

E' certo que allegou, — quando já o reivindicado lance lhe 
podia assegurar um rasgado caminho de convenções, — um 
absoluto desconhecimento dos tramas. 

Comtudo, ao natural declinar, pelo general Gorjão, do con- 
vite para permanência no cargo de chefe da divisão, Telles de 
Carvalho era desde logo investido no posto, acto irreflectido se 
o official contado não fosse no numero dos de confiança para a 
causa republicana. 

N'essas horas, semiindecisas, integiar no logar direccio- 
nal das tropaSj um dedicado á realeza que podesse operar uma 
reviravolta em seu favor, constituiria um erro. 

Carvalhal, tinha prestigio como militar e supremacia pela 
alta cathegoria, ornando-lhe também o peito a insígnia de gran» 
de official da ordem militar de S. Bento de Aviz, ordem que 
tinha o rei como presidente do seu alto conselho. 

Mas, a ganha victoria não teve contra-prova apoz a posse 
do novo commandante. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 19 

A manutenção da bandeira verde-rubra içada no quartel 
superior na manhã de 5, exprime, pois, que bem justa loi e a 
bem da democracia, a escolha para chefe da i . a divisão do general 
de brigada Carvalhal. 

Avaliou elle portanto, de relance, a situação e sem que o sue- 
cinto relatório do coronel Alfredo de Albuquerque lhe desse o 
sobresalto d'uma dolorosa surpreza. 

Convinha & retirada para que a Rotunda socegasse e des- 
cuidasse d'esses verdadeiros inimigos. 

Carvalhal, porem, revolucionário se não por anterior adhe- 
são, por convicção própria, não quiz assumira responsabilidade 
do retrocesso e se o commando superior monarchico, sendo -lhe 
pedida infantaria como elemento próprio para o assalto, envia- 
ra cavallaria inútil para o projecto, o general, intimamente de- 
votado á democracia, auxiiiava-a. 

Assim, ordenou sob a apparencia de uma consulta, acceite 
todavia pelos officiaes existentes, o coronel Albuquerque, tenente 
coronel Garcia Guerreiro e capitão Martins de Lima: 

« — Com estes homens já se não pode aqui fazer nada ! 
Vamos embora, não acham? 

E para o coronel Albuquerque: 

— Dê ordem á artilharia para retirar. 

Quizse attribuir essa determinação ao commandante de 
lanceiros, mas este, mais tarde, definia assim a sua atti- 
tude: 

«Por mim não dei a menor indicação sobre a conveniência 
ou inconveniência de retirar a columna. A iniciativa de ficar 
ou abandonar a posição pertencia única e exclusivamente ao ge- 
neral Carvalhal; elle que vinha do quartel general é que, com 
certeza, ahi teria recebido quaesquer ordens, e roais pormeno- 
risadamente devia conhecer a situação geral; é que era o único 
competente para saber o que se devia fazer.» 

E ainda : 

« — De maneira que é cathegorico: a ordem de retirada foi 
dada pelo general Carvalhal? 

t — O que ha de mais cathegorico. Teixeira de Sousa diz; 
«Entretanto resolveu-se, por indicação do coronel Albuquerque, 



20 ARMANDO RIBEIRO 



marchar sobre o largo da Luz.» E' redondamente falso! Não 
fui sequer consultado, sobre esse assumpto.» (*) 

De facto, o general Carvalhal, apenas cita (*•) o coronel Garcia 
Guerreiro, como o consultado e unicamente sobre o retrocesso 
da artilharia: 

«Quando chegamos ao cruzamento da estrada de Bemfica 
com a de Campolide, encontrámos o regimento de lanceiros 2, 
tendo muito perto o coronel Albuquerque, que me communicou 
que infantaria 2, que appoiava a bateria a cavallo, tinha disper- 
sado apoz o rebentamento das primeiras granadas, e que até já 
tinha fugido tudo. Disse me que a bateria se achava completa- 
mente desamparada, isto é, desprovida de qualquer appoio e 
em risco, portanto, de cahir todo o material em poder dos revol- 
tosos. Desde que tomei conhecimento da situação, que era real- 
mente critica para a artilharia, dei immediatamente ordem, de 
accordo com o tenentecoronel Garcia Guerreiro, que desempe- 
nhava as funcçoesdechefedo estado maior, para que a artilharia 
retirasse.» 

Todavia, deve notar-se que, embora o enviado do qusrtel 
general fosse o proponente da ideia, não consta que contrario 
parecer, de longe sequer esboçado tosse por parte dos officiaes 
presentes. 

Eram elles, alem de Carvalhal, o coronel Alfredo de Albu- 
querque, o tenentecoronel António José Garcia Guerreiro e o 
capitão Alfredo Pedreira Martins de Lima. (**♦) 

O tenente Estevão Wanzeller chegou, quando resolvido es- 
tava já a volta para Lisboa, restando simplesmente transmittir 
a intenção ao commandante das forças de Queluz. 

Assumida foi assim uma mutua responsabilidade. 

Mais tarde, apenas, o commandante de lanceiros, -collocaria 
em evidencia, o incidente de o commandante da brigada de 
cavallaria não ter ido verificar a exactidão do relatório verbal 
feito na estrada de Sete Rios 



(#) «Os Cem Dias Funestos» — Por Joaquim Leitão -Pagina 252. 
(**) «O Dia» de 10 de Novembro de 1910. 

(***) Regista a assistência d'este o «Diário dos Vencidos» a paginas 
220. 



A REVOLUÇÃO POHTUGUEZA 



Para que essa lembrança, no próprio momento não tivesse 
surgido, imperou decerto o convencimento, justo, de que o ge- 
neral procedera por fé na feita exposição dos tactos. 

A base disciplinar, fazendo recusar objecções a superiores, 
estava a destazer-se a cada passo ) e vimos (*) já o tenente 
Estevão Wanzeller, oflerecendo um tiro a um capitão de infan- 
taria 2, ante o espectáculo de um evolar do local onde se com- 
batia, ccmo annotaremos o capitão Martins de Lima, expressan- 
do no commando da divisão o voto de clausura para o governo 
onde estava o conselheiro José Nicolau Raposo Botelho, o supe- 
rior supremo, embora de momento, pelo cargo transitório de 
ministro da guerra, mas com a alta patente, também, de gene- 
ral de brigada. 

Por seu turno, do immediatamente inferior, embora nivel- 
lado quasi como chefe, primitivo, da columna, dir-se-hia resal- 
tar um vislumbre de immolação, de indifferente acceitar de to- 
das as contingências, fossem ellas quaes fossem: 

«A iniciativa de ficar ou abandonar a posição pertencia única 
e exclusivamente ao general Carvalhal; elle que vinha do quartel 
general é que, com certeza, ahi teria recebido quaesquer ordens, 
e mais pormenorisadamente devia conhecer a situação geral, é 
que era o único competente para saber o que se devia fazer.» 

Resta como elemento certo, o fatalismo manobrando para 
que tudo bem sorrisse á revolta, como recompensa á sua tena- 
cidade e para castigo a quantos, sob o coroado regimen, d'elle 
tanto malsinavam. 

Por fallado voto de uns e silenciosa acquiescencia de outros 
fixou-se a retirada. 

Ao capitão Martins de Lima, dava o coronel Albuquerque 
a missão de transmittir a Paiva Couceiro o que se havia resol- 
vido, mas chegando, o tenente Estevão Wanzeller, evocava a 
sua qualidade de subordinado regimental do coronel, para se 
desempenhar do encargo. 

Não quiz Martins de Lima deixar de lhe fazer companhia 
até ao local perigoso onde as granadas explodiam. 



(*) Vide pagina 900 do3.« volume d'esta obra. 



22 ARMANDO RIBEIRO 



Acceite, ainda com elles seguiu, por vontade própria, o te- 
nente Silveira Ramos, egualmente intrépido. 

Foram os três oâficiaes, pois, ao alto onde Paiva Couceiro se 
encontrava e onde lhe participaram a resolução de cessar togo. 

Entretanto e julgando útil evitar explicações, o pela revolu- 
ção escolhido commandante da i. a divisão militar, mettía espo- 
ras ao cavallo e endireitava para a Luz, como estipulado ponto 
para bivaque, sob o aspecto de que oflerecia condições de segu- 
rança para deteza e facilidade de communicações telephoni- 
cas. 

O regresso tez-se abrindo caminho o grupo de cavaliaria 4, 
seguindo-se-lhe a municipal e depois os destroços de infanta- 
ria 2. 

No ca^ipo ficavam os mortos, para não pesar a marcha. 

Ao ver a retirada que na Rotunda se assignalou ser pelas 4 
horas da tarde, um popular cheio de enthusiasmo poz-se a dan- 
çar no campo desabrigado do acampamento. 

Fora de tempo íoi essa alegria. 

Uma bala o fazia cahir, para na") mais se erguer. 

Foi esse o único morto da Rotunda, no inicial combate con- 
tra as baterias e deuse o caso ccmo desespero de uma da? 
dedicadas praças de infantaria, pela retirada apoz tanto ei- 
forço. 

Mas, para compensação á trágica desforra e para que a to- 
dos os rebeldes fosse o echo d'essa ganha victoria, pois isso si- 
gnificava a retirada da tropa do alto da Penitenciaria, em- 
quanto avisos pessoaes iam á Avenida do animado successo, os 
telephones de Bemfica, postos ao serviço da sedição, á imprensa 
affecta, como a «Capital», levavam a noticia, pouco depois das 4 
horas da tarde. 

Reproduzida era assim, com antecedentes pormenores de 
haverem as baterias tido 3o baixas, retirando sem munições e 
com algumas peças encravadas: 

«Pela tarde travou-se rijo combate entre artilharia í e in- 
fantaria 16, os dois regimentos que adheriram ao movimento, 
e infantaria 2. Este ficou completamente destroçado, desappare- 
cendo os officiaes. Dos soldados sobreviventes uns lugiram, e ou- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 23 

tros completamente desorientados, d-clararam que iam juntar- 
se a artilharia i. 

«Ao hospital do Rego foram transportados 4 soldados mor- 
tos, e 8 feridos que ali receberam curativo. 

«No C8mpo ficaram numerosos mortos. 

Por seu turno, a phantasia, auxiliando ainda mais o quadro 
de falsas cores, do numérico morticínio, citava ainda que as for- 
ças de lanceiros 2 e infantaria 2, se encontravam em Sete Rios 
não podendo seguir para Lisboa, ante as barricadas formidáveis 
erguidas pelos revoltosos. 

Para adormecimento dos entravantes á marcha da insurrei- 
ção, ia, por seu turno, o falso boato de que «a artilharia revolta- 
da, deixava a Rotunda, recuando até ao Campo Grande, onde 
soffrera desaire por 400 praças da guarda fiscal.» 

Esse cahos traria, como lógico resultado, a perda do exacto 
conhecimento da situação. 



A esse tempo já a columna seguia sem outros impedimen- 
tos, além do seu desorganisado aspecto. 

A marcha, desnorteada, deu em resultado uma ligeira di- 
vergência do caminho a seguir para o largo da Luz. 

O coronel Alfredo de Albuquerque, tomava com as baterias 
e o troço de infantaria, a linha de marcha até á estação do ca- 
minho de ferro de Bemfica, apoz o que se reconhecia a falta do 
general Carvalhal e da cavallaria. 

Um reconhecimento assignalava porém que esse núcleo, en- 
veredara pela Azinhaga da Fonte. 

De facto, o enviado do quartel general, fora até ao jardim 
Zoológico, d'onde, a conselho do coronel Garcia Guerreiro, fez 
telephonar para o commando da divisão, participando o regres- 
so e pedindolhe fossem transmittidas ordens par3 a Luz. 

N'um novo equivoco, o chefe do estado maior, coronel 
José Joaquim de Castro, regista ter «recebido unicamente 



24 ARMANDO RIBEIRO 



do Collegio Militar noticia da retirada da bateria para Lis- 
boa.» (*) 

Afirma (**) porem o local do primeiro aviso, o general 
Carvalhal. 

«A artilharia retirou e seguimos pela estrada de Bemfica 
em direcção á Luz. Quando chegámos á altura do Jardim Zoo- 
lógico, lembrou o coronel Garcia Guerreiro que devia haver ali 
telephone, dizendo-lhe eu então que tentasse participar ao ge- 
neral de divisão as circumstancias em que nos encontrávamos 
e que aguardávamos ordens da Luz, para onde marchávamos e 
que poderiamos receber ordens pelo telephone do Collegio Mi- 
litar.» 

A verdadeira tensão espiritual do momento contribuiu tal- 
vez para que se julgasse a palestra travada já pela linha do Col- 
legio Militar, tanto mais que a resposta foi immediata. 

O coronel José Joaquim de Castro, dava como preterida a 
entrada breve em Lisboa, com trajecto por Arroyos, para o Ro- 
cio. 

Carvalhal, propunha retroceder por S. Sebastião da Pe- 
dreira. 

Do commando superior davam como imprudente a passa- 
gem perto do baluarte em revolta, a Rotunda, assentandose 
assim no primitivo plano. O general, com a cavallaria, endireitou 
pois ao largo da Luz onde estourava em seguida uma granada 
despedida do Alto da Avenida. 

Fora indicado o local por alguns populares sabedores da 
marcha da columna, mas nenhum prejuizo fez. 

Em avançada havia marchado o capitão Martins de Li- 
ma. 

Deu-se então um incidente. 

Emquanto os soldados devoravam uma pequena Facão de 
pão, os officiaes mantiveram o seu jejum forçado, que Martins 
de Lima procurou fazer esquecer numa visita ao Collegio Mili- 
tar, onde achava inactivo, sem explicação plausivel, o alferes do 



(*) Notas ao «Diário dos Vencidos», pagina 326. 
(##) «O Dia» de 10 de Novembro de 19lO. 



A REVOLUÇÃO PORTUOUEZA 25 

2.° esquadrão da guarda municipal, João Justino de Moraes 
Teixeira, que do superior escutava algumas phrases disciplinares. 

Dirigia-selhe o capitão inquirindo d'elle as razões do tacto 
anormal, e obtinha como resposta consistirem na dispersão da 
respectiva força, a do capitão Segurado. 

Vinha elle todavia com Martins de Lima e este, fazia desde 
logo integrar o alferes no seu posto. 

Narrado appareceu assim (♦) o incidente pelo capitão Martins 
de Lima : 

«Entrando no largo da Luz, vi, entre os officiaes que esta- 
vam á porta do Coilegio Militar, um que não tinha distinctivos 
de patente nem quaesquer outros. Pergunteilhe se era official, 
a que unidade pertencia e como é que se encontrava ali. 

«Respondeu*me com voz sumida, que era alferes, pertencia 
a um esquadrão da guarda municipal, que tinha sido dispersa 
e quasi anniquilada. Então espere ahi um boccadinho, disse-lhe 
eu. D'ahi a pouco, desembocava no Largo da Luz, e eu pergun- 
tei ao dito alferes: «Conhece-o?» «Conheço, conheço!. . . » res- 
pondeu muito encolhido. E assim que o commandante do es- 
quadrão se approximou, perguntei-lhe se o esquadrão tinha sof- 
frido baixas. Gomo me respondesse negativamente, voltei me 
para o tal official e intimei-o a ir immediatamente equipar-se, 
tirar o seu cavailo da cavallariça do Coilegio Militar e tomar o 
seu logar no esquadrão, avisando o de que o fuzilaria se elle 
pensasse em fugir outra vez. Esse valente official estava escon- 
dido no Coilegio Militar desde pela manhã. E outros, e ou- 
tros! ...» 

Ainda Martins de Lima, reerguendo o caso, diria, (**) em 
carta datada de S. Thomé, em 15 de Dezembro de io,loe diri- 
gida ao «Correio da Manhã»: (8 de Janeiro de ig í i): 

«Sr. Joaquim Leitão 
«Acabo de ler no «Correio da Manhã» a nossa entrevista 
ácêrca da revolução. 



(*) Diário dos Vencidos por Joaquim Leitão.=Pagina 221. 
(**) «Diário dos Vencidos» por Joaquim Leitão. — Documentos a pagi- 
nas 331. 

▼ol. iv — fl. 4 



ARMANDO RIBEIRO 

«O que ali está escripto é como V. diz, a reproducção tex- 
tual das minhas palavras, mas ha umas supressões que eu de- 
sejo sejam reparadas pela publicação d'esta carta, afim de evitar 
suspeitas immerecidas e para que o paiz conheça os nomes de 
cidadãos com que não pode contar em circumstancia alguma. 

aO alferes do 2. esquadrão da Guarda Municipal que eu 
encontrei «homisiado» no Collegio Militar e que pretendeu im- 
pudicamente explicar-me a sua presença ali com um tremendo 
e pavoroso carapetão, chama-se João Justino Moraes Teixeira e 
tem 27 annos. 

«Um aspirante de lanceiros 2 que quando lhe cheirou a 
pólvora, ou até mesmo antes de lhe cheirar, abandonou o seu 
regimento e n'um bello galope de corrida recolheu prudente- 
mente ao quartel da sua unidade, chama-se Iilydio Marinho 
Falcão, tem 26 annos e foi injustamente esquecido por V. 

aO seu a seu dono sr. Leitão, não tiremos a gloria a esses 
dois mancebos, que tudo leva a crer terão longos annos de vi- 
da, e não me prive V. do prazer de apresental-os aos officíaes 
da arma a que eu e elles pertencemos, para que lhes liguem a 
consideração a que teem direito, para que de futuro sejam em- 
pregados no serviço de communicaçÕes rápidas para longe do 
perigo (especialidade que não abunda em o nosso exercito) e fi- 
nalmente para que mais tarde não consigam fazer-se passar por 
republicanos «de sempre», que na primeira opportunidade se 
passaram para as aleiras revolucionarias onde praticaram pro- 
dígios de heroicidade.» 

Por seu turno, o alvejado esclareceu (♦) assim o incidente e 
sem que conhecida refutação tivesse: 

«Elvas, 9 de Janeiro de 1 9 1 1. - — Sr. Joaquim Leitão. — 
Tendo lido no seu jornal d'hontem, sob a designação «Diário 
dos Vencidos», referencias ao meu nome, rogo a V. Ex. a se di- 
gne publicar esta minha carta, que é a reproducção dos factos 
comigo passados, a que as mesmas alludem. 

«O meu esquadrão sahiu do quartel, afim de ir guardar a 
residência do sr. Presidente do conselho de ministros, no Largo 



(#) Livro citado.— Documentos a paginas 343. 



A. REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 27 

de S. Sebastião da Pedreira, onde se conservou até ás 1 2 horas 
e meia do dia 4 de Outubro. 

1 A esta hora mandou o mesmo ex. m0 sr. fornecer ás praças 
pão e queijo, tendo previamente o commandante do esquadrão 
mandado apear os officiaes e algumas praças, indo nós para jun- 
to da porta da residência e ficando os cavallos junto é egreja. 

«Toda a noite e manhã soou ali a artilharia, porém a esta 
hora, houve uma detonação mais próxima, da qual resultou a 
maioria dos cavallos, já dos montados, já dos outros, dispersa- 
rem a galope por uma travessa, tomando o meu a direcção do 
hospital do Rego, indo no seu encalço eu a pé e um soldado 
a cavallo, tendo sido este soldado quem m'o apanhou. Montei e 
toram baldados os exforços para me juntar ao esquadrão, pois 
não consegui descobrir a direcção que tomou, nem o local em 
que se reformou, sabendo apenas que retirou do local em que 
estava. 

«N'estas circumstancias, ignorando o que se estava passan- 
do e não achando prudente metter-me á aventura com o solda- 
do que me acompanhava, em busca do esquadrão, resolvi ir ao 
Collegio Militar que sabia possuir telephone, para por este meio 
communicar ao Quartel do Carmo o que se passava e saber on- 
de me deveria apresentar ou juntar ao esquadrão. Porém, che- 
gado ali, dirigindo-me ao telephone não consegui o meu propó- 
sito, por este ter apenas ligação por artilharia n.° i,que respon- 
dendo não me deu a communicação pedida. 

«N'esta occasião voltei para junto d'alguns officiaes, pen- 
sando qual a resolução a tomar, vendo então por uma janella o 
snr. capitão Martins de Lima junto ao portão do Collegio. Sahi- 
mos ao pateo e dirigimo-nos a elle, sendo eu o segundo a tal- 
larlhe e trocando-se então, diante do ex. mo Sub-Director as se- 
guintes palavras: «Capitão, dá-me noticias do meu esquadrão, 
que dispersou?. . . » atalhou o snr. capitão, interrompendo-me : 
«o seu esquadrão venho-o eu commandando;» retorqui : «o do 
snr. capitão Segurado? respondeu: «sim, vem ahi.» «Então vou 
montar a cavallo.» Fui dentro do Collegio buscar a pistola e o 
capacete, mandaram-me buscar o cavallo, montei, juntei-me ao 
esquadrão e com elle estive até á proclamação da republica sem 



ARMANDO RIBEIRO 



mais ter visto o snr. capitão Martins de Lima. Sobre todos os 
outros factos, dirão os officiaes e praças da minha unidade, pois 
cumpri escrupulosamente o meu dever e todos os serviços de 
que íui encarregado. Creia v. ex. a que lhe sou muito grato pela 
publicação d*esta e sou com toda a consideração de v. ex.* — 
João Justino de Moraes Teixeira — alferes de cav.V 

Todavia, correlações se notam entre os casos citados pelo ca- 
pitão Martins de Lima e algumas phrases do alferes Moraes 
Teixeira. 

Assim, vemos este official sem capacete e sem pistola de 
ordenança, em período de patente revolução. 

Por seu turno, a força do capitão Júlio César dos Santos Se- 
gurado, sobresaltada apenas ao estoirar das três granadas perto 
da casa do conselheiro Teixeira de Sousa, só d'ali retirou quan- 
do o chefe do governo já se encontrava no quartel general, vin- 
do para o Rocio. 

Nenhuma baixa teee até esse instante, e apenas posteriormente 
um se assignala, e em contrario mesmo á estatistica do conse- 
lheiro Teixeira de Sousa. (*) que aponta o 2. esquadrão como 
illeso. 

Não é bem assim, pois attingído foi o i.° cabo 32, José Vi- 
ctorino Leitão, (-•) que recolheu á i, a enfermaria do hospital do 
Rego, d'onde transitou para o hospital de S. José. 

Desculpáveis são todavia essas omissões por absoluta im- 
possibilidade de se formar um cadastro completo, mercê de 
circumstancias varias, desde os erros do registo até aos enterra- 
mentos clandestinos. 

E* certo que ainda boatos trágicos auxiliaram a presum- 
pçao do alteres, vindo ellesá imprensa, (***) no dia seguinte, sob 
cathegorica fórtna : 

«A's 3 e meia da tarde bombardeou-se a casa do presidente 
do conselho. Um capitão da guarda municipal, que commanda- 



(*) Para a Historia da Revolução —Pagina 450 

(**) Diário de Noticias de 5 de outubro de 1910.=Celestino Steffanina, 
a pagioa 241 do seu livro Subsídios para a Hiftoria da Revolução de 5 de 
outubro de 1910, aponta o como ferido por granada em Sete Rios. 

(***) «O Século» de 5 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 29 

va o pelotão de guarda á casa do sr. Teixeira de Sousa, ao fazer 
o reconhecimento á Rotunda da Avenida, foi morto pelos revol- 
tosos.» 

Ulibados d'essa morte, a do capitão Júlio César dos Santos 
Segurado, de lacto estão os insurrectos. 

Fez elle parte da columna do general Carvalhal que íoi até aos 
altos da Penitenciaria e assignala-o, o capitão Martins de Lima, 
a pagina 221 do livro de Joaquim Leitão, Diart o dos Vencidos. 

Quanto ás communicaçÕes telephonicas para verídico infor- 
me dos successos, não eram difficeis de obter, embora se note que 
se o coronel Alfredo de Albuquerque e o alteres Teixeira as afir- 
mam impossíveis, embaraços não teve o general Carvalhal, tro- 
cando impressões com o commando de divisão e este com o seu 
delegado aos altos da Penitenciaria* 

Foi assim pelo telephone do Jardim Zoológico, local donde 
o commandante de lanceiros não conseguiu fallar para o quar- 
tel general, que o tenente-coronel Garcia Guerreiro obteve do 
mesmo quartel a ordem de regresso a Lisboa. 

Não impende á Historia a obrigatoriedade de formular opi- 
nião, quando a própria a extranheza dos factos, se incumbe de 
lhe estabelecer o definitivo aspecto. 

Se o pleonasmo é o escusado na phraseologia, o querer que 
mais forte luz incida sobre successos que de si luminoso rasto 
espalham, equivaleria a formar o vácuo onde terreno firme existe 
para conclusões irrefutáveis. 

O alferes João Justino de Moraes Teixeira reoccupou pois 
o seu posto no 2. esquadrão da guarda municipal, recemche- 
gado ao largo da Luz. 

Ali se eôectuára a juncçao da força do general António 
Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho, com as do coronel 
Alfredo de Albuquerque. 

Já este fora entretanto prevenido pelo tenente do seu regi- 
mento, Estevão Wanzeiler, da informação que recebera, pelo 
coronel de engenharia António Luiz Theophilo de Araújo Wad- 
dington, de haver D. Manuel II seguido para a villa de Mafra, 
com modesto grupo de dignitários : 



ARMANDO RIBEIRO 



— «Meu coronel ! acabo de me avistar com o António Wad- 
dington, que me disse para communicar a V. Ex. a que ficasse 
descançado com respeito a Sua Magestade El Rei por isso que 
já seguiuu, sem novidade, em automóvel, em direcção a Ma- 
fra para onde elle e o Vellez Caldeira iam também.» 

A columna não o soube. 

Julgou-se útil manter o segredo, visto o acto real poder in- 
duzir a um desfallecimento das praças. 

Estas, já a contas estavam com o pão existente no Collegio 
Militar e em algumas padarias de Bemfica e em tão pequena 
quantidade que os officiaes mantiveram o forçado jejum. 

Mais aptos depois para seguir a marcha fizeram caminho, 
por Telheiras, até ao Campo Grande. 

Deparava-se ali, inerme, uma companhia de infantaria da 
guarda fiscal. 

O então chefe da columna, sem sequer inquirir das causas 
do seu estacionamento ali e até pesquisar se pela monarchia era 
ou contra ella, proseguiu a marcha, não cuidando em detenças. 

Serviriam comtudo para o encontro do pelotão da guarda 
municipal do commando do tenente Raul de Menezes, subordi- 
nado do capitão Prego, que, tendo deixado, por dispensa, o rei 
D. Manuel na estrada da Pimenteira, resolveu ir a Monsanto 
receber ordens. * 

Alcançando com risco, a serra, era mandado ir á Luz e d*ah 
por indicação ao Campo Crande para encontro com as outras 
forças mas não as achando, optava pela retirada sob o quar- 
tel general, detendose no caminho, no quartel do Cabeço de 
Bola, para dar agua e ração aos cavallos. 

A esse tempo já as tropas deixando apoz si o Campo Grande, 
tomavam por Arroyos, largo do Leão, Intendente, Rua Nova da 
Palma, e Travessa de S. Domingos, até ao Rocio, onde ingres- 
savam ás 6 horas e meia da tarde ? emquanto as poucas praças 
de infantaria 2, sob o commando do coronel António Augusto 
de Sousa Bessa, dando intrincada volta, iam pela Serra de 
Monsanto com destino ao quartel de infantaria 1, em Belém, 
quando o ponto de convergência devia de ser a praça de D. Pe- 
dro. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 31 



O general Carvalhal exporia assim n'uma entrevista as cau- 
sas para o acto allegadas: 

— «E infantaria 2, ia também tazendo parte da columna? 

— «Estavam algumas praças dispersas, que o coronel Bes- 
sa reuniu, seguindo pela Serra de Monsanto, em direcção ao 
quartel de infantaria I, devido á impossibilidade que havia em 
nos acompanhar.» 

Essa dita impossibilidade, era melhor explicada por Macha- 
do Santos, dizendo que «parte do regimento, completamente 
desmoralisada, foi alojar-se no quartel de infantaria 1, em Be- 
lém.» (*) 

Era o que restava do mesmo assim rasoavel numero apre- 
sentado para entrave á revolta; 3oo praças, segundo o coro- 
nel Alfredo Albuquerque, e 265 segundo o presidente do con- 
selho, António Teixeira de Sousa. 

Deu se portanto essa divisão de forças. 

Em qualquer outra cirrumstancia não teria os foros de 
banalidade com que foi acatada. 

Tido como fiel o resto do dois de infantaria, cumpria-lhe 
seguir a marcha do núcleo geral; considerado suspeito, devia 
ser-lhe aggregado, como meio de evitar a sua juncção aos insur- 
rectos e como necessidade de a vigilância o submetter. 

A recusa de acompanhamento da tropa de regresso a Lis- 
boa, seria incomprehensivel, desde que havia ali um superior, 
um official general, com poderes ainda do commando da divi- 
são. 

Talvez até necessidade tivesse este das praças de infantaria 
para qualquer plano e ante isto apenas pelo quartel supremo 
se obteria a oídem de regresso á sede regimental, de recolha 
em qualquer outro aquartellamento ou de união os núcleos mais 
fortes para investida ou simples defesa. 

Mas, longe de tudo se apresentar aos dirigentes da colum- 
na, sem reparar passou esse fraccionamento, a caminhada da 
infantaria para Belém, quando melhor passagem tinha para o 
Rocio, e com mais seguro appoio. 



(*) Relatório de Machado Santos=Pagina 135. 



32 



ARMANDO RIBEIRO 



Era sempre uma vontade invisível, a orientar acontecimen- 
tos, evidenciando o inútil de canceiras em prol da causa entre- 
gue a descuidados causidicos, e de pouco affan, não tanto em 
desapego do pleito, mas por eivados de sonhos de rosas que 
nem o tempo de Molherbc duraram. 

Desfolharamnas os dedos gélidos da realidade fatídica. 








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XXII 



O ataque das baterias 

No quartel general — Lance de desorientação — A' mercê de boatos 
— >\ confirmação da retirada — Falsas novas — Do Rocio ao 
Quartel do Carmo — Nocturnas prevenções. 



columna ao commando do general António 
Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho, che- 
gava, perto da noite, ao largo de S. Domingo», 
para em relatório summario perturbar ainda 
mais o scenario desnorteante observado no an- 
tigo palácio dos condes de Almada. 

Nem uma única vez o quartel general dei- 
xou o aspecto singular de um enervamento cm guerreira ma- 
téria. 

Os incessantes boatos de revolta próxima, as contínuas pre- 
venções, justificadas algumas com os abortados movimentos, os 
avisos do extrangeiro, e a semi-descoberta da engrenagem das 
sociedades secretas desvendando o fim de uma implantação de- 
mocrática, não haviam íeito com que á base rudimentar de se- 
cretaria se seguisse a perfeita technia de combate. 

Assim, a braços com simples elementos de forma, não se 
podiam obter concretisaç5es de repressão. Era o cahos a for- 
mar se a cada esboço de desejo de remediar passados erros. 
A visão, o todo hypothetico, cederam o logar a um conjuncto 

VOL- IV — FL. & 




34 AKMANDO RIBEIRO 



uniforme, de realidades, em maioria oppostas ao estudado pre- 
viscionismo. 

O plano destruidor da sedição falhara e tarde era para o re- 
construir sob as bases solidas das circumstancias apresentadas. 

Extranho espectáculo esse ! 

Registando se boatos de revolta quasi todos os dias, re- 
pletos de planos repressores os archivos militares, n'essa hora 
suprema e dolorosa, n'essa questão de vida ou de morte para a 
realeza e seus raros deflensores, os officiaes, deixavam se vencer 
pelo terror e se as ordens mal cuidadas iam servir os revoltosos, 
asattitudes desorientadas, desmundavam os próprios que alguma 
cousa de útil podiam fazer. 

O quartel general apresentou o aspecto deficiente de uma 
caserna de soldados inexperientes onde a maioria dos membros 
do governo, como se tacitamente manobrassem com os rebelíio- 
narios, conduziam ao desanimo e auxiliavam o derruir de to 
das as defesas. 

O velho governador de Timor, coronel José Celestino da 
Silva, já bradara, irado, por um commando. 

Mas quem sabia, n'esse período desastroso, reunir elemen- 
tos de confiança para esse fim ? 

Celestino da Silva, foi ali um dedicado quando podia ter 
sido um descontente irredutível 

Achámol-o (*) dois annos antes, em julho de 1908, em 
aberta hostilidade contra uma determinação ministerial. 

O coronel José Celestino da Silva, em julho de 1908, 
desprestigiado pela exoneração do cargo de governador de Ti- 
mor, que exerceu durante 15 annos, e substituído pelo heroe 
do Cuamato, capitão Eduardo Marques, recusára-se, a fazer en- 
trega do posto. 

Determinou-se até a sahida de Moçambique para ali, de 
uma força de landins, resultando d'isso a entrega do governo, 
interinamente, ao capitão de artilharia Jayme Augusto Vieira 
da Rocha. (*) 

(*) Citado o assumpto, a paginas 259 da nossa obra O começo de um rei- 
nado. 

(*) Em agosto de 1013, ainda capitão foi nomeado sub-director da fa- 
brica de pólvora negra em Barcarena. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 35 

A questão erguida no parlamento pelo deputado Moreira de 
Almeida, era desmentida pelo ministro da marinhaj conselheiro 
Augusto Vidal de Castello Barreto e Noronha, (*) não obstante 
o que uma syndicancia loí determinada. 

Celestino da Silva, não era nem podia ser suspeito de re- 
publicano. 

Bastos ataques d'elles soffrera, com base na lorma ríspida 
com que mantivera entre terres no degredo de Timor, alguns 
dos democratas para ali enviados em virtude de haverem cahi* 
do na alçada da lei de 1 3 de íevereiro de 1 896. 

Teve pois a recusa de um commando, e de um notável posto 
de combate esse vulto de devotado á monarrhia de Portugal, e 
que poucas mezes na terra se conservou, á sua queda. (**) 

Outros, sorrindo, simulavam indecisões, mas para dar alen- 
tos aos combatentes pela republica ? folgando com todo esse alar- 
me teito, exultando com a gigantesca contorversia de boatos, 
fazendo alastrar o desasocego para que o terror completasse a obra 
que as balas haviam iniciado, pelo lançar ao gélido abraço da 
morte dos dispostos á defesa realenga. 

Novos quadros, flagrantes, vividos, íoram surgindo, a que- 
rer evidenciar o todo, nada banal d'essa tarde de revolta no 
quartel-arbitro dos embaraços a oppôr á consummação de um 
ataque ao regimen dynastico. 

A' paisana, o heroe das campanhas d'Africa, e dias antes 
exonerado de commandante da 2 a brigada de infantaria, gene- 
ral José Júlio de Sousa Machado, manteve-se na inactividade, 
sob invocação de se encontrar em commissao de serviço, cousa 
alguma tendo com os serviços de guerra : 

Na sua relação — analyse dos actos de diversos officiaes, assim 
o affirma (***) o coronel Alfredo de Albuquerque: 

«2. a brigada — commandante, António Júlio de Sousa Ma- 
chado. Situação : — Esteve no Quartel General á paisana. Sua 
acção: 



(*) Falleceu a 30 de março de 1912. 

{** > Falleceu a 10 de março de 1911. 

(+**) Os Cem Dias Funestes, por Joaquim Leitão Pagina c'òõ. 



36 ARMANDO RIBEIRO 



«Se se perguntava o motivo porque o general Sousa Ma- 
chado não saía da inacção em que se encontrava para tomar 
um commando, respondia-se que elle estava em uma commis- 
são de serviço e por isso não devia ser utilizado.» 

Era certa a arguição, reproduzida ainda do volume II pagi- 
na 456 da obra «Para a Historia da Revoluçao> de auctoria do 
conselheiro Teixeira de Sousa. 

Apenas um erro houve: o da attribuição do commando da 2 a 
brigada de infantaria, e que, apontado pelo general Sousa Ma- 
chado, teve o seguinte remediar de indicações : (*) 

«Agradeço muito a v. a fineza de publicar esta copia de 
uma carta que n*esta data remetto ao meu illustre e antigo ca- 
marada ex. mo sr. António Júlio de Sousa Machado: 

«Paris, 11, rue François Ponsard, 2 de dezembro de I9I2. 

«Ex. mo sr. António Júlio de Sousa Machado — Accuso a 
attenciosa carta de v. ex. a , de 27 do passado novembro, em que 
v. ex. a notou um erro de facto, a seu respeito, na entrevista que 
sobre a parte militar de 5 de outubro concedi ao ex. mo sr. Joa- 
quim Leitão para o seu livro eOs Cem Dias Funestos». 

«Tem v. ex. a razão: eu dou v. ex. a como commandante da 
2. a brigada e v. ex. a foi exonerado do commando da referida 
brigada pela Ordem do Exercito n.° 23 de 26 de setembro de 
1910, isto é, oito dias antes da revolução. 

«Reconheço a inexactidão, mas v. ex. a acreditará que eu bó 
agora, pela carta de v. ex. a , sei que a 2. a brigada não estava 
sob o seu commando á data do movimento revolucionário de 
outubro de 19 IO. 

«Embora v. ex. a m'o não peça e haja tido a correcção de o 
não fazer, eu vou n'esta mesma data rectificar este involuntário 
erro de facto, pedindo licença a v. ex. a para communicar esta 
mesma carta á imprensa, 

«Dentro d'uma contrariedade d'estas, a única consolação é 
accusarmos-nos nós mesmo e rectificarmos-nos nós mesmos. 

«Incapaz de retirar uma verdade, sou egualmente incapaz de 
teimar n'um erro, fosse elle affectar um desconhecido ou um an- 



(*) O Dia de 10 de Dezembro de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 37 

antigo illustre camarada como v. ex. 8 . — De v. ex. a , antigo ca- 
marada, att.° e ven. ^ — Alfredo de Albuquerque.» 

Mantida e evidenciada apparece assim essa nova recusa de 
entrega do commando a um official, sobre quem não podiam 
pesar suspeitas de adverso ao regimen. 

Por seu turno, excluídas estavam egualmente quaesquer 
duvidas acerca da boa execução do mandato que porventura 
lhe fosse confiada. 

Certo é porém que o general Sousa Machado, não teve lo- 
gar de ataque no desenrolado drama da outubrina revolução. 

Não entrou na attitude o receio. 

Os seus sessenta e um annos (*) não haviam chegado sem 
conhecimento das luctas em Africa, 

Fizera parte da expedição a Moçambique e o gentio de Coo- 
lella, ferindo o no braço esquerdo, deu-lhe o baptismo de san- 
gue em combate. 

Segurando o braço com a mão direita, se manteve no seu 
posto, dando as vozes de commando á força de caçadores 3. 

Depois rasgara ainda caminho até Manjacaze, envolvendo- 
se também na aureola gloriosa que coroou os «officiaes de 
Aírica» 

Era de familia essa firmeza em guerra, e o pae, Thimotheo 
de Sousa Machado, notável se tornara egualmente, como cade- 
te dos chamados Dragões de Chaves nas campanhas da península. 

Como fé monarchica, deveria erguer se-lhe no espírito, a re- 
cordação d'essa scena predecessora da partida para os sertões 
inhospitos, em que D. Carlos I, brindando o então capitão Sou- 
sa Machado, com uma rica espingarda, pronunciou a phrase his- 
tórica: 

— «Acceitaa, e estou certo que com ella honrarás o teu 
nome e o nome do teu paiz!» 

E a victoria engrinaldou o distinguido pelo assassinado de 
fevereiro de 1908, authenticando-lhe a prophecia. 

O general Sousa Machado, como o coronel Celestino da 
Silva, não teve assim ensejo de, n'essas primeiras horas de 



(*) Nasceu em Vidago em 1849. 



ARMANDO KIBEIKO 

sedição, se esquivar á mephitica atmosphera do commando su- 
perior, traçando em deíeza do filho de D. Carlos I, uma pagina 
grande da historia dos devotados á realeza. 

Consistiria na certeira pontaria feita, em pro! de D. Ma- 
nuel II, com a arma histórica, que o pae lhe entregara, como se 
entrevendo n'um esboço telepathico, o desespero do seu des- 
cendente, a braços apenas com mediocre numero de dedicados, 
lhe quizesse dadivar uma arma para deíeza do filho, á lem- 
brança do seu dador. . . 

Mas, como agir, como evocar lances gratos, ao ••edemoinho 
nas revoltas de uma desorientação?!. . . 



O serviço de iníormaçÕes canalisava se para o quartel gene* 
ral pelas linhas revoltadas. 

D'ahi as novas lalsas, ou traduzindo optimismos para que 
os júbilos fizessem suspender ideias repressivas ou exalçando 
feitos sediciosos para que o temor os fizesse recuar. 

O acto do combate das baterias teve repercuçoes varias. 

Dada artilharia 1 como tendo tido o castigo do seu arrojo, 
attribuiu-selhe uma retirada sobre o Campo Grande, onde 
novo desaire sofírera, graças á intervenção de 400 praças da 
guarda fiscal. 

De facto, a guarda ali se encontrava, mas sem o proclamado 
etlectivo e ainda n'uma espectativa manifesta, de auxilio aos 
reivindicadores da republica em Portugal. 

N'aquelle ponto a achou o general Carvalhal, que nem 
de leve se recordou de inquirir das suas tuncçÕes ali. 

Quanto á artilharia operando a retirada sobre o Campo, 
era não a da Rotunda, mas a de Queluz, forçada a uma intran- 
sigência, quando até aos lances últimos disposta estava. 

Recebendo a falsa noticia, o general Manuel Raphael Gor- 
jao, corria a trasmittil-a ao presidente do ministério, annuncian- 
do lhe, com parabéns, que o acampamento da Rotunda fora 
dominado e ainda o avanço das íorças victoriosas pela Avenida. 



A KEVOLUÇAO PORTUGUEZA â& 

A entrada do dr. Henrique de Mello Archer e Silva, de re- 
gresso de acompanhar a casa de um tio a esposa do chete do go- 
verno, tirou essas illusorias esperanças. 

Desmentindo-as, ante o pasmo do commandante da divisão, 
e com o testemunho de que pouco antes perto passara, havendo 
notado externamente o contentamento de quem vencedor se re- 
conhecia, — derrubou esse inicio de extemporânea alegria. 

Todavia, não deixaram de se collocar de reserva as más 
noticias, sendo as julgadas boas logo communicadas pelo con- 
selheiro Teixeira de Sousa ao director geral dos correios e tele- 
graphos, conselheiro Altredc Pereira e ao governador do Banco 
de Portugal, conselheiro José Adolpho de Mello e Sousa. 

Antes de reconhecido o erro, mas num rebate de alma do 
dr. Archer e Silva era sollicitado o encargo alto de, para con- 
gregação de novas forças, as das Necessidades, ir ao paço como 
delegado do governo. 

Ali deveria declinar o voto d'este, para que D. Manuel II 
abandonasse o palácio trocando o por Queluz ou Mafra, mas 
sem que ao monarcha se vislumbrassem perigos de momento. 

Indicado era ao deputado, para expor no paço, o itenerario 
da partida real, pelo Arco do Carvalhão, com escolta de caval- 
laria, e ahi por seguro caminho, para o ponto que melhor se 
lhe afligurasse. 

O dr. Archer e Silva, á dupla citação do locai, quiz saber 
opiniões no caso que D. Manuel II quizesse ir para o Porto. 

O chefe do ministério, n'um lampejo rápido de desorienta- 
do, teve a recusa terminante, a pretexto de que isso representa- 
va a guerra civil, como se outra cousa não fosse a lucta travada 
nas ruas de Lisboa. 

Não deixou de ter desmentido essa phase histórica do quar- 
tel general, repudiada pelo conselheiro Teixeira de Sousa como 
sem bases. 

Certo é porém que ella foi mantida (*) e ainda com o por- 
menor de haver sido secundada a pergunta do dr. Archer e 



(*) Joaquim Leitão— «Diário dcs Veucidoe», paginas l95-198.=Vidé o 
3.- volume d'esta nossa obra, pagina 678, onde largamente versado está o 



assumpto. 



40 ARMANDO RIBEIRO 



Silva cem proposta «por um homem de coragem comprovadís- 
sima :» 

— «Se quer que El Rei vá para o Porto, eu comprometto- 
me a pôl o lá, sem perigo algum, mas ha-de ir sósinho commi- 
go, n'um automóvel.» 

Attribuida fora a intenção, mas não provada devidamente, 
ao conselheiro José de Azevedo, registando-se todavia que só 
no íacto de ser apenas necessária a ida ao paço o deputado, o mi- 
nistro dos negócios estrangeiros desistiu de ir para junto de 
D. Manuel. 

Ao delegado do presidente do ministério deviam porém ser 
conferidos poderes em forma e meios de livre transito pelas ruas 
onde formavam as tropas, aliás mais exigentes á passagem de 
emissários monarchicos do que à de devotados á democracia, 
percorrendo quasi sempre em paz os arruamentos. 

Emquanto se escrevia um cartão com poderes discrecio- 
narios, e talvez ante os exaggerados receios pelo Porto, dechete 
do governo e do aspecto pouco tranquillisador do quartel-gene- 
ral, o conselheiro José de Azevedo Castello Branco, levando até 
uma das janellas, o enviado de confiança, disse-lhe, apertando- 
lhe a mão : 

— Que vergonha, Archer, que vergonha! 

Redigido o pleno-poder, seguia o deputado para as Necessi- 
dades, onde não encontraria já D. Manuel, mercê d'esse semi- 
abandono a que votado fora. 

Ignorando esse facto, o emissário especial sahiu do edifí- 
cio do commando superior, não assistindo ao confirmar das 
contrariedades impostas ao optimismo do general Gorjão. 
Já então se sabia a tomada da corveta cMindello». 

Fira um novo 8vanço da revolta. 

A chegada das baterias, de regresso do infausto lance 
da Penitenciaria, cortou todas as illus5es. 

O projecto tivera derrocada. 

Reconhecido foi, todavia, que d'isso culpa não possuía a 
artilharia de Queluz. 

Chegando ao Rocio, Paiva Couceiro, era enthusiasticamente 
recebido pelo chefe de estado maior, coronel José Joaquim de 



A REVOLUÇÃO PORTUGUKZA 41 

Castro, que lhe apertava a mão, entre louvores justos, e não es- 
quecendo os officiaes que com elle haviam trabalhado. 

Eram merecidas e Machado Santos, lhes dava razão, mais 
tarde dizendo : 

«As baterias de Queluz, foram o inimigo mais serio com 
que tive de me haver na Rotunda, commandada por Paiva 
Couceiro» (*) 

Quanto ao chete do governo, espelharia a sua opinião (»♦) 
na phrase histórica: 

— «O Paiva Couceiro não gosta de mim. Mas a verdade 
nada m'a fará occultar. Foi uma figura, uma grande figura, no 
meio d'isto tudo, o Couceiro!» 

Não toi excessivo esse apreciar. 

Na derrocada, íoi elle quasi o único a de pé ficar 

Ao regresso da columna a que fora commettido o encargo 
de avassallar a Rotunda, os espíritos perturbaram se mais. 

As campainhas telephonicas retinindo, indicavam commu- 
nicaçoes a receber ou solicitadas. 

Era o ultimo caso. 

O coronel Fillippe Malaquias de Lemos, insistia em que- 
rer participação do resultado das tentativas das baterias. 

Lograva emfim conhecel-o, apoz largas contradicções que 
elle assignalou no seu relatório posthumo: 

«Entretanto, a manhã ia decorrendo sem que cessasse o 
fogo de artilharia da Rotunda em direcção sul, até que pelo 
meio dia ou uma hora da tarde se iniciou no alto da Avenida, 
o combate entre as dnas artilharias. 

«Procurando informar-me do seguimento d'este combate, 
por varias vezes telephonei para o quartel general, obtendo com 
dificuldade respostas contradictorias de dífferentes pessoas cujas 
vozes me eram desconhecidas, até que finalmente, pelo coronel 
Seabra de Lacerda consegui saber que o ataque á Rotunda não 
obtivera êxito.» 

A esse tempo, na sala dos officiaes, o capitão Martins de 



(*) Relatorio=Pag'ma. 141. 

(**) A Capital de 17 do outubro de 1910. 

VOL. IV — FL. 6 



42 ARMANDO RIBEIRO 



Lima, apreciando exaltado a fuga de infantaria 2, dos serven- 
tes de artilharia e o distanciar dos lanceircs reproduzia, sem o 
saber, a phrase do conselheiro José de Azevedo: 

— Que vergonha ! 
E como remate: 

— Debandar como uma nuvem de pássaros quando ouvem 
uma descarga! 

Comtudo, ali mesmo, e n'uns previstos lances amargos, 
onde a vida a seguro se quizesse pôr, não menos singular alti- 
tude fora assumida pelos graduados. 

Expunha-a um official, o coronel ChrLstovão Adoipho Ri- 
beiro da Fonseca e affirmou-a, elucidando-a melhor, o segundo 
sargento reformado António Eduardo Fastagio: 

«O sr. coronel Fonseca, na narrativa que publicou no «Sé- 
culo», diz que julgou, por certos factos, que no quartel general 
na hora cm que lá entrou o desalento, se chegou a encarar a 
possibilidade de uma sahida precipitada. Não se enganou nas 
suas disposições, o distincto official. E eu, que fui testemunha 
presencial do que ali occorreu, posso affirmar que de facto, não 
só se pensou em retirar, no caso do quartel ser assaltado, come 
até, para esse fim, se fizeram os necessários preparativos, Abriu«se 
uma porta que ha muito estava murada e que dava serventia para 
o pateo do Salema; tentou-se abrir um alçapão e fazer uma bar- 
ricada, e colheram-se informações para saber quaes as casas 
próximas em que se poderia recolher o ministério e mais pes- 
soal. Logo que a tal porta ficou aberta de todo, e assim garan- 
tida a retirada, a oficialidade foi para junto dos ministros, es- 
perar os acontecimentos, ficando apenas junto das secretarias al- 
guns officiaes da administração militar, que de nada tinham 
sido avisados. Esses officiaes como notaram a ausência de ou- 
tros seus collegas, censuraram asperamente o abandono em que 
os deixaram, dizendolhes eu, n'essa cecasião, que estivessem 
descançados, porque a dar-se o assalto ao quartel, eu bem sabia 
por onde a fuga estava planeada. Não calcula, sr. redactor a ale- 
gria que as minhas palavras produziram. Um dos officiaes pe- 
gando-me n'um braço, pediu-me que lhe ensinasse o caminho 
que deveriam seguir, o que fiz, conduzindo-o até um corredor, 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 43 



guardado, a esse tempo, por dois impedidos, que ali faziam 
serviço de sentinella. Por tudo isto se vê, sr. redactor, que, na 
verdade, no Quartel General, esteve preparada a íuga dos que 
ali estavam e. se ella não se realisou, isso se deve simplesmente 
ao facto do quartel não ter sido assaltado. . . Confiado em que 
esta minha carta, confirmando as supposiçoes do sr. coronel 
Fonseca, ajudará um pouco a fazer a verdadeira historia da re- 
volução, subscrevorne de v. ex. a — António Eduardo Faatagio, se- 
gundo sargento reícrmado e continuo do quartel general.» (*) 

Não teria sido extranho a esse edificante systhema preventi- 
vo, o constante aproveitar, pelos elementos democráticos, de to- 
das as bellas occasioes para propaganda tendente a desconcertar 
o espirito militar. 

Actuando livremente, esses elementos desde logo desenvol- 
veram os seus manejos ao perturbado regresso das baterias, e, 
emquanto os summarios relatos da officialidade impunham, sem 
o saber, uma situação de pouco banal aspecto, externamente, a 
carbonária, em directo convívio com os núcleos presumidos de- 
fensores da realeza, prestaram-lhe, a bel prazer, pormenores des- 
norteantes e perturbantes. 

Utiíisada foi para a propaganda a favor da revolta, pelo 
traçar dos quadros soberbos da posição da Rotunda, a estada de 
cavallaria 2, no Rocio. 

O revolucionário, commerciante da travessa de S. Domingos, 
José Augusto dos Santos, (**) incumbiuse de, sob o aspecto de 
amigáveis conselhos espalhar o desanimo nas forças fieis do 
Rocio. 

Passando junto dos officiaes de cavallaria 2, dizia-lhes : 

— Eu não sei o que v. ex as estão aqui a fazer, porque eu 
venho da Rotunda e sei bem como tudo está e sei também que 
d'aqui a pouco desembarcam os marinheiros com as metralha- 
doras e decerto que morreremos aqui todos. 

Anciosos de alliviar nostalgias, tido o informador como pre- 
ciosa mina de esclarecimentos, e sem que uma suspeita nascesse 



(*) «O Século de 29 de Dezembro de 1910. 

(**) Já citamos a sua acção nas primeiras phases da revolta, a paginas 
188 do 3.° volume d'esta obra. 



U ARMANDO RIBEIRO 



sobre as intenções do popular, aliás extranhaveis, n'essa hora pe- 
rigosa, o coronel de cavallaria o acompanhava ao quartel general, 
onde o carbonário descrevia rocambolescamente o municiamento 
dos revoltosos: 

Peças assestadas para a Avenida, 3; para o Conde Re- 
dondo 3, peças para a Avenida Fontes Pereira de Mello, 3; pe- 
ças para o Rato, 2, peças para as Terras, 3; peças ao longo da 
Feira de Agosto, 4. Os armões, dizia-os cheios de munições e 
junto de cada peça, innumeras granadas. Lá dentro, disse actuar 
I4 a 1 5:ooo civis bem armados. 

A* lendária descripção curvaram os officiaes monarchicos, a 
cabeça, sob o iionico sorriso do general Carvalhal aôecto á re- 
volução, envolvendo n*um approvar secreto os informes do re- 
volucionário e n'uma atmosphera de riso o aterrorisado núcleo 
dos agaloados, que, como commandante de divisão, general Gor- 
jão, á frente, cahiram n'esse logro, demonstrando não só desconhe- 
cimento do numero de peças existentes em artilharia 1, sabido 
único adherente d'essa arma, como a impossibilidade de mano- 
brar na Rotunda, com um tão phantastico efíectivo de revolto- 
sos. 

A boa disposição do commandante de biigada de cavalla- 
ria, não passou despercebida ao revolucionário Augusto dos 
Santos: 

«Junto do general que me interrogava, que era o sr. Gor- 
jão estava um outro general que me pareceu ser o sr. Carva- 
lhal, no qual percebi bem a satisfação que tinha ao ouvir as 
minhas declarações.» 

Essa attitude seria singular, se não a desnudasse á victo- 
ria ganha, um jornal republicano redigido por revolucionários, 
escrevendo assim: (*) 

a A' frente da primeira divisão militar e exercendo logo o 
governo da cidade, está um homem que é preciso arrancar á 
sua inquebrantável modéstia. Temos de o applaudir pela sua 
obra, que tem sido d'uma energia rara, d'uma energia magniâ- 



(*) A Republica Porluqueza.— Anuo I=Numero 1, de 13 de Outubro de 
1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 45 

ct } n'um momento em que a sua missão de governador militar 
de Lisboa era espinhosa e difficil. Essa missão tem na desem- 
penhado com bom senso e com mai vigorosa. Velho liberal 
perseguido por vezes pelas suas ideias democráticas, encontrou-se 
bem dentro da Revolução. Detestava o passado onde a sua rija 
tempera de combatente, que se não dobra a subserviencias, ti- 
nha de retrahir-se. Agora, velho pelos annos, mas sempre novo 
na sua alma ardente e enthusiastica por todos os ideaes da Jus- 
tiça e da Liberdade, — o general António Carvalhal pode e de- 
ve ser um dos grandes cooperadores da Republica.» 

Era a explicação e a justificação dos aspectos assignalados 
de pouca surpreza á derrocada nos altos da Penitenciaria e do 
jubilo á descripção do revolucionário conduzido ao quartel ge- 
neral. 

Só os ministros dos estrangeiros, José de Azevedo Castello 
Branco e das obras publicas, José Gonçalves Pereira dos San- 
tos, apparecendo n'aquelle instante, decortinaram o erro, o laço ? 
mas a technica militar abafara lhes o derrubar da lenda, de- 
mais, sendo profano o primeiro em táctica e conhecimentos 
miiitares, o que não excluía o conhecimento do destrinçar dos 
negócios de diplomacia, onde a argúcia vence por vezes o di- 
reito. . . 

Mas, a despeito da suspeita mentira das declarações, a 
astúcia avigorouse ante a complacência. 

O informador, n'esse periodo de agitação e onde nenhum 
elemento devia ser desprezado e toda a desconfiança pouca, sa- 
hia do quartel general e sem que seguido fosse, ia á Rotunda 
d'onde antes viera para a sua missão, e antes de pegar na cara- 
bina, relatava a situação interna do quartel general. 

Não assistiu todavia ao drama de desfallecimento e de inér- 
cia que se ia dar. 

Entretanto o coronel Alfredo Albuquerque, aguardava ordens 
no Rocio, á frente dos Ianceiros. 

Transmittia-as o general Carvalhal, preceituando a recolha 
ao quartel do Carmo, sede do commando da guarda municipal, 
para trato das praças e dos cavallos ) e indicando que determi- 
nações telephonicas ihe seriam dadas. 



46 ARMANDO RIBEIRO 



Lanceiros 2, apoz esse ligeiro estacionamento ali, marchava 
pois, tendo que atravessar locaes perigosos era plena escuri- 
dão, até ingresssar no quartel da guarda municipal, não sem 
que o tenente Estevão Wanzeller e Silveira Ramos se ofere- 
cessem ao coronel Alfredo Albuquerque, para, acompanhando 
uma carroça da administração militar, ir buscar armas ao de- 
posito de material de guerra. 

Transmittida a proposta ao chefe de estado maior, não íoi 
acceite o offerecido acto de arrojo. 

Inútil elle seria. 

Segundo o commandante de lanceiros, não teve a offerta o 
esperado accordo, «nem na occasiao nem depois, porque se re- 
conheceu que não havia mais munições em parte alguma!» (•) 

De facto nada existia em Queluz, nem no Arsenal e as de 
Beiroilas não estavam em condições de servir, e ainda a essa 
hora se dera já o assalto ao deposito pelos revolucionários da 
chefia de Joaquim Lopes de Abreu Castella tendo estado ante- 
riormente bloqueado por elles e com as ccmmunicaçÕes corta- 
das. 

No quartel do Carmo, onde a desorientação reinava, dava 
pois ingresso ás 8 horas da noite de 4, a força da chefia do co- 
ronel Alfredo Albuquerque. 

Emquanto era conhecido que a guarda já soffrera vários 
ataques as granadas chovendo sobre o edifício, e sobre os soidados 
que sahiam d'el!e, eraii attingidos por bombas arremessadas de 
logares difficeis de descobrir, para descanço recolhiam os lan- 
ceiros, recostandose alguns oííkiaes, nos leitos, para em inter- 
regno da lucta, diminuir o cansaço da longa e continua mar- 
cha da madrugada até a\s oito horas da noite. 



• Entretanto Paiva Couceiro, fora informado de umas inten- 
ções de desembarque dos marinheiros e com o aviso e ordens 



(*) «Os Cem Dias Funestos», por Joaquim Leitão=pagina 257. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 47 



de se collocar as peças nas embocaduras das ruas Augusta e do 
Ouro. 

A soldadesca, a monte, comia a parca ração de pão meia 
lata de sardinhas, emquanto se arrumavam quatro metralhado- 
ras dispostas superiormente indicadas, e sob o aspecto nostál- 
gico de quem inútil esperaria o espejtaculoso 3pparato. 

Ainda se discutia no quartel o quadro doloroso da retirada 
da columna, como esquecimento e em outro extranho aspecto 
do quartel general. 

Da praxe, os errados ou os mais concretos passos de uns, de 
paralleio se collocaram para desculpar á própria desorientação. 

Era o destino, firme, a desbravar o terreno á sedição, va 
lendo se dos próprios braços dos que, como contrários a ella se 
apresentavam. 

A realeza podia dar se por bem golpeada, tendo até os me- 
lhores golpes por aquelles que ella, em certos instantes de es 
perança, julgou seus assistentes leaes. 

Ao collocar algumas léguas entre o capital e a sua pessoa 
o rei definiu soberbamente, a confiança que tinha nos seus de- 
fensores: nenhuma. 

Não soube os lances do quartel general. 

Servir-lhes-hiam para apressar essa jornada significativa e 
de quem, se pensamentos houvesse, se envergonhariam quantos 
ajudaram a sedição no simulacro de um receio. 

Esse espelho, Sagrante, iria levar ânimos á Rotunda, ex- 
posto pelos rebeldes que, ad Ubitum o analysaram. 

No meio das constantes descobertas, dos permanentes ter- 
rores de uma approximação da tragedia gigantesca, assombrosa 
era o acampamento da Avenida, o único onde, embora quebra- 
da por vezes a energia e evidenciado o desespero, jamais se apa- 
gou a convicção, a pé ardente, jungindo ao seu posto de duvi- 
doso fim, o reduzido núcleo dos dispostos a morrer, mas em 
holocausto á Republica. 

Volvamos porém á Rotunda, e a perscrutar-ihe os anceios e 
resultados d'esse combate, o das baterias, onde Paiva Couceiro 
quiz dar um exemplo, nem de leve secundado e muitas vezes 
ainda seguido. 









intr 





XXIII 
Õ ataque das baterias 

No quartel de artilharia l.-Na Rotunda 



corresponderam logo em completo e na Ro 
tunda, á descoberta dos preparativos feitos nos 
altos da Penitenciaria, as manobras tendentes a 
dar-lhes devida resposta. 

Tinham tido os revoltosos interno sobresal- 
to, quando presumiram um ataque dos lados 
do Monsanto. 
De tacto, o combate por ali, seria pouco favorável aos rebel- 

Demai?, em artilharia, estavam 23 peças. 

A tomada, pelas tropas realistas, significava a morte da re- 
volta 

Ao desapparecer da columna, o socego voltou, até que pelas 
vedetas conhecido foi o local d'onde ella ia preceder. 

Assegurou-lhe também o percurso, o i.° cabo reservista, 
Manuel da Costa, que logo passava aviso ao 2.° sargento Ma- 
nuel Pereira Machado, de vigia á porta do quartel; ao 1.° sar- 
gento Gamillo Gonzaga Pinto e ao chefe civil Manuel Lourenço 
Godinho. 

Descrevendo o lance de chegada das baterias, diz este ul- 
timo : 



des. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 49 



«Na manhã de 4 estabeleceuse a detesa completa do quar- 
tel pondo se uma peça íóra do portão das armas, duas peças no 
alto do quartel que dá para Entremuros e para as terras Es- 
tas duas peças foram guarnecidas pelo segundo sargento serra- 
lheiro e pelos civis de nome Victor Alexandre Ferreira, João 
Silva Louro, marinheiro artilheiro, soldado numero 62 da 2.* 
de nome Raphael Miguel, 2. sargento Veríssimo, 2 o sargento 
Mascarenhas e outras mais pessoas dedicadas que se con- 
servaram no seu posto mas de quem não foi possivel obter 
os nomes. Foram collocadas duas peças também, uma defen- 
dendo o portão do paiol, e outra á direita das casernas para 
nos detender-mos de qualquer surpresa que nos podesse vir 
por uns terrenos que se encontram nas trazeiras das cosi- 
nhas. 

«O serviço de vedetas que eu estabeleci foi de muita utili- 
dade e estendia-se até ao Arco Grande, Sete Moinhos, Alto do 
Carvalhão, Amoreiras, R. S. João dos Bemcasados e rua Direita 
de Campolide. 

«Estas vedetas eram acompanhadas de rapazes armados, os 
quaes logo que se presentia qualquer coisa, corriam a partici- 
par ás outras vedetas e ao quartel. Vedetas montadas havia 8, 
e o serviço d'estas era mais largo, sendo por uma d*estas ve- 
detas que tivemos conhecimento de que as baterias de Queluz 
vinham sobre nós, e para melhor me certificar, depois d'esta 
noticia recebida, montei também a cavallo e fui para um pateo 
que 6ca á esquerda da rua Direita de Campolide. D'este ponto 
viam se todos os movimentos das baterias de Queluz, tendo 
visto também que se destacaram 4 peças do corpo principal, 
duas para a esquerda e duas para a direita, calculando que as 
duas que partiam para a esquerda iriam para a Penha de Fran- 
ça, e as duas que partiram para a direita seguiram em cami- 
nho para Campolide de Baixo. Uma vedeta a cavallo e quatro 
civis foram se postar de vigia no Alto dos Sete Moinhos, para 
avisarem e prevenir o quartel acerca do movimentos das duas 
peças. Seriam sete horas da noite regressaram todas a reuni- 
rem-se ao corpo principal e já o capitão Couceiro tinha soffrido 
o primeiro ataque feito pelo segundo sargento Mathias, pelo 



VOL. IV 



50 ARMANDO RIBEIRO 



soldado n.° 62 da 2 a e principalmente pelo i.° marinheiro João 
da Silva Louro.» (*) 

O erro é evidente, e já vimos a disposição da bateria, que 
se não deslocou para a Penha de França, ficando toda junto aos 
muros da Penitenciaria. 

Convém todavia elucidar que as descripçoes, pelos officiaes 
que compunham a colurnna, são todas posteriores (**) á publi- 
cação do relatório de Manuel Lourenço Godinho, nascendo 
d'ahi as notadas anomalias. 

Conhecido que a bateria se postara junto aos muros da Ca- 
deia Central, o alarme não toi intenso. 

Até o humorismo surgiu, aventando um insurrecto que «a 
victoria lhes sorriria, pois os defíensores da monarchia es- 
tavam perto da cadeia, emquanto elles acampavam na Avenida 
da Liberdade » 

A investida era esperada. 

Pelo chefe civil Jorge de Carvalho, haviam sido mandadas 
collocar uma peça por detraz do parque, outra, de retorço á ou- 
tra que já ali se encontrava, com frente á Serra de Monsanto e 
Penitenciaria; uma á porta do paiol deflendendo a entrada por 
Campolide; três no largo da Parada em frente do tanque, do 
lado das Amoreiras; e uma á porta do parque, para varrer a 
parada. 

Ao assignalar da contraria posição, as manobras rize- 
ram-se rápidas. 

Ultimou se o transporte de munições tendo valido, como 
auxiliar precioso d'esse serviço, o revolucionário José Gomes 
Froes Júnior, residente perto do quartel de Campolide. 

Não estava elle forte em numero, mas julgava se aguerrido 
em coragem, para se tornar o ponto principal das operações con- 
tra as baterias. 

Ali apenas se encontravam 25 homens decididos, ou fossem 
quinze populares e 10 militares, sob a cheria dos carbonários 
Manuel Braz Simões e Armando Porphirio Rodrigues. 



(#) Dicrio de Noticias de 21 de Outubro de l lí 10. 

(**) A entrevista com o tenente Estevão Wanzeller, que larga copia de 
elementos possue, veio no Correio da Manhã de 27 de dezembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 51 

Bem entregue estava a defesa, confiada assim ao audaz che- 
fe da invasão do edifício de Campolide. 

Convindo prevenir múltiplas investidas, foi elle com alguns 
civis e um soldado, tomar posse da porta das armas, do lado 
da rua José da Silva Carvalho. 

A postos se encontravam, na parada, alem do artifice Ma- 
nuel Joaquim de Araújo, o i.° sargento ajudante Arthur Celes- 
tino Sangremann Henriques, tendo como ordenança, o antigo 
clarim João Mendes, que apparece assim citado na relação com 
que fecham o seu relatório, os chefes civis, Armando Prophirio 
Rodrigues e Manuel Braz Simões: 

«João Mendes, exclarim 61 da 7.* bateria de artilharia 1, 
mostrou-se sempre d'uma dedicação extrema na vigilância do 
quartel, nunca se cansando nem poupando a estercos.» 

Guarnecendo a peça existente no vértice norte do angulo 
íormado pelos muros da parada, ficou o 2.° artilheiro naval n.° 
2728, Jo ão da Silva Lour, que chegara ao quartel de Entre- 
muros, cerca das 6 horas da manha, entrando logo como auxi- 
liar do chefe civil Jorge de Carvalho na defesa da posição do 
lado do paiol. 

Occupando locaes vários da aprestada linha de combate, 
onde se iam notabilisar, achavam se ainda, o soldado servente 
621706 da 2. a bateria, Raphael Miguel, o soldado 61, Joaquim 
José Gomes, o cabo reservista, Jayme José Bornes. 

Este deixara o serviço de artilharia 1, em 1904. 

A despeito de estar na reserva, apresentou-se ao reivindicar 
da causa democrática, com o soldado 62. 

Conhecedor da revolução, debalde a familia intentou irnpe- 
dil-c de cooperar no movimento. 

* Na impossibilidade de os convencer, saltava para a rua, do 1 .° 
andar da casa da residência na rua das Adellas, 3o, e procurando 
subtrahir-se ás detenções policiaes, ingressou na Rotunda, onde 
se apresentava ao i,° sargento Camillo Augusto Gonzaga Pinto, 

Abandonandoos ás 10 horas, voltava mais tarde, seguindo 
para o quartel, onde ajudava a? transporte das peças. 

Chegou na altura do ataque das baterias, ficando sob as 
ordens do sargento Gonzaga Pinto. 



02 ARMANDO RIBEIRO 



Aguardados toram assim os incidentes d'esse antevisto for- 
midável duello. 

A ideia do combate, se preoccupava muitos, animava ou- 
tFi s. 

Norteados pela esperança de vencer, arrastaram os revoltosos 
a peça, para a porta do quartel, em frente da antiga casa de 
saúde de Entre-muros, e também ao prédio 175 1 7 7 proprie- 
dade do barão de Linho, o escolhido ponto de lucta. 

Encarregou-se de a fazer funccionar o soldado 42. 

Era no instante em que Paiva Couceiro mandar derruir os 
tapumes qus occultavam a bateria. 

Apresentava o inimigo alvo seguro para os insurreios, 

Uma das peças, a dirigida pelo 1.° cabo Jayme Joj-é Bor- 
nes tez togo, iniciando a pendência, provocante e altiva. 

Comtudo, na precipitação metteu na terra, pela baixa pon- 
taria as duas primeiras granadas. 

Secundado pelo artilheiro em serviço no extremo do par- 
que e melhor graduado o tiro, n'um impulso febril, três outras 
se empregaram explodindo sobre a força de Queluz, quando 
ella ia actuar sobre Campolide. 

Houve enthusiasmo, ao notar o efleito. A infantaria inten- 
tara além à dispersão e desorganisara-se o grupo de artilharia. 

De momento, comtudo, se desfez o jubilo e se reproduzia o 
espectáculo que distante haviam assignalado. 

A bateria de Paiva Couceiro, respondendo, rasgava logo 
aos primeiros tiros, o muro do quartel, junto ao portão onde 
estava a peça e a metralha espalhando-se, levava a terra mui- 
tos dos atiradores, demais proseguindo a queda das granadas 
mandadas do alto da Penitenciaria. 

O artilheiro collocado á Canet attingida, punha, como lou- 
co, grande somma de metros entre si e o destinado posto. 

Na parada, recusava-se a voltar, terminante, instnsivel a 
todos os rogos. 

Debalde lhe salientaram que na sua mão estava a vida de 
todos os outros combatentes. 

Nada o demoveu. 

O 2.* artilheiro João da Silva Louro, incumbia logo o solda- 



A. REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 53 



do 62, Raphael Miguel que o estava ajudando, de manobrar com 
a peça abandonada. 

A revindicta operouse. 

As granadas effectuaram a destruição dos muros e casas 
que encobriam a columna da Penitenciaria. 

A resposta foi trágica. 

Outro projéctil, lançava fora o pcrtao da quartel de Entre- 
muros. 

A metralha attingii n'uma perna o i.° cabo José Bornes, e 
quatro dos seus companheiros, entre os quaes, o civil António 
Pedro. 

Illesos apenas ficaram Jorge de Carvalho, Lourenço Godi- 
nho, o soldado 62, e o sargento Gonzaga. 

Este, determinava ao cabo Bornes, a baixa ao hospital de 
sangue. 

Não foi acceite a ordem. 

Olhando em volta, raros viu dispostos a seguir a acção. 

Da soldadesca, o numero descera ao minimo. 

Os paisanos já haviam eflectuado o distanciamento procu- 
rando asylo n'uma taberna a 5o metros do edifício alvejado. 

O abandono foi quasi geral, ao ponto de serem deixado li- 
vres os officiaes que haviam sido detidos ê invasão do quartel e 
mais algemados pela dada palavra de se não envolverem em 
represálias, do que pela vigilância dos insurrectos. 

Nos foragidos, contava se o chefe civil, Armando Porphirio 
Rodrigues, ferido egualmente. 

Machado Santos, a paginas 1 5g do seu relatório, equi- 
para o todavia aos dois mais enérgicos adversários das baterias: 

c Abracei o chefe civil Armando Porphirio Rodrigues pela 
sua enérgica defeza, bem como o soldado servente Raphael Mi- 
guel e o segundo artilheiro de marinha João da Silva Louro.» 

Diria ainda, (*) mais tarde, traçando-lhe a figura de revolu- 
cionário e reproduzindolhe as impressões: 

«... é o typo clássico, romanesco do conspirador civil, com 
a sua barba grisalha, a sua gravata Lavaliére, o seu chapéu 



(*) O «Iutransigente» de 5 de outubro de 1911. 



54 ARMANDO RIBEIRO 



molle. . . Mas, se o habito externo é completo, a fibra, o nervo, 
a alma revolucionaria, são perfeitas. Poucos teem a sua list ) de 
serviços nos tempos da propaganda e da iniciação. Dirigiu a 
defeza do quartel de artilharia i, auxiliado pelo marinheiro ar- 
tilheiro João da Silva Louro e pelo soldado servente Raphael 
Miguel — os três únicos e autênticos defensores do quartel de 
Entremuros. 

t Responde rápido e incisvo: 

t — Estive em artilharia 1 a cumprir o meu dever. . , 
Duas ou três vezes estive na Rotunda. Vi pouca gente nos sitios 
onde estive, mas, julgando que todos cumpriam a sua obriga- 
ção, imaginei que os que não via estariam no seu posto n'outra 
parte. Só no dia 5 soube das deserções. . . das vergonhas que 
por lá houve. . . E essa impericia é que na verdade, foi a pre- 
dominante d'aquelles dias de lueta e de febre, porque nunca 
tornarei a sentir indignação que com essa se compare. . . » 

Houve, de facto, esse vácuo feito aos tiros firmes da forças 
de Queluz e constatam-n'o os depoimentos que citam os deôen- 
sores principaes iio quartel e onde não apparece o nome de 
Porphirio Rodrigues. 

Desnuda, porém o abandono, o 1.° sargento Gamillo Gon- 
zaga Pinto, a paginas 34 do seu livro Memorias da Revolu- 
ção: 

«Aos primeiros tiros do inimigo, o reduzido pessoal civil 
que guarnecia as peças fugiu indo com elles o chefe Porphirio 
Rodrigues que só encontramos pelas 4 horas da tarde, mettido 
no nosso quarto.» 

Assim, de momento a momento, procuravam eximir se aos 
grandes lances, aquelles que, nas primeiras horas mais temerá- 
rios se haviam mostrado. 

Não foi isento de audácia e de responsabilidades, o acto de 
trazer para a rua, o regimento de artilharia 1. 

Mas, os que tinham dado o impulso á sedição, aquelles 
que, de facto, assentaram a pedra fundamental do movimento, 
foram dando, ao continuar da tentativa, a prova evidente da 
fragilidade humana, na desintegra da marcha dos acontecimen- 
tos, por extincta a chamma nervosa que até ali os levara, ou 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZX 55 

numa previsão de lhe trazer o futuro, em paga de loucas ho- 
ras, o premio de um mau desfecho. 

Teve um e outro 

O recato ao fogo das baterias e com base em recebido feri- 
mento, não íez subir e com razão, o prato da balança onde col- 
locados tôram os seus serviços á causa sediciosa. 

Pela acção em combate teria mais tarde o premio de collo- 
caçao no Jogar de almoxarife do antigo paço real da Ajuda. 

Não obstante, como aliás succedeu a tantos outros comba- 
tentes pela Republica, depois do ousado passo de outubro, ci- 
tado (*) foi, embora salvo sarasse, como envolvido na tentativa 
de golpe de estado fixada para janeiro de 191 2. 

Já n'essa altura o salteara o desalento, traduzido em linhas 
onde cathegorico affirmava a sua opinião: (**) 

« — E a sua impressão sobre a Republica ? 

« — Escreva com todas as letras, porque com todas as le- 
tras tenho muito prazer em pôr o meu nome por baixo. . . Es- 
creva : Se eu soubesse que a Republica que tinha idealisado era 
a porca que me sabiu, não me tinha arriscado, não me tinha 
sacrificado, como me sacrifiquei . . . 

« — Escrevo porca? 

« — Porca ? porquissima e eu ponho o meu nome por bai- 
xo. . . » 

Não tardou depois o ingressar (**•) nos cárceres do Limoei- 
ro, á ordem dos tribunaes marciaes como cúmplice de outra 
mallograda tentativa revolucionaria com elementos republica- 
nos, radicaes e syndicalistas. (*«**) 

O facto suscitaria os seguintes trechos do órgão jornalísti- 
co (*****) de Machado Santos: 

«O governo pela voz dos seu* tribunaes marciaes, teve a 
feliz lembrança de mandar recolher prezo ao Limoeiro, como 
implicado nos acontecimentos de 27 de abril, o bravo defensor 



(*) Vide o 3.° volume d'esta obra, pagina 347. 

(**) O Intransigente de 25 de outubro de 1911. 

(***) 4 de agosto de 1913. 

(#•#*) 10 de julho do 1913» 

(*****) O Intransigente de 4 de agosto de 1913, 



56 ARMANDO K1BEIKO 

do quartel de artilharia i quando toi do 5 do outubro- o sr. Ar- 
mando Porfírio Rodrigues, almoxariíe do paço d'Ajuda. Achamos 
bem que o sr. Aflonso Costa continue consentindo nas vingan- 
ças dos antigos oficiaes monárquicos sobre os implantadores da 
Republica que o Congresso Nacional, num dia de alegria e 
triunfo, entendeu que devia galardoar com o titulo de Bene 
mentos da Paína. Achamos bem, porque ainda nos parecem 
poucos os republicanos que se encontram em custodia. Quanto 
mais achas se iançarem á togueira, mais certeira e violenta- 
mente se virá a dar o incêndio. Esperemlhe pela pancada!» 

Era d'elle a seguinte carta, expedida do cárcere em torva 
hora de desillusÕes: 

«Cadeia civil de Lisboa, 3-X-913. 

«Meu caro Machado Santos: Peçote um cantinho do teu 
jornal para altaneira e desassombradamente apresentar o meu 
protesto em publico, contra o lacto de pretenderem dar-me a 
liberdade á sombra d'um indulto, perdão ou amnistia que não 
pedi e que não aceito. 

«Entrei para a cadeia de cabeça erguida; «quero», exige o 
a minha dignidade de homem e de velho republicano, saber 
porque os «morcegos» que se aceitaram no monte purpurino 
da Liberdade me aceusam, e qual o crime que sobre mim im- 
pende ha 62 dias, isto não contando o tempo que venho sendo 
vigiado e perseguido. 

« «Exijo», «quero» saber quem são os miseráveis que acoi- 
tando-se em quaesquer camarilhas politicas hoje se arrogam o 
direito de serem os «lídimos defensores» da Republica, d'esta 
Republica pela qual nós tudo sacrificámos. Os tarçantes nem 
sabem ocultar os seus pensamentos reservados ! 

«Mas seja como for, o que eu quero hoje é que fique bem 
patente que não pedi nem peço clemência, que não acceito per- 
dão ou qualquer acto que me obrigue a sair de cabeça baixa e 
em agradecimento àqueles que tão mal teem comprehendido 
os serviços que se lhes presta, e ás instituições, não só eu, co- 
mo uma plêiade de homens que teem a hombridade suficiente 
para não rastejar ou ir receber os serviços a um tanto por hora 
pagos por aquelles que faz hoje 3 annos ninguém conhecia, e 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 57 



outros que imitando o «lendário Pedro» negavam não só as 
crenças mas também os Mestres. 

«Acceita, meu caro Machado, um abraço tão forte e leal 
como o que ha três annos te dei ao separarmo-nos no Quartel 
de Artilharia i, no momento em que nós juramos cumprir o 
nosso dever. Teu amigo velho e certo que deseja Liberdade e 
Justiça. — Armando Porphtrio Rodrigues.» 

Veria a luz da liberdade aos annuncios de uma tentativa 
monarchica (21 de outubro de 1 9 1 3), tendo anteriormente (26 
de setembro de 1 9 1 3) comparecido perante os tribunaes de 
guerra. 

Vendo apenas dispostos a sacrifícios seis homens, o cabo Jay- 
me Bornes, embora ferido ficou no seu posto. 

Apenas reconhecido o facto de a peça oflerecer muito alvo 
sendo de preferencia alvejada, foi ella transportada para detraz 
de um kiosque existente defronte do quartel. 

Trazida foi egualmente para melhor local, a peça até então 
meio oceulta á entrada da porta das armas, e manobrada pelo 
soldado 62, Raphael Miguel. 

Estes trabalhos, trazendo descanço nos ataques, deu ephe- 
meros ânimos á bateria de Queluz. 

Desvaneceram-se de seguida. 

O duello seguiu. 

Poucos momentos decorridos sobre a nova disposição das 
peças, uma granada produzia novos eôeitos sanguinolentos, e 
desnorteantes. 

Fazia-se segunda fuga. 

Era outra vez ferido o cabo Jayme Bornes. 

Um estilhaço attingia-lhe o braço direito. 

A sua retirada impunha-se e teve de a effectuar, pela im- 
possibilidade de se manter no posto, ante os ferimentos recebi- 
dos. 

Mais tarde, ser-lhe hia assacada uma deserçãodo logar de pe- 
rigo. 



(*) O Intransigente de 4 de Outubro de 1913. 
vol. iv — fl. 8 



58 AKMANDO RIBEIRO 



Não a houve, e apenas a ambição de collocar tora das vis- 
tas dos premiantes quantos se quizeram manter no logar mar- 
cado pelas suas convicções. 

A curto praso d'essa defesa, Bornes, tornarse-hia de novo 
heroe, mas de lance mais grave, de que elle próprio tez a des- 
cripção : (*) 

«Cidadão redactor. — No n.° 3 5y9, de 16 de outubro de 
igio, na 5. a pagina, i. a columna, sob a epigraphe Em plena 
Republica — justiça a todos — sou classificado entre outros 
briosos e patriotas camaradas meus, de artilharia n.° i, de cujo 
regimento tazia parte, na categoria de i.° cabo n.° 61, como 
heroe, por fazer lace, arrostando todos os sacrifícios, até o da 
própria vida, contra a acção da bateria de Queluz, que duran- 
te o periodo áà revolução redentora foi implacável inimiga, 
contra os que denodadamente combateram e com fé no bom 
cxuo da sua nobre causa; viram poucas horas depois tremular 
triunthante ao som dos himnos marciaes revolucionários, ova- 
cionados pela multidão entusiasmada, o pavilhão verde rubro, 
simbolo actual da da nossa querida Pátria e do nosso adorado 
regimen — Republica. — O que fiz não foi mais que o meu 
dever de patriota, coadjuvando com o meu pequeno concurso 
os defensores da Pátria oprimida e vilipendiada, por quem tí- 
nhamos e temos obrigação de velar e não da realeza, que nos 
encaminhava para um abismo, de ha muito bem tacil de pre- 
ver pelos seus desmandos e concussões. Da acção de todos nós 
revolucionários, todo o f atriotico governo provisório está ao fa- 
cto, porque lá tem os seus relatórios. Após o meu acto patrió- 
tico, propagandiei sempre o meu ideal, sem outro interesse que 
não fosse a consolidação da Republica amada. Assim, no dia 
2 5 de julho do corrente anno, achando-me eu em Mirandella, 
da minha pro/incia transmontana, em casa do sr. José Maria 
Cascão, apareceu ali um individuo de nome Júlio, começando 
a increpar asperamente a Republica e os actos do governo pro- 
visório, fazendo propaganda em favor de Paiva Couceiro, di- 
zendo que «este mais generoso que a Republica pagava aos no- 



(*) O Mundo de 28 de outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 59 

__ • __________„_____„ . - 

mens — «traidores» — que o serviam á razão de i$5oo réis 
diários e lhes abonava 3 mezes adiantados para a obra da con- 
tra-revolução e que o governo abandonava os seus soldados 
depois da victoria dando um pequeno salário a titulo de 
reforma! «Irxommodaram-me tanto tão nojentas palavras que, 
julgando o homem ébrio, convidei o a retirar-se, de contrario 
daria parte ás autoridades, dizendo me que se tal fizesse me 
mataria e ao mesmo tempo agrediu-me com sôccos e deu-me 
duas estocadas de bengala num dos lábios, furando mo de lado 
a lado, como se pode ver. Dahi a luta, de que eu sairia ven- 
cido, prostrando-me, se não recorro a um canivete que tinha no 
bolso para me detender, depois de me ter dado uma tone pan- 
cada na cabeça; então, desesperado, cravei lhe o canivete no 
ventre, matando-o, sem querer. Eis aqui o epilogo da minha 
historia, desde os dias da Rotunda até áquelle dia, em que de 
heroe me tornei assassino, mas assassino forçado em minha de- 
fesa, sempre em prol da Republica, pela qual verti o meu san- 
gue, e cujo insulto suez, na minha presença, repugnou ao meu 
caracter de patriota revolucionário e á minha consciência de 
soldado da Republica. Da cadeia da Relação do Porto, onde me 
encontro preso, esperando o dia do meu julgamento em Miran- 
della, apelo para a solidariedade de todos os meus camaradas 
combatentes e de todos quantos em mim não virem um assas- 
sino, mas sim um soldado vilipendiado na sua farda e no seu 
brio de patriota. E a v. cidadão redactor peço lhe para fazer os 
comentários que entender a esta conscienciosa narrativa, para 
a qual peço publicidade, agradecendo desde já tão elevado fa- 
vor. Saúde e fraternidade, cadeia da Relação do Perto, 24 de 
outubro de 1910. — Jayme José Bornes, ex-i.° cabo n.° 61 de 
artilharia n.° 1.» 

Na falta do cabo Jayme Bornes procuraram os deffensores 
do quartel de artilharia, obviar a que elle cahisse em poder das 
torças de Paiva Couceiro. No critico instante appareceu um au- 
xiliar de valor: o grumete da armada 6l 75, Alfredo Gomes Froes, 
de regresso da cjdade baixa onde tora prescrutar intenções. 

O I.° sargento Gonzaga Pinto, conflavalhe logo a peça dei- 
xada pelo cabo Bornes. 



60 ARMANDO RIBEIRO 



Froes, e o 2-° artilheiro da armada 2728, João da Silva 
Louro, íoram desde essa hora, os mais enérgicos atacantes da 
bateria de Queluz. 

Reconhecidos, á Republica proclamada, esses serviços, João 
Louro, ascendia (Ordem do Exercito publicada a 22 de Novem- 
bro de 1910) ao posto de i.° sargento e Alfredo Froes, a 2* 
sargento, ambos para a guarda republicana. 

Dizia assim a proposta elaborada a 18 de outubro de i9io, 
pela commissao de promoções no exercito e armada: 

«Armada : por terem dirigido superiormente o fogo em cada 
uma das peças em que serviam na occasião em que se estabe- 
leceu o pânico peia deserção dos oflkiaes, portando se heroica- 
mente: grumete da armada 6175, Afredo Gomes Froes a 2. 
sargento e o 2.° lartilheiro 2728, João da Silva Louro, a i.° 
sargento. 

Coadjuvandolhes os esforços, estavam, além de João Men- 
des, antigo clarim do regimento e arvorado em ajudante do 
brigadas Sangremann Henriques, o soldado 62, Raphael Mi- 
guel, como apontador de peça e o soldado 5l, como municia- 
dor. 

Como recompensi á manutenção no posto e serviço á re- 
volta, cabia a Raphael Miguel, ao espalhar dos benefícios, o pos- 
to de i.° sargento, para a guarda republicana. 

Preenchidas as vagas dos feridos e dos desertores do movi- 
mente, o incidente das armas proseguiu. 

O quartel era alvejado, especialmente. 

Mas não falhava o retrucar. 

O soldado 62, astuto, um estratagema empregou: o de só 
se apresentar fazendo fogo, com certeira pontaria, apoz o effe- 
ctuado pelos contrários, recuando ao descarregar das peças da 
Penitenciaria. 

Esse arrojo, observado, trouxe uma vontade de revindicta, 
não conseguida e que Machado dos Santos, assignala a paginas 
1 63 do seu Relatório, ao citar a acçãc de Raphael Miguel: 

«Soldado servente n.° 621706 da 2. a bateria Raphael Mi- 
guel. O mais valente dos defensores do quartel de artilharia no 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 61 

combate contra as baterias de Queluz. N'um momento de 
pânico ficou só á porta das armas, fazendo frente ao inimigo 
com a peça que guarnecia. Um official que estava prisio 
neiro sob palavra, ordenou ao sargento Arthur Rego que desfe- 
chasse um tiro contra elle, ordem que o referido sargento não 
acatou.» 

Os revoltosos, embora raros, encobriam a diminutuidade 
com a coragem, despejando granadas sobre granadas. 

Mas nem todas alcançaram o desejado alvo. 

Se algumas estouravam nos muros da Penitenciaria, outras 
seguindo trajectórias caprichosas, faziam sentir seus effeitos em 
locaes não visados. 

Das despedidas pelas forças revoltadas, umas rebentavam 
perto do hospital do Rego. 

Outras, entravam pelas salas das sess5es da Caixa Econó- 
mica Operaria, derruindo a hombreira da janella, e quebravam 
uma columna de ferro fundido e um lustre de crystal, e explo- 
diado inutilisávam a mobilia, dispersando a carga, 443 peque- 
nas balas de chumbo. 

Outra granada cahia na ilha das Cobras, em frente do jar- 
dim da Graça; emquanto novos tiros fendiam de alto a baixo 
o prédio da rua Barata Salgueiro com frente para a Avenida; 
atravessavam as paredes dos prédios das Avenidas José Luciano, 
Ressano Garcia e António Maria de Avellar, attingiam o 4. 
andar do prédio 2 1 da rua do Carriao, entrando uma lanter- 
neta pela janella e indo cravar se na parede de um quarto, va- 
lendo estar a casa deshabitada. 

Uma das granadas, produzindo mais trágicos efleitos, enve- 
redando pela janella do i.° andar do prédio i5 das Escadinhas 
do Caracol da Graça, ia explodir junto á machina em que es- 
tava cosendo roupa Marianna da Conceição, de 60 annos, a 
qual ficava com as pernas mutiladas, sahindo do hospital (5 de 
fevereiro de 1911) com a esquerda amputada, emquanto o ma- 
rido, o sapateiro Aftonso de Souza, de 77 annos vinha a 
íaliecer (18 de janeiro de 1 91 1) dos ferimentos e de sus- 
to. Essa familia archivou em quadro, o envolucro da granada, 
circumdado pelas partes lragmentadas pela explosão. 



62 ARMANDO RIBEIRO 



O explodir de outra arrombava o telhado do prédio B. V. 
da rua de S. Domingos de Bemfica. 

Attingido toi o edifício do Lyceu Camões, e a granada en- 
trando por uma janella, ia perfurar a parede do próximo apo- 
sento, passando ao seguinte, onde estourava, a crivar de balas 
o tecto, paredes, portas e mobília. 

A bateria de Queluz, por seu turno, ia fazendo estragos. 

O portão de ferro, era partido. 

O muro, do lado direito, escancarava duas enormes boccas. 

Os prédios em redor, crivados pela metralha, desenhavam 
fendas e evidenciavam orifícios múltiplos. 

Os telhados, com as telhas esphacelladas ou levantadas, re- 
tinham restos de ferragens dos projecteis explodidos. 

Attingiam a parede norte do rez-do-chão do prédio 1 3 7 da 
rua José da Silva Carvalho, forçando os moradores a recolhida 
n'uma dependência da casa do visconde de Abran;alha, e ainda 
a moradia do engenheiro Rebello. 

Evidenciado o maior ataque da parte da peça collocada do 
lado do prédio 1 *]5- 177 da rua de Entremuros, sobre ella 
actuou em maior grau a violência das granadas da bateria de 
Queluz. 

Iam-se entretanto seguindo as evoluções das forças posta- 
das no alto da Penitenciaria. 

A deslocação da força de infantaria 2, indo postsr-se nas 
terras do Casal de Monte Almeida toi firmada com segurança. 

O alvo era seguro. 

A fusilaria coiheuos no campo desassombado e com alegria 
notaram que, aos tiros feitos corespondera a retirada. 

Deu-lhes animo o facto. 

Redobraram de coragem embora fazendo tiros cautos. 

Não tinham como intenção poupar munições, que não fal- 
tavam, ao contrario do que succedia com as forças fieis, vendo 
diminuir o provimente, de si escasso, e sem faculdades de o 
renovar. 

Os revoltosos apenas queriam assegurar, quanto possível, a 
precisão de tiro. 

A força ás ordens de Paiva Couceiro, presumiu lraqueza e 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 63 



eftectuou evoluções, continuando a artilharia a exercer o seu 
mister perturbante. 

Notada íoi no campo insurrecto a visível vontade do assal- 
to ao quartel. 

Não cessaram portanto de assidiar a columna com os pro- 
jecteis das canets. 

As baterias deram o afrouxamento do ataques. 

As suas peças callaram-se. 

O combate parou de súbito. 

Ooi visto o recuar da soldadesca e das peças. 

Julgou-se uma mudança de posição. 

A attençao concentrou-se e breve foi comprehendido o 
acto. 

Era uma retirada. 

Não se assegurou produeto de uma ordem do commando 
superior incumbido da defesa monarchica. 

Sonhouse uma derrota completa, infligida pela revolta. 

Houve constantemente largo nos deôensores do quartel, cu- 
jos principiaes appareceram assim mencionados a pagina 83 do 
do Relaiorio de Maohado Santos: 

«Os heroes da deíeza contra as baterias de Queluz tinham 
sido: o segundo artilheiro no 2728 do coipo de marinheiros da 
armada João da Silva Louro c soldado servente n. s 62)706 da 
2. a bateria de artilharia n.° 1 Raphael Miguel. Sem a coragem 
d'estes homens; dificilmente se podia aguentar a posição da 
Rotunda, além d'isso o quartel possuia uma enorme quantida- 
de de material. Era o nosso deposito de munições e forragens; 
os seus fogos cruzavam-se com os da bateria collocada nas ter- 
ras do parque Eduardo VII. Se cahisse em [ oder do inimigo 
era necessário reconquistal-o á bayoneta. Nos seus parques ha- 
via 2 3 peças !» 

O lance de defesa do quartel de artilharia onde só junto da 
peça manobrada pelo soldado 92, cahiram 10 granadas das 
baterias, se não exprime um lance épico, não foi egualmente uma 
acção mesquinha. 

A par da ignorância das surprezas que o combate poderia 
trazer, existia ainda o nome de Henrique de Paiva Couceiro a 



64 ARMANDO RIBEIRO 






perturbar, com o seu prestigio e a sua fama de combatente, 
o animo dos manobrantes do insurrecto campo. 

O retrocesso do ojfiaal de Africa, foi pois para os defiren- 
sores de artilharia i, um soberbo coroar d'esse episodio da lu- 
cta com as baterias e que appareceu assim descripto: (*) 

«Não sei, em virtude da minha falta de competência, des- 
crever-lhe o que foi esse tremendo ataque na tarde de 4 do cor- 
rente, tão renhido elle foi. Devo, comtudo, affirmar-lhe que a 
uma parte reduzida de populares e a um 2° artilheiro da ar- 
mada, se deve a victona de artilharia 1 n'aquelle ponto. O que 
a minha memoria me poude avivar é que, por volta das 9 ho- 
ras da manha, éramos avisados no quartel, pelo vigia que es- 
tava na 2. andar do edifício, de que a bateria de Queluz esta- 
va tomando posições na serra do Monsanto, o que fez sobresal- 
tar todos quantos ali se encontravam, porquanto o ponto indi- 
cado trazia evidentes dificuldades para podermos resistir com 
alguma vantagem. 

«A breve trecho, porém, esse sobresaltodesapparecia, porque 
a bateria de Queluz mudara de situação e avançara para o Jo- 
gar, que, durante muito tempo, foi inteiramente ignorado de 
nós. Mais tarde, com grande surpreza nossa, as forças inimigas 
appareciam tostadas na antiga quinta do Seabra, junto da Pe- 
nitenciaria, isto precisamente na occasião em que grande nu- 
mero de voluntários tinham ido ao acampamento da Ro- 
tunda levar grande porção de granadas e outras muni- 
ções, que d'ali haviam mandado requisitar. Por um mero 
acaso, só quando esses indivíduos regressaram de novo ao 
quartel, o fogo rompeu por parte das forças de linha que 
protegiam a bateria de Queluz, respondendolhe os volun- 
tários com uma enorme tenacidade e uma presteza dignas de 
registo. O que depois se passou não é para a minha penna des- 
crever, nem sei mesmo se alguém saberia fazel-o. De parte 
a parte as boccas de fogo romperam o tiroteio. A peça col- 
locada á porta de Entre-Muros, por ter pontaria baixa raet- 



(*) O ataque, das baterias de Queluz ao quartel de artilharia 1, por Joa- 
quim Pedro dos Santos. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 65 

teu duas granadas na terra e a bateria de Queluz responde-lhe, 
furando o muro do quartel, junto do referido portão, indo a 
granada rebentar, cerca da linha dos atiradores voluntários, os 
quaes, nem por isso, deixaram de fazer fogo. 

«Mas o artilheiro desanima e foge, como louco, para a pa- 
rada do quartel, não querendo tornar a tomar conta da peça 
nem a fazer mais fogo, apezar do sub-chefe do grupo revolucio- 
nário lh'o implorar e lhe fazer ver que aquelle abandono repre- 
sentava a desgraça de quantos ali se encontravam. Segunda gra- 
nada vinda do campo inimigo, vem pôr o portão quasi por ter- 
ra e lançar o desanimo na maior parte dos voluntários, que, 
julgando-se perdidos, abandonam, aterrorisados, o seu posto, fi- 
cando ali apenas, de quinze que eram, um individuo de appel- 
lido Oliveira, estucador; Carlos Silv.% chauffeur\ Manuel Pedro 
de Abieu, marceneiro; Augusto da Silva, ourives; um rapaz de 
nome Francisco, serralheiro, e um outro, bem vestido, de cha- 
péu de palha, que ficou ferido na cabeça, assim como o Abreu 
n'um dedo. Pois, sr. redactor, foram estes heroes que, durante 
muito tempo estiveram expostos ao vivo tiroteio, do qual, só 
por uma suprema felicidade, sairam ilksos. Se a victoria se al- 
cançou, deve-se, posso affirmal-o, á valentia e coragem do 2.° 
artilheiro da armada, a que atraz faço menção, e a um 2. sargento 
de artilharia, que tinha ao peito duas medalhas do ultramar, 
os quaes, assestando duas peças que estavam na parte do quar- 
tel que confina com a rua da Penitenciaria, fizeram um tão nu- 
trido e certeiro fogo, que, d'ahi a algumas horas, com o auxilio 
das peças do acampamento, tinham dizimado as baterias de 
Queluz. De contrario — ninguém o duvide — o que seria dos 
pobres voluntários da porta de Entremuros, que, de arma em 
punho, quasi não queriam cessar togo, tal era o amor pela cau- 
sa que defendiam E eu, sr. redactor, desarmado, observava tu- 
do isto, sem poder dar um tiro, porque os voluntários que lu- 
giam nem sequer cediam as armas para que os pudesse sub- 
stituir.» 

A oppôr uma acção de resistência, tanto mais difficil, quanto 
o grupo dos dispersados ideia dava de irremediável derrota, fi- 
cou troço modesto. 



m ARMANDO RIBEIRO 



Todavia, á hora em que o consummado facto de uma vi- 
ctoria, já podia trazer o arrastamento e o olvido dos seus lídi- 
mos impulsionadores, destacou-se o embroglio de contestação 
de assistência, de forma a produzir tumultuarias dissensões e 
edificantes controvérsias. 

Negada foi a existência de Gonzaga Pinto no posto comba- 
tivo, pelo chefe civil Armando Porphirio Rodrigues, (*) e pos- 
ta em balanço pelo tenente picador António Correia. (**) 

Authenticaram (***) a sua acção no quartel, durante o 
ataque das baterias, depoimentos dos chefe civil, Manuel Louren- 
ço Godinho, 1.° cabo reservista 71, Manuel da Costa, i.° cabo 
reservista, Jayme José Bornes, soldado reservista 27, Manuel 
Albino de Lemos, serralheiro de artilharia, Alberto Augusto de 
Araújo, soldados 62, Raphael Miguel e i3i António do Sa- 
cramento Nogueira. 

Muitos d'elíes, foram os principaes e quasi únicos defensores 
do quartel e não é licito suppor que quizessem dividir por ou- 
tros o quinhão de saliente coragem. 

Sem analysarmos já em todos os seus pormenores o largr, 
incidente sobre prioridades e promoções, assignalaaremos aqui, 
incidentalmente, que Gonzaga Pinto, proposta a sua ascendên- 
cia ao posto de tenente, para o quadro dos almoxarifes de en- 
genharia e artilharia, á forte da campanha feita em redor dos 
prémios aos revolucionários, depunha o galardão, ficando pri- 
meiro sargento como antes do movimento outubrino. 

O seu nome, incluido na ordem do exercito publicada a 25 
de outubro de 1 91o, era retirado da ordem que esta substituiu. 

No relatório de assignatura, em commum, dos cheíes civis 
A. Porphirio Rodrigues e Manuel Braz Simões, e datado do 
Quartel de artilharia 1, em 8 de outubro de 19 10, apparece 
assim mencionado o sargento Gonzaga : 

«i.° sargento Camiílo Augusto Gonzaga Pinto e os 2. 0S 
sargentos, António da Cunha v Arthur do Rego e Aleixo Paulo 



(#) Transcripto o depoimento a paginas 724 do 3.- volume d'esta obra. 
(**) Vide o depoimento da pagina 786 do já mencionado volume. 
(***) Memoriad da Revolução=$e\o 1.° sargento Gonzaga Pinto=Pagi- 
nas 56 57 58. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 



Mascarenhas, apresentaram-se ainda do acampamento, tendo 
prestado excellentes serviços na direcção do material de arti- 
lharia, por requisição do sargento ajudante Sangremann.» 

Foi este outro dos attingidos pelas contestações ao direito 
de premio. 

O debate acirrado e violento, forçou á desistência de San- 
gremann Henriques, do posto de tenente da guarda republica* 
na, incidente assim provocado; 

A's nascidas questões sobre recompensas, Sangremann, viu 
coadjuvando-as, o commandante da Rotunda, que formulava um 
retrocesso na proposta de concessão da cathegoria de tenente ao 
antigo sargento-ajudante, sob fundamento de a haver feito por 
engano. 

Deu isso origem ao seguinte requerimento feito ao ministro 
da guerra da Republica, António Xavier Correia Barreto, onde o 
tenente que já desistira, perante o parlamento, da pensão arbi- 
trada pelos serviços em combate, pedia ficasse sem valor a pro- 
moção realisada por decreto de 22 de outubro de 1910, prece- 
dendo proposta do commissario naval Machado Samos: 

«Ex m0 sr. ministro da guerra — Arthur Celestino Sangre- 
mann Henriques, tendo sido promovido a tenente por distin- 
cção por decreto de 22 de outubro do anno próximo passado, 
por proposta do cidadão Machado Santos, commandante das 
lorças revolucionarias da Rotunda da Avenida, sendo ao tempo 
sargento ajudante do regimento de artilharia n.° 1, tendo visto 
no jornal de hoje «O Intransigente» uma local em que o sr. Ma- 
chado Santos declara ter sido a sua a única promoção mal feita 
por na occasiâo da sua proposta não saber quaes os serviços que 
tinha prestado no movimento revolucionário, o que prova que 
só por lapso loi promovido, e affirmando o requerente o seu 
muito amor e dedicação á Republica Portugueza, mui respei- 
tosamente pede a v. ex. a se digne mandar ficar sem efíeito a 
promoção por distineção que ao mesmo foi concedida e deter- 
minar que o requerente entre na sua altura no quadro auxiliar 
de engenharia e artilharia, aonde lhe compete o posto de alie* 
res, — Lisboa, 1 8 de julho da 191 1. — Arthur Celestino San- 
gremann Henriques^ tenente da guarda republicana». 



68 ARMANDO RIBEIRO 



Lida fora na véspera em sessão das Camarás Constituintes, 
uma declaração em que o official regeitava a verba que, a titu- 
lo de pensão, lhe havia sido arbitrada. 

O incidente prolongou-se, e a favor e contra se ergueram 
alguns revolucionários e entre os de attitude desfavorável a 
Sangremann, se contavam os quatro sargentos da Rotunda, a 
esse tempo já tenentes, José Soares da Encarnação, Mathias Jú- 
lio dos Santos e Firmino da Silva Rego. 

«Sr. Redactor. — Atendendo á imparcial orientação por 
que v. tem feito seguir o seu mui lido jornal, pedimos-lhe a pu- 
blicação da seguinte missiva. Não é intenção dos sinatarios 
melindrar ninguém, mas simplesmente fazer publico (já o pró- 
prio não tem coragem para isso) de qual foi a acção revolucio- 
naria do tenente Sangremann. Leva-ncs a este extremo, bem 
contra nossa vontade, um grupo de particulares amigos deste 
oficial que tem pretendido eleva-lo ao epogeu da gloria e feito 
crer ao povo da noâsa capital que este official praticou prodí- 
gios de tanto valor para a implantação da Republca que elle 
tem o direito á admiração e até á veneração de todos os repu- 
blicanos portuguezes. Esclarecemos pois o caso para assim que- 
darmos a audácia dos tais amigos do homem, que á custa do 
nosso silencio e mercê, talvez, quem sabe! da ignorância dos 
factos, vêem desde 5 de outubro ludibriando a opinião pu- 
blica acerca do procedimento revolucionário do sr. tenente San- 
gremann. Fique pois assente e esclarecido, sr. redactor, que não 
nos movem malquerenças contra ninguém; é por amor e para 
restabelecimento da verdade que íazemos esta narração. 

«O sargento ajudante Sangremann, de artilharia n.° i, foi 
no dia 3 de outubro ás 4 horas da tarde apresentado (como 
republicano) ao r.° sargento Encarnação (membro mais gradua- 
do do comité que preparou o regimento para a revolução de 4 
e 5 de outubro); nessa noite o sargento ajudante entrou no 
quarto do 1.° sargento referido, ás 10 horas, e disse-lhe entre 
outras coisas, o seguinte: «Isto é o diabo, estas coisas assim 
para quem como eu tem mulher e filhos, são obra de gaita: 
imagina que tudo isto dá em drogas!» Ao que o 1.° sargento 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 69 

objectou: «homem, agora não é occasiao de pensar nessas coi- 
sas, não desanimar e nem mesmo nesta altura podemos recuar, 
agora temos de seguir o caminho que vimos trilhando». Pela 
i hora da manhã de 4 apareceu desarmado na parada do 
quartel para ajudar a sublevar o regimento; conservando se 
assim até que soube ter fido implantada a Republica. Depois da 
saida da bateria para a Rotunda, conservou-se no quartel sem 
intervir em nada que dissesse respeito á defesa revolucionaria; 
apenas quando começou o combate com a artilharia do grupo a 
cavallo o sargento ajudante referido, reunindose a alguns ofi- 
ciais que conseguiram escapulir-se da prisão, organizou um 
grupo de quarenta militares (aproximadamente) para atacarem 
os revoltosos e içarem um lençol onde se achava hasteada a ban- 
deira republicana. Estes indivíduos, porém, foram dissuadidos 
do pérfido propósito que iam pôr em execução pelo então ma- 
jor Duque e capelão Thiago Matheus de Campos, que lhes dis- 
seram que o que iam fazer era uma traição não só aos repu- 
bliconos mas á pátria e aos próprios monarchicos que ali se 
encontravam, pois que daquelía maneira o quartel passaria 
tauibem a ser bombardeado pelos revoltosos. Passando o perío- 
do agudo do ataque ao quartel os civis conseguiram de novo 
prender os oficiais que se achavam soltos, e o sargento ajudan- 
te foi-se escapando para a arrecadação dos géneros da cosinha 
do rancho geral, onde juntamente com alguns camaradas se 
conservou até ás 1 1 horas, repousando sobre dois cobertores de 
papa que previamente mandara buscar ao seu quarto; porém, 
os artilheiros de uma peça que estava collocada junto da cosi- 
nha áquella hora fizeram novos tiros de pólvora secca para uns 
quintaes próximos e por effeito dos quaes algum cascalho dos 
muros voou para os telhados que abrigavam o sargento San- 
gremann. 

«Em vista disto, os camaradas que lá se acharam houve- 
ram por bem mudar para poisada mais segura. Depois de obti- 
da a respectiva licença. dos artilheiros da peça que puzera em 
risco as suas vidas, passaram-se para o corredor do i.° grupo 
do quartel, onde discutindo acordaram em que a parte mais 
segura para se livrarem de perigos era o quarto dos sargentos 



70 ! ARMANDO RIBEIRO 



da segunda bateria, e de íacto para lá se dirigiu o grupo, mas 
o sargento ajudante, para se não comprometter, foi indo para 
junto d )s oficiais presos trocar impressões, e lá dormiu a sua 
soneca muito honradamente e sem protestar, como qualquer 
cidadão pacifico. No dia 5 de manhã (8 horas) estando o sar- 
gento Sangremann á janella da sala da prisão, enxergou por 
acaso, que alegria! que ditoso momento! um dos companhei- 
ros da noite anterior, e por meio de mímica (por causa dos 
comprometimentos) tez-lhe signal para que pedisse para o sol* 
tarem, mas, como o companheiro objectasse que o chete Rodri- 
gues o não soltaria, mimicamente lhe tornou a pedir que dis- 
sesse ao Rodrigues que não podia passar sem elle para o ajudar 
a tazer o rancho e respectiva escrituração. Sob este pretexto o 
chete Rodrigues autorisou a soltura do sargento ajudante e 
assim o nosso homem se foi de novo passando para o esconde- 
rijo predilecto, afim de ajudar o seu amigo na confecção do 
rancho. Momentos depois chegou ao seu conhecimento a no- 
ticia da proclamação da Republica. . 

Então nesta altura o homem ensoberbecese, corre a armar- 
se de pistola e espada, e ordena que todos lhe ooedeçam pois 
que elle é o militar mais graduado que se encontra solto no 
quartel e também porque já fez parte do 28 de janeiro e estava 
comprometido para a revolução de outubro. Em consequência 
desta alegação, solemnemente se investiu no cargo de coman- 
dante republicano do seu regimento; daquella hora em diante 
desenvolveu o sargento ajudante uma actividade extraordinária 
e pouco vulgar, fazendo no entanto com que algumas ilegali- 
dades se cometessem, devido á falsidade das suas informa- 
ções como comandante que só foi depois da Republica im- 
plantada. 

«Desde jà declaramos que nos comprometemos a confir- 
mar tudo o que asseveramos, não só pela confissão a nós feita 
pelo individuo a que nos referimos, mas também com testemu- 
nhas presenciais dignas da maior consideração. — Mais de- 
claramos que não treplicaremos a quem quer que seja que 
nos replique, e só por circumstancias muito excepcionais recor- 
reremos á imprensa. Os sargentos do comité revolucionário de 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 71 

artilharia {, e hoje tenentes da guarda republicana. — Lisboa, 
7 de agosto de 191 1. — Francisco Alexandre Lobo Pi- 
mentel, José Soares da Encarnação, oMathias Júlio dos 
Santos e Firmino da Silva do Rego. (*) 

Em opposição, veio ainda o depoimento do revolucionário 
civil Júlio Rocha Villar, em documento por eile destinado á 
historia da Revolução: (**) 

«Sr. redactor. — Na qualidade de membros da commissao 
que, no dia 6 do corrente, entregou uma mensagem de con- 
gratulação ao tenente da guarda republicana Arthur Celestino 
Sangremann Henriques, vimos pedir a v, a publicação das se- 
guintes linhas : 

«No seu jornal de 10 do corrente vem publicada uma car- 
ta assignada por quatro officiaes da guarda republicana, na 
qual existem frases bastante ofensivas para esta comissão. 
No dia em que se publicou nos jornais uma carta do sr. San- 
gremann, declarando que renunciaria a qualquer pensão que 
lhe fosse oferecida, fomos procurados, por um dos membros 
d'esta comissão, propondonos a entrega de uma mensagem 
áquelle cidadão, por tal motivo; concordamos todos com o nos- 
so camarada, mas não pensámos, sequer, em nos informar qual 
fora a acção revolucionaria do sr. Sangremann, porque com is- 
so nada tinhamos nem temos. Se qualquer dos signitarios da 
carta tivesse procedido de egual forma, em primeiro logar, era 
a esse que dirigíamos a mensagem, não nos importando saber 
se tinha ou não trabalhado muito na Rotunda ou noutra qual- 
quer parte. Não somos amigos nem inimigos do sr. Sangre- 
mann; simplesmente pretendemos demonstrar que quem acei- 
ta pensões do Estado, quando o povo estuda a melhor forma 
de poder conservar a barriga vazia, porque não tem dinheiro 
para comer, é criminoso e anti-patriota. Os oficiais a que nos 
vimos referindo desejavam naturalmente apresentar a conta dos 
seus enormes trabalhos, mas como o decoro ou antes, o sr. San- 
gremann, os obrigou a não aceitarem mais do que já teem, 



(•) O Mundo de 10 de agosto de 1911. 
(**) O Mundo de 13 de agosto de 1911. 



n ARMANDO RIBEIRO 



vêem, como regateiras, lavar a roupa suja para a imprensa, mas 
é preciso que tenham cuidado, porque lhes pode cair o casaco 
e aparecer a camisa pouco limpa. Chamam-nos audaciosos e 
dizem que vimos desde 5 de outubro ludibriando a opinião pu- 
blica acerca do procedimento revolucionário do sr. Sangremann! 
Audaciosos e inconscientes, se é que não existe em tudo isto 
uma má interpretação, são elles, porque fazem reterencia a fa- 
ctos com que nós não nos importamos e além disso é falso que 
nós venhamos desde 5 de outubro tentando impor á opinião pu- 
blica a pessoa do sr. Sangremann, tanto mais que naquella da- 
ta elle era ainda, para nós um desconhecido. Entendemos que 
não se devem lisongear nem homenagear homens, mas sim, la- 
zer destacar as acções que elles praticam, quando sejam boas e 
humanitárias. Para finalizar declaramos bem alto, que todos os 
cidadãos que comnosco assignaram a mensagem, quasi todos 
commerciantes, o fizeram conscienciosamente, repelindo com a 
maior energia todas as phrases existentes na carta, pelas quaea 
possam ser atingidos. Mais declaramos, visto odiarmos o soa- 
lheiro, que não triplicaremos a quem quer que seja que nos re- 
plique= — Pela commissão, Juho Rocha Vtllar. — Travessa do 
Olival, 17, rez-dochão.» 

De nada valeram as campanhas contra Sangremann Hen- 
riques e demais quando até á imprensa (-) vieram reproducçoes 
photographicas apresentando o sargento junto de uma peça, 
com o ex-clarim do regimento João Mendes. 

Assegurava-Ihe (••) ainda o constante posto no quartel, 
um dos não desmentidos dcfíensores da posição de artilharia 1, 
o soldado Raphael Miguel, promovido por distineção a 1.° sar- 
gento. 

A tudo isso attendeu já durante a polemica o ministro da 
guerra, António Xavier Correia Barreto, e ministerial despacho 
(julho de 191 1) denegava provimento, com critério, ao reque- 
rimento de Sangremann Henriques, oppondo ao aliegado facto 
de a promoção haver sido proposta por engano, a conclusão de 



(*) «O Século» de 15 de Outubro de 1910. 

(**) Memorias da Revolução, por Gonzaga Piuto.=Pagina 59. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 73 

tindeferido, por não ser, sequer, acceitavel, a possibilidade de 
ter havido engano em assumptos d'esta natureza.» 

Assim, de quantos cm seu logar estiveram durante a lucta 
com as baterias, apenas não scfíreram quebra nos primitivos 
elogios, ou nas concedidas recompensas, o marinheiro João da 
Silva Louro, o grumete Alfredo Gomes Froes, o soldado Raphael 
Miguel, e o cabo íeservista Jayme Bornes. 

Constituiu isso o affirmar completo, da sua intransigência 
e coragem, não perturbada pelos sonhos de uma suspeita, ou de 
arrastamento ou de inércia. 

A revolução os contou como seus firmes mantenedores. 



Para a Rotunda, como posto central se pretendeu reivindi- 
car um formidável e mais intenso ataque das baterias. 

Comtudo, embora visada egualmente, foi menos molestada 
que os dois outros locais de combate, o edifício de Campolide 
e o Parque Eduardo VII: 

«No ataque de artilharia inimiga, collocada junto á Peniten- 
ciaria, nunca atacaram a Rotunda, porque as granadas que le- 
varam essa direcção, iam rebentar no meio da Avenida, mas 
atacaram a valer as três peças que estavam collocadas no Par- 
que Eduardo VII e á porta do Quartel.» 

Aos diversos avisos da marcha da columna contraria, acce- 
leraram-se os preparativos de resistência. 

O sargento Mathias dos Santos, deixando a Rotunda ia pa- 
ra o alto do Parque Eduardo VIL 

Os sargentos Francisco Garcia Tereno e Firmino da Silva 
Bego, foram postar-se com as suas peças, a 200 metros da feira 
de Agosto. 

Disposto ficaram de forma a cruzar o fogo com o que fosse 
effectuado de Campolide. 

Pouco antes haviam chegado munições dos paioes do quar- 
tel de artilharia. 

VOL. IV — FL. 10 



74 ARMANDO RIBEIRO 



Mulheres e creanças as accarretavam fornecendo-as, irre- 
quietos, aos vários postos estabelecidos. 

Não íoi desguarnecido, todavia, o ponto principal do ba- 
luarte, a Rotunda e, n'uma previsão de simultâneo assalto, man- 
tevese a deteza do lado do Rocio, não abandonando a peça da 
Rua Central, o i.° cabo reservista José Martins, que, á victoria,. 
seria promovido a 2. sargento, sobre proposta do commandan- 
te da Rotunda embora mais tarde e como succedeu a muitos ou- 
tros dos interterentes na revolta, por de novo se revoltar tosse 
aos cárceres da republica. (*) 

Tudo em ordem, esperado foi o combate. 
Iniciouo o quartel de artilharia 1. 

O tacto serviu para sobre elle se concitar a enraivada acção 
de Paiva Couceiro, deixando em relativo grau de interioridade 
o acampamento da Rotunda. 

Comtudo não deixou elle de softVer o tiroteio das baterias e 
como n'eile integrado, o Parque Eduardo Vil 

As primeiras granadas começaram a produzir ali os seus 
effeitos, pouco depois do meio dia e meia hora. 
A tusilaria acompanhava o canhonheio. 
As pontarias, certeiras, causariam largo numero do victi- 
mas se, ao espalhar da metralha, e á voz possante e aterrorisa- 
dora dos canhões, a personagem não dispersasse, em grande parte 
procurando seguro abrigo. 

Abriu-se uma clareira, á comprehensão de que a força de 
Queluz, não era uma submettida. 

Os elementos civis, n'um activo soffrivel, quasi a sós dei- 
xavam com os seus nove sargentos o commissario naval, Ma- 
chado Santos, que, mais tarde, espelharia ainda o seu espanto 
pelo rápido evolar e a ignorância do local por onde se efíectuá- 
ra o escoamento. . . 

Desesperado, mas não abalado em té, Machado Santos, a 
cavallo, percorreu o acampamento, animando os que na linha 
de togo se mantinham. 



(*) Vide paginas 346 do 3.° volume d J esta obra. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 75 



N'ella se achava, á paisana, o alteres Alberto Camacho 
Brandão. 

Regressara, ao ver que a apregoada derrocada se não dera. 

N'elle estava, á paisana, o alferes Alberto Camacho Brandão. 

Regressara, ao ver que a apregoada derrocada se não dera. 

Cuidando dos animaes feridos, via ainda o tenente picador de 
artilharia 1, António Celestino de Sousa Correia. 

Não estava tão abandonado, como de principio presumira. 

Subindo ao alto da Feira de Agosto, ali se estacava, num 
quartel general provisório. 

Expunha-se temerariamente. 

Os nove sargentos, imperturbáveis, commandavam os seus 
sectores de defeza e ataque, impondose pela coragem, não des- 
mentida. 

As Cantis da Rotunda manobravam incessantes, auxiliando 
enérgicas o quartel de Entremuros na resposta ao fogo da bateria, 
embora estas, de preferencia exercessem mais violenta acção con- 
tra a sede de artilharia i. 

Todavia, n'um dado momento, uma granada, despedida do 
alto da Penitenciaria ia varando o sargento Vieira, cujo cavallo 
era atravessado do peito á cauda, cahindo logo morto e arras- 
tando na queda o cavalleiro que ainda partia a espada. 

Algumas praças accorreram a tlral-o de sob a montada. 

Indifferente aos resultados molestantes do desastre, retomava 
o posto d'cnde se não aífastou. 

Noyos tiros se fizeram da Rotunda e de Campolide. 

As pontarias eram certeiras e o duello da artilharia tornou- 
se gigantesco, merecendo que Machado Santos, no seu relatório 
(pagina 79) lhe fizesse justiça: 

«Seria meio dia e meia hora quando as primeiras granadas 
das baterias de Queluz começaram a chover na Rotunda; âs pon- 
tarias eram magnificas, certeiras, quasi todas tinham o seu ponto 
de rebentamento na nossa linha de fogo; o acampamento responde 
ao fogo do inimigo e o quartel de artilharia 1, com duas peças, 
defendia-se galhardamente; ao mesmo tempo que uma viva fuzi- 
laria envolvia por completo a Rotunda. 

«Malva do Valle que estava presente observava e via a sere- 



76 ARMANDO RIBEIRO 



nidade com que os artilheiros respondiam ao fogo do inimigo.» 

Ao efticaz emprego dos tiros ordenados peio capitão Paiva 
Couceiro, iam correspondendo audaciosas pontarias, notando-se- 
lhe o eííeito. 

Como succedera em Entremuros, viu se da Rotunda a deban- 
dada da infantaria e da cavaliaria. 

Mas não se deu de mais fulgida a estrella da victoria. 

O lance proseguiú, a breve trecho, desmanchando conten- 
tamentos. 

Foi assim que, no apogeo do duello entre as duas artilharias, 
c previsto um golpe, cerce, nas intenções de reivindicar a repu- 
blica, se executou, sob aviso, um projecto de antemão combinado. 

Um auto de fé, reduzia a cinzas em casa do commissario 
naval Machado Santos, na rua José Estevão, 14, todos os apon- 
tamentos revolucionários, desde a disposição de grupos, até á 
sua organisaçao ; desde o esboço da lucta a realizar até aos actos 
de necessidade para garantir uma possível partida ganha. 

A revolta, considerada perdida cerca das 2 horas da tarde r 
originou a queima dos documentos, se bem que a cifra em que 
se encontravam escriptos não desse margem a uma descoberta 
dos segredos. 

Não se desmereceu todavia da argúcia policial, accirrada ás 
probabilidades tristes da derrota democrática e o fogo devorou a 
papelada, não fosse ella indiscreta base fornecer ás presumidas 
perseguições das horas más. 

Entretanto, regressava d'uma inútil peregrinação tendente a 
trazer officiaes para o campo da sedição, o alumno da Escola Po- 
lytechnica, Fernando Luiz da Silva Mendes. 

Com outros condiscípulos, sahiu de novo, d'essa vez a pro- 
curar informes da armada. 

Por outros vinham todavia. 

Foi no ponto culminante da lucta com a bateria de Queluz, 
que trtz enviados dos combatentes da marinha chegaram para 
sollicitar auxilio da Rotunda. 

Indecisa ainda a victoria, os delegados do quartel de ma- 
rinheiros, os revolucionários Jayme Teixeira, Mário Malheiros e 
Estevam Pimentel, vinham encarregados de pedir o avanço de 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 1T 

uma parte da columna sobre Alcântara, afim de rechaçar os- 
defensorcs das Necessidades. 

O primeiro, fazia entrega ao commandânte da Rotunda d'um 

bilhete a lápis, assig-nado pelo t.° tenente António Ladislau 

Parreira, que succintamente expunha a conveniência da sortida. 

Machado Santos, de reiance avaliou a impossibilidade de 

satisfazer o pedido. Recusou. 

Sem querer, ganhara nova partida, eliminando essa platafor- 
ma para a derrota, offerecida, sem boa analyse, pelos defensores 
do quartel de marinheiros. 

O abandono da Rotunda, essa posição, que se mostrava invul- 
nerável ou pela defficiencia das torças fieis ou por uma especial 
táctica de adherencia, significaria um abdicar da realisaçao do 
ideal democrático e a demonstração d'um inútil sacrificar de 
vidas. 

Todavia, Machado Santos, para que julgada não fosse a sua 
intenção como acto de abandono, chamava a conselho, n'uma 
barraca da feira, o alferes Alberto Camacho Brandão. 

Sereno, como se o não molestasse o tiroteio das torças acam- 
padas nos altos da Penitenciaria, desenrolou ante o outro official 
um plano da cidade, pelo qual acompanhou o roteiro da Avenida 
a Alcântara. 

Deixar esse posto, significaria o modo pratico de sujeitar a 
columna volante a um destroço e a Rotunda a um assedio, insus- 
tentável pela falta de mais oíficiaes e pela diminuição do effectivo, 
já de si escasso. 

Ao alferes Camacho Brandão, participava a opinião, logo 
acatada e definida, de ser de péssima táctica o abandono do ba- 
luarte. 

Se não era precisamente um ponto intomavel, julgavao o 
povo de impossível vencida e a crença duplicava lhe a força. 
Assente ficava a recusa á proposta do tenente Parreira. 
A' pressa redigiu a resposta, logo entregue a Jayme Tei- 
xeira, e por elle depois depositada nas mãos do i.° tenente Par- 
reira, a bordo do Adamastor. 

«Impossível avançar Alcântara visto não abundar a infanta- 
ria, antes pelo contrario,*com que possamos apoiar as peças. Bate- 



78 ARMANDO RIBEIRO 



remos Rocio quando bombardearem Terreiro do Paço. Estamos 
em combate desde madrugada». 

Machado Santos, dizia-lhes ainda, para appressar a juncção 
dos revolucionários do quartel de marinheiros com os da Ro- 
tunda e de novo justificava o íacto de não effectuar o ligamento, 
sahindo eile do seu posto: 

— Digam-lhes lá bem alto, para que todos os oiçam, que me 
encontro aqui sosinho com um oiíicial de artilharia! 

Âllegando a estada única de um oiíicial, ignorava ainda 
Machado Santos, que outro ali se encontrava, tacto só por clle 
conhecido ao terminar do combate das baterias; 

«Tendo notado a solicitude que um individuo estava mos- 
trando pelo gado, soube que era o tenente picador de artilharia 
I, António Celestino de Sousa Ccrrêa, que nada sabendo do mo- 
vimento, sahira de casa, entrara na Rotunda e lá ficara, volunta- 
riamente, prestando nos o seu valios oconcurso não só em com- 
bate, como na protecção aos solipedes. (*) 

De ha muito ali se encontrava porém o tenente, percorrendo 
o acampamento na sua missão, antes mesmo do ataque das bate- 
rias, e até da retirada dos ofSciaes na manhã de 4. 

Para desempenho do seu encargo deixaram os três emissários 
a Rotunda, indiferentes ao perigo e conscienciosos no serviço de 
communicações que, á victoria obtida, lhes trouxe o premio de 
altos cargos. A Estevão Pimentel, ia o logar de governador civil 
do districto de Évora; a Jayme Teixeira, o de secretário da 
administração do 3.° bairro e a Mário Teixeira Malheiros, o 
de conservador do registo civil. 

Ao abandonar do campo assediado pelo íogo da artilharia de 
Queluz, ainda os emissários sentiram echoarlhe aos ouvidos, a 
seguinte phrase enérgica de um popular, como protesto á phrase 
quasi desconsoladora do chefe do acampamento: 

— E que a gente entrega mais íaciímente a pelle que as 
armas! 

E, como que secundando o brado, de novo desfechou a es- 
pingarda para os altos da Fenitenciaiia. 



(*) Relatório — pag. 82. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 79 

Desde essa hora começou a desvanecer-se o aspecto d'um sa- 
crifício, a transtormar-se no reflexo de uma esperança. 

O ataque das baterias foi abrandando. Era ali o momento 
critico das novas dispersões. 

Redobrando de enthusiasmo, os insurrectos proseguiram a 
lucta. 

O tiroteio afírouxou mais e em breve registado era da Ro- 
tunda, o recuar da força de Queluz, e sua retirada. 

O alto da Avenida representava sem duvide, um ponto si- 
tiado, e de difficil manutenção seria se, de facto, virtualmente 
assim fosse considerado, e não sob um patente platonismo. Conv 
tudo, por extranho dictame da sorte, eram os envolventes que 
se submettiam. 

Isto deu justiceiros foros ao jubilo grande. 

A força de Queluz, até esse tempo assumira para o campo 
de rebeldia as porporçÕes de um coílosso. 

O nome de Paiva Couceiro, impunha o receio, e instincti- 
vamente o convencimento de que só d'elle podia partir um ata- 
que violento, livre de convencionalismo. 

O retrocesso, mais que a victoria de momento, constituiu 
um golpe no animo de quantos dispostos estivessem a auxiliar 
a monarchia e um soerguer da coragem nos revolucionários. 

A promettida proximidade de juncçao com os marinheiros 
maiores alentos trouxe ainda. 

O dr. Malva do Valle, o único membro do Directório do 
Partido Republicano que até á Rotunda deitou e que dentro 
d'ella assistiu ao duello com as baterias só conseguiu exprimir 
n'um forte aperto de mão a Machado Santos, o contentamento 
d*essa hora de ventura. 

Malva do Valle, ao ganho lance, iria a deputado, e a com- 
missario do governo, junto do Banco Nacional Ultramarino. 

Mais tarde, a quasi quatro annos de distancia d'essas fortes 
commoçoes da lucta, vel o hemos no grupo collossal dos desillu- 
didos e bradando em plena camará dos deputados (sessão de I S 
de junho de 1914) durante a discussão de um projecto reorga- 
nisador das assembléas eleitoraes de Alcobaça: 

«Esta corja está a provocar. Esta cambada precisa ser le- 



80 ARMANDO RIBEIRO 



vada a tiro! Ha entre nós e elles um equivoco que tem de des- 
fazer se em sangue, e o melhor é começarse já, Eu que não 
íugi da revolução, respondo por mim, também não fujo!» (*) 

Era presidente do governo, o dr. Bernardino Luiz Machado 
Guimarães. 

A alegria, justa áquella hora de êxito, patenteava-se exhube- 
rante. 

Machado Santos, no auge d'essa expansão de enthusiasmo e 
crente de que os soldados realistas haviam batido em retirada, 
pois ignorava a ordem do general António Carvalhal da Silveira 
Telles de Carvalho, escreveu uma carta ao commandante da di- 
visão, general Manuel Raphael Gorjão, convidando-o a pôr termo 
ás hostilidades. 

Ultimatum delicado era, e um portador seguiu com elle, para 
que, satisfeito, sem mais victimas se erguesse o estandarte da 
Republica. 

A carta não dava entrada no quartel general : 

aFoi uma verdadeira victoria! A muito custo consigo escre- 
ver uma carta ao general Gorjão, convidando o a cessar a lueta. 
No dia seguinte soube pelo próprio general, que a carta não lhe 
tinha sido entregue. A carta íôra confiada a um popular que, ou 
morreu, ou se desinteressou do assumpto. d (**) 

Nas primeiras horas da implantação da republica, duas ver- 
sões correram: uma, dava o popular como um dos mortos da 
Rua de Santo Antão, (•**) e outra, como não entregue a carta no 
quartel general, por suspeita de que ella contivesse intuitos de 
submissão ás tropas realistas. 

Parece, porém, que mais base teve o primeiro boato. 

Inutilmente esperou pois Machado Santos a sonhada franca 
capitulação do quartel general. 

A esse tempo, porém já haviam eífectuado uma notável es- 
capada pelo tunnel da estação do caminho de íerro do Rocio até 



(*) Não o cita, como era de prever, o Summario da Sessão n.° 119 da 
da Gamarados Deputados, em 15 de junho de 1914. Reproduziu-o, porém, 
em 16 e 17 toda a imprensa de Lisboa, entre ela o Dia e o Intransigente 
de 16. 

(#*) A Bcvolução Portuguesa— Relatório de Machado Santos, pagina 80. 

(###) Actual Rua Eugénio dos Santos. 



\ REVOLUÇÃO PORTUGUEZA Si 

Campolide, algumas praças de caçadores 5 e infantaria, allicia- 
das estas pelo mestre de corneteiros, Joaquim António Cochicho 
e aquellas pelo i.° cabo 3<\ da 5. â companhia de caçadores 5, 
José d'Almeida Diniz. 

Pelo ardil e pelo porte em combate, foi elle proposto por 
Machado Santos para a promoção a 2.° sargento, apparecendo 
incluido na respectiva lista da ordem do exercito publicada a 
22 de novembro de 191 o. 

Pelo mestre de corneteiros Joaquim Cochicho se soube na 
Rotunda, o quebrantamento moral dos regimentos que a asse- 
diavam e a tareia do tenente José da Ascenção Valdez para con- 
duzir a força do seu commando a um completo destroço ou a 
um auxilio unanime ao baluarte da Avenida. 

Abandonando o edifício das cortes, de abalada vieram egual- 
mente até ao reducto com o i.° sargento José Marcellino Santos, 
12 praças de infantaria 16. 

Marcellino, ao conseguido fim da revolução foi indicado para 
ascender ao posto de alferes na arma a que pertencia. 

A desesperança da falta de resposta do quartel general, e 
as noticias optimistas trazidas pelas fugitivas praças de infanta- 
ria 5, fizeram com que o commissario naval ordenasse algumas 
descargas sobre os vultos dos soldados que fechavam a emboca- 
dura da Avenida. 

O retrucar foi frouxo e sem que intenção se tivesse de per- 
turbar esse crescente jubilo do Alto da Avenida. 

Augmentou-o ainda o revolucionário José Augusto dos San- 
tos, expondo o aspecto pouco firme do quartel general e o bello 
effeito ali produzido pela sua phantastica descripção (*) do acam- 
pamento da Avenida. 

Como se isso servisse de evocação, e como que por encanto 
a Rotunda repovoou-se. 

Assignala o refluxo, Machado Santos, no seu órgão jornalís- 
tico, (**) post Republica: 

«Faz hoje dois annos que no alto das terras do parque Eduar- 



(#) Mencionado no capitulo precedente. 

(##) O Intransigente de 4 de outubro de 1912. 

VOL. 1Y — FL. li 



82 ARMANDO RIBEIRO 

do Vil começaram a brotar os heroes, como as ervas damni- 
nhas dum vasto campo de cultura! 

«A's 1 1 horas da manhã a praça do marquez de Pombal 
era um mar de cabeças humanas; mas quando a fuzilaria e as 
granadas de Queluz se fizeram ouvir ... ai pae do céu! — com 
perdão do sr. Afiíonso Costa — sempre a maré vazou com tal ra- 
pidez, que ainda hoje não sabemos por onde tanta gente se con- 
seguiu escoar. 

«Ganha a primeira victoria, era vel-os de novo a pejar a 
praça! A* noitinha, nem meio! Se acaso se não taz a ocupação 
do Quartel General nem sequer os do dia 6 apareceriam hoje. 
Sempre haviam de ser um poucochinho mais thalassas do que 
thalassas nós somos hoje.» 

O contrario tegistam depoimentos da occasiao em que não 
se haviam ainda subdividido em opiniões e malquistado es in< 
terferentes do maior lance de ataque que a Rotunda teve. 

Vejamos as anotas de um revolucionário que seguiu todas 
as fases do combate» : 

«O duelo da artilharia foi renhido e demorado. Entretanto 
ninguém se afastou um passo dos seus postos e entrou no espi- 
rito de ninguém o mais leve esmorecimento. O comandante 
Machado Santos, sempre a cavalo, de espada desembainhada, 
corria de um lado a outro, vigiando todas as posições e per- 
manecia, de preferencia, no alto onde a artilharia se batia com 
a de Queluz, expondo-se temerariamente.» 

E* certa todavia a evasão civil e até militar aos momentos 
de mais intenso tiroteio pela columna disposta junto aos muros 
da Penitenciaria. 

Confirmando a sua retirada, que obedeceu, como já vimos, 
não a uma derrota, mas a uma ordem de abandono do local 
combativo, e mal recebida pelo capitão Paiva Couceiro, — che- 
gou o empregado commercial Fortunato Espada, com alguns po- 
pulares. 

Conduziam dez armões, entregues por praças fugitivas. 

Descreveram elias a dispersão da soldadesca de infantaria 2, 
de serventes da guarnição de Queluz, e até a espectativa de va- 
ria da officialidade. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 83 

Bem acceite foi essa entrada dos foragidos. 

O acto, comtudo, teve certa base: a influencia do desanimo, 
da desorientação e até da fome. 

As praças encontradas a meio do caminho por revolucioná- 
rios civis, e andando quasi desfallecidas, pelo cansaço e pela 
taita de alimento, ingressavam na Rotunda, para refazer 
torças! 

Algumas, achara-as na Rua Açores, o revolucionário Am- 
brozio Sengo. 

Deixando a>linha de fogo, endireitavam ao quartel general, 
mal podendo suster se. 

O popular tez o alliciamento, duplamente atendível. 

Ao regimen tirava esses defensores. quasi inertes, e á repu- 
blica, trazia, sob o aspecto humanitário de um saciar de fome, 
um troço de auxiliares, ao retemperamento, preciosos. 

Assim, de agrado ingressavam no acampamento, que pre- 
tendiam antes combater! 

Foi essa singular phase que coroou o terminus do primeiro 
assalto das baterias. 

Uma das causas do desastre d'estas, foi o não unitário ata- 
que da Rotunda, aliás esperado pelo capitão Paiva Couceiro, 
julgando que, durante a sua manobra, incessante e firme, uma 
investida séria pelas forças do Rocio, o auxiliariam eficazmente. 

Pouco se fez. 

Desde a registada paragem da columna mixta por Sete Rios, 
até á sua retirada dos altos da Penitenciaria, apenas distantes e 
ligeiras escaramuças se realisaram. 

Deu se um ataque por caçadores 5, com permuta de tiro- 
teio, sem largo alcance. 

Por seu turno, a municipal, de momento na Avenida, re- 
produzia o alarme, fazendo fogo perdido para o alto de S. Pedro 
de Alcântara, onde o povo se accumullava. 

Era uma revindicta e uma prevenção contra elle. 

Os insurrectos haviam-nas justificado com ardil, que em 
improductivo deu. 

Um caldeireiro, de 22 annos, morador no pateo do Manuel 
Padeiro, ao Poço do Bispo, simulando uma traição, insinuava 



84 ARMANDO RIBEIRO 



á guarda municipal que estava na Penitenciaria um pretenso 
lado vulnerável da Rotunda. 

A tropa cedeu. 

A emboscada estava feita e em certo sitio cahiu em pleno 
centro de actividade revolucionaria, sendo o núcleo da guarda 
dispersado. 

Antes, ao iniciar da lucta, tinha, porém, o caldeireiro o pre- 
mio do traidor estratagema e um dos soldados esphacellava-lhe 
a cabeça com dois tiros, dando entrada, já morto, no posto da 
Misericoidia. 

Ainda pela guarda municipal um rasgo de audácia houve. 

Aproveitandose da investida das baterias, tentavam (orçar 
o acampamento, resistindo sempre, com o seu punhado de ho- 
mens, que pareciam multiplicar-se, impondo a iilusão de que 
centenares de revolucionários ali sacrificavam a existência, afta- 
gados pela bandeira verde e vermelha da Republica. 

Um pelotão, apoz o abandono da residência do conselheiro 
Teixeira de Sousa, passou, sob o commando d'um capitão, pelas 
alturas da Rotunda, querendo efectuar o seu reconhecimento. 

Vigiando sempre, os revoltosos punham tudo em debanda- 
da, sendo levada á Rotunda a noticia falsa, de haver ficado no 
campo, morto, o commandante da força. 

A um desordenamento se reduziu, porém, o feito, (*) e a força 
apta se julgou para seguir na segunda columna, a que foi ao en» 
contro do coronel Alfredo Albuquerque. 

Todavia, nenhum d'esses lances, por isolados e de diminuta 
violência, podia constituir um auxilio á lucta pelas baterias. 

Só estas pois representavam o pesadello do campo rebelde, 

Só ellas symbolisavam, por assim dizer, o gladio que po- 
deria decepar, de golpe cerce, todas as esperanças em reivindi- 
cações republicanas. 

Temido sempre foi a envolvente. 

Esse temor justo e observado por quem mediu consequências, 
teve reflexo no capitão Sá Cardoso dizendo nas annotaçÕes (n,° 
li) ao relatório apresentado no ministério da guerra: 

«Que se teria passado na manhã de 4, se, precedendo um 
ataque envolvente á Rotunda, as peças do grupo a cavallo ti- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 85 

vessem occupado algumas das alturas e metralhado d'ahi a co- 
berto os revolucionários da Rotunda? 

«Pode fazer-se uma ideia approxirnada, sabendo-se que, 
quando na madrugada de 5, uma peça do grupo tomou posi- 
ção no Thorel, a artilharia dos rovolucianarios, então em posi- 
ção no alto do Parque Eduardo VII, não podendo descortinar 
d'onde vinham os projecteis com que estava sendo batida, fez 
fogo para o Gastello, para o Thorel, para S. Pedro de Alcântara 
e para o Carmo.» Vide A 'Democracia de 28 de novembro. 

Reconheceu-se portanto ganho e com jubilo o antevisto acto 
de risco, á retirada da columna do Alto da Penitenciaria. 

O general António Carvalhal, dera alem, com a ordem de 
retrocesso, uma dupla feição aos successos. 

Tirando um pouco de coragem aos quasi raros soldados 
dispostos a combater pela monarchia, insuflou animo áquelles 
que pela republica se batiam. 

O epilogo, singular, da lucta com as baterias, exprimia, de 
facto, para a Rotunda, o prodomo da sua victoria. 




(#) Citado a paginas 25 d'este volume. 






^ 










XXIV 
O ataque das baterias 

Procurando convencer — Da Rotunda alveja-se o Rocio 

— O eíFeito das granadas — E' derrubada a coroa mu- 
ral do monumento dos Restauradores — A granada 
artística — Falso boato de novo ataque das baterias 

— Surgem mais auxiliares — Em prol da revolução — 
A guarda municipal e a policia — Scenas das ruas 

— Ainda as granadas do «S. Raphael » — O jornalismo 
ante esse dia de revolta. 




evidente supremacia nascida da retirada das 
baterias, levou á Rotunda, com um verdadeiro 
enthusiamo, a anciã de mais largo emprehendi- 
mento. 

Julgando-se os successos do alto da Peni- 
tenciaria, prenuncio seguro de uma rendição 
geral — presumpção confirmada pela remessa 
.do já conhecido ultimatum ao quartel general — tratou se de 
preparar uma adherencia completa com os eííeitos do iniciado 
bombardeamento. 

Serviria para temor de traços e para auxilio aos que se não 
quizessem render sem simulada vencida. 

Da Rotunda, tez- se pois togo vivo sobre o Rocio. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 87 

Procuravase rasgar caminho. 

O povo, conhecedor do que se planeava, agrupavase enco- 
berto com as esquinas, aguardando a hora de manobrar. 

Apoz a primeira granada, vinda do Alto da Avenida, a mi- 
litança, procurava subtrahir-se á metralha que veio espalhar-se 
ao longo do primeiro e segundo quarteirão da Rua Augusta, 
indo parte attingir os vidros e portas de janellas do 3.° andar 
do prédio 5"] da Rua da Assumpção, contornando para aquella 
rua e víctimou no 4. andar, Francisco Ferreira da Silva, estu- 
dante, que estava á janella, e que os populares, aos gritos da 
família, humanitariamente foram buscar, e conduziram ao hos- 
pital, d onde sahiu dias depois. 

Querendo aproveitar essa lufada feliz, da Rotunda se pro- 
seguiu o ataque. 

As granadas, iam lazer rombos nas paredes, torcer as gra- 
des e partir os vidros das janellas do Hotel d'Inglaterra. 

Os dois prédios seguintes, os 3l e 43 da Rua do Jardim do 
Regedor, softriam bastante e se no primeiro, as balas de artilha- 
ria abriam buracos, na parede, no segundo iam fazer em esti- 
lhaços as trez janellas do consultório dentário Ferreira Pires, 
onde entrou uma granada que, explodindo, quebrou moveis, 
partiu espelhos, derrubou e torceu os apparelhos cirúrgicos. 

Outra bala de artilharia ia cahir no beiral de um prédio da 
Rua das Gallinheiras quebrando os vidros das janellas, e reben- 
tando no chão onde deixava um rasto amarello com fundos tra- 
ços do trajecto. 

Laborioso trabalho exerciam junto de dois candieiros, dos 
que rodeavam a base do monumento dos Restauradores na 
parte occidental. 

As columnas, rasgadas á passagem das balas, como que fo- 
ram reproduzindo, simetricamente o seu diâmetro, em escala 
regular. 

Os candieiros, cuiiosos, pelo aspecto da sua apresentação, 
ali se mantiveram até ingressarem (12 d'outubro de igio) no 
museu dedicado ás curiosidades revolucionarias, sendo apenas 
recolocados, apoz reparações, a quasi quatro annos d'esses sue- 
xessos (Março de 1914.) 



ARMANDO RIBEIRO 



Antes, já outro notável incidente se dera. 

N'elle se evidenciou uma prophecia desfavorável á realeza. 

Pelo meio dia, o cabo José Martins, á descarga feita pelas 
tropas que cercavam a Avenida, disparou a peça. 

Julgou-se simplesmente attingida a parte alta do monu- 
mento aos heroes de 1640, mas outra symptomatica indicação 
do futuro operava a bala, como se guiada fosse pela invisivel 
mão do destino. 

Deixando tudo incólume, apenas derrubou a coroa mural 
do escudo das armas da cidade, collocada no terço superior 
do monumento. 

O projéctil, que se presumiu auctor do feito, rebentara egual- 
mente sob caprichosas formas, semelhando uma flor de acantho. 

Colhido junto ao local onde estoirara, constituiu exemplar 
celebre assignalado por uma chapa de ouro com a inscripçao : 
Recordação da revolução que implantou a Republica em Por- 
tugal — 4- IO- 10. 

Cognominada toi ainda de a granada artística. 

Mas nem só inanimadas cousas sottreram os resultados d'esse 
ataque destinado a convencer indecisos ou cautellosos. 

Alguns revolucionários eram igualmente victimas e quando 
um d'elles, pelas 4 horas da tarde, ia a atravessar a linha de 
togo, derrubavao um tiro na cabeça. 

Attingido foi um dos assaltantes do quartel de infantaria 
16, Aggripino Thomaz de Oliveira, filho de Rachel Jesus de 
Oliveira, de 18 annos, pedreiro, natural de Óbidos, morador 
na Travessa de Cima dos Quartéis, 12. 

Uma bala, entrando-lhe no peito, feriao gravemente, não 
o impedindo de conhecer a coroação dos seus esforços em favor 
da causa democrática, de que não chegou todavia a ter mer- 
cês. 

Fallecia no hospital de S. José, na manha de 1 1 de outubro 
de 1910. 

Outro íerido, grave, mas encorajado, foi José Pereira de 
Araújo, de 20 annos, natural de Arcos de Valle de Vez, cai- 
xeiro, morador na Rua dos Anjos, 172 -i.°, que alcançado por 
três balas, de rastos se conseguiu collocar atraz de uma arvore, 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 8i* 

onde ficou, estorcendose, até ser erguido por outros populares, 
que o levaram ao hospital. Ali lhe foi amputada uma perna. 

Não obstou isso todavia a que o povo, indilferente a esse 
comprovado perigo, procurasse aproveitar o desanimo na solda- 
desca, provocado pela perda de alguns dos seus, attingidos pelo 
fogo da Rotunda, e transitando d'ali para o quartel general 
e d'este, no carro de saúde com a Cruz Vermelha, para o hos- 
pital da Estrella. 

Aos gritos de viva a republica buscavam disseminal-os 
ou attrahií-os. 

Retrahiam-se elles, porém, embora a poucos passos se en- 
contrarem d'uma acquiescencia, devida á attitude popular ener- 
vante, absorvente, intuitiva, conduzindo-os a fraca resistência. 

A* imprensa vieram os echos de uma segunda tentativa de 
marcha sobre o Rocio, efíectuada por uma bateria e com popula- 
res armados ad libitum, com caçadeiras, revolvers, pistolas e 
paus. 

Confundiramse as intenções do povo, tendentes a promover 
uma juneção entre o exercito e a revolta, com a organis8ção da 
columna disposta a exercer directo e próximo ataque ás forças 
que fechavam a Avenida. 

Não o mencionam todavia as obras destinadas a servir de 
guia aos historiadores, pelos nomes de confiança que as fir- 
mam. 

Não o registou Machado Santos, no seu relatório, e o mes- 
mo faz Gonzaga Pinto, não citando ainda o caso nenhum dos 
depoentes que figuram no trabalho do segundo. 

O boato ao quartel general chegou e d'ahi um serviço de 
investigação confiado ao tenente do 3.° esquadrão da guarda 
muninicipal, Raul de Menezes, ao seu regresso da estrada da Pi- 
menteira, até onde commandára a escolta a D. Manuel II. 

Ratificou elle o desmentido a quantos affirmavam efectuada 
a "tentativa, por confusão com a retirada de manhã e ainda 
pelo iance catechisante a que se quiz expor a populaça, obede- 
cendo ás velhas theorias ensinadas por Machado Santos logo 
apoz a fuga dos officiaes. 

Esclarece pois assim nitidamente o incidente, o tenente 

VOL. IY — FL. 12 



90 ARMANDO RIBEIRO 



Raul de Menezes, referindo a sua chegada ao quartel general: 

«Ali íui incumbido de ir saber se effectivamente as torças 
da Rotunda tinham descido até á rua das Pretas, o que averi- 
guei ser mentira». (*) 

Por essa hora, o acampamento revolucionário, contava com 
o auxilio de vários otficiaes e aspirantes dispostos ao combate 
pela republica : o tenente do quadro de reserva, Fernando Mauro 
da Assumpção Carmo, o alferes de artilharia de reserva, Carlos 
Ludgero Antunes Cabrita, o aspirante de infantaria 1 6, José Fer- 
nandes Soares, e os cadetes Humberto de Athayde Ramos e 
Oliveira, Manuel Fernandes Beirão e Viriato Correia de La- 
cerda. 

Cabrita foi o principal organisador dos grupos de estudan- 
tes revolucionários, não realisados aliás á precisa hora, mercê 
de dessidencias que Machado Santos patenteia a paginas 121 
do seu Relatório: 

«Entre os alumnos da Escola do Exercito conseguiu entre- 
metter-se um estudante paisano sob promessa de sentar praça, 
que nunca cumpriu. Este personagem ambicioso do mando, 
não viu com bons olhos a chefia de Cabrita e teve artes de 
escangalhar a magnifica organisação e de se fazer passar como 
seu principal elemento perante João Chagas. O diabo não quiz 
nada com rapazes e os alumnos da escola do exercito, foram de 
toda a organisação revolucionaria, os que mais me arreliaram,, 
por muito apreço lhes dar.» 

Antunes Cabrita, depois um dos grandes defensores (**) de 
Machado Santos durante a campanha contra este feita, era á 
victoria obtida, passado, no mesmo posto de tenente, ao quadro 
activo do corpo de almoxarifes de engenharia e artilharia, sem 
prejuízo de antiguidade. 

Mais tarde capitão, não se salvou de ser accusado de conni- 
vencia na tentativa de golpe de estado de Janeiro de 1912. (***) 

Dos outros, Humberto de Athayde, íôra um dos destinados 



(#) O Século de 15 de Outubro de 1910. 

(*#) O Intransigente de 4 de Outubro de 1912. Na sua altura será sa- 
lientada essa defeza. 

(###) Vide documento de paginas 347 do 3.° volume d'esta obra. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 9t 

a dirigir o assalto ao castello de S. Jorge, preterição mallo- 
grada como já vimos. 

Manuel Fernandes Beirão e Viriato Correia de Lacerda aju- 
daram egualmente a propaganda na Escola. 

Os três, ante a impossibilidade de evitarem a acção d'esta, 
promoveram a abalada até a Rotunda, aproveitando a noite es- 
cura, sendo com jubilo recebidos no campo de rebeldia. 

De todos, porém, só um synthetisaria mais tarde, o maior 
escolho á aureola de gloria em que toi envolvido o nome de 
Machado Santos. 

Era o tenente Mauro do Carmo. 

Dado foi como o commandante da Rotunda, a um pretenso 
affástamento do logar pelo commissario naval e elle próprio não 
desdenharia orientar, n'esse sentido uma campanha, que a seu 
tempo será relatada. 

Vinha ainda participar das previstas más consequências, 
outro agaloado. Vendo o constante vacillar de tropas, entrava 
na Rotunda, um dos otficiaes que tinham o seu nome ligado ás 
phases iniciaes da conjuração, o tenente de caçadores, António 
Pires Pereira Júnior, ao qual foi entregue o commando central, o 
da Praça Marquez de Pombal, com o auxilio do tenente Fer- 
nando Mauro do Carmo, alferes Camacho Brandão e Carlos 
Ludgero Antunes Cabrita, tenente picador Correia e os cadetes. 

Para premio ao novo combatente, sairia mais tarde, Repu- 
blica victoriosa, apresentado pelo delegado ás Constituintes, In- 
nocencio Camacho Rodrigues, um projecto de lei (*) onde se 
incluía o nome de Pires Pereira, em lista para a concessão do 
grau de grande ciliciai da Ordem da Torre e Espada, com a 
pensão de 900^000 réis. 

Ao não seguimento, correspondeu, posteriormente, era pre- 
sente na camará dos deputados, por António Granjo, o seguinte 
projecto de lei, que para segunda leitura ficou: 

«l.° E' concedida ao tenente de infantaria António Pires 
Pereira Júnior, e igualmente ao tenente de artilharia Alberto 



(#) Assembleia Nacional Constituinte — Sessões n. 0§ 16 e 18, de 7 e li 
de Julho de 1911. 



92 ARMANDO RIBEIRO 



Camacho Brandão, a pensão anual e vitalícia de i:200$oooréis, 
livre de todos os descontos, pelos serviços relevantes prestados á 
Republica nos dias 4 e 5 de outubro. Art. 2. Fica revogada a. 
legislação em contrario.» (*) 

Machado Santos, com uma parte da infantaria ia estabele- 
cer-se no alto das Terras, defrontando o quartel de artilharia l r , 
para seu appoio em caso de assalto. 

Reorganisou se o serviço de segurança, pela fixação de postos> 
avançados e vedetas, desenvolvendose até aos iogares distantes 
do acampamento, como o Campo dos Martyres da Pátria, onde 
era dirigido o serviço pelo carbonário, secretario da commissão 
paroquial republicana da freguezia do Coração de Jesus, António 
Marinho Marques. (**) 

Preparando as precauções para obstar a qualquer inesperada 
sortida, promoveuse a quietitude de alma na populaça que a 
dentro do acampamento, se principiava a entibiar com o pro- 
gressivo descer das nocturnas sombras. 

Para animo não só aos internos combatentes, como para 
assegurar a boa vontade dos que erravam pelas ruas, rez-se sa- 
lientar o desembarque, próximo, dos marinheiros para atacar asv 
forças fieis, e emissários d'essa nova, transitando sem embaraço, 
foram três estudantes militares, armados de espingarda. 

Percorrendo as redacções, fallando aos grupos, incitavam, 
ante a benévola vista dos que atacavam a tiro os devotados da 
democracia, tolerando-lhe comtudo a desassombrada propa- 
ganda. . . 

Essa attitudt singular, pode-se todavia filiar na intensa 
vontade de não dar a cada campo a nota llagrante de uma trai- 
ção absoluta. 

Para propaganda ainda, tezse também descer a Calçada 
de S. Francisco, até perto das tropas, para logo retroceder, uma 
ranchada de creanças acclamando a republica. 



(#) Diário da Camará dos Deputados, 67.* sessão, em 7 de Março 
de 1912. Pagina 5. 

(#*) Falleceu a 15 de Janeiro de 1911. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 93 



N'um desespero, quasi só a policia e a municipal se mul- 
tiplicavam para estorvo a torrente avassaiante da revolta. 

A policia procurava ainda, audazmente, entravar a marcha 
dos rebeldes. 

Perto da Avenida, um agente, assaltado, resiste, a tiro. 

Os populares, comtudo, caniram-lhe em cima, algemaram- 
no e levaram-no preso até á Rotunda, d'onde sahiu livre, com a 
tarda vestida do avesso. 

Do acampamento gritavamlhe: 

— Vae dizer aos teus que os republicanos não são assassinos ! 

Pouco antes, haviam dado ingresso no governo civil, entre 
uma escolta de 28 agentes, 10 populares que tinham feito uma 
tentativa de ataque a um quartel. 

Procurando resistir, fizeram explodir uma bomba que ape- 
nas attingiu o seu possuidor, ferido gravemente no rosto. 

A attitude policial, forçou a medidas radicaes. 

Posta em destaque a inconveniência de se manter, embora 
desguarnecida, a esquadra do Rato, tão próxima da Rotunda, 
um troço de populares, armados de picaretas, assaltaram-na e 
arrazaram-na aos gritos de viva a republica. 

Foi n'essas alturas, que uma bomba explodindo na Rua Ba- 
rata Salgueiro, íeria quatro civis, sendo um d'eiles, em peor 
estado, transportado ao hospital sobre uma porta tirada da es- 
cada de um dos prédios da Avenida. 

Continuava, por sitios vários, o ataque a outras esquadras 
e entre ellas, á da Rua do Loureiro, onde reduzido a fragmen- 
tos ficou todo o mobiliário, exemplo baseado no assalto á do 
Beato, destruida, mas não sem lucta grave. 

A municipal detinha por seu turno, pela tarde, no largo de 
S. Roque, o jornalista revolucionário, redactor da Capital, Fran- 
cisco Xavier Carregal da Silva Passos, logo encerrado no quartel 
do Carmo, ante a apprehensao d'uma pistola automática 

O chefe do grupo civil A Redempção breve era restituido 
á liberdade, indo, ás primeiras horas da noite, auxiliar a defesa 
da Rotunda. 

O povo, sempre ousado, procurava não deixar em descanço 
a soldadesca, tentativas ás vezes a mau terreno conduzidas. 



ARMANDO RIBEIRO 



Um troço de populares, postando se á esquina da Travessa 
de S. Nicolau, combinava uma acção sobre a tropa do Rocio, 
quando esta, percebendo-os, lhes mandou intimação para retirada. 

A* desotediencia correspondeu logo uma descarga, ficando 
feridos alguns civis. 

Outro grupo, toi postar-se á embocadura da rua dos Cor- 
reeiros, para a Rua das Gallinheiras, acenando ás praças para 
que o seguissem. 

Surprehendidos por uma vedeta de infantaria,' esta fez fogo 
sobre os imprudentes, fugindo, encobertos pelas portas, ao toque 
de corneta, que determinava uma descarga. 

N'outro ponto iam exercer a acção, sempre intemeratos e 
arrojados, indifíerentes a quanto se conhecia sobre victimas já 
havidas. 

Por essa hora, já os boatos, assignalavam a existência de 
80 mortos e mais de 200 feridos, assestando como immolados 
principaes, soldados da guarda. 

Visando a incitamento dava-se como estabelecida no acam- 
pamento da Avenida, communicaçao pela telegraphia sem 6os, 
com os navios de guerra, os quais não tardariam a bombardear 
a cidade. 

Novos terrores semeou portanto o cruzador tS. Raphael» 
surgindo em frente do Terreiro do Paço. 

Desde logo se pensou que iria executar o plano envolvente 
conbinado na Rotunda. 

Todavia, o navio, apenas fazia os tiros para desalojamento 
da municipal postada nas arcadas junto dos correios e minis- 
tério das obras publicas e enviava duas granadas ao Rocio, ras- 
gando ellas caminho pela Rua do Ouro, 

De cima, da Praça de D. Pedro, veio a inútil resposta. 

Se escapava, milagrosamente, uma força de policia armada 
de carabina, que sob o commando do capitão Craveiro Lopes, 
regressava do quartel de engenheria onde tora buscar armas 
e munições, o mesmo não suecedeu ao electricista Arthur da 
Costa Machado, de 40 annos, morador no Becco das Farinhas, 
3, loja, e ao compositor typographico, Hypolito Ferreira Fialho, 
de 42 annos de edade. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 95 

O primeiro, que seguia pelo passeio opposto áquelles por 
onde iam os agentes, ficou logo morto, com os intestinos de 
íóra. 

O segundo, levado ao hospital da Misericórdia, ali vinha 
a fallecer, sendo sepultado no dia 9. 

Ferido era ainda José de Assumpção, de i5 annos, natural 
de Lisboa, morador no Becco dos Corvos, ig, i.°, escapando 
outro menor que com elle ia. 

Ao explodir da granada, corresponderam ainda vários tiros 
indo um esphacellar os miolos de António da Silva Bacellar, 
de 3o annos de edade, descarregador de carvão, solteiro, natu- 
ral de Arcos de Val-de-Vez. 

Gahiu, para não mais se erguer, junto á Papelaria Palhares^ 
espalhando-se a massa encephalica pelo passeio. 

Os tiros feitos de berdo, julgados toram prenuncio de de- 
sembarque. 

O pensamento tomou foros de realidade e tanto que, no dia 
seguinte, ainda a Lucta dizia: 

aConsta que o «S. Raphael» fez um desembarque de forças, 
no Terreiro do Paço, batendo as forças municipaes que lhe ten- 
taram fazer frente.» 

Sem que de perto se visse a marinhagem rebelde, e sem 
que se averiguasse, se de facto, as granadas eram ultimaíum 
i terra, ou abrir de caminho para avanço do Cães das Columnas 
sobre a Praça de D. Pedro, a soldadesca n'esta acampada, fez 
logo crepitar as balas sobre esses imaginários desembarcados, 
emquanto o navio seguia serena rota, para resguardo com o 
edifício da Alfandega. 

Não o sabendo, imaginado foi um lance terrível. 

A resistência julgouse impossivel, mercê mais da propa- 
ganda do que das circumstancias. 

Os soldados da revolução, animados por uma outra fé, por 
uma outra crença, mais forte, mais exaltante, tomaram maior 
íuria no seu assalto. 

Intentou-se até uma tomadia de metralhadoras de caçado 
res 5, chegando mesmo a dar-se o acto como consummado. 

Não chegou todavia d eflectuar-se esse desejo, embora dis- 



96 ARMANDO RIBEIRO 



posto estivesse á arrojada tentativa ura grupo de revolucionários 
civis. 

De espera em espera, de terror em terror, de incidente em 
incidente, a noite se foi apprcximando. 

Os jornaes ao serviço da revolta, iam levar a todas as par- 
tes o incentivo, coadjuvando as proclamações sahidas da Lucla. 

Fazendo ver um êxito completo, lançavam, sem rebuços, o 
seu pregão de animo, de envolta com a descripçao enthusias- 
tica de desastres realistas. 

A Capital dizia pois: 

«A's cinco horas da tarde, a situação dos revolucionários 
é gloriosa. As forças do governo teem sido batidas em toda a 
linha. A bateria de Queluz tentou alvejar, installando-se na Pe- 
nitenciaria, as forças revolucionarias acampadas na Rotunda. Foi 
repeliida com perdas. A cavallaria da municipal também tentou 
duas investidas sobre a artilharia e infantaria 16. Em ambas foi 
derrotada, A família real já não está no Paço das Necessidades, 
e parece que se reíugiou a bordo do cruzador brazileiro 
*S. Paulo.* 

Enérgico e intemerato, o mesmo jornal estabelecia um au- 
dacioso serviço de informe em favor dos revoltados, publicando 
não só a posição das forças fieis, e a acção das republicanas, 
como registando, para seu alento, as intenções da armada, como 
prompta a atacar as tropas realistas e que havia «communica- 
ção perfeitamente estabelecida entre as forças revolucionarias de 
terra e mar». 

Como estimulo inseria ainda em 4 de Outubro, o seguinte : 

«Lisboa amanheceu hoje ao som do troar da artilharia. Pro- 
clamada por importantes forças do exercito, por toda a 8rrnada, 
e auxiliada pelo concurso popular, a Republica tem hoje o seu 
primeiro dia de historia, e a marcha dos acontecimentos, até á 
hora em que escrevemos, permitte alimentar toda a esperança 
dum definitivo triumpho. A batalha está travada, a sorte das 
armas lançada. Cumpre encarar a situação com serenidade e 
firmeza. Mas embora os factos falem mais alto do que todos os 
commeníarios, importa consignar a attitude das forças revolu- 
cionarias, e do povo que as secunda. As tropas batem-se com or- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 9? 

dem e disciplina, como é próprio dos soldados portuguezes, e 
na cidade, apesar de inteiramente abandonada pela policia, não 
se regista o menor excesso da multidão contra individuos ou 
propriedades particulares. A lenda do saque, da barcelonada y 
do banditismo infrene está sendo desmentida eloquentemente 
pelos íactos, que se encarregam de demonstrar a sua absoluta 
inanidade, tanto tempo explorada como arma de combate poli- 
tico por parte dos defensores da monarchia. Como os órgãos do 
governo, ainda ante-hontem afifirmavan», a contenda que se está 
travando no nosso paiz decorre entre portuguezes, o que o mesmo 
é dizer livre de manchas que infamem. 

ccPor isso mesmo Lisboa, fora dos pontos onde a lucta se 
jemp c nha, apresenta um aspecto de tranquilidade e confiança que 
não deixaria de surprehender o espectador d'estes duellos trágicos 
dos povos. Pelas ruas principaes, como nos bairros mais afJastados, 
os transeuntes circulam sem pressa, sem sobresalto, sem ter- 
ror. Andam pelas ruas mulheres e creanças, giram carruagens, 
desenrola se a faina da labuta diária d'uma grande população, 
como nas condições normaes da sua existência. Lisboa, numa 
palavra, tem o aspecto dos seus dias habituacs, a que não falta 
um sol claro e doce de outomno, que a illumina de belleza e 
encanto. Não ha lição maior do que esta attitude da população 
da capital. Ella demonstra que não só não receia os episódios 
da revolução, como traduz em serenidade e confiança o seu sen- 
timento tantas vezes demonstrado de amor á causa da democra- 
cia e da liberdade. Está travada a lucta que tudo indica não po- 
der ser de longa duração. Que todo o paiz a encare, como a 
encara o povo de Lisboa, — com té e com firmeza.» 

Da imprensa monarchica não sahiram o 'Dia, da direcção 
de José Augusto Moreira de Almeida, as Novidades, do par- 
tido teixeirista, dirigidas pelo deputado João Carlos de Mello 
Barreto; e o Notícias de Lisboa, do partido Campos Henri- 
ques, sob a direcção do irmão d'esse estadista, dr. Alberto Na- 
varro. 

As officinas de impressão, estavam situadas a meio da Cal- 
çada do Sacramento, no limite da qual, estava o largo do Carmo, 
sede do quartel da guarda municipal. 

VOL. IV — FL. 13 



98 ARMANDO RIBEIRO 



Esta, em formatura e prevenção, não consentiu que as formas 
dessem entrada na casa onde se encontravam as machinas. 

Publicando se, o Correio da Noite, progressista, da direc- 
ção do deputado dr. Carlos Ferreira, dava, mas sob frouxo as- 
pecto, o movimento fracassado. 

O Liberal, órgão progressista, da direcção do dr. Alexandre 
de Albuquerque e propriedade do antigo ministro da marinha, 
conselheiro António Cabral, insinuando attitudes á soldadesca, 
dizia: 

aBastantes soldados revoltosos, arrependidos do passo que 
deram, teem-se ido apresentar aos respectivos corpos.» 

Era justificável a noticia, embora falsa. Pretendia o orgao 
progressista, apontar um caminho de regresso á defeza monar- 
chica. 

A* local respondeu, altiva, e ao lance ganho, a Lucla, es- 
quecida de que, n^quella manhã, interrogara cauta e arteira- 
mente : o que ha? 

A 5, apontando o Liberal, diria, em duas linhas já enérgi- 
cas: 

«Ora nós queremos ver quando chega a ocasião de O Libe- 
ral se arrepender do passo. . . que não deu». 

O Imparcial, que reproduzia a orientação do ministro dos 
negocies estrangeiros, conselheiro José de Azevedo Castello 
Branco, exprimiuse de forma a merecer do jornal republicano 
O Mundo, a seguinte apreciação feita á hora da victoria demo- 
crática (5 de Outubro,): 

«O Imparcial, órgão do ministro dos estrangeiros, publi- 
cou sobre os acontecimentos uma noticia que não se inspira em 
tacciosismo partidário.» 

Era a evidente derrocada, mas recebida sob a Iria attitude 
com que se esperam os lógicos acontecimentos, quer se inspirem 
n'uma desgraça quer n'uma alegria. 

A' França ia em 4, o summario dos suecessos, ali esperados 
aliás, e o Matin, com informações seguras, dizia o que em Por- 
tugal ainda a essa hora se ignorava sobre a attitude do exercito 
e da marinha: 

«Chega-nos de Portugal uma noticia muito grave: declarou- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 99 

«se a revolução em Lisboa e a marinha e o exercito colocaram- 
*se ao lado dos republicanos Eis o interessantíssimo telegram- 
ma que recebemos do nosso correspondente, pela radio-tele- 
graphia : 

(íLisboa, 4 — Declarou se a Revolução. A cidade está in- 
transitável. A's duas da tarde começou o bombardeamento do 
palácio real pelos navios de guerra. Toda a marinha e uma 
grande parte do exercito estão ao lado dos republicanos. E' im- 
possível dar pormenores. 

«A revolução em Portugal não surprehenderá os leitores 
do Matin Ha muito tempo que as nossas informações deviam 
prever a imminencia d'esse movimento. O assassínio do rei e do 
príncipe herdeiro, no dia i de Fevereiro de 1908, toi o princi- 
pio do fim do regimen. Desde essa data os partidos monarchicos 
não puderam resistir á onda crescente do republicanismo portu- 
guez. Os partidos monarchicos, sem quererem attender ao perigo 
que ameaçava o throno, combatiam entre si; os ministérios or- 
ganisavam se para cahir quasi immediatamente; era o verda- 
deiro gachis politico em Lisboa. Os enviados especiaes do Ma- 
tin em Portugal, faziam rtsaltar a gravidade da situação. As in- 
formações do Matin foram desmentidas pelos meios diplomáticos 
e officiosos Mas nada explicou melhor a exactidão das nossas in- 
formações de que as declarações do deputado republicano sr. dr. 
Afíonso Costa, publicadas no dia 2 de Setembro ultimo. 

a Accrescentemos, que ha alguns dias estávamos prevenidos 
de que os republicanos estavam dispostos a proceder. Ante- 
hontem, um deputado republicano, o sr. dr. Bombarda, foi as- 
sassinado em Lisboa por um tenente; foi sem duvida esse acon- 
tecimento que decidiu o partido republicano a precipitar os 
acontecimentos». 

Por seu turno, o dr. Sebastião de Magalhães Lima, grao- 
mestre da Maçonaria Portugueza, ao tempo da revolta, em Paris, 
expandia no Matin, as suas opiniões: 

«O acontecimento fatal produziu-se. A revolução está em Lis- 
boa. Não nos surpreende, a nós, membros do Partido Republi- 
cano em Portugal. Já o tínhamos previsto e annunciado ha muito 
tempo. Sempre esperámos que a mudança do regime se efectuasse 



100 ARMANDO RIBEIRO 



com a maior calma, com ordem, por simples efeito da vontade 
popular livremente expressa. Mas o feitio desatinado dos homens 
do poder e a cegueira do trono não o permittiam. Depois da 
morte de D. Carlos podia-se esperar que os partidos monarchicos 
compreendessem a lição dos acontecimentos. Não compreende- 
ram. A acumulação de erros, de faltas e de abusos que provo- 
cava o gesto desesperado do povo contra a dictadura de Franco 
agravou-se ainda mais. Toda a obra dictatorial desejada pela 
realeza ficou de pé. As leis de excepção contra a imprensa foram 
aplicadas. Os jornalistas viram-se na necessidade de emigrar para 
fugir ás condemnações dos tribunaes. Inventaram-se associações 
secretas. A sua descoberta permittiu perseguir os republicanos. 
Empregaram-se todos os meios de opressão para abafar a voz do 
povo. Cidadãos pacíficos foram presos como suspeitos de simples 
denuncias. Diariamente se fazem buscas domiciliarias. Tcdos 
esses atentados á liberdade e a* dignidade de uma população la- 
boriosa foram cometidos pelo arbitrio de um juiz de instrucção 
criminal que tinha os poderes de um inquisidor. E esses factos 
monstruosos, essa renovação das peores épocas da tirania produ* 
ziramse na hora em que o advento do novo rei fazia esperar 
aos homens mais crédulos que ia produzirse uma pacificação. 
Nós, republicanos, nunca nos deixámos prender por essa fanta- 
sia. Continuámos no paiz a nossa propaganda, convencidos de 
que a salvação de Portugal só podia estar na Republica. A pro- 
paganda dos republicanos, os escândalos dos sucessivos governos 
comprometidos nos negócios equívocos, as decepções acun uladas 
de todo um povo forçaram o rei, ha alguns meses, a chamar ao 
poder os homens que se intitulavam liberais. O arbitrio do pas- 
sado continuou com a etiqueta hipócrita de um liberalismo men- 
tiroso. A pretexto de um imaginário complot, o juiz de instruc- 
ção continuou a sua obra de reacção. A revolta da opinião 
toi tal que as mais importantes associações comerciais tomaram a 
iniciativa de um formidável movimento de protesto indo, se tal 
tosse praciso, até á greve geral. Os partidos monarchicos, for- 
mando o bloco conservador, tinham procurado impedir a en- 
trada no parlamento aos republicanos, cujo numero dobrara em 
três annos. Não compreendiam que er? a vontade do povo que se 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 101 



manifestava, apesar da formidável pressão das autoridades e da 
iniquidade de uma lei eleitoral contra os republicanos. O presi- 
dente do conselho, Teixeira de Sousa, que já conspirara contra 
a dictadura com os verdadeiros liberais, fez nomear par do reino 
um dos colaboradores mais notados do dictador. Era á formal 
convicção de que o governo de liberal só tinha o nome, e que se 
vendera aos reaccionários. Acima desse gâchis politico, a fraca 
vontade do rei, prisioneiro dos clericaes, era impotente. Desde 
então a situação era inexplicável. Por governar contra o paiz, 
faltou ao governo o apoio do exercito e da marinha. Esse exer- 
cito e essa marinha aderiram á Republica como a única forma 
capaz de salvar o paiz. 

Só faltava um incidente para suscitar a revolução. O assas- 
sinato do deputado Bombarda foi esse incidente. O povo quiz 
ver na morte do chefe da Liga Liberal uma vingança clerical. 
Não faltava mais nada para desencadear a indignação popular. 
A marinha que esteve sempre na vanguarda do liberalismo, 
tomou a frente do movimento e o exercito seguiu-a. Que acon- 
tecimentos se desenrolam actualmente em Lisboa? Não se sabe, 
exactamente. Deve se, prever, pore'm, que a Republica, cuja es- 
perança está em todos os corações, sairá triunfante. Esperemos 
somente que o advento da Republica possa fazerse sem que as 
vidas humanas se sacrifiquem em vão, porque a força brutal, 
jamais poderá prevalecer contra a esperança e a victoria de um 
povo decidido a defender a sua independência e a sua liber- 
dade.» 

N'essa hora, a realeza de Portugal, representada por D. 
Manuel II e pela rainha D. Amélia, via decorrer na villa de 
Mafra, a tormentosa e derradeira noite de estada em lusas 
terras. 

A politica cavaralhe aos pés o abysmo. Foram elles as victi- 
mas principaes, atiradas para o sorvedouro. 

Mas o destino ao traçar-lhes esses passos, fixou para vida em 
mortal peccado quantos lhe serviram de auxiliares para o cum- 
primento do desígnio e, veremos depois, emquanto uns, em igno- 
rado recanto curtiam pesares de velhas eras, outros, arrastavam 
no exilio, o remorso de haverem rasgado caminho á causa da 



102 ARMANDO RIBEIRO 



democracia para que ella afíogar pudesse a causa da mo- 
narchia. 

Mas a altos dictames curvada tem sempre de estar a mísera 
humanidade. 

Quando elia, em terras portuguezas, pensou e murmurou o 
torniámo á lantico, de Verdi, o dedo da Providencia marcou 
a pausa, para que não tivesse tão rápido sancionado o arrepen- 
dimento do d'outr'ora phrenetico desejo. . . 




A NOITE DE 4 DE OUTUBRO 



A MADRUGADA DE 5 










\L^>_ 



X 



1111 



& 




I 



As formaturas.— O duplo equivoco. — A propaganda junto 
dos regimentos. — Campo de desorganisação.— Ten- 
tativa de assassínio do alferes Empis. — Ideias de 
juncção ás forças da Rotunda. — O proseguir dos boa- 
tos.— Os incêndios da Avenida.— Perseguição á poli- 
cia. —O assalto á esquadra de Arroyos. — A guarda 
municipal. — Reapparecem alguns dos dirigentes da 
sedição. 



S^ noite de 4 de Outubro, como um veu negro, 
pesado e trágico, desceu sobre a cidade de Lis- 
boa. 

Voltando ás suas ruas, vemos accentuar-se 
pois o espectáculo de terra. 

As luzes não se accendendo, coroavam com 
as trevas o lúgubre d'essa noite de mysterio. 
A revolta fizera recuar os accendedores, mas, n'uma descon- 
fiança, para lhes quebrar vontades, destruídos foram os candiei- 
ros. 

VOL. IV — FL. 14 




106 ARMANDO RIBEIRO 



Aos globos dos postes eléctricos, as pedras os estilhaçaram. 

A escuridão, se encobriam os soldados perscrutando as traves- 
sas em tenebroso aspecto, disfarçavam os revolucionários, que como 
serpentes colleantes, procuravam envolver na sua teia de attrac- 
çao ou de destruição essa cohorte de indifferentes, observando 
uma attitude de espectativa singular. 

Mal definidos no seu pensar, não se atreviam a abrir, fran- 
camente, os braços á revolta e, embora, contra-vontade, detinham 
á bocca da espingarda os propagandistas do ideal anti realista. 

Não serviam a causa da realeza, pelo amor á democracia, 
mas não auxiliavam esta, pelo receio do resurgir matutino do 
poder aunrlante da monarchia. 

Contrariamente, pois, ás previsões dos revoltosos, as tropas 
continuavam nos seus postos. 

O alteres Ernesto Empis, com duas metralhadoras, tomava 
a praça dos Restauradores. 

O capitão Henrique Maria Gancio Penha Coutinho, com a 
companhia de caçadores 5, a rua do Arco de Bandeira; o capi» 
tão Carlos Alberto Viçoso May, outra, fechando a Rua do Ouro 
e Rua Nova do Carmo; o alteres Gomes da Silva, com um pe- 
lotão de caçadores, cerrava a Rua Augusta: o Capitão José Men- 
des dos Reis, com a guarda fiscal, lenhava a Rua da Betesga. 

A bateria de Queluz, guarnecia com peças as ruas do Ouro 
e Augusta. 

Tomando as embocaduras das ruas, por vezes envolvidas na 
esteira luminosa dos projectores eléctricos dos navios revoltosos, 
as sentinellas bradavam: 

— Quem vem lá? 

Se respondia era forçado a retroceder. 

— Não pode passar!. . . Aflaste-se! 
Se não dava resposta, era fuzilado. 

O silencio era apenas quebrado pelas descargas, ou pelas 
vozes das vedetas. 

Um popular atreveuse a cruzar a rua do Ouro, junto ás 
escadinhas de Santa Justa. 

Não retrucou á pergunta das sentinellas. Fuzilaram- no. 

Outro popular, Francisco António Reis, residente na Rua 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 107 

da Bella Vista, humanitário, correu para elle, amparava-o e in- 
terrogava o sobre a residência. 

Apenas disse: 

— Rua.. m 

Estava morto e uma descarga victimaria o seu companheiro 
se não tugisse, ficando o desventurado ao abandono, até que a 
Cruz Vermelha, intormada, a despeito de riscos, corajosa, ia bus- 
car o corpo, cerca das 10 horas e meia da noite, removendo-o 
para a morgue. 

Não se ganha uma revolta rlrmandoa no intuito discipli- 
nador, mas derruindo juradas fés. 

Todavia isso representa sempre o cavar de convicções, o in- 
suflar do erro e essa mole enorme, a indisciplina, de todo se 
não remove. 

A base disciplinar deixa de ser a esphera em redor da qual 
se formou a obediência e condensou o respeito, para assumir a 
feição tetraedica, desegual, tendo como escala a percorrer, um 
máximo de desillusão e urn quantum de revindicta á preconi- 
sada destravante da submissão. 

A propagada semente da indisciplina, quando se reproduz 
em factos, radicase em efleitos: é arvore que se arranca, á ma- 
chadada, colhidos os fructos, mas de quem a terra mater espiri- 
tual, guarda avara e absorvente as raízes reinvindicadoras ou 
perturbadoras. 

Fazn-se pois, entre a soldadesca, a semeadura do erro. 

A planta germinava, mas, por anomalia, emquantoo cérebro 
voava para a derrocada do juramento á bandeira azul como tran- 
sição para a verderubra, as espingardas despediam as balas para 
abrigo no peito dos trabalhadores civis das ideias novas. 

N'uma nevrose, n'um transe de singular percepção, faziam- 
se victimas, faziam baquear rebeldes á torça de tiros, quando 
era evidente desígnio aa soldadesca e dos ofíkiaes fazer causa 
commum com os grupos civis em revolta. 

Havia o mutuo combate entre militares e paisanos, quando 
ambas as classes visavam a idêntico fim. 

Com a connivencia andava o equivoco. 

Aproveitando a escuridão, es populares foram lançar algu- 



108 ARMANDO RIBEIRO 



mas bombas perto de caçadores e infantaria 5, occupando para 
isso janellas. 

Não houve maus effeitos, porque ao acto presidiu não uma 
ideia de morticínio, mas de desorganisação. 

Não o comprehenderam muitos, e, emquanto uns fugiam 
faziam outros tiroteio forte. 

A populaça de novo se esquivou. Julgou terreno contrario, 
o que era apenas campo de más comprehensÕes. 

Assim, emquanto os civis procuravam convencer, pela ap- 
proximação ou pela ameaça, a militança, que seguia o mesmo 
ideal, oppunha, n'um retrahimento, a fuzilaria. 

Procuravam valer a essa expectativa observada vários dos 
otficiaes, fazendo propaganda para o terminar da situação. 

Um general, Ernesto da Encarnação Ribeiro, vigilava mesmo 
sob esse indisciplinamento, pondo as suas estrellas em conniven- 
cia com os galões dos que queriam arremessar os regimentos á 
quebra do seu juramento de fidelidade. 

Relatou o em entrevista, (*) o dr. José Barbosa: 

«Durante a noite de 4 para 5, alguns d'elles, como Valdez e 
Carvalhal Correia Henriques, apesar de expostos no Rocio a um 
ataque vivíssimo dos populares, conservaram sempre uma atti- 
tude de obstinada obediência á Republica e impediram por to- 
dos os meios ao seu alcance que infantaria e caçadores massa- 
crassem os elementos revolucionários da classe civil. O general 
Encarnação Ribeiro, n'essa noite de tragedia, tomando contacto 
com diversos d'esses officiaes que elle conhecera das reuniões de 
conspiradores, assegurárase plenamente d'essa attitude.» 

O general Encarnação Ribeiro iria, ao lance ganho, ao cargo 
de comandante geral da guarda municipal, depois guarda nacio- 
nal republicana. 

Embora não cooperando em plena luz, no movimento, pro- 
duzia-se assim uma attitude que indirectamente auxiliava a de- 
nominada causa da pátria* 

Ao soldado, sem base intellectual, se lhe apresentava come 
dogma, que o abandono da causa real correspondia a defeza da 



(#) A Capital de 18 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 109 



pátria em perigo e a instrucção rudimentar, aventando horison- 
tes novos, de esphinge, para cerebraçoes mal cuidadas, não re- 
cuava, seguindo abertamente para a eterna indisciplina, que, 
mais tarde, victoria ganha, resurgiria com o seu certo desfecho 
criminologico, dando erro grave na vida da caserna. . . 

O alferes Gomes da Silva e o tenente José da Ascençao Val- 
dez, mantiveram, por seu turno, em actividade, a propaganda 
democrática, bem recebida pelas praças. 

Valdez, tinha soliicitado ordens ao major João Pedroso 
de Lima, para, com uma companhia, seguir em explorações. 

O fim era apenas alcançar a Rotunda, mas o superior, por 
intuição ou por julgar útil não contrariar a ordem do com- 
inando supremo, recusou. 

O tenente, com os sargentos José Flores e Herculano Ma- 
-theus, teria eflectuado um assalto ás metralhadoras, se d'isso o 
não dissuadisse o alferes Mendes Bragança, por uma desconfiança 
sobre os soldados. 

De infructifera intenção em nascente esperança, se foi pre- 
parando a soldadesca para se insubordinar durante a noite, 
devendo, como inicio, fugir a qualquer signal de ataque. 

Assignala essa attitude o tenente José Valdez: 

«O alferes Bragança, esse prevenia-os para, no caso de se- 
rem atacados, fugirem para a Arcada, onde nos reuniríamos 
para passarmos para os revoltosos. Todos os soldados, ou quasi 
todos, estiveram commigo n'essa arcada e ahi acon^elhavaos a 
não fazerem togo, lembrando lhes que era sobre irmãos que ati- 
ravam, e conheci que a desmoralisação era já grande entre el!es, 
pois na linha não faziam fogo, fugindo d'elíe ao menor pretexto; 
bastava um tiro, um estrondo, para que elles se dirigissem para 
a Arcada. Essa desmoralisação foi notada por Martins de Lima, 
que reparando n 'essas fugas loucas, os obrigava a ir para a linha, 
chegando mesmo a fallar-lhes para lhes incutir coragem, imagi- 
nando ser cobardia o que os minava. Pelas cinco horas da tarde 
recebia eu uma carta do meu irmão Vasco, em que me preve- 
nia «de um ataque de manha, junto com as torças da Rotunda, 
dizendo também que a canalisação do gaz seria cortada». Exul- 
tei de alegria e, tendo lido a carta ao Bragança, resolvemos, 



110 ARMANDO RIBEIRO 



desde logo favorecer esse ataque, ficando de pé a nossa resolução 
de aproveitamento da arcada para reunirmcs 03 homens. Como 
o Bragança, tivesse ido ao quartel general, quando regressou 
declarou me que tendo palpado os otficiaes do regimento, os 
achava abalados, notando que só dois ou três se mantinham 
fieis á monarchia.» (*) 

O tenente, tazendo parte de infantaria 5, avançou mais 
ainda na propaganda, dirigindo-se á oficialidade. 

Depressa trouxe ás ideias de inactividade em combate, os 
tenentes Américo Alfredo Gomes da Cruz, que chegou a dar 
o próprio commandante do regimento, como abalado; Manuel 
Luiz de Brito Vasques e Viriato Fonseca Rodrigues, os alferes 
Xerez e João Carlos Telles de Azevedo Franco e os aspirantes 
Espirito Santo e Oliveira. 

Resolvido foi, ante a afirmativa do tenente Américo Cruz, 
impor ao commandante de infantaria a decisão suprema de con- 
trariedade á fé monarchica. 

Foi pois em plena rua, que se celebraram conselhos de gra- 
duados, não para a manutenção da disciplina e do posto, mas 
para que, n'um exforço unido se intluisse no animo do com- 
mandante, apontandolhe como necessidade, o adherir á causa 
da rebeldia. 

Esses conciliábulos e o facto patente de se esquivar á 
ordem de fogo, kz convergir sobre o batalhão as attençÕes de 
officiaes não envolvidos no trama. 

De um aviso ao quartel general nasceram incidentes gra- 
ves, onde não 50 se dava por um aífrouxar das praxes milita- 
res uma tacita adhesão aos rebeldes, como pela calada da noite 
se forjaram assassínios. 

Esteve assim para se dar um crime. 

Houve conhecimento pelos republicanos, de que desconfian- 
ças haviam surgido sobre as suas intenções. 

Receavase que a torça de caçadores 5, do commando do 
alferes Ernesto Augusto Empis, fusilasse, á passagem, qualquer 
troço disposto a seguir para a Rotunda. 



(#) O Século de 23 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 111 

O alteres Joaquim Mendes Bragança, chegou a indicar ao 
tenente José de Ascensão Valdez, o official de caçadores 5, Em- 
pis, como vigilante dos seus passos. 

O tacto, succedido logo de manha, deu aso a que visto fosse 
Empis como entrave a manejos. 

Não haviam estes passado despercebidos e assim do quartel 
general, baixou ordem para que o alteres Bragança, em vez de se 
distanciar do seu posto, se collocassse & meio de fila, de pé, 
irente ao togo. 

Novamente as attenções se fixaram sobre Empis, logo incul- 
pado de ter suggerido a determinação, pela sua té no adverso 
ideal e inaceitabilidade de convencionalismos, attitude confirmada 
por se oppôr terminantemente o official ao dispersar dos seus 
soldados, não desdenhando mesmo accionar com as metralha- 
doras, á tuga dos manobrantes. 

N'uma d'essas occasiões, em risco esteve de cahir ás balas 
de um cabo, successo que o capitão Martins de Lima intentou 
desvanecer, sob aspecto de pensamento pessoal: (*) 

«Contaram-nos, interrompemos nós, que o alferes Empis, 
abandonado pela guarnição, cavalgara uma peça continuando 
o fogo e que alguém impediu, que um subalterno que levava a 
arma á cara, desfechasse sobre o alferes Empis, acrescentando 
esse outro official ; não o matem que está cumprindo o seu 
dever !» 

— «Não acredito, respondeu o capitão Martins de Lima, 
que os soldados quizessem matar o alferes Empis, quando não 
me mataram a mim que os aguentei á cutilada.» 

Todavia assim toi. 

Baldadamente se diz que na guerra todos os processos são 
lícitos. Nem todos; e o crime, na própria lucta de armas eguaes, 
e pela traição, são manchas que se fixam. 

Esteve elle para se dar e para reiterar a affirmativa annotemos 
o depoimento do cabo de infantaria 5, Zepherino José Franco : (**) 

«Gomo os da Rotunda nos atirassem granadas, suppondo- 



(#) Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão — pagina 120. 
(*#) O Século de 10 de Outubro de 1910 



112 ARMANDO KIBEIRO 



nos traidores, o cabo 55, Francisco Benevides, dirigiu se ao 
quartel general, onde conseguiu reunir duzentas e vinte praças, 
dispostas a marchar para ali. Mas isso era perfeitamente impôs- 
sivel. Além das metralhadoras de caçadores 5, havia, na estação 
do Rocio, uma companhia da guarda fiscal e um esquadrão da 
guarda municipal, que não as deixavsm avançar. Então o cabo 
Benevides quiz collocar se por detraz do alteres Empis, de caça- 
dores 5, que commandava as metralhadoras, para o matar, sendo 
dissuadido d'este propósito pelo tenente Valdez e alferes Bra- 
gança. Foi este alferes que nos denunciou a um official supe- 
rior, que, depois de insultar o nosso alferes Bragança collocouo, 
de pé, á frente da linha de togo, a fim de o expor ás balas das 
forças revolucionarias do alto da Avenida.» 

O cabo 55, da i. a companhia do 3 o batalhão de infantaria 
5, Francisco do Carmo Benevides, appareceu citado no relató- 
rio de Machado Santos, como um dos primeiros elementos ar- 
ranjados no regimento e eflectuando tal propaganda que os solda- 
dos passaram a fazer regularmente a continência ao dr. Antó- 
nio José de Almeida quando o viam passar em frente do quar- 
tel.» 

Assim, evitado foi esse mau passo pelo tenente Valdez e alfe- 
res Bragança, que, sem desmentir a ameaça do cabo Benevi- 
des, veio á imprensa alterar pontos do seu depoimento : 

tA propósito do que aqui contámos sobre o procedimento 
de infantaria 5, por occasiao da revolta, fomos procurados pelo 
alferes sr. Joaquim Mendes Bragança, do mesmo regimento, 
para nos dizer que não foi insultado pelo major sr. Lino, o único 
official superior do corpo que se achava presente na occasiao 
em que os soldados que elle commandava se estendiam ao longo 
do Avenida Palace. O referido aliei es, que não pertencia a ne- 
nhum grupo politico, pois tinha chegado de Beja ha pouco, era 
republicano de alma e coração, mas só ali se manifestou, ao 
entenderse com o tenente sr. Valdez, que commandava o flanco 
opposto da linha de fogo onde elle se encontrava. O caso a que 
alludimos passou-se com um official do quartel general, que or- 
denou ao sr. Bragança que se collocasse a meio da fila, obede- 
cendo immediatamente o alferes e pondo-se de pé atraz dos sol- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 113 

dados, sem que, comtudo, possa alfirmar que tivesse sido o sr. 
Empis, commandante das metralhadoras, quem o denunciou 
como tendo tenções, com o tenente Valdez, de se passar para 
o lado dos revoltosos.» 

Empis, á victoria republicana, passava á reserva e requeria 
licença para se ausentar de Portuga), o que fez, seguindo para 
Marselha e, regressando annos depois, (*) por desistência da 
resto da concedida permissão. 

Entretanto produziam seus efieitos, pela repetição, as infor- 
mações sobre a attitude de parte do 5 de infantaria. 

O tenente Valdez, procurara por vezes cumprir as instru- 
cçÕes da manha determinadas pelo capitão Sá Cardoso. 

Fez tentativas varias para occupar e impellir a sua compa- 
nhia até á Rotunda, aproveitando a escuridão da noite e a ordem, 
qut, transferindo-o do Rocio, o mandou acampar nas trazeirás 
da estação do Rocio. 

Procurada a marcha pelo tunnel, viu-se perigosa a ideia, 
pela chegada próxima d'um comboio, e ao risco de esmaga- 
mento, alliava se o do ataque, á bomba, pelos revolucionários 
que o compunham e desconhecedores das intenções do troço 
de infantaria 5. 

Já então havia deserções, que o tenente encobria. 

Sabido tudo, porém, no quartel general, uma ordem, inti- 
mava-lhe o abandono da posição, substituída pela Travessa de 
S. Domingos. 

Eram cerca de 1 1 horas da noite. 

Mas, não só infantaria em taes disposições se encontrava, 
achando-se em idêntico insubordinado aspecto, caçadores 5. 

Aqui, todavia, se o commandante firme se manteve, orde- 
nando até enérgicas represálias á fentativa popular para attra- 
hir a soldadesca, esta era reprimida na obediência ás ordens do 
commandante pelos capitães Aguiar e Penha Coutinho. 

A este ultimo, á victoria conseguida, ser-lhe-hia conferido 



(#) 30 de Junho de 1914. 

VOL. IT — FL, 15 



114 ARMANDO RIBEIRO 



pela republica, o posto de confiança de oíficia! da policia civica 
de Lisboa. 

Debalde porém a monarchia se tentaria livrar da teia onde 
cahira. 

Era de múltiplos fios e de solida contextura. 

Mas, por singular coincidência, a ambos os campos ia o re- 
gisto de uma mentirosa situação. 

No quartel general avolumava se o mysterio do que exterior- 
mente se passava. 

Apenas a illusão e o falso boato iam dar animações. 

Manteve-se o sonho sobre a chegada próxima de reforços 
da provincia. 

Gollocadas foram as vistas sobre artilharia 3. 

Affirmouse-lhe a permanência no Beato, erro que até tard* 
se manteve e só abalado ante a inútil espera. 

Julgado receio de abalada até ao Rocio sem força que lhe 
garantisse a marcha, determinado foi ao 3° esquadrão da guar- 
da municipal que, seguindo para a Portella, ali a aguardasse 
acompanhando-a depois na jornada sobre a Praça de D. Pedro. 

Inutilmente se aguardava esse presumido importante auxilio. 

Horas depois se desvaneceram esses sonhos, embora sem ve- 
rídicos informes. 

Artilharia 3, com 6 peças, e o comando do capitão Sar- 
mento, disse-se impossibilitada de seguir, pelo corte da ponte em 
Sacavém, tendo ficado ali com 18o praças de caçadores, sob o 
commando do capitão Viegas. 

Os regimentos, todavia distante estavam como veremos ao 
renovar das vistas sobre esses nucieos, por egual eivados da 
propaganda democrática. 

Entre os optimismos vieram pessimismos. 

Fallou-se na marcha sobre Lisboa de uma forte columna 
civil formada em Algés. 

Como objectivo principal tinha a invasão do palácio d onde 
se presumiam sahidas ordens anti-revolucionarias. 

Entresonhado o caso lance supremo, trouxe apprehen- 
sões. 

Todavia e as horas de paz o foram dizendo, nada houve, a 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 115 



nlo ser a intenção, impossibilitada pela escassez de dirigentes e 
de executores. 

Se as novas, falsas, iam aos occasionaes detentores das ré- 
deas governativas, idênticas seguiam até aos meios da rebeldia, 
e por ella própria levadas, 

Como alarme, injustificado, por se não ter de tal cuidado, 
conduzido foi até aos grupos combatentes o echo de uma pre- 
tensa marcha, para o castello de S. Jorge e para as culminancias 
da Graça, de artilharia e munições destinadas a acção sobre a 
Rotunda, 

Foram apresentadas as baterias de Queluz como em secretos 
preparativos para mais firme envolvente das forças republicanas, 
e assim como ao quartel general ia o boato de se encontrar arti- 
lharia 3 em Sacavém, aos núcleos populares foi o informe de se 
encontrar já em Lisboa. 

Desânimos surgiram, mas ao retrocesso de muitos, corres- 
pondeu, de continuo, a temeridade e a audácia de outros, accir- 
rada ainda por propagadas noticias de boa fortuna. 

Aos grupos chegava a proclamação da junta revolucionaria, 
citando, falsamente, os convencimentos de que D. Manuel estava 
occulto na legação de Inglaterra, e que, de si, o facto significava, 
com uma abdicação, a vacatura do throno portuguez. 

Esta noticia, dada como chegada á Junta, ás g horas d'essa 
noite, era errada, estando ainda D. Manuel II em Mafra, mas os 
núcleos revoltados veriam n'ella veridicos dados assignaladores 
d'um começo de victoria. 

O povo, procedendo sempre, não deixou de atear a chamma 
revolucionaria, e se uns distantes, por suspeitas de encerrar, em 
conciliábulo secreto, contrários á sua causa, assaltavam a phar- 
macia Pina, do Poço do Bispo e destruíam quanto lá existia; 
outros, manobrando nos pontos centraes, não deixavam de asse- 
diar os regimentos, querendo desvial-os de indecisões, favore- 
cendo a ideia desorganisadora dos officiaes, que faziam aliás, 
recuar a populaça á bocca das espingardas, quando seu desejo 
era d'ella ter o eficaz auxilio. 



i 16 ARMANDO RIBEIRO 



+ # 



Esses manejos, eflectuados atravez da escuridão apavorante, 
foram de súbito tragicamente illuminados, como se o seu ma- 
chiavelismo merecesse a apotheose vermelha das labaredas de 
um incêndio ou o destino, intencional, rasgasse as trevas com o 
rubro das chammas, para que protegidos não fossem os singu- 
lares conluios e a unitária obra de desordenamento. 

Eram 1 1 horas da noite. (*) 

A Rotunda, disparou uma peça. 

A granada, fugindo do alvo, vae cair sobre o prédio que no 
lado oriental da Avenida, quasi em frente do coreto, lormava o 
angulo sul da Rua Alexandre Herculano. 

Os estilhaços ardentes, communicaram fogo ao telhado. 

O guarda-portão do prédio 200, Francisco Maria de Oli- 
veira, de 43 annos, casado, natural de Vizeu, correu a avisar os 
moradores. 

Uma bala que entrandolhe pelo peito se lhe alojava no es- 
tômago o detinha na missão. 

Os revolucionários lhe valeram. Deixando as esquinas d'onde 
vigiavam os passos dos municipaes, lestos o collocavam sobre 
uma taboa conduzindoo ao hospital de S. José. 

Levaram ali apenas um cadáver. 

O incêndio a esse tempo, lavrava intenso. 

Os bombeiros municipaes intentaram prestar soccorros, fa- 
zendo caminho por Santa Martha. 

Afusilaria os impediu, porém, não sem que alguns ficassem 
feridos, e mais gravemente o 212, Joaquim de Jesus, attingido 
com um tiro n'um pé. 

Os chefes dos bombeiros, Carvalho e Silveira, ante o extra 
nho impedimento á sua acção humanitária, decidiam a retirada 



(*■) O livro H^a Monarchia á Republica, a paginas 64, regista o facto 
como succedido á 1 hora da madrugada, baseado talvez no Diário de Noti- 
cias de 5* de Outubro de 1910. Machado Santos, mais perto do local do in- 
cêndio, assignala-o todavia, a paginas 87 do seu Relatório, como succedido 
às 11 horas da noite. 



A. REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 117 

Entretanto, incendiava-se também parte do prédio 222, e 
sofíria ainda o 214. 

Para valer a tudo e tentando um estorço heróico, os volun- 
tários da Ajuda, romperam a marcha, arrastando as viaturas, 
emquanto as balas crepitavam, attingindo ainda o conductor do 
carro Magyrus. A meio da Avenida > os soldados, de espingarda 
engatilhada, obrigam-nos a retroceder. 

São avisados de que os moradores do prédio mais em perigo, 
sem auxilio que ninguém se atreveria a prestar, haviam fugido 
pelas trazeiras do prédio que deitava para a rua de Santa Mar- 
tha. 

Recuaram os voluntários. Não valia a pena o sacrifício de 
vidas, se vidas não havia a salvar. 

Deixaram arder. 

Assim foi. 

O brazeiro avolumavase, accentuando mais a nota terrorista 
d'essa segunda madrugada de revolução. 

A dificuldade de attingir o local do incêndio, deu causa a 
divergências varias e até a boatos collossaes. 

Deuse assim (*) como incendiado o prédio 12b, à esquina 
da Rua Alexandre Herculano, e que se noticiou destruído por 
completo, não tendo havido victimas, em virtude, de, á primeira 
granada, os inquilinos o haverem abandonado. 

Chegou até a dar-se como incendiado totalmente o quartei- 
rão começado na rua Alexandre Herculano. 

Reproduzia o assim a Lucta em 5 : 

«Na rua Alexandre Herculano ardem alguns prédios, e o 
incêndio ameaça estender se a todo o quarteirão; ignoramos o 
que lhe deu origem. Um guarda-portão da Avenida, que se pro- 
poz avisar os moradores d'aquella rua para que se acauteliassem 
contra as chammas, recebeu um tiro em pleno peito, sendo le- 
vado para o hospital em estado grave.» 

Comtudo, apenas destruido foi por completo o prédio da es- 
quina, olhando da Rotunda. 



(#) O Século de 6 de Outubro de 1910. O Mundo menciona só o prédio 
322. 



1 18 ARMANDO RIBEIRO 



Os incêndios origem deram a questões judiciaes sobre o se 
guro, eflectuado nas Companhias Bonança, Fidelidade e Previ- 
dência. 

Requereram estas ao governo provisório (16 de Fevereiro 
de igi i) uma indemnisaçao para os prejudicados pelo incêndio 
do prédio 222, sendo o processo enviado / para consulta, á Pro- 
curadoria Geral da Republica. 

Ao parecer não concorde, correspondeu, por parte da Com- 
panhia Bonança, a recusa de pagamento a um dos moradores, 
da verba fixada como compensação dos estragos mobiliários, 
tendo como base, a anormalidade do sinistro, nascido da revo- 
lução. 

Ao tribunal commercial foi o pleito, e ahi julgado (17 de 
Julho de 191 1), com sentença desta voravel á Companhia e as- 
sim expressa: 

«Vistos e examinados estes autos. O auetor Luiz Eugénio 
Leitão, commerciante, residente n'esta cidade, demanda a ré 
Companhia de Seguros Bonança pela quantia de g:5oo$ooo 
réis, e juros vencidos, e para tanto allega : que em 19 de março 
de {891 segurou na Companhia ré, mediante a apólice n.* 
1 1 3:4.5o, e conforme as clausulas estipuladas, e pela quantia de 
9*.5oo$>ooo réis os objectos relacionados na mesma apólice, e que 
indica no artigo 2. da sua petição, existentes na casa da sua 
habitação, sita na avenida da Liberdade, 222 ; que o seguro 
ainda subsiste p >rque, além de ter cumprido todas as obriga- 
ções do contracto, não deixou de pagar o respectivo premio, re- 
sultando dYqui a obrigação para a ré de indemnisar o auetor de 
qualquer prejuízo proveniente de incêndio; que nu dia 4 de ou- 
tubro do anno findo foram completamente destruidos por um 
incêndio casual todos os objectos segurados, o que no prazo de 
três dias levou ao conhecimento da ré por carta de 7 do mesmo 
mez, reclamando ao mesmo tempo a devida indemnisaçao á re- 
clamação, porque estava excluida do seguro a causa que tinha 
determinado o incêndio, mas pouco depois mandou pedir ao 
auetor que devolvesse a carta e a considerasse sem efleito; que 
não obstante as esperanças que a ré lhe tem dado de que o pa- 
gamento da indemnisaçao seria feito, ê certo que ainda se não 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 119 

fez, estando por isto a ré a dever-lhe a quantia pedida na acção; 
conclue pela procedência da acção. O auctor instruiu a sua pe- 
tição com os documentos que estão de fl . . . a fl . . dos autos. 
Foi citada a ré, que se detende com a matéria da sua contesta- 
ção a il . . ., em que allega: que a causa ou risco que occasionou 
o incêndio estava excluída do seguro, porquanto foi o fogo dos 
belligerantes no movimento que determinou a implantação da 
Republica, que occasionou o incêndio e que obstou á prestação 
de soccorros; que assim, e conforme o contracto, não impende 
sobre a ré a obrigação de pagar ao auctor a indemnisação. O 
auctor replicou mantendo as aflfirmaçÕes feitas em seu articula- 
do. A ré treplicou allegando que o auctor deixou de provar que, 
ao tempo do incêndio, existiam no prédio incendiado todos os 
objectos segurados. Decorrido o praso fixado ás partes para o 
exame do processo, veriâcou-se a conferencia dos seus advoga- 
dos, que não chegaram a accordo. Depois de successivos adia- 
mentos do julgamento verificou-se este pela forma constante da 
acta a fl. . ., em que o jury respondeu aos quesitos que lhe fo- 
ram propostos, como se vê das respostas nos mesmos exaradas. 
O processo não tem vicio que o invalide, e as partes são legiti- 
mas como os autos evidenceiam, nem a tal respeito se levantou 
contestação. Cumpre, pois, conhecer do merecimento da acção. 
Assim e; Considerando que o jury deu como provado, que cm 
19 de março de 1891 o auctor segurou na Companhia ré os 
objectos que descreve no artigo 2° da petição da acção, os quaes 
se encontravam na casa de sua habitação sita na avenida da 
Liberdade, 222, 3.° andar, d'esta cidade, mediante o contracto 
celebrado com a ré pela apólice, que está a fl. 6 dos autos. Con- 
siderando que o jury também deu como provado que aquelle 
contracto está em pleno vigor, por isso que o auctor tem pago 
o respectivo premio, e não deixou de cumprir com as demais 
clausulas do contracto. Considerando que o jury ainda deu como 
provado que no dia 4 de outubro do anno passado um incêndio 
destruiu por completo todos os objectos existentes n'aquelle pré- 
dio, e assim os que se achavam segurados na Companhia ré. 
Considerando que o jury deu mais como provado que o incên- 
dio toi casual, e que d'este deu o auctor conhecimento á ré no 



120 ARMANDO RIBEIRO 



praso de três dias, e bem assim que justificou existirem no pré- 
dio incendiado os objectos segurados ao tempo do incêndio. Con- 
siderando que es contractos legalmente celebrados devem ser 
pontualmente cumpridos, d'onde resulta que achando-se em 
pleno vigor o contracto celebrado entre o auctor e a ré por vir- 
tude do qual esta se responsabilisou a pagar ao auctor a indem- 
nisaçao de 9:5oo$ooo réis, caso viessem a ser destruidos por in- 
cêndio os objectos segurados, á ré incumbe o dever de, em 
cumprimento do mesmo contracto, pagar ao auctor a indemni- 
saçao estipulada, que ainda não pagou. Considerando, finalmen- 
te, que o jury deu como não provado que tosse o fogo dos beli- 
gerantes no movimento que determinou a implantação da Re- 
publica em Portugal, que obstou a que pudessem ser prestados 
soccorros tendentes a evitar, se não todos, alguns dos prejuízos 
causados, e que não foi o fogo dos beligerantes que motivou o 
incêndio. Pelo quelevo ponderado mais que dos autos consta e, 
supprindo e supprivel, julgo procedente e provada a acção, e 
condemno a ré * pagar ao auctor a quantia de g:5oo$ooo réis e 
os juros vencidos na razão de 5 % a contar da citação, e bem 
assim a condemno nas custas e sellos dos autos, com a procura- 
doria de io$ooo réis para o auctor. Intimese e registe-se esta, 
que dou por publicada em mão do sr. Escrivão. Lisboa, 19 de 
julho de 191 1. — Joaquim Maria de Sá Motta.» 

Mais tarde, para evitar futuras contendas e attendendo ao 
precedente, era publicada uma portaria (*) auctorisando as com- 
panhias de seguros, a tomar compromissos para os casos de in- 
cêndio resultantes de greves ou tumultos populares, mandando 
addicionar aos seus contractos a seguinte formula : cesta apólice 
cobre mais o risco de incêndio ocasionado por greves ou tumul- 
tos, não podendo ter efeito a favor dos autores da sabotage 
ou tumulto». 

Não foi aquella a única granada, que destinada ao alvo, c 
Rocio, ia actuar em residências de pacata gente. 



(#) Datfcda de 23 de Outubro de 1912. — Collecçao Official da Legisla- 
ção Portugueza do armo de 1912. Pagina 884. Diário do Governo de 29 de 
Outubro de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 121 

Duas balas de artilharia, attingiam o consultório dentário, 
de João Ferreira Pires, na Rua do Jardim do Regedor, e, em- 
quanto uma entrando pela janella, furava as portas de dentro, 
atravessava a salla, trespassava a parede em direcção a um 
quarto, e, entrando, estilhaçava um guardafato de quarto, c 
lançava fora dos gonzos a porta do quarto contíguo; outra, ba- 
tendo na cantaria da janella, ia explodir no consultório, desfa- 
zendo todos os apparelhos e material cirúrgico. 

De terror loi o lance e recolhidos em aposentos interiores, os 
inquilinos aguardavam o terminar d'essas horas de angustia e 
perigo. 

Mas, até que esse fim se desse, a Avenida como ponto prin- 
cipal de operações, novos estragos registaria. 

As granadas, em permuta ininterrupta, mutilavam arvores, 
quebravam e derrubavam candieiros de iiluminaçao; furavam 
os postes eléctricos; raspavam os degraus do monumento e os 
passeios; damnificavam as frontarias dos prédios, especialmente 
as do nascente. 

Um projéctil, cortando cinco canos exteriores do prédio 166, 
ia fender e crivar de metralha a cantaria do prédio seguinte. 
Outro, actuando sobre o primeiro andar do n.° 38, inutilisava 
os parapeitos e os gradeamentos das janellas, estilhaçando os 
vidros. 

Idêntico trabalho outra exerceria no theatro da Rua dos 
Condes, e pelo occidente, novos tiros feitf s, attingiam o Hotel 
Avenida Palace, palácio Foz e o Music-Hall, e estações de auto- 
móveis Auto-Lisboa e Auto- Veloz. Uma lanterneta foi cravar-se 
n'uma arvore, onde ficou, sem rebentar. 

Sofíreu estragos, durante o tiroteio da revolução, o Grande 
Hotel da Inglaterra, onde as granadas rasgavam as paredes, e 
torcendo varões, iam procurar no interior da casa, novo campo 
de destruidora acção. 

Tudo isso tornou horrorosas as horas que decorreram até 
ao desfecho do reivindicar republicano. 

Foi, porém, a noite, a escuridão, o maior tormento citadino. 

Entre gritos apavorados, o crepitar da fuzilaria e o estam- 
pido soturno e cadenciado da artilharia, semelhando um rugido 

VOL. IV — FL. 16 



122 ARMANDO RIBEIRO 



como remate immediato á seguida esfusiada das balas da infan- 
taria, caminhava todavia a vontade avassaladora de uma entrega* 

Em constante manobra, a populaça proseguia o assalto aos 
raros agentes policiaes que ousavam cruzar as ruas e levando 
a todo o auge a sua acção de rebeldia, assaltou até, n'essa noite, 
uma taberna da Rua do Bemformoso, á esquina da Calçada da 
Mouraria, pelo facto de ter vendido de comer a um troço de 
soldados deflensores da monarchia. 

Feita a tomada das esquadras do Rato, Rua do Loureiro, 
Boa Vista, e assignalada a manutenção da policia na 3. a esqua- 
dra, na rua de Arroyos n.° 170, desde logo se formularam tra- 
balhos para o assalto do posto. 

Foi consummado cerca das 1 1 horas, mas com tarefa árdua, 
que se quiz dar como realisado pela tarde de 4 (*). 

O grupo, aprestado para a tentativa, procurou, todavia, como 
meio pratico, a sombra nocturna e para submetter a policia, 
empregou a surpreza. 

A' investida corresponderam os agentes oppondo enérgica 
attitude. 

Aos primeiros tiros seguiu-se a fuga dos assaltantes e a per- 
seguição pelos assaltados. 

Os guardas, sob o commando do cabo Barros, no desespero 
da lucta^ faziam tiros successivos e á queima-roupa, não sendo 
sequer poupados aquelles que fugiam. 

eernardino Pereira, morador na Rua Campo de Ourique, 
3l, ra apanhado na ua Joaquim Bcnifacic, sendo attingido 
com cutiladas na região facial esquerda e temporal direita. 

Junto ao jardim Constantino, cahiam feridos, Joaquim 
Duarte da Silveira, commerciante, de ^5 annos, natural de 
Aveiro, morador na ua de José Estevão, 1 33, com três tiros 
de revolver, na coxa direita, tornozello direito e na região púbica; 

Manuel Marques de Campos, padeiro, de 24 annos, natural 
de Angeja, morador na estrada de Sacavém, 189, com uma 
bala na nona costella; o estofadcr da Travessa da Estrella, José 



(*) Cita-o o Mundo de 5' de Outubro de 1910 como realisado antes da 
meia noite de 4. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 123 



Augusto Pereira, de 54 annos, natural de Lisboa, morador na 
Travessa da Estrella, 3i, com uma cutilada que lhe fracturou 
a região frontal, com encravamento, e feridas varias, interessando 
toda a espessura do lábio superior, e ainda por uma bala nas ná- 
degas ; João Rodrigues de Sá y serralheiro, de l3 annos, natu- 
ral de Lisboa, morador no Pateo de Carlos Dias, 54, com cuti- 
ladas no craneo; João Rodrigues Simões, empregado da Cerve- 
jaria Leão, em Arroyos, morador no pateo do Ourives, 22 com 
uma bala no antebraço e outra no hombro direito e Manuel 
Pinto da Silva Barbosa, morador no Pateo do Ourives, 20, com 
três tiros. 

D'estes, o republicano José Augusto Pereira, já havia sido 
ferido, de t*rde, na Rotunda. Fora curar-se, e quando ia voltar 
ao acampamento da Avenida, envolvido foi nos successos da 
esquadra de Arroyos, valendo lhe o desforço policial a estada 
de longos mezes de tratamento no hospital de S. José. 

Com um tiro era attingido quando chegava á Rua Paschoal 
de Mello, o belga Domingos Gillot, de 24 annos, torneiro, mo- 
rador na Rua do Barão de Sabrosa, 219, sendo colhido com 
duas cutiladas no craneo, ao passar pela Rua Passos Manuel, o 
caixeiro António Duarte Fernandes, morador na Rua de S. Mar- 
çal, 132. 

Por outros populares, eram mais tarde conduzidos ao hos- 
pital Estephania e depois ao de S. José, especialmente os vi- 
ctimados pelo tiroteio, e necessitando de operações melin- 
drosas. 

Da policia, ficou lerido, logo ao inicio do assalto, o agente 
727, Thomaz de Albuquerque, contra o qual foi disparado um 
tiro que o attingiu na mão esquerda, tendo que ser conduzido 
ao hospital Estephania. 

Mas, a represália policial não povoou apenas os hospitaes. 

Para a morgue foram, o moço de padeiro Nuno Correia, de 
55 annos, natural de Lisboa, pedreiro, morador na Rua de S. 
Salvador, Villa Antunes, n.° 4; Gil António dos Santos, moço 
de padeiro, de 20 annos, natural de Lisboa, morador na travessa 
de Sacavém e João da Silva, serralheiro, de 26 annos, natural 
de Lisboa, morador na Calçada de Arroyos, 56, loja. 



124 ARMANDO RIBEIRO 



A acção pensou-se favorável ante os sanguinolentos resulta- 
dos obtidos. 

Não foi todavia assim. 

Ao terror succede muitas vezes a coragem e para isso basta 
o evidenciar pelo raciocínio de que a maior catastrophe não é 
encarar de írcnte o perigo mas fugir-lhe. 

O povo, pois ao baquear de tantos, deixou a tomadia do 
medo para se penetrar do ódio aos vencedores. 

Cobrou animo e reunindo-se, actuou tão fortemente sobre a 
esquadra, que a tomou, derrubando os guardas e destruindo 
tudo quanto lá existia. 

Comtudo, e sem que desculpa mereçam as atrocidades poli- 
ciaes, filbas aliás de um assalto á mão armada e do tacto, co- 
nhecido, do emprego de bombas, extranhaveí foi o instaurar de 
um processo aos policias, pelos actos praticados em defesa pró- 
pria. 

Certo é que as accusaçÕes collocaram em mau campo os 
agentes e contra o n.° 1090, Anacleto Mendes Motta e o n. c 
I204, António Antunes, se formularam criminações graves e 
selváticas, que lhes trouxeram a prisão em 1 1 de outubro. 

Segundo allegadas testemunhas presenciaes cujos depoimen- 
tos ingressaram com o processo no 3.° districto criminal em 19. 
de outubro, António Antunes não só matara o serralheiro, como 
vendo o sem vida, lhe calcara a cabeça comos pés, gritando: 

— Ah ladrão que ainda estás vivo! 

Ainda a imprensa democrática, (*) dava o agente como 
tendo pisado os dois cadáveres, disparando sobre elles todas as 
cargas do revolver. 

Por seu turno, a mulher da victima, Elisa da Costa Bahia 
dava-se como havendo coirido egual risco de morte, quando 
supplicava perdão para o marido, que se dizia não tomara parte 
no assalto e antes sahira tranquillamente de casa com a mulher, 
vindo até em sentido opposto aquelle em que os agentes com- 
batiam. 

Ainda o agente 1007, da 2o. a esquadra, Adolpho Augusta 



(#) O Mundo de 12 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA i23 



de Magalhães, declarava (•) o 1090 um mau collega e quanto 
ao caso de Nuno Correia, que elle se acercara da policia de 
mãos nas algibeiras, pedindo para lhe fallar, obtendo como res- 
posta um tiro á queima roupa. 

António Antunes, arguido era de novo caso ou fosse a per- 
seguição do meço de padeiro Gil António dos Santos, de 17 
annos, até uma escada, d'onde o arremessou pelos degraus e d'ali 
de rastos até á rua, local em que o agente 1 15o, a despeito dos 
seus rogos, o acabou, com cinco tiros de revolver, gritando ser 
ipreci. c o matar todos aquelles ladroes». 

Disseram isto, no processo e na imprensa, s?s testemunhas, e 
o agente 204, era remettido a juizo, pretextando comtudo a in- 
nocencia. O julgamento (10 de Maio de 191 1) trouxe para elle 
a affirmativa de que apenas íôra á esquadra para evitar que os 
populares lançassem fogo aos moveis e sendo recebido a tiro, a 
tiro retorquira, mas sem especialisaçoes, O tribunal, ponderando 
essa defeza, absolvia-o, o que desagradou ao povo, que á sahida 
do edifício tentou linchai o, o que impedido foi. 



• • 



A Rotunda visando sempre as tropas da Avenida, não as 
deixava socegar, abrindo-lhe de quando em quando as fileiras 
com as granadas, ou com as descargas, graças aos holophotes do 
S. Raphael^ irradiando sobre esses regimentos. 

Da Avenida correspondia se, mas com o inutii desperdício 
de balas. 

A fuzilaria, constante, perturbava a cidade, imprimindo lhe 
o aspecto tétrico inherente a uma lueta civil. 

A' meia noite, a municipal fazia debandar os grupos acoita- 
dos na praça de Camões e Poço dos Negros, vigilando em todo 
o Bairro Alto e impedindo a passagem para a cidade baixa, 
emquanto a companhia do quartel de Santa Barbara, recebia* 
ordem para abandonar a estação dos telephones na Rua dos Re- 



(#) O Século de 24 de Outubro de 1910. 



126 ARMANDO RIBEIRO 



trozeiros, endireitando ao Carmo, onde lhe toi notificada a ordem 
de auxiliar o serviço da 4, a companhia, com sede na Estrella. 

Commandava-a o tenente António Cortez e fora essa a torça 
que de guarda estivera á casa do conselheiro Teixeira de Sousa. 

Retirando d'ali, tivera determinação de proteger as installa- 
çÕes da Companhia Ingleza de Telephones, até que nova mis- 
são, igualmente inútil, lhe incumbiram. D'alí, como se intento 
houvesse de cançar as forças, mal havia disposto o tenente Cor- 
tez com os seus companheiros, tenentes Joaquim da Silva e 
Thomé Dias da Silva, algumas vedetas, breve foi ordenada a 
marcha até ao jardim da Patriarchal, onde também não exerceu 
acção saliente 5 facto evidenciado mais tarde na imprensa. (*) 

Outros pelotões percorriam o Rocio e ruas visinhas, perse- 
guindo os civis que encontravam. 

N'uma d'essas evoluções, surgiu uma directa acção dos per- 
seguidos. 

Na Rua das Gallinheiras, um esquadrão da municipal era 
atacado á bomba de dynamite, por quatro carbonários. 

Caiam feridos o tenente e um soldado. 

Os restantes, aprisionavam os portadores dos explosivos, en- 
cerrando-os no quartel general. 

Foi a origem de excessos de prevenção, derrubando quan- 
tos tentassem approximar-se, para que intenções destruidoras da 
guarda se não consummassem. 

Augmentou-se o tétrico aspecto das ruas. A cavallaria, cor- 
rendo sobre qualquer suspeito vulto, reduzia-o á inutilidade pela 
força da espada ou pelo poder da bala. 

Sahindo das ruas, os núcleos de paisanos, procuravam mano- 
brar dos prédios. 

Convencionado um ataque ás forças do Rocio, pelo grupo 
de José Victorino, desde logo elle toi posto em execução. 

Vejamol-o (**) descrever a tentativa; 

«A* hora combinada lá estavam todos. Por ah passamos 
parte da noite e d'ali fomos para uma casa que José Victorino 



(*) O Mundo de 12 de outubro de 1910. 

(##) De relatório inédito, já aqui citado e de posse do auctor d'esta obrr 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 127 

tinha alugado na rua dos Correeiros, 224, 5.°, direito, já desde 
1905 apropriada para esse rim. Cada um foi por sua vez por 
causa da suspeita, sendo José Victorino o primeiro para abrir a 
porta da escada. Como as tropas desconfiassem, já quando nós 
estávamos no telhado, de um homem que vinha rua cima, o 
commandante da linha de fogo mandou fazer alto, ao dito homem 
e como elle não parasse, deram fogo rasteiro. O homem continuou 
a andar e deram-lhe fogo sobre elle que cahiu morto e nós indig- 
nados, seguimos José Victorino que seguiu até á borda do te- 
lhado e atirou uma bomba que desfez a linha, que era composta 
na sua maior parte de guarda fiscal. Quando alguns fugiam 
pela rua dos Correeiros abaixo, dizia o tenente que commandava 
a linha de atiradores: Ah cobardes! ah cobardes! não fu- 
jam! Elles não se importavam. Tiveram de lormar nova linha 
de municipal. Sahimos rua dos Correeiros, travessa de Santa 
Justa, rua dos Fanqueiros, Praça da Figueira, rua da Palma ? 
escadinhas do Collegio até á calçada do Lavra, para a Avenida. 
«No largo da Annunciada combinamos ir dois a ver se po- 
díamos entrar com a linha de atiradores que estava na rua do 
Principe. Foram dois, que ao chegar á dita linha, immediata- 
mente foram mandados fazer alto até á terceira vez. Depois ati- 
raram um tiro para o chão. Elles fugiram atirando com duas 
bombas que nada fizeram, Ao chegar ao pé de nós, disse José 
Victorino: «Agora vou lá eu; ou morro ou entro». Disse outro: 
«Tu não vais que fazes muita falta aos teus filhos». José Victo- 
rino cedeu. Foram outros dois. Ao chegar á linha, fizeram alto 
três vezes. Elles não fizeram caso, atiraram para o chão, elles 
não pararam; atiraram com boas pontarias; a um apontaram-lhe 
á cabeça e outro cahiu varado, não fazendo por esse motivo uso 
das bombas que levavam. A' hora que se acabava de passar isto, 
quando nós todos avançávamos para a linha, levantavam-se os 
soldados que estavam deitados. Tinham acabado de se render as 
tropas que estavam no Rocio, sentia-se grande borborinho e 
entre a vozearia ouvia»se vivas a* Republica. Foi n'esse momento 
que se implantou a Republica. José Victorino disse: «rapazes,, 
a republica está implantada, agora não faltam revolucionários. 
Eu vou para casa abraçar minha mulher e meus filhos e vós po- 



128 ARMANDO RIBEIRO 



deis fazer o que quizerdes». Ao chegar José Victorino á rua 
onde morava havia ali grande tristeza: ao levantar a linha que 
estava ao cimo da ru3 houve ali um tiroteio que matara ali um 
homem; esse homem trazia um chapéu exactamente o d'elle. 
Levaram o chapéu á mulher e elia disse: Ah meu rico marido 
que foi fatal á tua porta mesmo!» Tudo âcou convencido que 
o chapéu era o d'elle. Quando os visinhos o viram, abraçaram- 
no e choraram de alegria, porque José Vtctorino era pobre e ti- 
nha seis filhos e o pouco que tinha gastou-o para crganisar o 
seu grupo; e era estimado por todos os visinhos. Ac entrar em casa 
viu um filho a quem elle mais estimava, com a cabeça amarrada, 
producto de bater com ella nas paredes quando lhe disseram 
que tinham morto o pae. O filho tinha 4 annos, chamavase 
Idílio, ficando com uma cicatriz para toda a sua vida, como 
lembrança da revolução.» 

José Victorino, á victoria ganha, deixaria o seu mister, pelo 
logar de ajudante de porteiro da Bibliotheca Nacional de Lisboa, 
sendo mais tarde (6 de março de I914) integrado na efíectivi- 
dade do cargo. 

Não passou todavia, sem ir aos cárceres, como envolvido 
no caso da explosão de uma bomba de dynamite, na Rua do 
Carmo, á passagem do cortejo camoneano em 10 ie junho de 
igl3, sendo restituido á liberdade a uma averiguada inculpa- 
bilidade. 



Emquanto o exercito anceando embora por se ligar aos re- 
voltosos, os afugentava pelo tiroteio e os grupos civis, punham 
em pratica, nos arruamentos, uma improfiqua tentativa de 
captação da soldadesca, procurando ao mesmo tempo destro- 
çal-a; emquanto esse duplo equivoco se estabelecia, novas espe- 
ranças renasciam nos dirigentes da Revolução. 

O quartel general reorganisavase em parte, no Hotel Eu- 
tropa, na Rua Nova do Carmo, com José Barbosa, José Relvas, 
Celestino Steflanina, havendo os dois primeiros, aproveitando 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 129 

as trevas, conseguido transpor o espaço que da redacção da Lu- 
cta y na Rua Anchieta (*) ia á do Carmo. 

No jornal, se efectuaram reuniões, onde se resolveu «espe- 
rar que o povo, que se tinha em6m resolvido a sacudir o jugo 
degradante da monarchia fizesse a sua obra. . .»(**) 

Seria uma conderonavel abstenção de cooperação e perigos, 
n'essa hora em que o povo para elle estava talhando fatia grossa, se 
de arrojo não íosse o conciliábulo em frente do governo civil, ante 
as vistas de agentes, argus ligeiros, a despeito de o diário, desde 
o seu primeiro numero em i de janeiro de 1906 se declarar 
republicano. 

Seria justo reevocar o audaces fortuna juvat se não sur- 
gisse como superior ao sorriso da fortuna aos audaciosos, o sor- 
riso de complacência dos bem dispostos a cerrar os olhos aos 
sectários da sedição. 

A salvo deslisaram ainda da frente da sede do cominando 
policial até quasi á volta do Rocio, os três assistentes ao Conse- 
lho da Rua Anchieta. 

A retirada das baterias e a evidente perturbação salientada 
no quartel general, melhores impressões trouxera á junta revo- 
lucionaria, cuja parte, occulta todavia no hotel, estava ainda pro- 
tegida por 12 populares armados. 

Era de encorajado coração, essa dúzia de combatentes, de- 
clarandoo preremptoria a José Relvas, a quem a excusa do dr. 
Basílio Telles, collocaria no cargo de primeiro ministro das fi- 
nanças da Republica. 

Salienta-o o episodio seguinte: 

N'um dos instantes em que Relvas quiz sair á rua, a investi- 
gar, o grupo formou muralha, dizendo: 

— «V. Ex.* não pode morrer n'este momento. Fazia uma 
grande falta, como chefe, á revolução. Nós não lhe fazemos falta 
nenhuma!» 

Efsa guarda, manobrava portanto, indifierente ao perigo e 



(#) Commemorando esses factos, á victoria feita, a Rua Anchieta passou 
a Rua da Lucta. 

(**) Celestino StefFanina — Subsídios porá a historia da Revolução de 
5 de Outubro de 1910 — Pagina 25. 

TOL. IT — FL. 17 



130 ARMANDO RIBEIRO 



sem que entrave soffresse pelas forças encarregadas de deter os 
elementos sediciosos. 

Subindo ao mais elevado ponto da casa onde se encontra- 
vam, d'ahi assistiram os chefes rebeldes, ao desenrolado espectá- 
culo do afouto ataque popular ás forças acampadas na Rua do 
Ouro e sobre as quaes, como principal meio dé destruição, cahiam 
as bombas de dynamite. 

Todavia, n'um desapego de quantos n'essa hora se sacrifi- 
cavam pelo sonho democrático, José Barbosa, — que á victoria ga- 
nha iria a secretario geral do ministério do interior, — e Celestino 
Steffanina, regressando ao aposento occasional, pensaram em 
dormir. 

Como que em protesto a esse ambicionado descanço, quando 
o povo, sem delle se recordar, actuava enérgico, o tiroteio recru- 
desceu. 

Ante esse impossivel socego de novo voltava á rua o revo- 
lucionário Celestino Steffanina. 

De Alcântara, por mal encaminhados se deram os successos. 

Que se passava ali, no local, que, por assim dizer, consti- 
tuia o esteio leste da revolta ? 





l IlTlV 







II 



Em Alcântara — As detenções de Algés— A dispersão 
dos deffensores do quartel de marinheiros — Valendo 
ao desalento — Soares Andréa assume o cominando 
da defesa do edifício — E' participado ao quartel ge- 
neral a situação de Alcântara — Mantem-se a inér- 
cia—Incidentes de mysterio — Novos auxiliares — 
Baldadas esperanças 




que na Rotunda succedeu, de manha, teve 
exemplo, pela tarde, no quartel da marinha. 
O espectáculo extranho do ataque ao peça 
í«| real, como que perturbou os combatentes de Ai- 
;** cantara. 

A* nevrose, alliou-se fictícia alegria, invólu- 
cro quasi celebre d'um receio, de interrogação, 
a desenhar-se nos cérebros, sobre o resultado do acto inaudito 
realisado sob essa singular tensão espiritual. 

A' sahida do S. Raphael } correspondeu, pouco depois, a do 
Adamastor. 

N'elle ingressava até um official, pouco antes cahido na 
rede de vigilância pelas vedetas rebeldes. 

Surgindo n*aquella altura o capitão Nascimento, da admi- 
nistração militar, foi detido e levado até á parada do quartel, 
onde beijou a bandeira republicana que lhe foi presente. 



132 ARMANDO RIBEIRO 



Considerado novo adepto, fazia parte do troço que embar- 
cou no Adamastor. 

A bordo quanto coube, de abalada veio este para se reunir 
uo Terreiro do Paço ao 5. Raphael. 

Para colorido a esse acto, se manifestou a intenção de ma- 
nobra, não eífectuada, de junccionamento ás forças da Rotunda. 

Do embarque, pela marinhagem, nasceu o quasi abandono 
do quartel, em parte deixado também pelos civis. 

Apenas ali ficaram alguns guardafreios, estudantes do exer- 
cito e oito ou dez praças de cavallaria 4, que, de manhã, ha- 
viam tomado o expediente de se unirem á força da armada, 
em revolta. 

As ambulâncias, já haviam retirado do solo além de 2 
civis, 2 soldados e 1 marujo, feridos por balas, um popular, 
Raul Vejor, casado, natural de Lisboa, de 24 annos, filho de 
António Vejor e de Antónia de Sant'Anna Vejor, empregado 
na exploração do porto de Lisboa, esphacellado pela explosão de 
uma bomba que trazia e que ainda mutilou o cunhado do por- 
tador, o operário marítimo Agostinho de Almeida, morador na 
Trayessa do Fiúza, 36, i.°, o qual ficou sem a perna esquerda 
e com a direita fracturada em dois pontos. 

No Senado era approvado depois (*) um projecto de lei con- 
cedendo pensões vitalícias e entre as participantes contava-se, 
com a pensão de 9S000 réis mensaes, Luiza da Conceição Ve- 
jor, viuva de Raul de La Cruz Vejor. 

Sem o appoio dos navios, escassos em auxiliares, descrentes 
em soccorros, efifectuou se a dispersão. 

Se o facto soou para além de Alcântara, transmudado em 
titânica lucta e destroço de marinhagem, ao quartel e pontos vá- 
rios chegou o registo de peripécias grandes com a guarda fis- 
cal de Algés. 

Resumiu-se o successo todavia, ao assalto, n*essa noite, pelos 
revoltosos da localidade ao semi-abandonado posto da guarda 
fiscal, cujas praças haviam retirado para o quartel de reformados 
na Junqueira. 



(*) "Diário do Senado — Sessão n.° í3tí de 8 de julho de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 133 

Os dois únicos soldados não quizeram resistir á mole hu- 
mana, e ali se formou um modesto reducto de vigilância, para 
detenção de não adherentes, cahindo depois no meio do grupo 
attento, o tenente de infantaria u, António Joaquim Ferreira 
Diniz, o capitão de artilharia Amilcar da Motta, o 2.° tenente 
Jayme da Fonseca Monteiro, commandante do Lidador, o 
tenente da administração militar, João Augusto Tristão, o 
commandante do serviço de torpedos, Pedro Gomes Teixeira, o 
general de brigada vogal do conselho general do exercito e do 
supremo conselho de defesa nacional, José de Oliveira Garção 
de Carvalho Campello de Andrade e alguns soldados. 

Propoz se desde logo o primeiro auxiliar o movimento, o 
que acceite foi. 

Ferreira Diniz, quando em caçadores 6, já tivera persegui- 
ções por denuncia de adverso á monarchia, facto certo, o que o 
não inhibiu porém de contra a suspeita protestar junto do então 
ministro da guerra, conselheiro José Mathias Nunes. (*) 

A adherencia á sedição com o assumir do commando do 
grupo que o aprisionara, foi bem acceite. 

Mais tarde, á victoria ganha, o tenente passava a infantaria 
5, e velo-hemos, annos depois, acompanhando esse regimento 
ao norte á annunciada incursão monarchica de setembro de I9I2 
e por successos dados na estrada de Arcos de Valde-Vez a Braga, 
mandado comparecer a conselho de guerra. 

A elle o levou o intolerantismo religioso, 

Na manhã de 14 de setembro d'aquelle anno, o official, 
commandando um troço de soldados deixou que estes, sahindo 
da forma, destruissem alguns cruzeiros, imagens e caixas de es- 
molas collocadas em nichos existentes ao longo do caminho. 

Organisado processo, sob base de que as praças haviam 
feito uso illegitimo das espingardas e sabres e sem a repressão 
do commandante, comparecia a julgamento no 1.° tribunal de 
guerra, perante o qual allegava «não ter evitado os factos porque 
os não vira commetter, tanto mais que os soldados caminhavam 



(#; Fevereiro de 1910. — Vide pag. 37o do 1.° vol. d'esta obra- 



134 ARMANDO RIBEIRO 



á vontade, sahindo por vezes alguns, encobertos pelos carros de 
campanha que vinham na torça, íóra da forma.» 

De verdade se percebia que, sendo diminuto o troço, o acto 
de destruição não podia ter sido executado sem o conhecimento 
do tenente, com a obrigatoriedade de manter a disciplina e a 
boa ordem no núcleo de sua chefia. 

Isso levou o tribunal, presidido pelo coronel Macedo Coe- 
lho, servindo de auditor o juiz civil, dr. Amaral Cyrne e de 
defensor ofncioso, o major Gouveia, a emittir sentença (*) de 
condemnação em três mezes de prisão militar, tendo em vista 
o artigo 125.° do Código de Justiça Militar. 

Ergueu logo a imprensa democrática a voz em defesa de 
Ferreira Diniz, dizendo o jornal republicano o Mundo {**): 

«Provocou os mais sinceros aplausos o que no Mundo se 
escreveu sobre a necessidade de não ser cumprida a pena em 
que toi condemnado o sr. tenente Ferreira Diniz. E 1 necessário^ 
na verdade, que se evite essa monstruosidade. O sr. tenente Di- 
niz estava no regimento de infantaria 5 quando este, por moti- 
vo da incursão foi ao norte, O comandante do regimento encar- 
regou-o de serviços especiais de confiança e prestou as melhores 
informações sobre a forma por que foram desempenhados esses 
serviços. Uma das comissões de que foi encarregado foi a de ad- 
ministrar o concelho de Arcos de Vai de Vez, estando suspen- 
sas as garantias. O sr. Ferreira Diniz desempenhou-se escrupu- 
losamente dos seus deveres, e uma das suas preoccupações toi 
fazer cumprir a lei de Separação. E\ talvez, essa a origem dos 
ódios que mais tarde se expandiram. Muitas das testemunhas 
que o acusam são mulheres fanatisadas. Mas esses depoimentos 
contradizem se da maneira mais flagrante, sendo poucos e falsos 
os que atfirmaram que o sr. tenente Ferreira Diniz viu os sol- 
dados partirem os nichos. E* de notar que esses nichos e um 
alpendre que os soldados destruiram não constituiam objectos 
artísticos, ou por qualquer razão valiosos. Eram antes figuras 
mal feitas e ridículas. E' certo que o povo rude e fanático lhes 



(#) 2 de Abril de 1914. 

(**) O Mundo, de 7 de Abril de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 135 



chamava — alminhas. Mas não inspiravam nenhuma espécie de 
respeito a quem quer que não estivesse absolutamente domina- 
do pelo mais inconsciente fanatismo Um bom e sincero catho- 
lico podia muito bem rir-se d'aquellas figuras grotescas, sem 
menoscabar a sua religião. Seria mais que iníquo, porque seria 
monstruoso, que o tenente Ferreira Diniz cumprisse três meses 
de prisão pelos actos que praticaram os soldados do seu co- 
mando em circunstancias especialíssimas. Seria indecoroso para 
a Republica que esse otticial republicano, que a serviu com leal- 
dade e honra, tosse enclausurado no Castello de S. Jorge, vi- 
vendo em liberdade aquelles que conspiraram contra a Repu- 
blica na occasião em que elle lhe oâerecia a sua enthusiastica 
dedicação. Não pode ser. O Parlamento da Republica tem que 
evitar esta clamorosa monstruosidade.» 

Procurando se adduzir elementos para salvar o tenente da 
execução da sentença marcial, veio ainda o depoimento (*) de 
um soldado de nome Alfredo Penalva: 

«Continua em foco o caso do tenente Ferreira Diniz, con- 
demnado ha dias, sem motivos plausíveis, elle que é republica- 
no, precisamente quando os inimigos do regime eram postos em 
liberdade para provocar os nossos correligionários. O caso tem 
merecido reparos, tanto mais que contra o tenente Diniz não 
apareceu uma acusação concreta, precisa, indiscutível. Ainda 
hontem encontrámos, por acaso, um dos soldados que acompa- 
nharam o inteligente oficial na sua missão pelo norte. Esse sol- 
dado é o nosso correligionário Alfredo Nunes da Silva Penalva. 

« — Assistiu aos casos pelos quais assacam a responsabili- 
dade ao tenente Ferreira Diniz? 

« — Não assisti a esses. casos pela simples razão de que não 
se deram. Acompanhei o sr. Ferreira Diniz, como soldado, na 
sua força, e pude verificar com orgulho que elle cumpriu hon- 
radamente a sua missão, servindo e defendendo a Republica. Só 
houve um incidente, e esse mesmo sem importância: um sol- 
dado, ao passar em Palmeira, ouvindo a musica local tocar o 
hino da carta obrigou-a a tocar a Portuguesa. E' de ahi que 



(*) O Mundo de ii de Abril de 1914. 



136 ARMANDO RIBEIRO 



provém toda a intriga que envolveu o sympatico tenente Diniz* 
Depois parece que apareceu partida a imagem do senhor dos< 
milagres, como lá lhe chamam, e atribuíram o facto á força 
militar. O juiz de paz de Palmeira é, mesmo, a principal teste- 
munha de acusação. Procuram atribuir ao tenente Diniz uma 
obra de ódio quando lhe devem atribuir uma obra de deteza da 
Republica e do povo. Repare, por exemplo, nisto: em 2 de agosto 
de 191 2 marchámos, quasi á noite, de Braga para Arcos de Vai 
de Vez, onde chegámos ás 6 horas do dia 3. Ao chegar ali a 
iorça não havia milho para o povo íabricar pão, não havia ovos 
para o hospital, não se cumpria a lei de separação e havia con- 
trabando de armamento para os conspiradores. Immediatamente 
o tenente Diniz resolveu tudo, arranjando milhos e ovos, fazendo 
cumprir a lei da separação e apreendendo o armamento. Nada 
mais se fez ali. Eu, garanto-lhe, nada mais vi fazer. Caicule que 
durante a marcha, na retirada dos Arcos, viemos todos forma- 
dos, com velas acesas para ver o caminho. Como poderíamos^ 
nessas condições, ver os nichos e inutiliza los? A acusação que 
pesa sobre o tenente Ferreira Diniz foi forjada pelos reaccioná- 
rios, por espirito de mesquinha vingança. Ahi tem o que sei 
sobre o caso Ferreira Diniz. Não lhe parece curioso que fosse 
condemnado um homem que tão lealmente serviu a Republica? 
Efectivamente, o caso parecenos mais que curioso, porque é 
monstruoso, e por tal motivo o temos commentado como merece.» 

Valeu a campanha. 

Na camará dos deputados foi apresentada pelo deputado 
democrático, dr. Adriano Gomes Pimenta, uma proposta pela 
qual o tenente seria incluído no numero dos participantes do 
decreto de amnistia promulgado mezes antes (22 de Fevereiro 

de 1914). 

Approvado, (*) não sem discussão, seguiu-se-lhe (**) o julga- 
mento do recurso interposto pelo official para o Supremo Tri- 
bunal Militar. O defensor, tenente coronel Correia Mendes, fri- 



(*) Diário da Camará dos Deputados, 75.' Sessão ordinária, em 17 de 
Abril de igi4- 

(*#) 8 de Maio de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 137 



sando que a incriminação só poderia ser íeita pelos artigos do 
Código Penal que punem a falta de respeito aos syr.bolos e á 
religião catholica do Estado, artigos excluídos da legislação; que 
com o tenente não responderam as praças; que elle não fizera 
uso das suas armas, e não instigara os soldados e que apenas a 
gente de Palmeira dissera haver elle visto praticar a destruição, 
obteve o annular da sentença, com a fixação de novo julgamenfo, 
prejudicado já pela lei da amnistia. 

Pouco tempo depois, (*) Ferreira Diniz, seguia para Lou- 
renço Marques, no posto immediato, capitão, accesso correspon- 
dente aos que vão prestar serviço no ultramar. 

Não se podiam pois suscitar duvidas, sobre a íé republicana 
do chefe da linha de defeza em Algés, na noite de 4 de Outubro 
de 1910. 

Dos que com elle partilharam a detenção inicial, pelos civis, 
iria, á republica victoriosa, a commandante do rebocador Berrio, 
e como i.° tenente, o 2. tenente Jayme da Fonseca Monteiro, 
sendo lhe ainda auetorisada, pelos serviços prestados á Republi- 
ca, a admissão a matricula no Collegio Militar, de seu filho Jay- 
me da Fonseca Monteiro (22 de Outubro de 1910). 

Julgado útil augmentar em pormenores o incidente das ca- 
pturas de Algés, metamorphosearam-se as ideias do grupo em 
consumados factos. 

Deu se em preparo um avanço sobre a cidade, precedendo re- 
forço ao quartel de marinheiros. Houve a intenção, mas nem de 
leve se pensou em a executar. 

Assim o edifício de Alcântara desguarneceu-se, rasgando ca- 
minho a fácil tomadia, se ella se tivesse querido praticar. 

Valeu á situação, o comerciante José Nogueira, formando 
diminuto núcleo de defeza, para illusão ás torças sitiantes. 

Esta attitude, se elles, de realidade, dispostos estivessem ao 
integro desempenho da missão, não passaria de ephemero ardil, 
Todavia o convencionalismo que os republicanos não deixa- 
vam de assignalar em relação ás tropas que se allegavam defíen- 



(*) i de Julho de 1914. 

VOL. IV ■— FL. 18 



138 ARMANDO RIBEIRO 



soras da realeza, mais uma vez collocou no campo dos rebeldes 
um troço de indifferentes, quando não de auxiliares. 

A suspeição, com base em attitudes conârmada foi pelos de- 
poimentos dos chefes revolucionários, que a não desviaram até 
de infantaria i, embora durante as perigosas horas, por temida 
a houvessem. 

E' certo que o regimento cingido esteve ás ordens superio- 
res, não transmittidas, e tanto que, cançado d'essa inactividade, 
o coronel José Jayme de Sousa Marques, mandou perguntar, 
pelo fim da tarde, ao commandante da brigada de Alcântara, 
coronel Bernardo António de Brito e Abreu, qual a orientação a 
assumir e o local onde melhor poderia exercer serviço. Secca toi 
a resposta. 

Era el!a a ordem de marcha para mais perto das Necessida- 
des, não para defeza de D. Manuel II, que já ali não estava, mas 
para guarda ao edifício. 

Nada de productivo resultaria eesse aspecto se encarregou de 
descrever (*) o i.° tenente da armada, Victor Leite de Sepúlveda : 

«Durante a noite de 4 para 5 o Quartel General dava or- 
dens e contra-ordens. Não se imagina o que isso foi! Umas ve- 
zes ordenavam : retirem; outras diziam: fiquem. O Quartel 
General estava posteriormente a mangar com a tropa ! Das Ne- 
cessidades respondiam que era impossivel sahir, porque pelo 
caminho as forças seriam dispersadas e os soldados podiam fazer 
causa commum com os revoltosos. Dizia-se mais para o Quartel 
General que abandonar o Paço era dtixal-o exposto. Quem trans- 
mittia tudo isto era um tenente que se aconselhava commigo. 

«Os coronéis e tenentes coronéis trocavam impressões pelos 
cantos ou dormitavam. Eu lembrei, então, ao Brigadeiro que 
reunisse conselho de officiaes, e creio que chegaram a reunir, 
resolvendo ficar. Antes tinha se falado em retirarem as torças, 
ficando só a Municipal, mas o capitão que as commandava opoz- 
se. Agora estava emfim tomada uma resolução: 6car. E para 
não haver mais hesitações interrompeu-se a communicação tele- 
phonica com o Quartel General.» 



(#) Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão, pagina 226. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 139 

Eis o tácito insubordinamento a superiores ordens, sob as 
apparencias benévolas de um commodismo. 

A ordem de uvanço de infantaria i executava-se, e se a re- 
volta lucrou, por mais desannuviado se lhe apresentar o campo, 
egualmente ganhou a soldadesca que, havendo apenas de manha 
tragado írugdissimo almoço, pão, se poude defrontar com o ran- 
cho, mandado vir do quartel sob escolta de alguns soldados, com 
o tenente de cavallaria 4, Cunha Menezes. 

Justo é dizer-se, porém, que aos revoltosos não ia uma larga 
confiança n'essa orientação quasi expectante. 

Entresonharam-se represálias, hecatombes e intenções espe- 
ciaes nos aparentados aspectos de inactividade. 

Isso forçou a que, para alguém se conservar ali num pouco 
de sigillo se envolvesse o afastamento dos vasos de guerra. José 
Nogueira, ao ser lhe participado pelo cabo Martins, que as forças 
iam embarcar, presumiu um simples render de forças. 

Ante a inútil espera de ataque, abandonava o posto, quando, 
olhando em redor, apenas viu o vácuo. 

Correu a olhar o mar, e somente lobrigou os navios, dis- 
tantes já. 

Só o haviam deixado. 

Era o golpe cerce, se esperança em horas felizes lhe não so- 
brasse. 

Correra já o que da Rotunda communicára Machado San- 
tos, nos termos do seu documento, onde annotava a impossibi- 
lidade de avançar sobre Alcântara, pela escassez de infantaria e 
o voto de bombardear o Rocio mas com dependência da acção 
sobre o Terreiro do Paço pelas praças de marinha. 

Não desanimava. 

Não quiz deixar-se eivar pelo terror que adivinhou a aug- 
mentar a cada nocturna hora. 

Percorrendo ávido o edifício, não lhe sorrindo a deserção, 
após tantos instantes de incerteza, lobrigava ainda numa caserna 
subterrânea duas outras esquecidas praças. 

Providencialmente chegava um marinheiro desertor. 

Reunidos esses trez homens, dos quaes dois tinham armas, 
architectou José Nogueira um estratagema. 



140 ARMANDO RIBEIRO 



Com elles, iria offuscar a brigada que cercava o quartel. Não 
era ditficil o projecto, embora julgado fosse necessário ardil. 

O edifício illuminou-se, como desafio, como se de pouco lhe 
importasse servir de alvo cetto á metralha de caçadores 2. 

O irio deffensor, corria entretanto de uma janella para outra, 
agitandose nas luzes, reproduzi ndo-se na sombra, para que a 
óptica e o medo levasse aos outros a noção de um effectivo so~ 
berbo e aguerrido. 

O incidente tem seus vislumbres de épico e engenhoso. 

Era a convicção a encorajar quatro homens, a quem o des- 
tino não quiz derrubar em holocausto a um regimen nascente 
pela íé e a outro a aflundarse pela traição dos que o deviam 
proteger. 

O episodio soberbo d'essa hora, é um symbolo de crença & 
oppôr-se a um espectáculo de tristeza e de indecisões. 

Era bem o facho rubro da revolução a cegar com ã luz viva 
as pupillas aterrorisadas d'aquelles homens, d'aquella brigada 
singular, como de estatuas assistindo impassiveis a esse phan- 
tasmagorico e irónico desdobrar de personagens. . . 

E' grande o quadro, da provocação e delronta, por quatro 
homens, a algumas centenas d'elles. 

Fugindo á escuridão, atrahidos pela luz, novos revolucioná- 
rios foram chegando, mas sem que offerecessem numero seguro 
para elficaz resistência se algum ataque fosse intentado. 

Restabeleceu-se, em melhor grau, o serviço de vigilância ex- 
terna, para prevenir surprezas e d'elle originou a detenção de 
mais suspeitos. 

Foi n'essa quadra, de desalento e de magua, de prevista ca- 
tastrophe e de intuitivo sacrifício, que em extranhas circunstan- 
cias, surgiu, para impulsivo soerguer de esperanças e a meia 
hora do desamparo a que se votou o quartel de Alcântara, o ca- 
pitão tenente Álvaro de Oliveira Soares Andrea. 

A Africa tinhao contado no numero dos seus exploradores 
combatentes. 

As guerras de i8g5, terminadas com a prisão do régulo 
Gungunhana, fizeram-lhe collocar ao peito as insignias de oífi- 
ciai da ordem da Torre e Espada. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 14£ 

Por carta de lei de 6 de Abril de 1896, (*) de assignatura 
do presidente do governo, conselheiro Ernesto Rodolpho Hintze 
Ribeiro, conselheiro Luiz Augusto Pimentel Pinto, ministro da 
guerra e Jacintho Cândido da Gosta, ministro da marinha, e cum- 
prindo o decreto das cortes geraes de 10 de Março do mesmo 
anno, arbitrava a pensão annual de 3oo$ooo réis ao então i.° te- 
nente da armada, Álvaro Andréa, pelos relevantes serviços pres- 
tados na campanha da Africa Oriental. 

Comtudo esse lance guerreiro de Chaumie íoi a origem de 
questão intensa, que ligada á questão politica teve, como um dos» 
pontos capitães, a sahida do oíficial do serviço da armada. 

Extensa e notável íoi essa polemica, travada entre Soares 
Andréa e outro dos olfkiaes de Africa, Annibal Augusto Sanches 
de Miranda e com base na espada que este em Chaimite usava, 

Emprestada pelo oíficial de marinha, ao seu camarada do 
exercito, ao dar-se a restituição da arma, tinta de sangue, affir- 
mou-se este como sendo dos negros attingidos durante o lance 
do aprisionamento do regulo vatua. 

A espada ingressava no museu, mas breve se ironisava a 
affirmativa, allegado desfastio alegre e ao destruir d'essa crença, 
surgiram pelo agaloado da armada, golpes constantes na por elle 
denominada lenda de Chaimite. 

A orientação democrática, para que amboâ se inclinavam, 
não os reuniu e a desavença foi até aos conselhos da armada, 
que emittiu voto favorável ás allegações de Sanches de Miranda, 
sobre o incidente, do dito desfecho alegre e da boa disposição de 
uma feliz hora de campanha. 

A dictadura franquista de 1906-1908, mais em destaque 
colocou o capitão-tenente, que, embrenhando se nos meandros 
das conspirações republicanas, viu logo, como consequência, a^ 
gumas perseguições. 

Soares Andréa tinha logar primacial marcado para a janei- 
rada de 1908, impendendolhe a tomadia do arsenal da mari- 
nha, não realizado ao fracasso do movimento. 



(*) Gollecção Official da Legislação Portugueza do anno de 1896. Pa- 
gina 156. 



'■IWt ARMANDO RIBEIRO 



Andréa não teve sequer exacto aviso do projectado movi- 
mento. 

D*isso íez menção o oíâcial nos momentos em que expôz (*) 
amargas queixas e quiçá arrependimentos da ingerência em re- 
volucionários lances: 

«Mas não seria justamente por eu me haver manifestado 
contrario ao afastamento do almirante e do capitão de fragata 
sr. Fontes, que depois em outubro não fui prevenido, como de- 
via esperar devidamente do sr. Machado Santos? Muito embora 
recebesse dois ou três avisos por outros lados e vias de toda a 
confiança, mas que só não conheciam ao certo a hora em que 
devia explodir o movimento, eu devia esperar do sr. Ma- 
chado Santos esse acto de lealdade, para commigo, pois 
teve uns poucos de dias para me mandar avisar, ao me- 
nos de que trabalhavam, também, como eu estava trabalhando 
em segredo, para que o movimento rebentasse antes da par- 
tida do cruzador brazileiro S> Paulo. Porque o não fez o sr. 
Machado Santos? Prevê se que foi em obediência á tal resolu- 
ção de lançar o movimento só com um ofâcial superior, tanto 
que o sr. capitão de fragata Fontes, só por um acaso da sua 
iniciativa foi conhecedor de todo o movimento, e só ás 8 
horas da noite do próprio dia 3 dWtubro. O capitão de fragata, 
Serejo, carbonário e cooperador da preparação do movimento 
revolucionário, também não foi avisado, nem se lhe marcou 
posto onde conimandar! Eu tive que ir á matroca acoitar- me 
em Alcântara, em vez de poder ir tomar o commando do Ada- 
mastor como tinha promettido já a praças d'aquelle navio, por- 
que receei embarcar cedo de mais e prejudicar o movimento 
por levantar algumas suspeitas, pois nem conhecia o local 
onde se faria o embarque combinado de officiaes revo- 
lucionários. E foi assim, justamente na ocasião em que a 
Pátria mais carecia de boas dedicações, que nada menos de 
três officiaes de patente superior eram enigmaticamente 



(#) A Alvorada, folha semanal do dr. Mário Monteiro. Supplemento ao 
n.° 12 do armo I, de 30 de Abril de 1912. Tinha a esse tempo a redacção na 
R. de S. Nicolau, 60, i.°. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 14£ 

inutilisados de prestar concurso á revolução. Mas á i hora 
em ponto da madrugada de 4, isto é, á hora marcada para re- 
bentar o movimento para que eu não tivera aviso directo^ 
foram vistos três militares emboscados, assaltarem o quintal da 
minha casa em Calhariz. . . Quem os mandcu lá com tanta 
pontualidade?» 

A revolta, como já vimos, teve inicio quasi inesperado, 
dando até a falta de aviso a muitos dos seus interferentes, e não 
chegando mesmo a vários dos grupos, dos quaes, a maioria, em 
escasso numero para a lucta se apresentou. 

Se as salvas de prevenção fixadas foram na assembleia ma- 
gna da Rua da Esperança, a / hora, fixada para o começo do 
movimento, apenas resolvida em definitivo foi pelas 1 1 horas da 
noite de 2, na sala do Centro Republicano do Largo de S. Carlos. 

Desde esse instante a faina foi embaraçosa e pouco calma, 
difficiente e de fadiga. 

Um dos esquecidos, para communicação especial, foi o ca- 
pitão tenente Soares Andréa. Teve todavia informes e se não co- 
nheceu em todas as minudencias o projecto, a intuição o condu- 
ziu ao foco do trabalho da maruja, Alcântara, onde ás 10 horas 
e meia chegava, indo junto da residência do revolucionário civil 
José Nogueira, procurar exactos informes do plano a executar. 

Não os obteve, porque o grupo d'aquelle, a postos estava já 
para proceder á tentativa de captação de caçadores 2 e em se- 
guida ao assalto do quartel de marinheiros. 

Não se apresentou assim Soares Andréa para assumir o 
commando do Adamastor no instante do insurreccionamento 
e como promettera á guarnição do cruzador. 

Desconhecendo até o próprio local combinado para o embar- 
que de officiaes, e ainda as principaes crdens para tal fim, quiz 
reconhecer um proposital affastamento. 

Decidiu pois ficar por Alcântara. 

Os factos preliminares da marcha até ahi, historia-os elle nas 
linhas seguintes, (*) dadas ao ser interrogado sobre as commo* 
çôes d*essas horas de lucta: 



(#) O Intransigente de 5 de Outubro de 1911 



444 ARMANDO RIBEIRO 



«No dia 3o de setembro, absolutamente convencido de que 
a revolução tinha que explodir, conferenciei com praças do Ada- 
mastor para que avisassem todas as praças de confiança dos 
três cruzadores, porque o D. Carlos já não partiria para Cas- 
caes. No dia i tomei parte nas manifestações ao presidente Her- 
mes e fartei-me de dar vivas á republica portugueza em frente 
do palácio de Belém, tão segura eu considerava a coisa. No dia 
3 ao saber do attentado contra Bombarda ordenei aos meus que 
preparassem as suas armas para a revolução e fiz distribuir a 
6. a folha sobre a minha questão, em que atacava violentamente 
o paço, e, premeditando a revolta para o dia 5 ás duas horas da 
tarde, ao embarcar de Hermes, foi com surpreza que recebi aviso 
de que a revolução se antecipava para aquella noite.A's IO { / % 
estava acoitado em Alcântara para tomar parte no movimento, 
do que fiquei impossibilitado até ás 6 horas do dia 4, em que 
tomei o commando do quartel dos marinheiros.» 

Não apparece suficientemente justificado esse isolamento 
largo do posto combativo. 

N'esse intervallo não deixou de se fazer ouvir a fuzilaria e 
o canhoneio, excluindo a ideia de uma ignorância da sequencia 
da acção, nem em livre transito para revolucionários, deixou de 
estar qualquer dos baluartes sediciosos, pondo de parte, pois, a 
impossibilidade de uma approximação. Obstáculos de ordem es- 
pecial promoveram portanto a não comparência, e talvez para 
que Soares Andréa, cahindo na rede de vigilância feita em re- 
dor do quartel de marinheiros, o fosse auxiliar em mais critica 
hora, aquelle em que quasi ao abandono se encontrou, sem as 
vistas dos altos graduados da marinha, os iniciaes promotores 
da insurreição da armada, em terra. 

Ao deixar do quartel, ás trevas, o silencio fez-se por Al- 
cântara. 

Ao sentir quietitude, Soares Andréa, avançou até cerca do 
edifício, mas ao tentar atravessar o largo de Alcântara, alvejado 
ioi por alguns tiros. 

Recuando, occultou-se, até que, ante novo silencio fazia novo 
caminho, e, por beccos e travessas, a oeste do quartel, lograva 
chegar á rua 24 de Julho, onde ficou, de pistola aperrada. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA i«f 



Ali sabia da retirada de civis e maruja para bordo dos na* 
vi os. 

N'essa altura, surprehendido de novo pelos rebeldes, alve- 
jado foi por alguns tiros. 

Pedindo o cessar de fogo, Andréa que desde a véspera á 
noite, arrancara e cortara a coroa real do seu bonet, deu-se a 
conhecer como official da armada e revolucionário, o que o não 
impediu de ser forçado a desarmar se, entregando sem reluctan- 
cia a pistola e depois a espada, emquan«:o os apprehensores lhe 
declaravam: 

— Assim, desarmado, é nm soldado como nós que vem 
defender a Pátria. Siga adeante, e vae ver como se prende um 
camarada seu, que rrou para traz dos marinheiros e em vez de 
embarcar está ali escondido no carvão! 

De facto lobrigaram os vedetas o i.° tenente César Augusto de 
Mello Guerreiro, que só forçadamente se reunira aos revoltosos, 
apoz o assalto do quartel de marinha e retrocedera no segui- 
mento d'esse acto nascido da turbulenta occasião. (*) 

Surprehendido ao querer esqui var-se da cooperação no mo- 
vimento, foi assediado. 

Fazendo fogo contra elle, tiveram a resposta, mas o official, 
mal municiado, breve recahiu na mão do grupo civil, ingres- 
sando com Soares Andréa no quartel, pela parte sul, onde raros 
eram os seus def tensores. 

A apresentação dos dois officiaes, correspondeu á exacta 
iorma por que foram olhados: com inteira desconfiança. 

Para José Nogueira, contraria impressão houve. 

Reconhecendo o capitãotenente, de braços abertos o recebeu. 

De jubilo foi assim o surgir d'esse vulto de combatente ex- 
perimentado e de technico. 

Era um convicto e um dedicado aos dogmas da repu- 
blica. 

Ligado 4 Carbonária, jungido egualmente estava á iMaçona- 
ria, fazendo parte do Loj . * . Marquez de Pombal, de Lisboa. 

Vejamos, descripta pelo commerciante José Nogueira, essa 



(#) Vide o 3.° volume d'esta obra. Pagina 40i. 

VOL. IV — FL, 19 



146 ARMANDO RIBEIRO 



imprevista chegada, que Machado Santos, por justificável equi- 
voco, assegura (*) haver sido feita cerca das 6 horas da tarde: 

c Cerca das 7 horas, como uns populares viessem pedir-me 
armas para prender um official de marinha que se achava es- 
condido n'uma carvoeira, dei-lh'as, mandando os acompanhar 
pelo marinheiro desertor. 

tD'ahi a alguns momentos, os paisanos entravam, trazendo, 
capturados, não um olficial, mas dois, de quem os populares me 
diziam : 

— «Cá estão dois melros ! 

«Qual o meu espanto quando n'um dos ofkiaes reconheço o 
sr. Soares Andreia! E* claro que o mandei soltar, entregando- 
Ihe o comando do quartel. E ao tenente Guerreiro — pois era 
elle o outro oficial — como declarasse que não queria entrar no 
movimento, desarmei o e metio no calabouço.» (**) 

O revolucionário civil sciente lazia o recém chegado, de 
que havia ficado por lhe parecer equivoco, para todos, o aban- 
dono geral do quartel. 

Manifestando lhe o presentimento de que a todo o instante 
esperava o apparecimento do capitão-tenente, declinava n'elle a 
chefia da defeza, com um summario mas expressivo relato de 
uma situação desagradável, pela falta de armamento e de ho- 
mens, gorando-se ainda a presumida adhesão do tenente Mello 
Guerreiro que, intransigentemente, preferiu o cárcere á conni- 
vencia rebelde. 

Acceitando o commando que lhe era. entregue por José No- 
gueira, tomou o capitão tenente uma grave responsabilidade. 

Desde essa hora, Soares Andréa, no quartel de marinheiros, 
assumia o encargo pesado que sobre si tomara na Rotunda, Ma- 
chado Santos. 

De facto elles tiveram, nas suas mãos de encorajados, o des- 
tino da Republica. 

Devido a esses dois ofiBciaes, ella foi acclamada. 

Todavia, como se tudo isso passado fora em sonho, mais 



(#) Relatório. Pagina 103. 

(##) "Paginai revolucionarias. — O quartel de marinheiros durante a 
revolução, por José Nogueira. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 147 

^tarde, republica feita, veremos, Soares Andréa, arremessado para 
os cárceres do castello de Angra e do presidio da Trataria, como 
anti-republicano, (*) e como reu de traição ao regimen ; e Ma- 
chado Santos, indigitado como próximo companheiro de cárcere, 
posto á margem e espelhando a sua desillusão e quiçá o arre- 
pendimento de não ter acompanhado na fuga os oíficiaes que do 
baluarte se evolaram na histórica manhã de 4. 

Releguemos, porém, tudo para a data de rejubilo revolucio- 
nário de 5 de Outubro, reintegrando nos nos successos da noite 
que precedeu o êxito de tantos esforços. 

Soares Andréa, organisava logo uma defeza quanto possível 
regular, se bem que, notando a existência, como armas, apenas 
de 4 carabinas Mannlicher, 1 pistola Parabel, 2 pistolas Brow- 
nings, três ou quatro velhas catanas e alguns machados de abor- 
dagem. 

Todavia, e desconhecida ainda ali a morte do almirante 
Cândido dos Reis, para elle foi um pensamento, uma esperança 
de que pudesse surgir, de instante a instante. 

Esse vulto apagára-se, porém, na morte, mas a sua alma, 
pairando sobre os núcleos em revolta, insuflava-lhes a coragem 
c energia que o abandonara aos iniciaes symptomas d'um ira* 
*:asso, 

A ideia fixou-se no cruzador D. Carlos, perpetua ameaça 
á revolta, pela sua não integração absoluta no movimento. 

Disse-se que se suggeriram possibilidades de escapada até ás 
docas, cfonde, tomando-se uma embarcação com destino aos na- 
vios, se poderia aguardar, em circumstancias de authentico re- 
vez, a passagem protectora a qualquer vaso de guerra estrangei- 
ro, com especialidade, o cruzador S Paulo, do Brazil. 

No recurso que o levara ao simulacro de um forte núcleo de 
rebeldes com seis marinheiros apenas, José Nogueira, que aliás 
íôra surprehendido pela falta dos marujos e lhes desconhecia as 
intenções futuras, aventou quadros de soberbas cores: 

ajosé Nogueira disse-me que os marinheiros tencionavam 
voltar ao quartel depois da sortida nocturna pela cidade, e que 



(#) Abril de 1913. 



148 ARMANDO RIBEIRO 

o tomariam por bombardeamento, caso as tropas do Paço o ti- 
vessem occupado. Esta informação acabou por me permittir for- 
mar o meu plano estratégico para manter o quartel e evitar a? 
todo o custo que fora se conhecesse com exactidão que forças de 
marinheiros o guarnecia. 

«Bater me a commandar um cruzador, era serviço que me 
poria em muita evidencia e não menos segurança, mas o obs- 
curo trabalho estratégico, que no quartel ninguém mais havia 
para desempenhar cabalmente, embora me expuzesse a maiores 
riscos, tinha eu o dever de o cumprir. Não hesitei mais.» (*) 

Resolvido o esperar dos marinheiros e dos successos, desen- 
volvido foi o plano de deteza. Guarneceram os rebeldes, armados 
de machados, sabres de abordagem, e de chuços, a porta da 
rua 24 de Julho, emquanto outros grupos, destinados á externa 
vigilância, procediam á captura dos suspeitos, e entre elles, do' 
coronel de artilharia 3, Castro. 

Aproveitado o estratagema de José Nogueira, alguns dos re- 
voltosos, percorriam as jantllas do ediâcio, disparando as carabi- 
nas, para o ar ou para longe, n'um8 evidente demonstração de 
vigilância attenta, mas em falsa apresentação de largo contin- 
gente. 

Estabelecia se um espectáculo de intransigência e de perigo. 

Soares Andréa, animando com a figura alta e aprumada,, 
esse desolado aspecto interno, fazia levar aos presumidos dellen- 
sores da realeza a ameaça terrível. 

Segundo ella, as cercanias estavam tomadas por homens que> 
collocados nas ruas e nos últimos andares dos prédios, deixariam 
cahir um sem numero de bombas de dynamite, á menor tenta- 
tiva de avanço. 

A artilharia completaria a destruição pel8 dynamite. 

Julgou se que á arrogância outra viria por resposta. 

Foi erro. 

A brigada, simulando-se formada á ordem da realeza, estar- 
receu. 



(#) Notas Revolucionarias^ — Soares oAndréa no quartel dos marinhei^ 
tos— O Paif de 2 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA • 14fr 

Estavam ali, todo o regimento de infantaria i, todo o de 
caçadores 2, i5o praças de infantaria i6, duas companhias de 
infantaria da guarda municipal, e um esquadrão da mesma. 

Teixeira de Sousa, regista (*) n'esse troço um indevido effe- 
ctivo, attribuindo 491 praças a infantaria 1, 42o a caçadores 2y 
3o2 praças á infantaria da guarda municipal e j3 ao respe- 
ctivo esquadrão. 

O coronel Alfredo Albuquerque cita (**) 2 5o praças de in- 
fantaria 1, segundo informe do respectivo comandante, e conv 
base n'um ainda problemático numero de praças promptas fir- 
mado pelo chefe do governo > 287 homens a caçadores 2,0 que r 
com as restantes forças perfazia um total de 1062 soldados. 

Ainda que baixa soôresse esse proclamado efiectivo, gigan- 
tesco e desproporcional seria se se encorajasse, para, indiflerente, 
a ardis, submetter o reduzidíssimo numero de combatentes do? 
quartel de Alcântara. 

A estes valia a energia e a vontade de vencer, que os fazia 
subjugar até o próprio desanimo. 

A ameaça, aos outros feita, de terrivel retrucar a qualquer 
tentativa de avanço, se callou no intimo dos adversários, trans- 
formou se, no espirito dos que a formulavam, de utópica bra- 
vata em recurso seguro. 

Por seu turno, e sem que bem informado estivesse com ef- 
feito, mas por simples voto de incitamento, no instante critica 
em que no aquartelamento da marinha, quasi se desesperava,, 
ante uns escassos meios de dekza, aguentada apenas pelo esforça 
dum official, o capitãotenente Soares Andréa, a imprensa re- 
publicana, levava ao povo e ao próprio governo os mais falsos> 
boatos, tendentes a animar o primeiro e a aterrar o segundo^ 
aliás fazendo um simulacro de ataque. 

Assim A Capital, mantendo a fé republicana, affirmada 
desde o seu primeiro numero apparecido em 1 de Julho de 1909? 
— inseriu na noife de 4 o seguinte, em normando: 

«Os marinheiros triumpham. Dentro do quartel de Alcan- 



(#) Para a Histeria da Revolução. i.° volume. Pagina 302. 
(##) Os Cem Dias Funestos, por Joaquim Leilão. Pagina 321 



150 ARMANDO RIBEIRO 



tara ha 2000 homens armados promptos a atacar as forças fieis 
ao regimen.» 

E como informe certo: 

«A cada momento chegam populares que reclamam espin- 
gardas. A todos são fornecidas. De ambos os lados do edifício 
estão alinhados marinheiros e paisanos promptos a entrar em 
togo.» 

Desmentia-se que tosse o almirante Cândido Reis o morto 
da Travessa das Freiras, em Arroyos, procurando-se não levar 
ao modesto núcleo de Alcântara, o mais pequeno entrave ao^ seu 
denodo. 

Assim, quer esgarçando de nuvens esse horisonte turbado da 
revolução, quer augmentando em numero phantastico o todo 
d'essa deteza frágil, se buscava robustecer a aureolada fé em vic- 
toria fácil. 

Todavia, e para que á duplicidade, depois citada, não fosse 
possível transformar tudo em ignorância absoluta, aos presumi- 
dos focos monarchicos ia, por traição de alguns revoltosos desillu- 
didos, a noção exacta do estado do sitiado edifício de Alcântara. 

Os informes chegaram por meios vários, junto do vicealmi- 
rante Luiz António do Moraes e Sousa, ao tempo director geral 
de marinha. 

Este, conseguindo fazer uso do telephone, communicou ao 
comandante geral das guardas municipaes, o abandono do quar- 
tel de marinheiros e a possibilidade d*uma tomadia sem graves 
riscos. 

O coronel Malaquias de Lemos allegava a defficiencia de for- 
ças, mas participando o aviso ao quartel general, d'ali teve a res- 
posta de que não valia a peaa. (*) 

A despeito da extranha attitude, logo transmittida por Ma- 
laquias de Lemos, o almirante insistiu pela conveniência da ten- 
tativa. 

Facto excêntrico: 

A's negações de Brito e Abreu, para a marcha sobre o Prín- 
cipe Real, determinada pelo quartel general, correspondia agora s 



(*) Relatório de Malaquias de Lemos 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 15* 

a negação pelo quartel general, da marcha sobre Alcântara, lo- 
cal de accesso fácil, e que assegurava a posse duma posição im- 
portante. 

Temia-se especialmente caçadores 2. 

Razoes existiam, de facto. 

D'este regimento não se podia confiar a causa da realeza^ 

Factos anteriores o demonstravam. 

O i.° sargento, Francisco Baptista Medeiros, já procurara 
assestar a metralhadora que dirigia, para a municipal, que esca- 
pou, graças a um pedido de misericórdia, base de indecisão que 
deu logar á chegada de mais cavallaria, impossibilitando o ofi- 
cial inferior de, com os únicos quatro soldados que o rodeavam, 
fazer acção productiva, simplificada com a retirada, sem um tiro, 
da posição, falsamente defendida. 

Auxiliava-o o 2. sargento Peixoto. 

Ainda d'este regimento, e trazido pelas vedetas presente foi 
a Soares Andréa, um enviado favorável á democracia. 

O l.° sargento David José Fernandes Moreira, abandonava 
o seu posto no acampamento e ia atraiçoalo, levando ao quartel 
de marinheiros intenções extranhas, ou fosse, o oferecimento á 
revolução da bateria do seu commando, sob o ponto condicional 
de um simulado ataque por 3o praças da armada, que se o não 
fazia, seria a morte do núcleo da municipal que na defeza coo- 
perava ! 

Foi tomado por espia, tal o acto equivoco a que se prestava 
e que os próprios cfficiaes revoltados, repudiaram, levando o a 
intenções de traição. 

Do acampamento sahia, para de novo voltar a insistir sobre 
a entrega. 

D'essa vez houve a recusa. A proposta era de tentar, mas o 
capitao-tenente Soares Andréa estava quasi abandonado n'esse 
baluarte de Alcântara. 

Comtudo, foi ouvido. 

Indicou as posições vulneráveis do acampamento de caçado- 
res 2 e até á passagem por uma quinta, facultando um ataque 
de surpreza. 

Reiterou a promessa de dar á revolta a artilharia a seu carg o 



>152 ARMANDO RIBEIRO 



O capitão tenente, desassombrado e como se de facto o ro- 
deassem centenas de destemidos como eile, bradou-lhe sobran- 
ceiro: 

— «Os cruzadores estão a chegar para novo bombardea- 
mento sobre as tropas, e especialmente sobre as metralhadoras, 
e então safemse com ellas, a uma e uma, que as nossas patru- 
lhas os esperam no cimo da Rua do Tenente Valadim. Com res- 
peito aos marinheiros, eu não retiro uma única praça da com- 
panhia de guerra^ que está n'uma sua posição de deteza. Reco- 
mendo lhe que tragam as metralhadoras uma e uma, e sempre 
com os canos para tra^ porque se tal se não fizer, expõem- 
se a ser metralhados com as bombas de dynamite de que ha 
abundância no quartel!» 

Marchou o sargento, sem promettimentos certos, ao mal con- 
fiado posto, com um revolucionário de confiança, emquanto no 
quartel o desalento se esboçava. 

A tentativa era de deslumbrar, mas como agir se ali dentro 
estavam apenas Soares Andréa, José Nogueira, três marinhei- 
ros e nove paisanos?. . . 

Incumbia se o revolucionário civil, de no regresso lançar um 
véo de mysterio sobre a verdadeira attitude do sargento. 

Este, a curta distancia, esquivárase do companheiro, saltando 
os muros de um quintal e desapparecendo na treva. 

De dupla traição teve elíe accusaç5es. 

Por parte da monarchia, pela entrega que se propunha exe- 
cutar, sob a ficção de um ataque. 

Pelos rebeldes, tallou (*) Sosres Andréa: 

«O sargento seguiu, e foi se acompanhado por um voluntá- 
rio de confiança, de quem se escapou saltando ligeiramente um 
muro de quintal. Outras peripécias acabaram por parecer que a 
missão do sargento era outra, e, quanto ás metralhadoras, só sou- 
bemos d*ellas quando, ao romper da madrugada do dia 5, se ou- 
via repenicar descarga cerrada sobre o nosso quartel!» 

Assim, apenas se fez a defesa falsa e mais tarde, quando a 
■despeito d'essa entrega, pois mais não era a attitude extranha 



(#) Notas revolucionarias. — Soares Andréa no quartel de marinheiros. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 153 

do regimento, s^ lançavam suspeitas sobre caçadores 2, accu- 
sando-o de haver organisado uma resistência, o que seria uma 
manutenção fiel de jurada obediência ás instituições, ver-se hia 
surgir a desculpa a essse acto, que se verdadeiro íôra, simples 
dever representava. 

Aítirmaramno os officiaes de caçadores 2, em carta (•) 
dirigida á imprensa, e onde se frisava que, se houvera torças 
de hostilidade á revolta, não assumira essa attitude aquelle re- 
gimento. . . 

Não a conheceram desde logo os revoltosos, na anciã de 
perigos ver e de sonhar fidelidades á monarchia. 

Tudo contribuiu, pois, para que o quartel de marinheiros 
patenteasse, mal encoberto pela coragem, uns naturaes vislumbres 
de desanimo. 

De Cândido dos Reis, nova alguma foi levada ali, pare- 
cendo que apenas ao baluarte de Alcântara não chegou o suicí- 
dio do almirante, conhecido aliás, em todos os centros revolucio- 
nários. 

Emissários houve todavia que se encarregaram de ir annun- 
ciar ao posto onde Soares Andréa desesperava, a breve execução 
de ataques grandiosos. 

Pelos denunciados projectos, as baterias de Queluz, que n'essa 
hora estavam no Thorel afim de visar a Rotunda, — a qual d'isso 
não teve aviso, — foram dadas como montando suas peças afim 
de, do alto da Tapada do Paço, derrubar, á granada, o obstáculo 
á causa da realeza. 

O capitão-tenente Soares Andréa, ficou porem. Ficou, em- 
bora mais tarde falsamente se quizesse afirmar a defeza incum- 
bida ao commissario naval Gosta Gomes. 

Jungiu-se elle a esse baluarte com raros detfensores, e a vi- 
ctoria achou-o firme no posto de combatente pela Republica. 

Essa hora feliz foi a transição, o preparo para as agrura» 
do futuro, em que o drama de sacrifício do 4 de outubro foi 
revisto com pezar lançando-o ao drama da sua desesperança, a 



(#) A carta está reproduzida a paginas 547 do 3.° volume d'esta obra. 

VOL. IT— FL. 20 



Uí ARMANDO RIBEIRO 



menos de três a tinos, e que o levou ao cárcere, ao exilio para fora 
do continente, ao presidio insular. 

Todavia, já nos instantes em que o terror perturbava os 
insurrectos, Soares Andréa, teve cubiçosos d'esse tacto, embora 
de perigo tosse e por isso pouco de invejar. 

Avançando a madrugada, detido era um official, cujas inten- 
ções não appareceram sutficientemente definidas eapparentando- 
se com as do mysterioso homem do chapéu de palha que a Cândido 
dos Reis fora notificar essa talsa derrota em infantaria 16. 

Deixemos o capitão-tenente Soares Andréa descrever (+) o 
tacto extrânho : 

«Era um mysterio que vinha somarse ao mysterio do tal 
official f que dizendo se da parte do Sr. Machado Santos con- 
seguira entrar no Quartel de marinheiros na madrugada de 5 
d'outubro pedindo para me fazer communicaçoes importantes e 
em particular. 

«Notando que esse tal official só ia armado de espada, sus- 
peitei d'elle e mandei que dissesse ali mesmo n'um corredor ao 
pé de praças de marinha, armadas, o que me tinha a participar, 
desviandome um pouco para não sermos ouvidos. Disse-me en- 
tão que Machado Santos me avisava de que o rei e a familia real 
tinham sido acolhidos (sic) pela legação ingleza e que o povo 
sabendo do caso estava cercando a legação e a querer hostilisal-a 
e por isso me pedia para mandar cercar por uma força de 200 
marinheiros o que nos dava a vantagem de impedir que os mel- 
ros (sic) escapassem e sobretudo evitar um desacato á legação. 

a Esta noticia impressionou meu espirito, sendo n'ella o 
começo d'uma intervenção da legação ingleza em tavor da mo- 
narchia, mas suspeitando sempre d'alguma cilada e intrigado 
porque o officialf além de não trazer arma de togo, não trazia 
distinctivos nos hombros, perguntei lhe se não trazia pistola, ao 
que respondeu que não, mas eu ao mesmo tempo apalpei-o e 
descobri-lhe um pequeno revolver no coz das calças que imme- 
diatamente apprehendi, entregando o official ás sentinellas de 
marinha desarmado também da espada. Tinha resolvido in- 



(#) A Alvorada, n.» 12-Anno I-de 30 de Abril de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 155 

quirir pelos telephones da veracidade da informação e averi- 
guada a falsidade mandar immediatamente fuzilar o portador 
em que eu farejei logo a intenção de me metter uma bala nos 
miolos pelas costas, quando me apanhassem entretido a dirigir os 
tiroteios que se estavam fazendo das janellas do Quartel. 

t Estava fechado na casa dos telephones e a porta guardada 
pelo primeiro sargento io5, Ribeiro, quando este me chamou, 
porque dois carbonários me queriam fallar com urgência Eram 
eífectivamente dois carbonários pois que troquei senha com elles, 
c estes homens atfirmaram «que o official vinha da parte de 
Machado Santos com urgência, que o não desconsiderasse eu 
desarmando o, e que elle tinha ainda cousas importantes a di« 
zer-me » 

«Peguei da espada do official, e corro tinha ouvido os taes 
carbonários já de pistola em punho, fiz ficar os carbonários ao 
pé do sargento Ribeiro n.° io5, e fui me até ao official sus- 
peito, que me disse muito com reserva — «que estava tudo 
perdido, pois que a legação ingleza, vendo a atitude hostil do 
povo, pedira pelo telegrapho sem fios, a vinda da esquadra in- 
gleza que andava na costa, e que vinha já adiante d'ella um 
desiroyer para metter no fundo os dois cruzadores revoltados.» 
«Confesso que senti um temivel calafrio, mas ainda suspeitando, 
ordenei a uma praça da armada que fosse ao ponto mais alto 
do telhado do quartel ver se avistava algum navio de guerra 
para os lados da barra, obtendo com grande rapidez, a confir- 
mação de que um navio de quatro chaminés e sem bandeira 
vinha a toda a força de vapor já na? alturas de Paço d'Arcos. 
Então entreguei a espada ao official e, sempre de pistola em 
punho, mandei-o acompanhar á porta pelo sargento, com a se- 
guinte resposta para Machado Santos «que eu tinha ordem do 
almirante Reis (que julgava vivo) para não desviar uma só 
praça da Companhia de guerra que lá tinha intrincheirada nos 
baixos do quartel, e que os populares tinham mais de duas mil 
bombas explosivas pelo que nada receasse pela segurança do 
quartel que 8ssim estava inexpugnável, e que requisitasse foiças 
para o Arsenal que lá IrTas dariam com facilidade. 

«Meia hora depois eu mordiame de desespero por ter sido 



156 ARMANDO RIBEIRO 



ludibriado pelos taes carbonários traidores (?) que salvaram o 
Offícial de receber quatro balas no meio da parada, pois o na- 
vio avistado fora fundear pacificamente no quadro dos navios 
de guerra e não fizera a menor menção de ataque aos cruza- 
dores revoltados. Perguntando ao sr. Machado Santos, no dia y 
quando fui á Rotunda se enviara lá o tal official e as informa 
ções que levou, esse sr. me disse que não, e eu creio. E' com* 
tudo certo que na madrugada de 5 d'outubro, amigos meus 
que á Rotunda foram perguntar por mim, receberam a desola- 
dora noticia que o Almirante se tinha suicidado e que o Andréa 
estava morto no Quartel de marinheiros. Coincidência digna 
de meditação é esta de ao mesmo tempo que se tentava assas- 
sinar me no quartel, já me davam por morto na Rotunda da 
Avenida!» 

Esses lances, de surprezas e de ameaças, de solidão e de maus 
boatos, eram de molde a quebrantar ânimos menos fortes. 

Foram chegando, porém, mais alguns auxiliares. 

Poucos eram todavia, para o negro quadro formado pela bri- 
gada da presumida defeza á corte de Portugal. 

Entre elles, appareciam o machinista naval Antoniodo Carmo, 
os jornalistas Joaquim Meira e Sousa, (*) director do jornal re- 
publicano O Pai\ e João de Deus Guimarães e o escriptor Cé- 
sar da Silva, auctor dos romances U Marechal Saldanha, Os 
Patuleias e Amores de uma Rainha, antigo professor do 
Instituto 19 de Setembro, aggrcmiação filiada na politica dos 
partidários do rei D. Miguel e antes dedicado aos partidaristas 
regeneradores. 

Era comtudo, tempos antes da revolta, um audacioso, um 
devotado á democracia. 

A questão Ferrer, (**) encontrou no professor César da Silva, 
um agitador audaz, ligado a elementos conhecidos da causa re- 
publicana. 

Com o escriptor Agostinho Fortes, o advogado Campos Lima 



(*) Citado, a propósito do inquérito ao regicídio, a pagina 325 do i .« 
volume dVsta obra. 

(##) Vide a nossa obra .4 Caminho da Republica. Pagina 39i. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 457 

o operário Bartholomeu Constantino e outros, deu impulso 
largo para a celebre sessão de 5 de Setembro de 1909, no Cen- 
tro Republicano de Alcântara, d'onde sahiu a intensa propaganda 
a favor de Ferrer, eftectuada em assembléas a que César da Silva 
sempre presidiu. 

Foi elle ainda o signatário da representação que, pugnando 
pelo terrorista hespanhol, e em nome de 3o associações diversas, 
foi endereçada ao republicano do paiz visinho, Peres Galdós. 

As primeiras phases da sedição, na rua o haviam encontrado, 
levando-o ao cárcere a successao dos acontecimentos, e sahindo 
das vistas policiaes mercê de incidente singular. 

Vamos buscar á própria descripçao (*) do revolucionário, as 
peripécias que precederam a sua entrada no edifício do quartel 
de marinheiros: 

(íMeu caro — Se te parecer publica o seguinte pedaço de 
prosa que, embora seja meramente uma nota pessoal, poderá for- 
necer algum esclarecimento áquelles que no futuro queiram es- 
crever a historia da nossa gloriosa revolução popular, já desig- 
nada com a denominação de Os dois dias de Outubro. Como 
elemento de um grupo revolucionário de Alcântara foi encarre- 
gado da pouco segura missão de vedeta, para fornecer noticias 
do que visse. Assim, fui ao Terreiro do Paço, de onde trouxe a 
nova de que uma força da guarda municipal, á uma e vinte mi- 
nutos da manhã, ahi se apresentara em frente dos correios. Mas 
seguidamente pude insuflar animo aos nossos amigos dizendo- 
ihes, porque o presenceára de longe, que o bravo regimento 16 
de infantaria, e a artilharia haviam posto em fuga um troço de 
infantaria da guarda. Num automóvel voltei de novo á minha 
exploração, e fiquei-me pela Rotunda a ver o que advinha. Lá 
para o fundo da Avenida um grupo de bravos revolucionários 
atacavauí vigorosamente o esquadrão do Cabeço de Bola que se- 
guia para o Rocio. A coisa ia bem, mas eu é que estava mal. 
Eram já duas e meia da manhã. Os janizaros da esquadra da rua 
Rosa Araújo, que seria tão natural terem corrido em defeza dos 
seus colegas da municipal, vivamente atacados com umas coisas 



(#) O Mundo de 12 de Outubro de 1910. 



158 ARMANDO RIBEIRO 



que produziam grande estrondo, tal não fizeram, dizendo certa- 
mente comsigo que o seguro morreu de velho, Conservavam- 
se porém á espreita, e, vendo-me ali, atiraram se a mim, como 
leões, uns doze desses javardos, levando-me para a esquadra, que 
era mesmo á boca da rua Rosa Araújo, junto da Avenida. Em 
sucessivas explorações apanharam mais seis indivíduos isolados 
e assim nos encontrámos ali sete victimas para sermos amora- 
velmente imolados pela quadrilha predial, se a Revolução talhas- 
se. Um dos presos, porque esboçava uma resistência, ioi barba- 
ramente acutilado, na rua, mas, depois de chegar ao posto, tanto 
esse, como os outros captivos íoram tratados com bondade. Ha- 
Tia mesmo um cabo que mostrava ser homem extremamente 
humano. Confesso que, apesar do perigo em que me via, nunca 
perdi a esperança, portanto puz-me a animar os meus desditosos 
companheiros de prisão e até os próprios policias, que se mostra- 
vam um tanto inquietos. Nem admira, para os lados da praça 
dos Restauradores continuavam a ouvirse estrondos que punham 
calafrios nos janizaros. Mas dahi a pouco a inquietação converteu- 
se em pânico. A caminho da Rotunda vinha a artilharia, fazendo- 
se annunciar pelo ruido surdo das suas pesadas viaturas. Um dos 
marmanjos, que, vestido de gente, íôra em observação, entrou 
esbaforido pela esquadra, annunciando com tremuras na voz, 
que estavam lá em cima muitas peças, comandadas por um ge- 
neral. O nosso bravo Machado Santos tinha subido dessa feita 
uns tantos postos, de que aliás é digno. Eram já cinco horas da 
manhã. O efeito da noticia foi indiscritivel : mais de metade dos 
valentes policias sumiram-se, como por encanto. Foram, creio 
eu, mudar de ceroulas. Os outros tremelicavam. Um tiroteio 
teito ali perto, por uns populares, ainda mais os aterrorisou. O 
melhor estava porém para vir. Descobrindo um esquadrão da 
municipal, que se dirigia para a Rotunda, os canhões revolucio- 
nários troaram, tazendo estremecer as casas, e produzindo im- 
portante estrago nos soldados e cavalos. Então é que foi ver como 
os meus guardadores perderam a trasmontana. Na impossibili- 
dade de saiiem pela porta, que estava fechada e era de correr, 
quasi todos se atiravam como doidos para um pateo traseiro, em 
risco de quebrarem as pernas. Mas o terror impelia-os. Que beU 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 159 



los defensores tinha a quadrilha predial naqueles almas do dia- 
bo! Gessando ernfim o tiroteio, saímos todos da esquadra, presos 
e policias. Eram quasi seis horas da manhã. E aqui fica exarada 
uma nota pitoresca da Revolução e explicado o motivo do meu 
desap?recimento durante três horas, que tantas foram as que 
passei na esquadra. O que fiz depois já o exarou no Mundo, 
no numero de hontem, um curioso qualquer, a quem agradeço 
as referencias que amavelmente tez, tão minuciosas que nem 
lhe escaparam os chinelos que a triste necessidade me obrigara 
a calçar. — César da Silva.» 

De lance em lance, de serviço em serviço, de abalada foi até 
ao quartel de Alcântara, chegando a tempo de enfileirar como 
audaz coadjuvante, no grupo modesto que ali se dispoz a defron 
tar horríveis calamidades. 

Meira e Sousa, excadete de artilharia i, seguiu até á Ro- 
tunda, para se armar, sendo-lhe todavia recusada a entrada, sob 
fundamento de que só se pretendia ali gente municiada, demais 
esperandose um ataque de artilharia 3. 

Marcado o quartel de marinheiros, como o ponto onde pode- 
ria ser satisfeito seu desejo, para ali se dirigiu com os jornalistas 
Botelho de Sousa e João de Deus Guimarães, e o cadete de caval- 
laria 4, António Quelhas. 

Nova detenção os esperava. 

Um grupo tentou oppor-se-lhes & passagem, apontando as 
carabinas. 

Declarando a intenção de ir combater, Meira e Sousa, mos- 
trava o seu bilhete de jornalista, que trouxe sobresalto por o en- 
cimar a coroa, com o titulo Governo civil de Lisboa. 

Só a leitura da cathegoria do apresentante, director de jor- 
nal republicano, socegou os rebeldes, scientes então de que a 
imprensa tinha os seus bilhetes concedidos pelo governo civil. 

Conduzidos á presença do capitão Soares Andréa, Meira e 
Sousa e António Quelhas, recebendo duas carabinas Mannlicher, 
ingressavam logo no posto de defeza, emquanto o jornalista João 
de Deus Guimarães vinha exercer acção externa. 

Nada se futurava de bom sobre a serenidade das forças que 
pareciam exercer vigilância sobre o quartel, como águias fasci- 



160 ARMANDO RIBEIRO 



nadoras aguardando o menor movimento das avesitas implumes, 
para, sobre elias cahirem, de adunco bico aberto e garras bem 
recurvadas. . . 

Mas, como vencer essa obstinação, se rara gente havia, para 
assalto em forma ou defeza a serio ataque? 

Apenas se cifrou a esperança na regresso dos navios. 

Soares Andréa destacou um popular, com a requisição de 
qualquer dos cruzadores, para liquidar a enervante espectativa. 

Apenas a um breve tiroteio das torças das Necessidades teve 
o quartel que retorquir. 

A essa hora o S. Raphael e o Adamastor, occupavam-se 
pacificamente na vigilância do Tejo, espraiando a larga facha 
branca dos seus holophotes para a descoberta dos torpedeiros que 
todavia não haviam chegado do Valle do Zebro. 

Não deixou todavia de se phantasiar a sua approximação, 
com alarmes e com o correspondente tiroteio, que até alcançar 
foi inofensivos barcos de pesca. . . 

Por esses instantes de embaraço, que o capitao-tenentc Soa- 
res Andréa, punha o pensamento na chegada dos navios, e no 
S. Raphael, a bordo d'este os officiaes aprestavamse para em 
soccgo se reunirem á mesa do almoço: 

«A's 3 horas e meia da madrugada, foram almoçar os offi- 
ciaes que estavam a bordo, os quaes eram os Ex. m08 Srs. Antó- 
nio Ladislau Parreira, Dr. Vasccncellos e Sá, Annibal Sousa Dias, 
Tito Augusto de Moraes, José Carlos da Maia, Marianno Mar- 
tins e a convite dos mesmos o capitão da manutenção militar 
Nascimento e a minha pessoa.» (*) 

Mais um navio havia, era certo, o Z). Carlos, mas esse^ 
tomado de abordagem, horas antes, não estava em situação de obe- 
decer rapidamente a manobra arriscada. 

A torrente revolucionaria vencera emfim a intransigência dos 
mais dedicados á realeza de Portugal. 

Mas de novo correu o sangue, para que bem rubro ficasse 
o estandarte sedicioso. . . 



(#) Notis verídicas.— Apontamentos para a historia da Revolução, por 
Júlio Victorino dos Santos. Pagina 17. 







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I 



III 



O cruzador p. Carlos 

Preparativos de assalto — Lances de heroísmo — A to- 
znadia — A bandeira da revolta — Falla-se no tenente 
Philemon d' Almeida— O novo commandante do «D. 
Carlos» — Receios acerca dos torpedeiros— -«O Berrio» 
— A imprensa ante a invasão do «D. Carlos»— O 
que se passou em Valle de Zebro — Frederico Pi- 
nheiro Chagas. 




marinha, insurrecionada, não contava ainda com 
a iragata D. Fernando, a corveta Mindello, 
os torpedeiros e o cruzador C D. Carlos. 

Só este, como mais poderoso, se apresen- 
tava entrave hirto á revolução. 

Só elle soube conservar, por longas horas, 
o pavilhão azul e branco, como ameaça formi- 
dável a quantos haviam içado a bandeira vermelha da sedição. 
Apenas elle, a conseguiu ter fluctuando ao vento até ao fim 
da tarde de 4. 

À marinhagem estava revoltada, era certo, mas a officiali- 
lidade oppunha-lhe resistência tenaz, difficultando-a de prestar 
auxilio ao Adamastor e ao S. Raphael 

Absorveu-se todavia nas internas precauções. 

Dissese até que do <Z). Carlos a otficialidade não dera or- 

VOL. IV— FL. 21 



162 ARMANDO RIBEIRO 



deni para atirar sobre o quartel de marinheiros, quando o Ada- 
mastor desembarcou armamento em Alcântara, com receio de 
que isso motivasse a sublevação das praças internadas no quartel. 
O facto seria ruinoso para a revolta, se se tivesse levado a 
e fiei to. 

Não o foi, porque o destino cuidava de bem encaminhar 
a maruja sediciosa e ainda porque se não contava com a ajuda 
da tripulação. 

Aos annunciosda insurreição foram tomadas a bordo todas as 
providencias e as 5o praças dispostas a commettimentos vir*m- 
se logo vigiadas, pelos vinte officiaes, entre os quaes, o comman- 
dante, contra almirante Álvaro António da Costa Ferreira, imme- 
diato, capitão-tenente Augusto Rodrigues Bello, i. os tenentes 
Ladislau Mário Durão de Sá e Bento Xavier Vieira da Silva, 
2.°* tenentes, Álvaro de Almeida Manha, Augusto Gonçalves 
de Azevedo Franco e Joaquim Gonçalves da Costa. 

A sua attitude, já impedira a cooperação dos tripulantes ao 
soar dos tiros do signal e quando alguns, raros, correram a ar- 
mar-se com as espingardas, registaram o cerramento dos paioes 
e armeiros. 

Os otrlciaes, affluindo á ré, armados de pistolas automáticas 
Parabellum, tentaram suffocar a revolta, mas apenas lograram 
uma espectativa ameaçadora, pois a maruja, agrupando-se á 
proa, só esperava qualquer auxilio extranho, para cahir sobre 
esse grupo de homens audaciosos. 

De facto, alguma ideia houve de appoio á gente insurrecio- 
nada do Z). Carlos. 

As praças do forte de Almada tinham mesmo pensado 
numa arremettida ao cruzador. 

Antes do bombardeamento do palácio real, já a marinha- 
gem do Adamastor e 5. Raphael mostrava vontade de 
uma tomadia. 

Incentivos e promessas representavam também os vivas á 
Republica dados de bordo d'este ultimo, quando passou de volta 
de Alcântara, pelo navio ostentando soberbo o pavilhão azul e 
branco. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 163 



Não haviam podido retribuir com a anceada energia, mas 
rejubilavam com taes estimulos. 

Bem desejavam derrubar a muralha formada pelo troço de 
dedicados á causa do rei, mas parece que o destino se compra- 
zia em lhes diminuir o encorajamento. 

Essa posição critica se prolongou até ás 6 horas da tarde de 
terça teira 4 

De instante se resolveu pôr de lado preconceitos e esperanças. 
Cumpria interporem se á attitude de simples espectativa. 

Debalde haviam aguardado orientação superior, se bem que 
a bordo tivesse a revolução, o 2. tenente José Joaquim Marques 
da Silva Araújo que aliás nem de leve patenteou o seu appoio 
á sedição. 

Estivera no Cães do Gaz, com o troço de oínciaes que sob 
a direcção do almirante Cândido dos Reis deviam tomar de 
assalto os navios. 

Ao tracasso do projecto regressara ao cruzador a cuja guar- 
nição pertencia. Semi descrente, decerto, procurou isolar-se de 
uma prevista derrocada. 

Assim, desprovidos de soccorro interno, valeu á maruja, o 
i.° artilheiro Benjamim Magalhães Vasconcellos que, lançando- 
se á agua, a nado attingiu o Adamastor onde foi levar não só 
o reflexo do pensamento dos camaradas anciosos de armas, 
como a perturbante situação mantida a bordo. 

Retrocedeu, ás promessas de auxilio, mas, á baldada espera, 
correspondeu desde logo a ideia de uma nova communicaçao, 
quasi ultimatum, ao Adamastor. 

Aproveitando o jantar dos otficiaes, um troço de 14 ma» 
rinheiros, sob a chefia do 2. artilheiro Luiz António Filippe, 
lançaram rapidamente ao mar, 8 horas dadas, um dos escaleres 
do D. Carlos e embarcando, endireitaram ao navio do com- 
inando do 2.° tenente João Mendes Cabeçadas Júnior. 

Mencionaram relatórios vários que o numero de desertores 
foi de 2 5, mas certo é que apenas 14 assignala o depoimento do 
chefe d*essa pequena expedição : {*) 



(#) O Século de 15 de Outubro de 19i0. 



164 ARMANDO RIBEIRO 



«Quando os marinheiros ouviram tiros, signal da revolta, 
puzeram-se a pé, mas um oíficial, que logo appareceu, obrigou- 
os a submetterem-se. Quando já muito depois, os outros navios 
içaram a bandeira republicana e o cruzador S. Paulo salvou, 
voltaram a insubordinar-se e a soltar vivas á Republica, mas 
nova intervenção do oíficial outra vez os acalmou, apparente- 
mente. Combinou-se não consentir que íosse arvorada a ban- 
deira nacional, ás 8 horas, mas nada houve que tazer, pois nem 
se pensou em tal. Mais tarde, quando a tripulação estava na 
limpeza, a oíflcialidade aproveitando-se da occasião escondeu todo 
o armamento, e a própria sentinella foi desarmada. Armados s6 
ficaram os otâciaes. 

«Quando passou o Adamastor, um marinheiro deitou-se a 
nado e entrou n'aquelle cruzador. Trataram então de combinar 
a fuga, e uns 14, capitaneados pelo signatário, depois da ceia. 
embarcaram n'um escaler, em direcção ao Adamastor, onde 
communicaram ao commandante o que se passava a bordo do 
Z). Carlos. Uns poucos de militares e paizanos passaram-se 
para o escaler e, commandados por um oíficial do S. Raphael, 
dirigiram se de novo ao /). Carlos, atacando-o pela forma já 
conhecida dos nossos leitores. O Berrio, no pontal de Cacilhas, 
esperava os torpedeiros, para os atacar, mas, com algumas gra- 
nadas, obrigaram-no a aflastar-se.» 

Por seu lado Machado Saltos, maior numero regista: 

Do D- Carlos, sahiram, segundo elle, os 2. 0S artilheiros, 
Jayme Joaquim, José Fernandes, António Virgilio, Luiz Antó- 
nio, Custodio Leite, Manuel de Castro, José Pereira, Francisco 
Carvalho e José Lopes; grumete João Lopes; 2. 0S fogueiros José 
Maria, José António; chegadores José Ramadas, João Gonçalves, 
António Luiz e Eugénio A. da Conceição e o corneteiro Antó- 
nio Ferreira. (*) 

Assim, por 17 homens seria composto o núcleo, em diver- 
gência ainda com o i.° tenente António Ladislau Parreira, que. 
no seu relatório aponta apenas 1 5. 



(#) Relatório — Pagina ii&. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 165 



Mais ainda reduziu o numero o commandante do Ada* 
mastor: (•) 

«N'um vapor da Alfandega que se poz ás nossas ordens, 
comecei a mandar gente para o S. RaphaeL Pouco depois 
appareceram a bordo d'este navio 12 homens do D. Carlos, 
que tugiram de lá n'um escaler; vinham buscar armas para po- 
derem luctar com os officiaes. Armei estes homens, embarquei- 
os no referido vapor com mais praças e paizanos e mandei os 
sob o commando de um sargento, tomar o D. Carlos, depois 
de passarem pelo S. Raphael e communicarem ao chefe o que 
iam fazer.» 

Difficil pois de precisar, devidamente, o numero, pois Ma- 
chado Santos, na Rotunda, não seguiu o lance do C D. Carlos \ 
c os tenentes Parreira e Cabeçadas, decerto, preoccupados pela 
acção, não se lembraram de proceder á contagem, inclinamos- 
nos para o, sem contestação, commandante do troço fugitivo 
do cruzador, mais apto a afârmar a quantidade dos que com elle 
dle foram do C D> Carlos ao Adamastor. 

João Mendes Cabeçadas, comprehendeu logo o alcance da 
tentativa, e garantidora de bom appoio, se êxito tivesse. 

O C D. Carlos tinha maior numero de boccas de togo que 
os dois navios reunidos, ou fossem 16 Hotchkiss de 47/47, 
2 peças de 3j/25 y 8 Armstrong, de tiro rápido, 47/40; 4 de 
i5/45, 4 metralhadoras de 6,5 e 5 tubos lança torpedos. 

Barco de 4253 tonelladas, tendo 110 metros de comprido 
entre perpendiculares, 14,40 de bocca externa, duas hélices, cal- 
deiras d^ torça de 12729 cavallos, podendo dar até á veloci- 
dade de 12 milhas e, de quasi recente construcção, pois dos es- 
taleiros sahira em 1898, a posse, significando um soberbo golpe 
na causa dynastica, representaria segura detesa e ataque e tal- 
vez probabilidades de distanciamento breve, a reconhecida 
derrota. 

Bem assente a ideia, armas forneceu o otficial aos propo- 
nentes do assalto, aggregando-lhes ainda um troço de civis. ;$ 

Não quiz todavia a absoluta responsabilidade do acto de 



(*) Do livro de bordo do cruzador Adamastor. 



166 ARMANDO RIBEIRO 



arrojo grande e aconselhou a marinhagem, a ir expor o plano, 
antes de o executar, ao commandante da insurreição naval, o 
1.° tenente António Ladislau Parreira. 

Pequeno o escaier para a gente que se ia arriscar á inves- 
tida, valeu ao serviço de conducção, um vapor da alfandega, 
aprezado, horas antes, ao fundear do 5. Raphael em frente da 
alfandega. 

O vapor endireitou immediatamente ao navio chefe. 

D'este fora avistada a maruja sahida do D. Carlos e a ida 
ao Adamastor^ mas, ao seu approximar fez-se prevenção, logo 
sustada pelo reconhecimento das praças fugidas do navio não 
adherente. 

Recebidos a bordo, expunham ao i.° tenente António La- 
dislau Parreira, com a inabalável resolução de quebrar, por 
qualquer forma, a attitude expectante até então observada, o 
voto intenso de conveniente modificar da situação. 

O conselho de officiaes, ao qual assistiu o medico naval dr. 
Alexandre de Vasconcellos eSá, já pesara certas phases da lucta. 

A morte do almirante Cândido dos Reis, chefe indiscutivel 
da marinha revoltada, trouxera dífficuidade?. 

O movimento, apresentava perspectivas favoráveis, mas, de 
tacto, falta fazia aquelle vulto preponderante. 

A exposição feita pela maruja do *D. Carlos evidenciou 
todavia a necessidade de agir. 

A marinhagem, sem garantias seguras aliás, deu toda a 
tripulação restante como de absoluta fé na causa republicana. 

Anteviu o tenente Parreira um proseguir de deserções, di- 
minuindo, de cada vez o eflectivo dos revolucionários a bordo, 
demais não contando, como os fugitivos do C D. Carlos aliena- 
vam, com a absoluta connivencia de toda a equipagem. 

Resolveuse assim o lance decisivo, tantas vezes addiado 
por motivos vários. 

Assente ficava o regresso de alguns dos evadidos com praças 
do 5. Raphael e alguns populares, sob o commando do 2.° 
tenente José Carlos da Maia, levando como missão a tomadia 
do navio refractário ás doutrinas democráticas, com a violência 
<em argumento supremo. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 167 



A Carlos da Maia, bem confiado foi o encargo, depositando. 
n'elle confiança o tenente Parreira. 

Esteve aprestado para a tentativa do 28 de janeiro, e o al- 
mirante Cândido dos Reis, tinha-o em alta conta de valor pessoal 

Era o commandante da canhoneira Limpopo, então surta 
em Vianna do Castello, em serviço de fiscalisação de pesca. 

Sabedor da revolta, deixou o seu navio e veio para Lisboa, 

De vontade assumiu a direcção da grave tentativa. 

A cartada era de risco, mas ia jogar-se. 

Recorrendo ainda ao vapor da alfandega, cuja tripulação 
se puzera antes ás ordens dos revoltosos, viram estes surgir uma 
recusa terminante ao ser exposto o plano de abordagem. 

Ao inútil accumular de rogativas, succedeu-se a immediata 
substituição de gente temorosa do lance ousado e guarnecido foi 
o barco aduaneiro com as praças do D. Carlos e do S. Ra- 
phael, entre elles, o chegador José Ramadas, o i.° marinheiro 
João Zacharias, o i.° grumete Manuel Duarte, o i.° marinheiro 
João Moita, o i.° artilheiro, Benjamim Magalhães Vasconcellos, 
assumindo este as funcçoes, de risco, de pratico do vapor. 

D'elies, se José Ramadas, seria victima, em combate, Ma- 
nuel Duarte, poucos dias de vida teve, por desastre. 

A 10 de outubro d'esse anno, quando se procedia junto á 
casa dcs torpedos do cruzador Z). Carlos, á arrumação do ar- 
mamento empregado na revolta, um grumete revolucionário 
também, disparava, involuntariamente, uma carabina, 

As balas, furando a tolda, iam cravar-se, uma no peito do 
I.° marinheiro Ludovino Dias, partindo-lhe três costellas e en- 
trando-lhe no pulmão; e outra, na coxa do grumete Manuel 
Duarte, de 26 annos, solteiro, natural de Thomar, que falleceu 
nessa mesma noite, no hospital de S. José. 

João Zacharias, veio incluído no primeiro grupo dos indica- 
dos para recompensa pela republica (Novembro de 191 o) e a 
Benjamim Vasconcellos, caberia o premio de promoção a r. e 
sargento, para a guarda republicana. 

Entre os civis, em numero de 40, iam, os revolucionários 
Júlio Victorino dos Santos, António Faria, Adolpho Rodrigues,, 



468 ARMANDO RIBEIRO 

José Frederico Silveira da Cosia, (*) Miguel da Silva, Jeronymo 
Pereira, Joaquim José Panninho, João Domingos da Silva, 
Carlos Augusto, Joaquim Viegas Monteiro, António Gomes, 
Virgílio Augusto Fernandes, Arthur Lopes, Raul Maria de Oli- 
veira, Manuel Moreira, Benjamim da Costa Alves, Benjamim 
Augusto, António Luiz Pranchas, (**) Malaquias Manuel de 
Jesus Meyrelíes e Carlos da SiUa Rocha, este antigo i.° gru- 
mete, já envolvido em lances de rebeldia, como a revolta a bordo 
do cruzador Vasco da Gama em 1906, o que lhe valeu ser 
condemnado em nove annos de deportação militar, pena termi- 
nada á amnistia promulgada em 1 2 de fevereiro de 1908 por 
D. Manuel II. 

A revolução contra este, ainda n'tssa attitude de ódio ao 
amnistiante o encontrava. 

Deixando o serviço no vapor Cabo Verde, veio para o 
campo de acção a bordo do Adamastor e d'ahi marchou para 
o assalto ao D. Carlos. 



Havia terminado o jantar dos officiaes, tendo sido resol- 
vido previamente, para prevenir intenções, que de quarto esti- 
vessem sempre dois tenentes. 

A vigilância attenta, assignalava, cerca das 10 horas da 
noite, o apparecimento de um vapor suspeito. 

Dando o alarme, um dos otficiaes, gritou: 

— Embarcação! O* da embarcação! 

Emquanto os outros accorriam, já de pistola em punho, de 
bordo do barco, avançando sempre, pretendeu-se dissimular 
procedimentos: 

— Vapor do arsenal ! 



(#) Já citado a paginas 634 do 3 ° volume d'esta obra. A' victoria obti- 
da, ia ao cargo de empregado supra numerário, servindo na Direcção Geral 
da Fazenda Publica. 

(#*) Teve o nome incluído no parecer 398, approvado em sessão de 
18 de Fevereiro de 1914 da Camará dos Deputados que o classificou como 
revolucionário civil. 



A. REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 169 



Não teve successo o ardil e do D. Carlos bradou o com- 
mandante: 

— Não atraque! Não atraque! 
Não ioi obedecido. 
O perigo era imminente, era certo. 
Mas a hora não tolerava indecisões. 

Não acataram pois a ameaça de fusilamento. Ante isso, os 
oííiciaes fieis á monarchia, fizeram os primeiros tiros. 
Do vapor corresponderam. 

Os marinheiros, fortalecidos com esse reforço de tora, toma- 
ram a offensiva e emquanto envolviam a officialidade não adhe- 
rente, os outros iniciaram o assalto ao cruzador, não sem que, 
como primeira victima fosse contado um dos tripulantes, attin- 
gido por uma bala que o lançou ferido, pela borda fora. 

Debalde procuraram conseguir, de principio, a entrada pelo 
portaló, porque um erro de manobra e a precipitação do acto, 
levaram o vapor de encontro ao cruzador. 

N'uma volta rápida, nevrotica, volveram de novo ás esca* 
das, logrando emfim obter êxito. 

Vejamos o i.° tenente Parreira a descrever (*) a scena: 
aPouco depois fundeava o Adamastor vindo de Alcântara, 
e como se tivesse imposto peias circumstancias a tomada do 
D. Carlos, resolveu-se a abordagem, que se tornava tanto 
mais urgente, quanto era certo terem d'elle desertado i5 pra- 
ças que se haviam apresentado no S. Raphael e que tinham 
fugido numa embarcação do navio, além d'uma outra praça 
que havia desertado a nado, reclamando todas ellas que lhe for- 
necessem armas, para sahirem d'aquella situação ainda que vio- 
lentamente. Para evitar que novas deserções diminuíssem o nu- 
mero das praças com que se podia contar no D. Carlos, e 
que o numero avultado de officiaes que, segundo informações, 
haviam embarcado para dominar a insurreição, pudesse operar 
com as praças que restassem, apressou-se a abordagem, sahindo 
o tenente Maia no vapor da alfandega com os marinheiros que 
haviam fugido do D. Carlos e um núcleo de civis armados. 



(#) A Revolução — Relatório do tenente Parreira. 

VOL. IV— FL. 22 



Í50 ARMANDO RIBEIRO 



« Mostra ndo-se receiosa a guarnição do vapcr da Alfandega, foi 
toda ella substituída por praças de marinhagem, largando se 
proximamente ás 9 horas e 3o minutos (p. m.) direito ao Z). 
Carlos. A atracação fez se a primeira vez mal, e, repetindo-a, 
logo se avaliou da attitude como os otticiaes receberiam os in- 
vasores, porquanto, tendo-se respondido que era um oíficial que 
ia atracar, logo o commandante intimou a arrastar se sob pena 
de se desfechar, o que bem se notou ser seu propósito por virem 
muitos ofticiaes á borda. E* claro que se insistiu na abordagem, 
subindo tumultuariamente as escadas do portaló, e sendo logo 
recebidos a tiro, o que foi causa de tiroteio ainda de bordo do 
rebocador; e, uma vez a bordo, continuou este, de parte a parte, 
terminando rapidamente pela rendição dos ofticiaes e verifican- 
dose em seguida que da guarnição do D. Carlos haviam fi- 
cado 4 ofticiaes feridos, e dos atacantes apenas 2, sendo um civil 
e uma praça de marinhagem. Immediatamente se mandaram 
desembarcar todos os officiaes, á excepção do tenente Silva 
Araújo, com quem havia entendimento para a revolução. Man- 
dou*se tocar a postos de combate, preparando-se o navio para a 
vigilância da noite, tanto mais necessária quanto era a bordo 
do D. Carlos conhecida a ordem do ataque dos torpedeiros, e 
sahida do Berrio para o canal do Barreiro, o que justifica o 
procedimento do tenente Araújo a respeito do Berrio. A noite 
íoí passada em constante vigilância, até que pela madrugada 
se mandaram desembarcar os civis, sob o commando do capitão 
Nascimento da administração militar, a fim de seguirem para o 
Muzeu de Artilharia, impondo a rendição ás forças que guarne- 
ciam este estabelecimento do Estado. (O capitão Nascimento foi 
um otticial que, levado preso para o quartel de marinheiros e 
que, interrogado sobre as suas opiniões politicas, declarou adhe- 
rir ao movimento,)» 

Foi o capitão de mar e guerra Álvaro Ferreira, o primeiro a ca- 
hir, com uma bala, á queima roupa, sob o queixo e outra no peito. 

Vendo n'elle o principal entrave^ de preferencia foi visado, 
servindo de alvo a tiros vários, perdidos muitos pelo precipitado 
da pontaria e pelas nocturnas sombras, impedindo precisar as 
descargas. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 171 

Mas, nem tanto era necessário. 

O oííicial estava no solo, exangue, incapaz de se oppôr á 
turba assaltante. 

De roldão se completou a abordagem. 

Baqueava outro dos assaltantes, um dos que fora a bordo 
do Adamastor insistir pelo assalto: o cbegador da armada n.° 
6o58, José Ramadas, attingido por uma bala no olho direito, pelo 
que, aggravado o estado, baixava ao hospital da marinha em i3. 

Attingido foi também o civil Benjamim Augusto, de 21 an- 
nos, morador na travessa da Cruz da Rocha, n.° ri. 

A Iucta era desegual. 

Poucos os dispostos a auxiliar a realeza, maior o numero 
dos que ambicionavam derrubal-a. 

Todavia, apoz a inútil tentativa de embaraço á invasão, 
começou a resistência de desespero. 

O tenente Álvaro Martha, que se deitara sobre um sophá 
na camará, para entrar no serviço da alva, despertando ao tiro- 
teio, correu para a tolda, que encontrou tomada. 

Os civis lançavam o pregão de morte aos officiaes. 

Não se aterrorisou. 

Conhecera já combates, 

Nas luctas de Africa, se notabilisára c: vira incluido o nome, 
ás campanhas de 1907, * paginas 3o3 da «Colleção das Or- 
dens do Exercito do anno de 1 9 1 o (Parte não ofliciai — Lisboa 
— Imprensa Nacional)» louvado, segundo a ordem n.° 86 «Pela 
maneira como conduziu á carga o seu pelotão no ataque á 
Inhoca, revelando valor e coragem.» 

Regressando a bordo do Africa, a 12 de Dezembro de 
1907, recebia com os companheiros de lucta, ss acclamaçoes 
do povo, entre o qual talvez estivesse algum dos luturos as- 
saltantes do D. Carlos. 

Era bem diverso todavia o novo campo de acção e Alvsro 
Martha ia comprehendel o. 

Intrépido, elle se precipitou sobre um dos da abordagem^ 
para lhe arrancar a carabina. 

Elle porém, metteu á cara a sua Mannlicher e desfechou. 

O otficial era attingido n'um hombro, e no pulmão. 



172 ARMANDO RIBEIRO 



Mostrou-se todavia bem o heróico combatente da celebre 
expedição contra os namarraes. 

Cedendo o passo ali, arrastou-se quasi até á escada de vante 
para se armar, não o conseguindo por o paiol estar íechado e as 
chaves no bolso do capitão tenente Bello. 

A casa dos torpedos, á ré, estava egualmente fechada. 

Os próprios marinneiros, desanimados, pediam armas a 
esse bravo otticíal, espalhando o sangue no seu roteiro febril. 

Arrancando a um marinheiro o bonet para comprimir os feri- 
mentos, logrou alcançar de novooconvezondecahiu,destallecido. 

A revolta perdeu mais um adversário firme. 

Entretanto a lucta seguia. 

O combate, porém, de dois contra muitos, não oflerecia ga- 
rantia de victoria para os fieis á realeza. 

O numero venceu a heroicidade. 

Os otticiaes foram baqueando, um a um. 

A Álvaro Ferreira e Al?aro Martha, seguiramse o capitão 
tenente Augusto Rodrigues Bello, com a coxa esquerda varada 
por uma bala; o 2. tenente Ladislau Durão de Sá, com uma 
bala no braço. 

Todavia, do grupo só um ofíicial não arrostou com esse 
corpo a corpo. 

O 2. tenente Silva Araújo, um dos que no Aterro esteve 
com o almirante Cândido dos Reis, ao inicio do tiroteio encer- 
ravase no camarote, para só surgir ao clamor da victoria, rei- 
terando então o seu voto de democrata. 

Já vamos ver citado, oficialmente, o facto, que se deve en- 
fileirar, porém, não no eximir a perigosos lances, mas n'um 
esquivar a luctas com os camaradas do mesmo navio. 

Não deu auxilio assim a esse combate quasi braço a braço. 

A resistência dos adversos á democracia, não podia pro- 
iongar-se muito além da eftectuada até entãr. 

Demais, emquanto na tolda se combatia, para auxilio ao 
desnorteamento e espectativa de algumas praças não submeta, 
das, do vapor, lazia-se íogo, pelas vigias, para dentro do D 
Carlos. 

A maruja fiel, sete ou oito, antes observando uma attitude 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 173 

indecisa, viu a victoria inclinar-se para o lado da sedição e sonhou 
com um retorço collossal acampado a bordo do barco aduaneiro. 

Misturaram«se pois com os rebeldes, auxiliando o sufíocar 
da intransigência da ofhcialidade. 

Os feridos haviam salvo a responsabilidade dos outros e as- 
sim foi reconhecido. 

Entregaram-se pois. 

Comtudo, a revolução vencedora, desceu do seu alto pedes- 
tal, para se commover junto aos vencidos. 

Extincta a resistência, a energia cedeu o passo ao coração. 

O commandante Álvaro Ferreira era logo cercado de cui- 
dados e removido para o hospital de marinha, d'onde daria os 
seguintes curiosos pormenores (*) da sua acção durante esse feito 
notável da tomadia do D. Carlos : 

a Perigosamente ferido, na abordagem do A Carlos de 
que era commandante, foi transportado para o Hospital de Ma- 
rinha, na madrugada de 5 de outubro, o illustre official da ar- 
mada sr. Álvaro Ferreira. O melindroso estado do digno com- 
mandante, embora já desannuviado do prognostico reservadís- 
simo que durante semanas pesou sobre a vida do distincto 
official, retem-o ainda no Hospital de Marinha, onde o visitá- 
mos uma tarde d'estas. Álvaro Ferreira e um homem alto, mo- 
reno, cujo bigode já branco dava uma sympathica imponência 
ao seu porte de official. Estávamos habituados a vel o de pé, bem 
disposto, com a alegria que dá a saúde, pisando firme. Fomos 
encontral-o encolhido n'uma capa, as faces exangues, queixan- 
do-se n'um fio de voz em que se transmudara a sua cheia voz 
de commandoj da humidade que n'esse dia lhe redobrara as 
dores. Despedidas visitas que, como sempre, n'esse momento 
accorriam a acarinhal-o como o interesse pela sua vida, o com- 
mandante Álvaro Ferreira caiu, esfalfado, numa poltrona, e 
sempre oflegante, narrou-nos como pôde os ferimentos com que 
foi condecorada a sua attitude a bordo do cruzador que elle soube 
manter, durante horas, alheio á revolta. 

— «Cheguei a bordo, eram cinco horas e meia da manhã. 



(#) 'Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão— Pagina 158. 



174 ARMANDO RIBEIRO 



de 4 de outubro. Tinha tocado a alvorada. Mandei formar a 
guarnição a quem aconselhei e dei incitamentos de disciplina» 

— «E a guarnição? 

— «Socegada. Um pouco nervosa, como era natural dado 
o ambiente revolucionário que havia no Tejo e que vinha de 
terra, mas pelo menos neutra. Içou-se a bandeira. . . 

— «Qual? 

— a A bandeira azul e branca, que teve, como é do regula» 
mento, a devida continência, e, apesar das tripulações dos ou- 
tros navios de guerra, que ali fundeavam próximo, fazerem ap- 
pellos de revolta para o «D. Carlos», a minha guarnição man- 
tinha-se bem. 

— «O serviço de bordo fazia-se? 

— «Sim, senhor. Corria tudo como de costume, notando-se 
apenas uma certa intranquillidade que era natural n'aquellas 
horas. O dia decorreu assim sem incidente de maior. Pelas 
dez da noite, mais minuto menos minuto, senti gritar um oífi- 
ciai que estava avante : 

— «Embarcação! O* da embarcação!» 
Responderam : 

— « E* um vapor do arsenal! 

— «Não atraque, não atraque!» ordenou o mesmo otficial. 

— «A embarcação quiz parar ao portaló, mas o patrão que 
ia ao vapor não pôde parar a tempo, e deu uma volta em torno 
do cruzador, de raspão, levando quantos cabos estavam por ali. 
A' segunda volta, parou; então, um pouco adeante do portaló, 
e immediatamente senti uma descarga contra mim. Eram pai- 
sanos, na sua maioria. Nunca me passou pela cabeça um ata- 
que de paisanos. Se eu tivesse previsto aquillo, — lamenta, cem 
melancolia o digno otficial, — talvez o evitasse. Era tallar á tri- 
pulação, mostrar-lhe que não devíamos deixar nos atacar por 
paisanos, e elíes, que me ouviam bastante, podia ser que se 
mantivessem. Mas não previ. Aquillo também foi rápido como 
o pensamento. A* primeira descarga uma bala rcçou me o quei- 
xo. Ainda tenho a cicatriz, vê? Mas fiquei de pé. E elles, que 
atiravam contra mim, fizeram fogo segunda vez, numa fuzila- 
ria de oitenta tiros seguramente. Acertou-me uma bala no bo- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 175 

tão da farda que me magoou na costella, mas me não feriu, 
ainda. A' terceira descarga senti uma dor muito grande no co- 
ração, e cahi. Julguei que me tivessem atravessado o coração. 
Mas quiz ainda levantar-me, as torças foram menos do que o ani- 
mo, e fui abaixo. Vendo-me Lvantar, fizeram uma quarta descarga 
que não me attingiu. Mas a terceira chegara, O tiroteio, um ti- 
roteio cego continuava, ouvindo-se os paisanos gritar: — «Ma- 
tem esses officiaes! matem esses officiaes!» E continuaram aos 
tiros a torto e a direito, estragando, destruindo. Levaram-me para 
a camará, e eu já contava tão pouco com a minha vida que pedi: 

— «Deixem-me socegado. Eu sei que morro, por isso dei- 
xem-me acabar pr'áqui socegado. . . 

«Mas lá me metteram numa embarcação e depois n*uma 
maca, e trouxeram-me para aqui. Eu suppunha que nem a terra 
chegava com vida. Desde as 10 ou 10 e meia a perder sangue 
imagine-se como eu aqui entrei. Eram talvez cinco da manhã 
quando vim para o Hospital da Marinha. Todo este tempo a 
perder sangue!. . . E ainda depois de feito o penso, continuei 
a perder sangue e tanto que o sangue passou o colchão e caiu 
no chão! Ninguém dava nada por mim. Por um milagre a bala 
passou a um centímetro do coração, e não foi milagre menor o 
eu arribar depois de ter estado um poder de horas a escoar-me 
em sangue. Sinto-me ainda muito fraco, muito. 

— «Quando espera ter alta? 

— «Antes do dia i5. Creio que me fazem só mais dois pen- 
sos. Estou ancioso por sair d'aqui. Soffri tanto, aqui encerrado 
n'este quarto!. . . O que me valeu foi não ser fraco! 

«E o illustre ofâcial arquejava d'estas poucas falias. Uma 
sombra de dedicação entrou no aposento, seguida de um creado 
com um caldo numa bandeja. Era a esposa de Álvaro Ferreira, 
cujo semblante resplandecia uma alegria de ave que, tendo-se 
imaginado afogada n'uma temporada de lagrimas, vê de repente 
á cerração de iucto imminente rasgar-se a névoa densa e can- 
tar outra vez o sol da vida. Valendo-nos do pretexto de que não 
queriamos fatigar o doente, apertamos a mão do commandante 
Álvaro Ferreira, e saimos antes que a nossa commoção impres- 
sionasse a sua delicada sensibilidade de doente ferido na ver- 



176 ARMANDO RIBEIRO 



dade, no coração que a bala não visou bem mas que o desgosto 
não poupou.x 

As iniciaes noticias do lance, por morto deram o oíficial(*) 

Sobreviveu elle, comtudo, aos perigosos ferimentos recebidos, 
abandonando o hospital da marinha, restabelecido, a i5 de 
Novembro seguinte. 

Idênticos boatos se bordaram sobre o tenente Álvaro Manha. 

Teve elle, porem, por si alguns dedicados. 

Dois marujos, corriam para junto d'elle e com cuidado in- 
quiriam da gravidade dos ferimentos, transportando immedia- 
tamente o official á enfermaria. 

Feito o penso, o tenente, com o capitão de mar e guerra^ 
era conduzido no vapor até ao Cães do Sodré, e d'ahi, em 
maca, para o hospital. 

Vejamos esse espectáculo descripto (**) por outra dss victi- 
mas principaes, o tenente Álvaro Martha: 

«O D. Carlos, mantinha-se sempre n'esta attitude neutral 
e inquieta. Notava-se já que a guarnição apparecia muito menos 
em cima, e recebiam desconfiadamente qualquer official que fos- 
se approximar-se d*elles. Durante o dia mandou-se guardar o 
armamento. Ao anoitecer, algumas praças serviramse do i.° es- 
caler, indo n'elle para bordo do S. Raphael onde certamente 
contaram a disposição da guarnição do D. Carlos^ desacom- 
panhada dos officiaes que eram já em maior numero, ao todos 
18, porque durante o dia vieram para bordo outros, depois do 
commandante. A' noite o immediato resolveu que o serviço fos- 
se distribuído, ficando dois officiae* em cada quarto de serviço, 
e competindo-me a mim fazer o «quarto de alva». Estava sen- 
tado n'um sophá na camará, e fatigado por tudo quanto se pas- 
sava desde a véspera, adormeci. Subitamente, sou despertado 
por tiroteio a bordo, corri logo á tolda onde vi já alguns popu- 
lares atirando desesperadamente, em todos os sentidos, sobre- 
tudo para ré. 

«A guarnição conservava-se á proa. Ao paisano que estava 



(*) O Século de 6 de Outubro de 1910. 

(##) Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão, pagina 153. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 177 



mais perto de mim ouvi lhe dizer: «matem os officiaes», e esse 
paisano continuava na attitude de quem procurava algum d'el- 
les. Avancei, na esperança de chegar junto d'elle a tempo de 
poder desarmal-o; n'esse momento, o popular percebeume o 
vulto e as intenções de o desarmar, levou a carabina Menehker 
á cara, piscou o olho, e desfecha. Simultaneamente, eu desviei 
o corpo e em vez de apanhar a bala em pleno peito, recebia 
no hombro, sentindo uma dor não muito violenta, mas que me 
deu logo a impressão de qualquer ferimento. Mas fiquei de pé. 
Sendo-me impossivel descer pela escada da ré, por ser ahi que 
se agglomerava maior numero de paisanos que continuava no 
seu tiroteio doido, fui pela escada de vante, a ver se conseguia 
ainda armar-me. Notei na coberta e corredores uma grande ba- 
rafunda de praças, correndo em todos os sentidos, desorientados, 
muitos dos quaes me pediam armamento, para repellir o as- 
salto. As chaves estavam em poder do immediato, o capitãote- 
nente Bello, que sem eu saber, n'esse momento, já se achava fe- 
rido. Dirigi-me á casa de torpedos á ré, onde sabia que no paiol 
estava guardado o armamento, e notando algum tempo depois 
pelas duas vigias estavam enfiadas varias carabinas que despe- 
javam balas ao acaso, para dentro do cruzador. Vendo que o 
paiol se conservava fechado dirigi-me de novo avante; já sentia 
sangue a correrme do hombro. Passou um marinheiro a quem 
arranquei o bonet para comprimir o ferimento. Subi ainda n'um 
momento de desespero, ao convés, e n'essa occasiao cahi, desfal- 
lecido e torturado por dores. Já tinha arrefecido o ferimento, e 
as dores eram muito violentas. 

— «Por esse trajecto todo que fez pelo navio não deu por 
ninguém ferido? 

— «A agglomeração de gente continuava nos corredores 
dos fogueiros e na coberta, mas a confusão era muita e mesmo 
o meu estado já me não permittia fixar o que ia encontrando 
pelo caminho. Do ponto onde cahi fui levado para baixo, para 
a coberta, por dois marujos que me estenderam na maca de 
uma praça. 

— «E o tiroteio continuava ? 

— «Continuava mas então com muito menor intensidade, 

VOL. IT— FL. 23 



178 ARMANDO RIBEIRO 



havendo para o fim um ou outro tiro isolado, o que me tez sup- 
pôr que elles estavam fuzilando isoladamente os meus camara- 
das. Com grande espanto vi que os paisanos desciam á coberta, 
sempre armados e alguns d'elles se dirigiam a mim, a pergun- 
tar, com um certo ar de lastima onde é que eu tinha sido feri- 
do, E foram elles, já senhores da casa, que me ajudaram a levar 
à enfermaria onde, momentos depois de me ser feito o penso, 
entrou o meu camarada Durão de Sá, i.° tenente, com um bra- 
ço atravessado por uma bala, e por quem eu soube a noticia de 
que o commandante se achava gravemente ferido. Quando vol- 
tei para cima, e cheguei á tolda já as forças conlraternisavam 
com os assaltantes, e se soltavam vivas á Republica. Entre as 
praças e os populares já estava também o 2.° tenente Silva Araú- 
jo que soltava vivas á Republica, e que agora me dizem que 
tinha conhecimento do movimento revolucionário, não tendo, 
porém, nenhum de nós percebido durante todo o dia de 4 de 
outubro que elle fosse afteiçoado ao movimento. 

— «Quantos seriam os revolucionários que fizeram a abor- 
dagem? 

— «Não posso precisar, mas com certeza muitos mais do que 
os quarenta que os jornaes contaram, constando-me agora que 
eram cento e tantos. 

— «E como desembarcou? 

— No mesmo vapor que trouxera os revoltosos e juntamente 
com elles e com todos os orficiaes do c D m Carlos que, á exce- 
pção do que acima citei, declararam não adherir ao movimento. 
Em terra, deixaram-nos no Cães do Sodré, seguindo para o Ho- 
tel Central á espera que viessem duas macas para transportar o 
commandante e a mim. Esse trajecto na maca foi uma tortura. 
Os carregadores, apavorados, corriam impellidos pelo medo, 
sobretudo nas encruzilhadas que davam para o Rocio, E quan- 
do chegámos aqui ao Gommando Geral, os guardas-fiscaes fa- 
ziam parar as macas, para nos perguntar noticias do movi- 
mento, n'uma inconsciência que nem por isso deixava de ser 
cruel. Ia-se embora um, logo voltava outro a enfiar a cabeça na 
lona da maca. De maneira que quando cheguei a este quarto, 
d'onde agora ao cabo de tantos dias estou morto por sair, eu 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 479 



tive a impressão de que mesmo com uma bala no pulmão — 
como eu suppunha que tinha, — eu ia adormecer tranquila- 
mente.» 

Álvaro Martha, era operado a i3 de outubro de 1910, pe- 
los drs. Vasconcellos e Sá, António Augusto Fernandes, e Joa- 
quim dos Santos Faria. 

O projéctil, era-lhe então extrahido, verificando-se que lhe 
havia produzido grandes estragos na clavícula direita, da qual 
foram tiradas muitas esquirolas ósseas. 

O tratamento prolongou se, vindo a sahir do hospital me- 
zes depois. 

O exílio, o tentou e sollicitando licença illimitada ao Brazil 
foi procurar melhor fortuna, não lhe sorrindo esta porém. 



Emquanto uns, a bordo do cruzador, cuidavam desferidos, 
a outros cumpria o consummar do acto de tomadia. 

A bandeira da revolta subia então ao mastro grande, ver- 
melha como se embebida fora no sangue que se empoçava na 
volta do Z). Carlos, onde os vestígios da lueta grandiosa se 
assignalavain flagrantes. 

Os oíficiaes, entretanto, afíirmaram a sua altivez. 

Estavam vencidos, não convencidos. 

Perguntados pela adhesão, todos a recusaram. 

Disse se (*) que n'esse grupo de insubmettidos se encontrava 
o tenente Philémon da Silveira Duarte de Almeida. 

Este oflicial, comtudo, nem a bordo estava, embora republi- 
cano tosse. 

Não fazia sequer parte da guarnição do C D. Carlos, mas 
sim da do 5. Raphael, achandose ainda em goso de licença. 

Quiz-se dar o facto como proposital aflastamento das pug- 
nas revolucionarias e democráticas. 

A Philémon, um dos 14, que, sendo delegado á Assem- 
bléa Nacional Constituinte, regeitou em sessão de 3 de julho 



(*) O Diário de Noticias de 6 de Outubro de 1910. 



{80 ARMANDO RIBEIRO 



de 1911, a proposta de promoção do commissario naval Ma- 
chado Santos, e da pensão de trez contos de réis ao mesmo, 
velo hemos citado, mais tarde, n'um incidente extranho, embo- 
ra favorável ao regimen republicano. 

Ao proseguimento das investigações sobre a fracassada tenta- 
tiva monarchica de 2 1 de outubro de 1918, pelo agente especial 
Homero de Lencastre, ao serviço democrático e depois ao mo- 
narchico, era fornecido á imprensa (*) um documento, segundo 
o qual o tenente teria indicado vários camaradas como coope- 
rantes do movimento inconsequente. 

Dizia o seguinte, o fac-simile trazido aos jornaes, já, quan- 
do em fuga estava, em terras de Hespanha, o seu possuidor Ho- 
mero de Lencastre: 

«N.° 4 B — Lista de officiaes de marinha que devem entrar 
na conspirata : 

tFerreira Lima — Capitaotenente. 

«José Rolla Pereira — i.° tenente. 

«Pereira de Mattos — l.° tenente. 

«Ressano Garcia — 1.° tenente. 

«Jayme Correia do Inso — 2. tenente. 

«Lemos Peixoto — i.° tenente. 

«Santos Gil — I.° tenente. 

«Vieira da Fonseca — Capitão tenente. 

Silveira Ramos — 1.° tenente. 

«Abranches da Silva — 2. tenente machinista. • 

«Pereira de Mello — 1.° tenente. 

«Arthur Teixeira — 1.° tenente. 

«Nota dada pelo deputado e otticial de marinha ex. m0 sr. 
Filemon d'Almeida no café da Brazileira — para se vêr se se apa- 
nhavam. — (a) Lencastre, » 

Detidos, de tacto, alguns dos indigitados officiaes, e estabe- 
lecido o alarme justificado, requeria Philemon de Almeida jul- 
gamento pelo conselho superior disciplinar da armada, requeri- 
mento deferido (**) pelo ministro da marinha. 



(*) O Intransigente de 17 de Fevereiro de 1914. 
(#*-) 21 de Fevereiro de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 181 

Executados preliminares trabalhos, teve o tribunal consecu- 
tivas sessões, (*) presididas pelo vicealmirante José Joaquim 
Xavier de Brito, apoz as quaes, depondo o tenente e as teste- 
munhas, dr. António José d'Almeida, capitão de mar e guerra 
Machado Santos, capitães tenentes António da Costa Rodrigues, 
José de Freitas Ribeiro, José Augusto Vieira da Fonseca, José 
de Campos, Ferreira Lima, i.° tenentes Arthur Teixeira, Emí- 
lio António dos Santos Gil, José da Cunha Kolla Pereira, Vasco 
Pereira de Mattos Preto, Raul Cardoso Ressano Garcia, Antó- 
nio Augusto de Lemos Peixoto, Silveira Ramos, Augusto de 
Carvalho Pereira de Mello e 2. tenente Jayme Correia do Inso, 
era expedida deprecada para Hespanha, para ser ouvido Homero 
de Lencastre. 

Cumprido, (**) pelo governo hespanhol esse acto judicial, 
effectuado pelo julgado de instrucção de Vigo, era entregue ao 
conselho a carta rogatória, assim concebida : (***) 

a Copia de la declaracion prestada en el Jusgado de Instruc- 
cion de Vigo por Dn. Homero Quirós de Lencastre, en cuatro de 
junio de mil novecientos y catorce. Contesta que: en un dia dei 
mes de Octubre dei ano ultimo, que no puede precisar, entro 
en el cate «La Brazileira» dei Rocio, en Lisboa, cerca de las 
três y media de la tarde, encontrando allí ai Diputado y Oficial 
de Marina Filemon d'Almeida, que le habia sido presentado 
tiempos antes en Lisboa por el Comisario General de la Policia 
de Oporto, Caldeira Scevola, que dicho Oficial se encontraba 
allí acompanado por el Diputado Henrique Cardoso, que tam- 
bien trataba el declarante y despues de saludarse empezaran a 
hablar de conspiracion, perguntandole el de Almeida si conocia 
á Mattos, oficial de Marina, y contestandole el declarante que 
no, entonces el mencionado d'Almeida le replico que le iba dar 
una lista de diversos Oficiales que con certesa eran conspirado- 
res y que era preciso comprometerlos y ai objeto de que el de- 
clarante procurase por todos los médios buscar dactos, hacien- 



(*) 1, 14, 24, 27, e 30 de Junho de 1914. 

(*#) 4 de Junho de 1914. 

(#**) O Dia de 18 de Junho de 1914. 



182 A RiMANDO RIBEIRO 



dose amigo de ellos para conseguir envolverlos en la conspira- 
cion, diciendole en etecto en português «é preciso compromet- 
tellos, á ver se você consegue apanha-los», que llamando ai 
camarero le pidio papel y como este tardase Almeida dijo á 
Henrique Cardoso que no sabia como iba allí todas las tardes, 
pues los camareros eran muy poço educados y que mejor era 
acostumbrarse ir ai cate dei Gelo, donde los camareros eran 
mas atentos y el café mas superior: que en esta ocasion llegó 
el camarero, cuyo nombre ignora pêro que es un hombre bajo, 
pálido e de bigote negro y pequeno, quien entrego ai de Al- 
meida un pliego de papel com el membrete de la casa : que en- 
tonces el indicado d'Almeida, que estaba sentado en una mesa 
cerca dei mostrador, en trente á lá cajá registradora donde se 
mete el dinero, e^pezó á escribir en el papel, con un lapiz, los 
nombres de los oficiales y despues de terminar, leyó la relacion 
de ellos y como quiere que habia escrito dos veces el nombre 
dei Oficiale Pereira de Mattos, ai qual le parece ai declarante 
que tenia verdadero empeno en comprometer, pues adernas de 
haber escrito su nombre dos veces, ha sido el primero de quien 
le habló, tacho ai segundo y le dijo: «aqui tiene, entregue ao 
Scevola que elle hade gostar d'essa lista: que despues seguieron 
conversando, saliendo todos juntos á eso de las cinco horas y 
separandosc á la puerta dei café «Martin»; que como ha mani- 
festado ya ante el Notário de esta residência Don Segundo Piá, 
la mencionada lista lué escrita de puno y pulso dei Sr. d'Al- 
meida, quien se la entrego como deja declarado y que no puede 
dar otra rason acerca de los hechos sumariales. Ratificase previa 
lectura : firma con S. S. a y certifico.» 

O conselho, todavia, dando por concluídos os trabalhos, (+) 
emittiu parecer onde declarava não existir matéria criminal, 
decisão com que se conformou (**) o ministro da marinha, 
julgando o tenente illibado das accusaçoes feitas por Homero 
de Lencastre, justificando assim a seguinte calorosa defesa pelo 
orgao republicano O Afundo, do partido do dr. Aflonso Costa; 



(#) 30 de junho de VJ\\. 
(*#) 1 de julho de 19 li. 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 183 



«A malta reaccionária que advoga a restauração da mo- 
narquia do credito predial e dos adiantamentos jamais poderá 
dispensar nos seus ataques virulentos ao glorioso Partido Repu- 
blicano Português os processos de baixa e sórdida calumnia de 
que sempre lançou mão e que são a sua exclusiva arma de com- 
bate. Esses quadrilheiros não se importam de que a calumnia 
se apague e se desfaça, como no caso que vamos tratar, sob ac- 
ção forte da verdade, proclamada por quem, á face da lei, é o 
único competente para a proclamar. Sentem-se felizes por, du- 
rante algum tempo, poderem espalhar ao longo das columnas 
dos seus pasquins toda a serie inânda dos seus esverdeados 
ódios e, na hora da justiça, quando toda a opinião publica im- 
parcial e honesta lhes aponta os seus crimes e, a fogo, lhes grava 
na fronte a marca indelével da sua infinita torpeza, elles, com 
um impudor só próprio d'uma tal escoria, ficam impassíveis 
perante o gesto de repulsa de todos os homens de bem. Como 
os leitores devem lembrar-se a campanha contra o Partido Re- 
publicano Português subiu ao auge durante o ultimo mês de 
fevereiro. O gabinete do ilustre estadista dr. Affonso Cost8, com 
um gesto de incompreendida robreza, acabava de abandonar o 
poder para não levantar embaraços á marcha normal da Repu- 
blica, e em todos os meios adversos ao regime se proclamava 
uma guerra de exterminio contra o Partido Republicano Por- 
tuguês e em torno deste se cantava em vários tons e diversas 
afinações a já gasta ária da calumnia. Era necessário c urgente 
criar um ambiente favorável a uma ampla amnistia e, por isso, 
vá de afirmar que o 21 de outubro não tora mais do que uma 
pavorosa republicana arranjada pelos ministros democráticos de 
colaboração com vários amigos seus e que a essas desgraçadas 
victimas de outubro se devia imediatamente abrir de par em 
par as portas das prisões onde a tirania republicana as en- 
cerrara. Homero de Lencastre, já então na Galliza vendido aos 
conspiradores, e dirigido, segundo se afirma, por Cunha e Costa, 
preparava o scenario em que se devia exibir aos olhos do país 
toda a comedia arquitetada pelos bandoleiros e autênticos cons- 
piradores de outubro. Uma bela manhã appareceu no órgão da 
iorca e do cacete uma entrevista de Homero com um dos seus 



184 ARMANDO RIBEIRO 



redactores. Era um resumo da farça. Os diversos papeis já vi- 
nham distribuídos. Este, com um bando de sicários, deveria ma- 
tar João Coutinho, aquelle teria indicado oficiaes que, á força, 
deviam ser envolvidos no complot, um outro mandara prepa- 
par as coisas para que o inocente Moreira de Almeida e outros 
pacíficos talassas fossem eliminados como nocivos ao Partido 
Republicano Português. Em6m, um verdadeiro horror! O que 
é mais curioso, porém, é que todos os que ainda semanas antes, 
na imprensa e no parlamento, apontavam Homero como o ulti- 
mo dos miseráveis e o mais abjecto dos lacinoras, quando elle, 
no seu papel de agente policial, apontava e acusava monárqui- 
cos envolvidos em um movimento contra a vida da Republica, 
agora aceitavam e escutavam as suas palavras como a essência 
mais pura da verdade, quando elle, já vendido aos monárqui- 
cos, infamava sem provas alguns republicanos que sabia pode- 
rem ser elementos altamente prejudiciais aos conspiradores pre- 
sos, caso viessem a depor nos processos contra os mesmos ins- 
taurados. Assim se pretendia conseguir levar a opinão publica a 
impor uma amnistia e também desviar certos elementos, que, 
de forma alguma, convinha depozessem nos processos de alguns 
dos da malta de 21 de outubro, que por acaso não fossem abran- 
gidos pela amnistia ou, no peor dos casos, enfraquecer moral- 
mente esses depoimentos. Foi nessa hora que o nosso querido 
amigo e inteligente deputado sr. Filemcn de Almeida, na sua 
qualidade de oficial da armada, e sentindo se visado por tais 
calumnias, imediatamente requereu ao ministro da marinha 
que fosse convocado o conselho superior de disciplina da arma- 
da, a 6m de que os almirantes que, por lei, fazem parte desse 
alto tribunal, estudassem minuciosa e rigorosomente tais acu- 
sações, e, sobre o caso, proferissem o seu veredictum. Este alto 
tribunal estudou demoradamente o assunto e acaba de pronun- 
ciar a sua sentença dando como infundadas tais acusações. Para 
todos os que teem o prazer de conhecer Filemon de Afmeida, 
este veredictum nada os surpreende, pois em alto apreço teem 
as belas qualidades do seu caracter e bem sabem que, sempre 
que elle tenha de acusar alguém, o fará sem mascara e de fronte 
bem erguida, assumindo toda a responsabilidade das suas acu- 



A UEVOLUÇAO POliTUGUEZA 185 

saç5es; mas para o grande publ co, a decisão do conselho supe- 
rior de disciplina da armada tem um alto significado, porque 
rnsis uma vez vem claramente patentear os processos de com- 
bate de uma certa fauna politico social, que apenas sabe esgri- 
mir com navalha de ponta e mola.i (*) 

O facto de se manter o sigillo do parecer até á suprema de- 
liberação ministerial, fez com que em duvida continuasse a ve- 
racidade do documento por Homero de Lencastre dito autogra- 
pho do tenente Philemon. 

Por seu turno, já haviam sido dados illibados de culpa os 
orjiciaes presos em virtude do incidente, excepção feita do 2.° 
tenente José Abranches da Silva, desligado do serviço, por ac- 
cusador dos seus companheiros da armada. 

Cumpre-nos deixar todavia para seu logar a acção, a um 
tempo mysteriosa e sinistra do 2 1 de Outubro, afim de nos rein- 
tegrarmos no lance da tomadia do cruzador D. Carlos> deixado 
para a demonstração de que a patenteada falta do tenente 
Duarte de Almeida não obedecera, como se insinuou, a despren- 
dimento da revolta de Outubro de 1910, a qual, em premio lhe 
trouxe a cadeira de deputado. 

Voltemos, porém ao D. Carlos. 



A manifesta insubmissão da oficialidade e o reconheci- 
mento da causa republicana, levou os revoltosos a decisiva at- 
titude. 

Resolvido foi logo o seu desembarque, como precaução, 
para entrega no 5. Raphael, 

N'essa altura, collocouse ao lado dos rebeldes, o 2.° tenente 
Silva Araújo. 

João Carlos da Maia, confiava-lhe o commando do cruza- 
dor, sem que uma palavra salientasse esse tardio apparecimento 
do oflicial. 



(#) O Mundo, de 2 de julho de 1914. 

VOL. IV— FL. 24 



186 ARMANDO RIBEIRO 



Vejamos o relatório d'este, onde curiosos pormenores resal- 
tam da sua singular attitude a bordo, durante a lucta sangrenta : 

«Quando no dia 4 cheguei a bordo, pelas 9 horas da manha 9 
soube que o armamento e municiamento estava todo fechado e 
que algumas praças já tinham tentado insubordinar-se mas 
que alguns officiaes, apparecendo n'essa oecasião, os convence- 
ram a não se manifestarem, aconselhando-lhes a que se conser- 
vassem numa attitude neutral, que era a melhor de todas as 
situações. Officiaes havia que, sem estarem de serviço, faziam 
frequentes passeios á proa a fim de as aconselhar a manterem 
uma attitude neutral. O commandante e immediato exerciam 
também uma vigilância constante. Uma grande parte da guar- 
nição estava de licença em terra e os elementos entendidos com 
os revolucionários, que estavam a bordo, soube serem, já depois 
de tomado o D. Carlos, os i. os sargentos Manuel Fastio, João 
Duarte Gilberto e cabo torpedeiro n.° i633 Joaquim Campos. 
A gente que estava a bordo do navio vae indicada na relação A. 
A's 10 horas da manhã, pouco mais ou menos, constou a bordo 
que o primeiro artilheiro n.° 3487, Benjamim Magalhães, se 
tinha atirado ao rio, sendo apanhado por uma embarcação do 
cruzador Adamastor. A's 8 horas da noite, approximadamente, 
soubese a bordo que algumas praças, servindo se do L° escaler, 
tinham fugido de bordo, indo para o cruzador Adamastor. 
São as praças que constam da relação B- N'esta altura o ser- 
viço passou a ser feito por dois officiaes um a vante e outro a 
ré. Pelas 10 horas da noite sei que um vapor da Alfandega se 
dirigia para estibordo do navio, mas não conseguindo atracar 
por mau governo, afastou se, manobrando a fazer nova atraca- 
ção. Vi logo do que se tratava e mettime no camarote, para 
escapar á fúria do primeiro embate. Estava já no camarote 
quando ouvi o commandante dizer ao vapor que se afastasse e 
um olficial pedir ao commandante que fizesse fogo com a peça. 
De bordo, segundo me informaram, atiraram sobre o vapor 
dois officiaes. A esta provocação responderam os do vapor, que 
logo saltaram para o navio, fazendo na tolda, sobre os compar- 
timentos da ré, uma grande fusilaria. Acabado o tiroteio, abri a 
porta do camarote e encontrei me com os populares e o tenente 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 187 

José Carlos da Maia, que me encarregou de procurar os officiaes 
entregando-me depois o commando do D. Carlos. Dos officiaes 
ficaram feridos o commandante Álvaro Ferreira, capitão tenente 
Bello, primeiro tenente Durão de Sá e segundo tenente Álvaro 
d'Almeida Martha. Dos assaltantes ficaram feridos o chegador 
n.° 6o5o, José Ramadas e um popular. Reunidos os officiaes 
do Z). Carlos, a todos perguntou o segundo tenente Maia 
se adheriam ou queriam desembarcar. Todos preferiram des« 
embarcar ficando só eu a bordo. Do estado menor, os quatro 
conJuctores de machinas que constam da relação C, pediram 
também para desembarcar. Depois de desembarcados todos os 
offiches no Gaes do SoJré, voltou o vapor a bordo para con- 
duzir o segundo tenente Maia com a sua gente ao S. Ra- 
fael. A's lo horas e meia da noite içou se a bandeira da revo- 
lução a bordo do D. Carlos, sendo saudada com uma salva 
de 2 1 tiros. Já só a bordo, dispuz tudo para o ataque dos tor- 
pedeiros, que se esperavam na noite de 4, segundo as informa- 
ções que tinham vindo da majoria. Mandei arrombar os paioes 
das munições, por não apparecerem as chaves, armar e muni- 
ciar toda a guarnição, guarnecer a artilharia e que os projecto- 
res explorassem o rio em volta do navio. A guarnição n'uma 
grande excitação, conservou-se toda a noite a postos e n'uma 
vigilância constante. Pelas 2 horas da manhã descobriram os 
projectores no canal do Barreiro o rebocador Berrio com os 
pharoes apagados; mandei então que se fizessem repetidos to- 
ques de sereia para elle se afastar, mas como elle não obede- 
cesse a esta intimação, mandei lhe fazer um tiro com a peça de 
47 mm do tombadilho, com pontaria ao lado. Teimando em con- 
servar-se na mesma proa e de pharoes apagados, mandei que 
se lhe fizesse um tiro para mais próximo. N'esta altura, d'um e 
d'outro lado do Berrio viu-se um cachão, e todos nós ficamos 
convencidos que era o bigode feito pelos torpedeiros que a toda 
a força se largavam do Berrio. Sobre este ponto mandei fazer 
fogo com a artilharia de pequeno calibre; que um projector se- 
guisse constantemente o Berrio, que se dirigia para o pontal 
de Cacilhas, e que os outros três projectores fizessem uma ex- 
►ração constante em torno do navio. A guarnição estava ex- 



188 ARMANDO RIBEIRO 



citadissima e convencida que os torpedeiros tinham vindo de 
Valle do Zebro, e por duas vezes, uma ás 3 horas da manhã e 
outra ás quatro, approximadamente, deu o rebate da approxi- 
maçao dos torpedeiros, fazendo logo sobre os pontos indicados. 
A's 2 horas e meia veiu o vapor carregado com populares, que 
mandei deitar, fornecendo-lhe ao romper do dia uma refeição 
de grão com bacalhau. Estes popubres embarcaram novamente 
ás 6 horas da manhã de 5 no vapor da Alfandega, para se reu- 
nirem ás torças de desembarque dos outros cruzadores. A's 7 
horas da manhã de 5 apresentou se a bordo, com ordem do 
commandante das forças revolucionarias da marinha, o machi- 
nista de 2. a classe Alfredo Thomaz dos Santos, ficando encar- 
regado da machina. A's 8 horas da manha do mesmo dia re- 
cebi a bordo, sob prisão, o commandante e ofrkiaes da fragata 
C D. Fernando, que depois mandei desembarcar em Belém, com 
auetorisação superior. A' 1 hora da tarde do dia 5 organisouse 
a bordo uma força de 80 praças, sob o cominando do 1.° sar- 
gento João Duarte Gilberto, que seguiu para o Arsenal a reu- 
nir-se ás forças de desembarque dos outros cruzadores. A's 1 1 
horas da manha os cruzadores salvaram com 21 a bandeira da 
Republica. A's 3 horas da tarde, cumprindo as ordens do navio 
chefe, larguei da bóia indo fundear junto do Terreiro do Paço, 
a fim de prevenir o ataque ao Arsenal de Marinha por artilha- 
ria 3. A's 5 horas da tarde 8presentou-se a bordo, com ordem 
do commandante das forças revolucionarias de marinha, o 2* 
tenente Monteiro Guimarães. A's 8 horas da noite, pouco mais 
ou menos, constando que artilharia 3 vinha postar-se na Penha 
de França para bombardear os navios, recebi ordem para sus- 
pender e fundear em sitio d'onde bem descobrisse a Penha de 
França, para responder ao bombardeamento. Nos dias 6, 7, 8 
e g continuou o navio fornecendo forças e guardas para terra. 
No dia 10 entreguei o commando ao capitão de mar e terra 
Almeida Lima. Toda a guarnição trabalhou com vontade, não 
se poupando e estando sempre prompta para o serviço que se 
lhe exigia. No emtanto, são dignos de menção especial o i.° sar- 
gento artilheiro Manuel Fastio, o 1.° sargento do serviço geral 
João Duarte Gilberto, o cabo torpedeiro i663 Joaquim Crespa 



A. REVOLUÇÃO POKTUGUEZA i8£- 



e o i.° conductor de machinas António Maria Teixeira. E' tam- 
bém digna de louvor a população de Cacilhas, que a este na- 
vio forneceu, para ser distribuído pela guarnição, carne, peixe, 
tabaco, etc, etc. Bordo do cruzador D. Carlos i, 10 de outu- 
bro de 19 10 (a) José Joaquim da Silva Araújo, segundo 
tenente. — Visto, A- Parreira.» (*) 

Ainda confirma a acção retrahida de Silva Araújo, o revo- 
lucionário civil Júlio Victorino dos Santos: 

tFez se logo de parte a parte, e por fim os olficiaes vieram 
com ordem de prisão para terra, excepto o tenente Silva Araújo 
que era dos nossos e que na occasiao do tiroteio, metteu-se no 
camarote e só sahiu para se apresentar ao seu camarada Maia 
afim de pôr-se á disposição do mesmo, o qual lhe entregou o 
commando do navio emquanto elle vinha ao S. Rafael dar 
conta da sua arriscadíssima e nobre missão e ficando afim de 
almoçar.» 

Soâreu ataques a attitude do tenente, promovido depois, com 
os outros interferentes nas acções navaes, a i.° tenente e tendo 
ainda a apresentação perante a Assembleia Nacional Constituin- 
te, (**) pelo delegado Innocencio Camacho Rodrigues, de um 
projecto de lei que lhe concedia o grande officialato da Torre e 
Espada, com a pensão annual vitalícia de goo$ooo réis. 

Todavia, procurando intenções, parece deduzir-se dos actos 
de Silva Araújo apenas uma vontade de abstenção no auxilio á 
chacina dos outros officiaes, seus companheiros de bordo. 

Resultou evidente esse melindre, á acção firme assumida 
quando do annuncio de ataque pelos torpedeiros. 

Orientando a defesa, esperou essa abordagem, que, a dar-se, 
seria terrível. 

Etfectuava-se apenas o apparecimento do Berrio que se 
pretendeu dizer encobrindo a marcha dos torpedeiros 1, 2 e 3. 

Era unicamente o Berrio. 



(#) O D Carlos na Revolução — Relatório do 2.° tenente Silva Araújo 
oA Capital de 5 de novembro de 1910. 

(##) Assembleia Nacional Constituinte, — Sessão 16. a de 7 de Julho de 
1911. 



1190 ARMANDO RIBEIRO 



Pela noite houve a lembrança, pelo arsenal, de que o rebo- 
cador desguarnecido estava. 

Incumbira se-lhe o plano de conduzir os torpedeiros, com os 
ofliciaes existentes em Valle de Zebro. 

Davam as 8 horas da noite de 4, quando o commandante 
interino do rebocador, tenente António Allemão de Mendonça 
Cisneiros e Faria, se apresentou junto do Trafaria^ para que a 
bordo do seu navio o conduzisse. 

Houve a recusa, incitada antes pelo cabo de ponte, Ger- 
mano ; (*) 

«Muito tempo depois, seriam umas 8 horas, chega o com- 
mandante interino do «Berrio», o tenente Allemão, que se di- 
rige ao pessoal do «Trataria». Queria que o conduzissem a 
bordo do «Berrio», e a guarnição recusou, dando honradas ex- 
plicações do seu procedimento. 

— «Não, a bordo do «D. Carlos» ha camaradas nossos. Não 
vamos contra elles! 

«De mais sabia a guarnição o que se pretendia: mobilisar 
os torpedeiros, trazendo-os Tejo fora encobertos com o «Ber- 
rio» ... O tenente Allemão, pareceu indeciso, um momento, 
como quem procura uma solução. Depois, subitamente, vendo 
ali perto o «Azinheira», perguntou pelo patrão de bordo — o 
patrão Victor. 

— «Está em cima da ponte — responderam-lhe de mau 
humor. 

«O official, impassivel, apitou e logo o Victor veio, travan- 
dos-se um pequeno dialogo. 

— «Preciso que me conduza a bordo do «Berrioi . . . 

— «Impossível, sr. tenente — exclamou o patrão, abanando 
a cabeça. 

— «Porquê ? 

— «Porque se corre um grave perigo. . . 

— «Eu tomo toda a responsabilidade do que houver. De 
resto, eu mesmo irei ao leme. . . 



(*) O Taix de 18 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 191 

«Effectivamente, o sr. tenente Allemão collccou-se ao leme 
e o t Azinheira» partiu em direcção ao «Berrio». 

Não passou sem ameaças, a attitude altiva do official, e as 
tripulações dos outros barcos, increparam duramente a do Azi- 
nheira, por se sujeitar á imposição do tenente. 

Este, manteve a sua linha de intransigência e fez rumo ao 
seu destino. 

Dando ali as suas ordens, António Allemão voltou ao Azi- 
nheira, procurando com elle a cala que ia dar a Valle de Ze- 
bro, o que não conseguiu, pela ditficuldade de descobrir as mar- 
cas, na escuridão da noite. 

De regresso ao Berrio, tentava com elle a missão, em- 
quanto o vapor voltava ao arsenal. 

Da majoria já se retrocedera a esse tempo e fizera se trans- 
mittir para o rebocador a contra ordem de sahida dos torpedei- 
ros, que, nem chegou a Valle do Zebro. 

Nem era necessário. 

O commandante Almeida Lima, se encarregara de preadi- 
vinhar os desejos da majoria general. 

Quanto ao Bemo demandava a Cova da Piedade quando 
os holophotes dos navios revoltados, o descobriram. 

Os do 1). Carlos, trabalhando incessantes, tocaram mais 
intensamente o rebocador, desde logo e sem intimação, alvejado 
com dois tiros de peça de 12 centimetros. 

Attingidopor um tiro, submettia-se, arvorando bandeira bran- 
ca, sem pensar em resistência e retrocedendo, já dadas 4 horas da 
madrugada, amarrou, tranquillamente á bóia, sem que os holo- 
photes do D. Carlos, o abandonassem, prescrutando-lhe as in- 
tençots. 

Nada havia a recear. 

As dedicações pela causa da realeza, aíírouxavam aos pri- 
meiros signaes de lucta, sem que se procurasse, pela tenacidade: 
e fé, um combate decisivo. 

Comprova a atfirmativa, quanto ao Berrio, o íacto de a 
respectiva tripulação, declarar (*) depois que «a sahida do navio 



(#) O Diário de Noticias de 8 de Outubro de 1910. 



192 ARMANDO RIBEIRO 



obedeceu única e simplesmente a sustar a partida dos torpedei- 
ros em vir atacar os navios revoltosos, e só depois do comman- 
dante do «Berrio» garantir sob sua palavra de honra, que a 
missão era de paz, é que a guarnição accedeu á partida, vol- 
tando immediatamente logo que o «D. Carlos» o intimou a sair.» 

Ainda em Notas de um official que seguiu todas as 
fases do movimento se encontra a affirmativa: (*) 

«O D. Carlos, já commandado por um tenente revoltoso, 
em certa altura dessa noite tez alguns tiros de artilharia sobre 
o Berrio, julgando-o a ocultar torpedeiros. O Berrio trata 
de mostrar logo que não tem nada oculto.» 

Assim, nem de pé ficou essa tanto apregoada resistência e, 
mais uma vez se salientou o facto do constante penitenciar, por 
todas as forças, de uma só ideia que symbolisasse a defesa da 
monarchia, aliás feita em juramento solemnissimo. 

Não se pensou todavia assim a bordo do cruzador recém 
aprisionado. 

Presumindo-se intransigências, não imaginava sequer, sub- 
missões. 

D'elle allucinadamente se fizessem novos tiros, á descoberta 
distante de alguns pontos negros, que se julgaram os torpedeiros. 

Ao seu desapparecimento, sonhouse uma victona nova, e 
aos navios chegavam boatos de que um, avariado, tivera até o 
reboque do Berrio. 

Certo é porém que apenas visados foram alguns barcos de 
pesca, visto os lança-torpedos não haverem abandonado Valle do 
Zebro, a despeito de para ali ter sido pela majoria general or- 
denada a sahida para o mar. 

Não f^i acatada a determinação. 

Os torpedeiros não sahiram, apesar de transmittidas or- 
dens e ao contrario dos depoimentos que o aífirmaram e isso 
consta até do relatório (**) do i.° tenente José Mendes Cabe- 
çadas, citando precauções e nunca qualquer ataque: 

«Depois da tomadia do D. Carlos mandei para lá muita 



(#) A marinha na revolução — No quartel de marinheiros e a bordo dos 
navios de guerra = O Mundo de i5 de outubro de 1910. 

(#*) Copia do livro de serviço do cruzador Adamastor. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 



193 



gente, por haver lá mais espaço Durante a noite trabalharam os 
projectores e esteve sempre gente ás peças com receio de um ata- 
que dos torpedeiros. Ainda propuz por signaes que tossem pos- 
tas embarcações no caminho do Valle do Zebro, para annun- 
ciarem a passagem dos torpedeiros por meio de fachos lumi- 
nosos. » 

Houve de facto uma contra ordem, mas essa não foi conhe- 




FREDERICO PINHEIRO CHAGAS 



cida em Valle de Zebro, onde o director dos serviços agiu por 
vontade própria. 

Não deixou todavia de estabelecer preoccupaçÕes a attitude 
dos torpedeiros, e do Berrio, aliás já pacificamente submettidos. 

O tenente António Alíemão, reformava-se pouco depois no 
immediato posto. 

A esse tempo, já a bordo do S. Raphael o navio chefe 
da sedição, se faziam festas pela tomadia do C D. Carlos. 

Um almoço, pela madrugada, solemnisava o feito e durante 
elle, trocando-se impressões, se resolvia o desembarque de civis 



VOL. IV — FL. 



J94 A RMANDO RIBEIRO 



pelas 5 horas, commetendo-se, antes, ao proprietário da pape- 
laria Liberty, da Rua do Livramento, em Alcântara, Franklin 
Lamas, a marcha até a Rotunda, para prevenir o commissario 
naval Machado Santcs. 

Entre as mutuas convenções correu essa madrugada, em 
quanto desesperadamente se fundavam todas as esperanças no 
apparecimento da marinhagem. 

Externamente eram conhecidas já, mercê de ordens para tal 
fim, a submissão, completa do C D. Carlos. 

O Mundo historiava e commentava assim em 5, esse lance 
do apresamento: 

A* uma hora e meia da manha. — As detonações são es- 
trondosas e frequentes. As forças republicanas tiveram uma 
adesão importante. O único navio que não tinha arvorada a 
bandeira da Republica era o cruzador D. Carlos. As evoluções 
do Adamastor^ a que acima nos referimos, visaram a apri- 
siona-lo. As torças republicanas entraram realmente neste barco 
de guerra, onde estavam 26 officiaes e quatro marinheiros. O 
comandante não quiz entregar se: atiraram sobre elle que 
veio, moribundo, num escaler para terra, sendo conduzido ao 
Hotel Central. Foram depois interrogados os demais olficiaes 
sobre a sua atitude. Os que aderiram, ficaram. Os que não ade- 
riram vieram presos para o quartel dos marinheiros. E' mais 
um facto que prova que os revolucionários teem sido, quanto 
possível, humanos. Tanto os elementos militares como civis, teem 
fugido de violências inúteis. E' essa a orientação do movimento. 
A revolução não se inspira no desejo de matar. Inspirase na as- 
piração de salvar a Pátria.» 

Proclamou se que os estragos na tolda eram de tal forma 
que, parecia se tinha travado um combate com outro cruzador 
de grande tonelagem. 

Deu se o assalto como levado a efteitò com canhonheio dos 
outros navios e mais tarde ainda o erro era reeditado: (*) 

No cruzador A Carlos que, a principio não adheriu ao 
movimento, veem-se vestígios das balas de canhão revolver, dis- 



(*) O Século de 12 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 495 

parados pelos navios que entraram no movimento. Os projecteis 
alcançaram a chamada casa do talho.» 

Vimos que apenas o consummou a gente levada no vapor da 
Altandega e sem que se intromettessem, por desnecessários, os 
canhões do Adamastor e do S Raphacl. 

Contribuía tudo, porem, para levar alentos aos outros 
pontos da sedição. 

Comtudo, a querer oítuscar os júbilos da alcançada victo- 
ria sobre o D. Carlos, havia o desasocego, avassalante, for- 
mando-se a desconfiança em represálias trágicas, não já dos 
navios, os mais importantes d'elles, adherentes á causa, mas da 
-escola de Valle do Zebro. 

Ali, porém, como em toda a parte, o grupo dos dedicados 
perdido estava no meio do convencionalismo dos que o não eram 

Estava ali egualmente estabelecida a insurreição. 

Tinha esta sido iniciada ás i I horas da manhã de 6 com 
um viva á Republica dado por um oíficial. 

O tenente João Fiel Stockler, procurou por um acto de au- 
dácia sublevar a torça de Valle do Zebro, e ao acclamar o ideal 
democrático presumiu uma victona rápida com base nas in- 
sistentes promessas de geral adhesão. 

Acompanhou o o mesmo erro que de braço andou com to- 
dos os que tentaram a sublevação nos primeiros momentos. 

Não houve auxilio ao projecto, presumido de seria base. 

Por elle, emquanto os republicanos do Barreiro deviam cor- 
tar as communicações com Lisboa e vigiar a beira-mar, os de- 
mocratas moitenses e das proximidades, dirigidos pelo dr. Er- 
nesto Gameiro Franco, assaltariam a Escola de Torpedos, apo- 
derando se de armas dadas como ali existentes. 

Gameiro Franco, tendo chegado a Lisboa em fins de De- 
zembro de 1909, tora convidado pelo engenheiro António Ma- 
ria da Silva, para entrar nos trabalhos da organisação revolu- 
cionaria. 

Fundando os grupos civis de Guarda, Pinhel, Figueira de 
Castello Rodrigo, Foscôa, Meda e Almeida, chamou ainda á 
causa da sedição, infantaria 12 e a guarda fiscal de Barca d'Alva 



196 ARMANDO RIBEIRO 



Feitos esses trabalhos iniciados em Maio, era apresentado ao 
commissario naval Machado Santos, e por elle encarregado de 
se apossar, no momento preciso, das 2. OOO carabinas e íOOOO 
cartuchos guardados em Valle do Zebro, a remetter para Lisboa, 
á imprevista impossibilidade de obter armas no quartel de ma 
rinheiros. 

Cândido Reis, imcumbira-o ainda de impedir a sahida 
dos torpedeiros e por um lance de posse da Escola de Tor- 
pedos. 

Para auxilio teria 1 5o praças, e a cumplicidade do 2. sar- 
gento artífice Carlos Martins de Freitas. 

Embora em parte alterado o plano, Carneiro Franco apres- 
tou se para desempenhar a sua missão. 

Os grupos chegaram a approximar-se de Valle do Zebro, 
mas um retrahido aspecto, pela escassez de noticias tavoraveis á 
revolta, produziu o retrocesso dos núcleos dispostos ás intenções 
de tomadia. 

Carneiro Franco, á victoria ganha, era eleito deputado á 
Assembleia Nacional Constituinte e nomeado conservador do 
registo civil do 2 bairro. 

Não colheu pois a tentativa de Fiel Stockler, mallograda 
ainda a de Carneiro Franco 

Fiel Stockler, de regresso do Algarve, onde tora avisado, 
achou já cortadas as linhas e não poude chegar até ao Bar- 
reiro. 

Fez o percurso a pé, e na impossibilidade de entrar em 
Lisboa, resolveu actuar em Valle do Zebro. 

A' pressa reunira alguns grupos de civis e fardado, tentou 
convencer a marinhagem. 

Distanciou se um pouco dos paizanos e audaz procurou pe- 
netrar na escola. 

Esse acto, isolado, teve logo repressão, e o revoltado obede- 
cendo á intimação para entrega, depunha nas mãos de Almeida 
Lima o revolver, considerando se preso embora o povo se inte- 
ressasse, pedindo e depois exigindo a sua liberdade. 

O commandante da escola, capitão de mar e guerra Al- 
meida Lima, ainda se manteve intransigente, ante um simples 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 197 

protesto do povo, ordeiro, mas prestes a demonstrar-se força 
indomável. 

Valeu ao lance, o tenente que, detido, com homenagem, 
conseguiu fallar ao povo, dizendolhe «que não sahia d*ali, que 
para aquelle quartel tinha entrado por sua espontânea vontade 
e que pela mesma forma havia de sahir e que fossem para o 
Barreiro com coníiança no dia de amanhã.» (*) 

Era prophetica a phrase : a manhã seguinte trazer- lhe-hia a 
liberdade. 

A populaça affastou-se pouco satisfeita pela detenção, mas o 
officiai elaborava o seu projecto. 

Lá dentro manobrava-se comtudo, dirigindo a conspiração, 
o chefe de choça de C* . • P" . * o artífice Carlos de Freitas, e 
que á Alta Venda levara até, para os casos de resistência forte, 
os planos topographicos de Valle do Zebro. 

Mas, á tentativa de Stockler, estava distante, a bordo de um 
dos torpedeiros. 

A espectativa manteve se, mas não sem que da Escola pe- 
dissem reforço á majoria, que, em radiogramma participava 
haverem seguido os tenentes Vieira de Manos e Álvaro Augusto 
Nunes Ribeiro, commandantes dos torpedeiros 3 e 4. 
l : Deliberou-se ainda d'ali enviar outro officiai, que, por von- 
tade própria foi o -i.° tenente Almeida Henriques. 

Escolhido foi também pelo capitão tenente Teixeira de Bar- 
ros, o tenente Frederico Pinheiro Chagas, para partir, como 
com mandante da força existente a bordo do Pêro de Alem* 
quer, o que depois se não fez, por o officiai não pertencer á res- 
pectiva guarnição. 

No navio estavase a distribuir a ração da tarde, á qual se 
devia seguir o embarque de mantimentos. 

O trabalho concluia-se hora e meia depois, com a formatura 
de 40 praças armadas, sob o commando do 2. tenente Jayme 
dos Santos Pato e ás quaes, o commandante Henrique Eduardo 
Macieira, incitava assim: 

— a Destacamento do Pêro de Alemquer ! Não vos faço 



(*) O Século de 8 de Outubro de 1910. 



198 ARMANDO RIBEIRO 



recomendações especiaes porque a guarnição do a Pêro de Alem- 
quer» tem cumprido sempre em toda a parte o seu dever.» 

O transporte largou em direcção ao Barreiro. 

O seu approximar, com alguns devotados á monarchica 
causa, trouxe uma variante, intructiíera aliás, ao extranho as- 
pecto de Valle de Zebro. 

Chegavam, entre outros, os l. os tenentes Almeida Henriques 
e Fernando Augusto Pereira da Silva e os 2. 0S tenentes Jayme 
dos Santo? Pato e Frederico da Silva Pinheiro Chagas. 

Jayme Pato, era um auxiliar á democracia, e contramar 
cha aos trabalhos de Sdelidade á coroa. 

A Republica, á victoria ganha, reconhecelohia, e um de 
creto de 1 8, publicado a ig de Novembro de 19 IO srbitrava-lhe, 
como grau de ofiicial da ordem de Torre e Espada, do Valor, 
Lealdade e Mérito, a pensão annual vitalícia de 3oo$OOo réis. (*) 

Escolhido para candidato a deputado á Assembléa Nacional 
Constituinte, recusava, preferindo o embarque com destino á 
estação naval de Moçambique, afim de fazer tirocinio. 

Contrariamente, e como deffensor da realeza e das suas 
convicções vinha outro, que, longe de galas, se envolveria na ban- 
deira azul e branca como suprema mortalha de seus sonhos e 
como remate cerce da sua carreira de paladino da sua farda 
de ofticial da armada real portugueza: Frederico Pinheiro 
Chagas. 

Este, estava em casa, ao rebentar da revolta. 

Quiz desde logo sahir, tendo impedimento pelo irmão, 
o advogado Mário Pinheiro Chagas, ponderando-lhe o aguardar 
de acontecimentos, para que vtetima não tosse dos primeiros 
conflictos e impossibilitado de cumprir o seu dever. 

Da majoria não lhe destinavam a apresentação mas apenas 
a espera de ordens, a despeito do tiroteio proseguir. 

Descrendo de boas intenções da majoria, escutava do irmão, 
os conselhos de bom: 

— Tu sabes perfeitamente que eu te não aconselhava con- 



(*) Colleção Official de Legislação Portugueza de 1910 — 11 volume — 
pagina 112. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 199 

ducta que entendesse menos honrosa para ti. Deus me livre de te 
perder, meu Frederico» mas Deus me livre de te salvar sem honra. 

— Eu sei, Mário, eu sei! 

E logo: 
• — O' Mário, deixa-me ir! Eu vou apresentar-me ao minis- 
tro da marinha e desde que se está em revolução o meu minis- 
tro que me ordene o que devo lazer. 

— Pois bem, vae! 

Tomou o revolver Smith, e de corrida marchou da Avenida 
Ressano Garcia até ao ministério da marinha. 

D'ali íoi para a majoria e depois, a instancias suas, para bordo 
do Pero de Alemquer, com destino ao Valle de Zebro, afim 
de trazer os torpedeiros. 

Era o destino a guial-o, doce mas firmemente, para esse so- 
litário recanto, onde a vida se evolaria, tirada por suas pró- 
prias mãos, e pelas balas do revolver que o irmão lhe de'ra para 
defesa ! . . . 

Teve jubilo ao ver a quietitude da Escola. 

Já o povo, postado no Barreiro, pretendera, á passagem 
do navio, sublevar a tripulação com vivas á republica, não cor- 
respondidos. 

De Valle de Zebro não esperando tão cedo os soccerros sol- 
licitados pela telegraphia sem fios, julgaram de principio um 
ataque de revoltosos, logo desmentido pelo aspecto pacifico da 
maruja. 

Estavam agora em Valle de Zebro, o commandante Almeida 
Lima, capitão de fragata Emilio Alberto de Macedo e Couto, 
tenentes Frederico da Silva Pinheiro Chagas, Almeida Henri- 
ques, Elisio Leitão Vieira dos Santos, Jayme dos Santos Pato, 
José Abranches da Silva, Vieira de Mattos e Fernando Augusto 
Pereira da Silva e dr. Abel de Carvalho. 

Emquanto o i.° commandante da Escola de Torpedos, capi- 
tão de mar e guerra Almeida Lima, recebia communicaçao 
pelo tenente Pereira da Silva, das ordens da majoria para mo- 
bilisação dos torpedeiros, a lorça que lôra no Pero de Alem- 
quer, ensarilhava armas na parada, sob a tranquilla attitude 
de submissa £ doutrina monarchica. 



200 ARMANDO RIBEIRO 



Assignalou-se um incidente extranho: a surpreza da chega- 
da de mais officiaes, o que só por equivoco se fizera. 

Os boatos quizeram insinuar que a transmissão radiogra- 
phica, contrariamente ás recebidas ordens, sollicitara o retorço 
para affastamento de graduados de marinha, do arsenal, rele- 
gando os ao serviço de Valle de Zebro, contado como submet- 
tido ou quasi, ao regimen revolucionário. 

VaUu á extranheza, o capitão de íregata Macedo e Couto, 
propondo a entrada dos recemchegados nos quartos da noite. 

Ao tenente Pinheiro Chagas, era apresentado na sala de 
jantar o seu camarad a, João Fiel Stockler, citando-se todavia a 
sua situação de detido com homenagem no edifício. 

O official na presciência segura do erro commettido, sem 
sequer cumprimentar Stockler, como que separado já pelo di- 
verso ideal politico, teve alto a arguição: 

— E da-se a um revoltoso, em plena revolta, a Escola por 
homenagem, deixando-o em contacto com as forças, com os mo- 
vimentos livres para desmoralisar e sublevar?!. . . 

— Temos a sua palavra de honra de que o não tara! retor- 
quiram os outros. 

Todavia, Frederico Pinheiro Chagas, sem um cumprimento 
ao detido, passava breve a outra sala. 

Distribuirá o 2.° commandante, capitão de fragata Macedo e 
Couto, os quartos de serviço nocturno, trocando se entretanto 
impressões sobre os boatos de morte do Almirante Cândido 
Reis. 

A noite tez accirrar vigilâncias. 

Os projectores eléctricos do D. Carlos, incidindo sobre a 
escola de torpedos, e o anterior tiroteio deu-lhes a segura con- 
vicção de que mais um navio adherira á causa de revolta. 

O tenente Pinheiro Chagas, de serviço com o i.° tenente 
Elysio Leitão, ficou pensativo e desde logo entreviu o final d'es- 
se constante avanço da rebeldia. 

Indisciplinou-se, por seu turno, mas contra a inércia a que 
se condemnára o grupo de ofticiaes capazes de deffender a causa 
monarchica. 

Fallou alto, censurando o facto de o capitão de mar e guer- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 201 

ra Almeida Lima, não mandar sahir os torpedeiros, conservan- 
doos no seu pequeno abrigo. 

Na sua censura, presentia, mas não sabia o trama ali den- 
tro urdido. 

Desmascarava o, mais tarde, o revolucionário Celestino Stef- 
lanina, a paginas 17, da sua obra Subsídios para a historia 
da revolução de 5 de Outubro de igio ; 

«O conselheiro Marnoco de Sousa mandou para Valle do Ze- 
bro ordem aos torpedeiros para virem fazer o mesmo serviço. . . 
Não sei se a ordem chegou a ser transmittida, mas se o tosse 
não teria sido cumprida, porque ali era tudo gente nossa.» 

Certo é que, tendo sido dada ordem de marcha, não teve 
cila execução. 

Fallouse em um retroceder no plano pela majoria. 

Deu se de tacto, mas não chegou a Valle do Zebro. 

Interpretou todavia esse desejo, o i .o commandante Almei- 
da Lima, que, mais tarde, em carta vinda á imprensa, explicava 
ter expontaneamente tomado a responsabilidade de não mandar 
os torpedeiros. 

Antes, porém, já n'um desapego á critica e rival do pró- 
prio convencionalismo, á imprensa viera, (*) o seguinte trecho 
singular, decerto para que contrarias interpretações não hou- 
vesse : 

«Pedem-nos para tornarmos publico o acto dos comman- 
dantes dos torpedeiros que, apesar das ordens instantes da Ma- 
joria para irem metter no fundo os navios dos sublevados, não 
saíram do Valle do Z.bro, onde se encontravam, conservando- 
se neutrais até á proclamação da Republica, depois do que vo- 
luntariamente se apresentaram no ministério da marinha, onde 
aderiram.» 

Dava o o Mundo a quatro dias d'essa victoria nunca so- 
nhada, e onde a parte máxima coube á machiavelica transigên- 
cia de tantos. 

N'essa madrugada de cinco de outubro, Pinheiro Chagas, 
presentia apenas uma atmosphera para elle irrespirável. 



(#) O Mundo de 9 de Outubro de 1910. 

VOL. I? — FL. 26 



ARMANDO RIBEIRO 



Sentia-se mal n'esse campo, mas sem que bem advinhasse 
as causas da sua moral tortura. 

Estremecia ao tiroteio distante, dizendo que o seu logar 
era onde se batalhava, para morrer combatendo. 

O tenente Elysio Leitão, tentou serenal-o, com vislumbres 
de, sem largos extorços ser vencida a revolução, apontando lhe 
a necessidade de calma, para que, doente, se não mallograssem 
os seus cuidados de defesa. 

— Esteja descançado! A minha vida torna-se-me dupla- 
mente necessária ! 

A alva, ainda dúbia assignalava todavia o pavilhão verde 
e vermelho ecn três navios. 

E Pinheiro Chagas, estendendo o cerrado punho, bradou, 
quasi reproduzindo além, no semi-desterro de Valle do Zebro, a 
phrase que, na tarde de 4, o conselheiro José de Azevedo Cas- 
tello Branco, lançara no quartel general : 

— Vencidos! A suprema vergonha! 





«mMÊám^yjm 

■ * M * «#fl 



IV 



Madrugada lúgubre — O caso da morte do guarda portão 
da Rua de S. Roque — Julgamento do alferes Annibal 
Franco. 




arecia lento de mais o approximar do fim d'essa 
'2*^3353 madrugada de terror. 

Darante ella se manteve o tiroteio rude, e 
emquanto do norte» a artilharia alvejava as filei- 
ras monarchistas, do sul, os navios, completavam 
a obra com as suas granadas, espalhadas, de mi- 
nuto a minuto, sobre a cidade baixa, onde as 
projecções denunciavam es contrários. 

O espectáculo era pavoroso, e esses soturnos estrondos, de- 
sasocegavam a população, trazendo lhe, a cada estampido, o des- 
vendar mental da tragedia que se desenrolava nas ruas. 

A estas não veio mais a policia, entrincheirando se no pri- 
meiro andar e na platibanda do edifício do Governo Civil, on- 
de se encontravam o juiz de instrucção, dr. António Emitio 
d'Almeida Azevedo e o commandante do corpo, coronel José 
António de Moraes Sarmento, e onde pela ausência se salientou 
o chefe do districto, Magalhães Ramalho. (*) 

A canzoada, cheirando lhe a sangue, uivava lúgubre, e não 
raro alguns cães esphscellavam ou brincavam nas ruas com a 
calçado de victimas aqui ou ali cahidas. 



(*) Cita o facto a Lucta de 5 de outubro de 1910. 



20* ARMANDO RIBEIRO 



Auxiliares audaciosos das pugnas democráticas, agonísa- 
vam, em holocausto ás suas ideias de sonhada liberdade, e o 
destino quebrava-lhes o fio da vida sem lhes vislumbrar a satis- 
feita vontade de uma victoria. 

Era apenas a fusilaria, a dar-lhes uma suprema salva de 
honra, a esperança de que a lucta proseguia, quem sabe se 
n'um preambulo de gloria ? 

De quando em quando, e a entremear-se com as descargas, 
o estrondo das granadas e o patentear da existência da artilha- 
ria civil, escutavam os inquietos o estalido secco de tiros isola~ 
dos. Eram as summarias execuções. 

A municipal, evolucionando sempre, ou detinha, ou liqui- 
dava intracçÕes ás suas ordens. 

A madrugada, escura e perturbante, proporcionou episódios 
de dramatisação intensa. 

O soldado de engenharia, Ernesto Simões, era surprehen- 
dido no Chiado em serviço de vigia, por um oiticial da muni- 
cipal, acompanhado de um corneteiro. 

A* interrogação sobre o que ali tazia, ás 3 horas da madru- 
gada, deu como resposta a necessidade de regresso a casa, cem 
dispensa do recolher. 

Não satisfez, e á coronhada se derrubava o soldado, logrando 
íicar com a vida, por um simulacro de morte. 

Ao desapparecer dos dois, arrastou se até Alcântara onde, 
depois de pensado, reunia um grupo de g5 civis para a revin- 
dita. 

Até ao principio da Rua Garrett, a marcha foi despida de 
entraves. 

A meio da Calçada do Sacramento, quasi em frente á 
egreja do mesmo nome, detinha os uma descarga feita por 5o 
praças do quartel do Carmo. 

Desde logo ficavam mortos 2 civis, sendo um de nome Mi- 
guel Paes. 

O grupo retrocedeu até á Rotunda, sem que mais hostilisado 
íosse. 

A poucos passos, porem, novo facto patenteava o espirito de 
vingança de que se deixou eivar a municipal, mercê, talvez, da 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 205 

constante e certa perspectiva de terrível assalto á bomba de dy- 
namite. 

Um pelctão do 3.° esquadrão, aquartelado no Carmo, teve 
ordem para ir formar no Largo de S. Roque, sob o commandò 
do alteres Annibal Franco, que levava, á paisana, o seu impedido, 
soldado 81. 

Ao tropel de cavalaria, surgindo da Travessa da Trindade, 
appareceu na rua de S. Roque, (*) sahindo da porta g5, da redac- 
ção do Mundo, o guarda portão do prédio 66, Bernardino 
Nunes, de 65 annos, natural de Pinhel. Habituados a ver o seu 
caminho ccrtado pela acção dos explosivos, os soldados sobre- 
saltaram se, ao notar o vulto, na escuridão da rua. 

Uma troca de opiniões então entre as praças houve, e o 
impedido do alferes, correndo sobre o individuo suspeito, agar- 
rou o pela gola do casaco e desfechou-lhe 3 tiros sem notar que 
a não resistência representava já de si uma forma de pacifismo. 

Ouvindo tiros, foi ver onde eram disparados. 

Disso ainda, apontando a rua do Alecrim: 

— Lá de baixo também atiram. 

N'essa altura, era attingido. 

Deu-se um lance de egoísmo: o guarda portão do Mundo^ 
João de Almeida Neves, deixando o collega, corria a refugiar-se 
no jornal, cerrando a porta, insensível aos pedidos do ferido para 
que o recolhesse. 

Reiterando, de dentro, o receio de que o mesmo lhe suce- 
desse, deixou, só de si cuidando, proseguir a scena de sangue. 

O guarda portão, gritou, soergueu se e de novo se levantou 
procurando fugir, para voltar a estatelar se no solo, exânime. 

— Dá lhe mais tiros, porque o malandro está a fingir que 
está morto! 

Assim procedeu o impedido. 

Seguiu-se lhe uma descarga sobre o edifício do jornal, indo 
as balas attingir o quadro noticiarista e as portas onduladas. 

O pessoal da casa das machinas, situada no loja do pre- 



(#) Passou depois a Rua do Mundo, em homenagem ao jornal O Mundo, 



206 ARMANDO RIBEIRO 



dio, presumindo um continuo tiroteio, escapou-se em parte, 
pelas trazeiras da casa, deitando para a rua das Gáveas. (*) 
Apóz isso, e abandonando o corpo do assassinado, sem cau- 
sa ettectiva, pois o guardaportao, embora republicano, era um 
Inotfensivo, e como inotfensivo se atrevera a cruzar a rua, a 
torça retrocedia pela rua da Trindade até á Praça de Camões 
para voltar a acampar na Rua de S. Roque. 

Esse successo appareceu assim descripto no jornalismo repu- 
blicano, (**) n'essa hora mal reteito ainda de duras contingências 
que o destino lhe podia reservar: 

«Cerca das 5 horas e meia da manhã espreitavam algumas 
vedetas de cavalaria da municipal na travessa da Trindade, pers- 
crutando as alturas de S. Roque, como se dtsse lado esperassem 
Yer surgir qualquer torça republicana. Nisto surgiu em frente 
das nossas janellas o tenente coronel Alvim, á frente de um 
grupo de municipais. 

«Dentro da escada, conversava com o guardaportao do 
Mundo um colega seu do prédio fronteiro, que, por infelicidade, 
se dispôz a atravessar a rua no momento em que as forças des- 
pontavam da travessa da Trindade. A voz do tenente-coronel 
Alvim ecoou, brutal : 

— «Agarrem esse malandro! 

aE como o pobre homem tivesse um movimento instinctivo 
de retroceder, o oficial continuou, breve : 

— «Matem-no! 

«Ouviu-se uma detonação seca. O guarda- portão caiu redondo 
junto á porta da nossa redacção. O sangue jorravalhe abundan- 
temente da cabeça, e sobre a calçada aUstrouse uma grande 
mancha vermelha. . . Chamava-se Bernardino Nunes a victima 
desse bárbaro* assassinato. Era um homem honrado e um repu- 
blicano devotado. Toda a vizinhança o estimava. Deixa mulher 
e filha, que morava na rua da Barroca, 18, réz do chão. Sabe-se 
quem foi o soldado assassino. Era conhecido de Bernardino, 
com quem tivera varias discussões politicas. De uma vez, 



(#) Cita estes factos o próprio O Mundo, de 25 de Janeiro de 1913. 
(##) O <£Mundo de tí de Outubro de lylO. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 207 

Bernardino falava com íé na Revolução. O assassino amea- 
çou-o . 

■ — aPois no dia da revolução eu te direi. . . 

«Assim o disse e assim o fez, o assassino. 

«Em seguida ao assassinato do infeliz Bernardino Nunes, o 
tenente coronel Alvim ergueu a cabeça e inspeccionou, carran- 
cudo, o ediíicio da nossa redacção. Como lobrigasse^ atravez das 
vidraças, alguns redactores que concluíam a fatigante tarefa do 
jornal, voltou se para os sicários e ordenou: 

— «Toca a atirar sobre essts malandros! 

«Não tivemos ferido algum por um capricho do acaso. 
Nas vidraças e nas paredes, os vestígios das balas atestam a 
brutalidade de que fomos victim. s. Quanto ao tenentecoronel 
Alvim foi preso de tarde, na Avenida, por um aspirante da Es- 
cola do Exercito, que o intimou a entregar as suas armas e o 
conduziu ao quartel general. Vem a propósito relatar um facto 
recente ocorrido com este oficial : Ha dias foi mandado para o 
Barreiro, afim de tomar o comando das forças da municipal 
que vigiavam a linha por ocasião da greve dos corticeiros. O 
coronel Correia, porém, como mais graduado, assumiu o co- 
mando supremo, e ordenou aos guardas que vigiassem a via 
férrea, deixando apenas atravessai a os transeuntes e evitando 
com prudência que qualquer pessoa permanecesse nela. Com- 
mentario de um dos soldados: 

— «Se fosse com o nosso tenente coronel Alvim cada ma- 
landro que atravessasse apanhava logo um tiro!» 

Ao estrangeiro foi de idêntica forma levado o caso da Rua 
de S. Roque, onde, como erro flagrante, se inculpava o tenente- 
coronel Alvim, a essa hora longe. Espelhavam a faisa noção A. 
Vi vero e A. de la Villa, a paginas 123 do seu livro Como 
cae un trono — La Revolucion en Portugal: 

«Frente á O Mundo, donde dos companias esperan el 
arribo de los artillercs sublevados, tambien dió muestras de 
su feroz salvajismo. Al sahr dei gran periódico republicano un 
pobre hombre, portero de la casa frontera, el teniente coronel 
Alvim da orden de deternerle. Aquél esboza una protesta, y el 
militar dispone friamente: Matadle! Y se le mata como á ua 



208 ARMANDO RIBEIRO 



perro. No se contenta la guardiã pretoriana y emprende vivisimo 
tiroteo contra O ÍMundo, ai través de cuyas vidrieras se vê á 
algunos redactores. Solo por milagro quedan ilesos. Una gra- 
nada que revienta á poços pasos, hace huir á los crueies asesi- 
nos; mas estos, jubilosos, difunden la noticia de que han dado 
muerte a França Borges. . . Si, ya se conoce la presencia de la 
Municipal en las calles.» 

A phantasia auxiliou a litteratura hespanhola ao lance de 
haver corrido o boato da morte do director do jornal republi- 
cano e, quanto ao comandante do esquadrão da guarda, não era 
o tenentecoronel Alfredo Ferreira de Sousa Alvim. 

Isso confirmou a seguinte declaração: (*) 

«O sr. tenentecoronel Alvim, da guarda municipal a pro- 
pósito de uma nossa local de hontem diz o seguinte: 

«No dia e hora a que se refere o jornal «O Mundo», 
achandome no quartel do Carmo, íui mandado para o largo 
do Carmo, a fim de tomar o comando superior das forças que 
ali se encontravam, no caso de isso se tornar necessário. Pouco 
tempo depois de ali chegar rebentaram algumas granadas nas 
proximidades, pelo que recebi ordem para mandar recolher ao 
quartel do Carmo todas as foiças que se achavam no larga 
Cumpri a ordem não tornando a sair do quartel, assim como 
nunca saí, durante os últimos acontecimentos, porque achando- 
se as companhias da guarda espalhadas por vários pontos da 
cidade, eu não as podia comandar em conjuncto, como compete 
ao meu posto. 

«Informações propi ias condizem com esta declaração: a força 
que cobardemente permittiu o assassínio do pobre guarda-por- 
tão e fez fogo contra O Mundo era comandada por um te- 
nente.» 

Todavia, não deixou o official de soflrer a detenção, em 5, 
pela populaça na ignorância da attitude por elle assumida e o 
tenente Mauro do Carmo descreve assim o successo, no seu Re- 
latório: (**) 



(*) O Mundo, de 7 de outubro de 1910. 

(##) O Intransigente de 12 de Outubro de 1912. 



À REVOLUÇÃO PORTUGUESA 209 

«As escoltas que na maior parte eflectuavam prisões eram 
compostas de indivíduos que devidamente armados prestavam 
serviço de segurança na cidade. Um movimento de raivosa ale- 
gria se manifestou em todo o acampamento á entrada d'uma 
grande força armada que conduzia sob prisão o tenentecoronel 
Alvim da guarda municipal. Descrever não posso o que tive 
que fazer para conter o povo. Só elle próprio pode dizer. Juntei- 
me a este e bradei, que elle estava a meu lado / e debaixo do 
meu alto poder me responsãbilisava por elle. A massa cahia so- 
bre nós e a muito custo consegui obter a confirmação de que 
lhe não faziam mal. Mas quem é que diz que o largavam para 
o levar commigo á ambulância? Alguns homens dos meus, col- 
loquei a seu Udo, a muito custo e estes, com elle no meio, en- 
volvidos todos na grande onda que o acompanhava seguiram 
por minha ordem, Avenida abaixo para o quartel general. Foi- 
me custoso sahir do meio d'elle.» 

Sousa Alvim, era de momento, injustamente arguido do 
caso do guarda-portao, mercê de boatos que o seu nome indica- 
ram, em logar do alferes Annibal Franco, assistente ao acto sel- 
vático, com a attenuante, embora, do conhecido ódio á guarda, 
a má vontade popular e o desvario das multidões revcltadas, 
sempre dispostas a entravar a municipal com o auxilio da 
artilharia civil, o que impunha medidas rápidas para evitar a 
acção da dvnamite. 

E* certo que vários crimes se perpetraram n'essas horas 
de terror, mas se desculpa podia ir ao povo, exaltado, cha- 
cinando policias, isoladamente, em nome da revolução, con- 
demnavel era o proceder da força publica, levando a tiro um 
homem não combatente e acabandoo ainda com desprezo das 
próprias leis da humanidade. 

Assim se comprehendeu e, Republica em Portugal, o assassí- 
nio do guarda-portao, era levado ao conhecimento do general 
Encarnação Ribeiro, i.° commandante da guarda nacional repu- 
blicana, em queixa, testemunhada, de moradores da Rua de 
S. Roque: 

«Manuel Ferreira da Silva, residente na rua de S. Roque, 
n.° 67, sobre-loja, pede licença av. ex. a para expor como se deu 

VOL. IY— FL. 27 



210 ARMANDO R1BEIKO 



a morte de Bernardino Nunes, guarda portão do prédio n.° 66, 
da mesma rua, a fim de que se digne fazer justiça conforme o 
alto critério de v. ex. a o entender. Achando-se o suplicante na 
madrugada do dia 5 do corrente á janela de sua casa observou 
a chegada de uma força de cavalaria comandada pelo alteres 
Annibal Franco, do i.° esquadrão da guarda municipal, que se 
postou á esquina da rua de S. Roque e largo da Trindade, e 
ahi, quando saia da escada do citado prédio n.° 66 da referida 
rua de S. Roque o guarda-portão Nunes o soldado n.° 8i, que 
se achava vestido á paisana impedido do mesmo alferes, disse 
para o oficial: «Meu alferes, ahi vai um malandro.» Ao que o 
mesmo official lhe respondeu: «Mata o» O mesmo soldado n.° 8 1 
correu então para o guarda-portão e, agarrando-o pelo casaco, 
disparou três tiros de pistola. Como estt caso se passasse quando 
o mesmo guarda portão atravessava a rua foi, conforme pôde, 
dirigindo se ao edifício onde se acha instalado O Mundo. Logo 
que este ali chegou o oficial disse para o seu soldado impedido; 
aDálhe mais dois tiros porque o malandro está a fingir que 
está morto.» Obedeceu imediatamente ás ordens de seu supe- 
rior o referido soldado n.° 8i, marchando em seguida para 
junto do seu oficial, que, acto continuo, lhe disse: «Se tens co- 
ragem atira pedras a esses malandros.» Referiase ao pessoal do 
oMundo, que se achava trabalhando, visto na rua não se en- 
contrar mais pessoa alguma, a não «=er a mencionada força. O 
mesmo oficial, em seguida, deu volta pela rua da Trindade, 
Praça de Camões e subiu a rua de S. Roque e chegando de- 
fronte do prédio n.° 67, disse: «Soldados, togo a estes malan- 
dros», dando então a torça duas descargas á redacção do Mundo. 
Apresento as seguintes testemunhas presenciais: Henrique Pinto, 
Júlio Luis Costa, José Rodrigues Pereira, José das Neves e Ma- 
ria Engenia, do Mundo; dr. Salva lor Vilarinho Pereira, rua 
de S. Roque, 67, i.°, cabo n.° 63, do i.° esquadrão da guarda 
municipal (extincto); sargento Cordeiro, da mesma unidade e 
António Figueiredo Lima, ourives, rua de S. Roque, n.° 70.» 
Nasceu d'ahi um inquérito e o apuramento de não estar en- 
volvido nos factos o tenente-coronel Alvim, mas sim o alteres 
Franco, a esse tempo collocado em cavallaria 3, e o seu impe- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 211 

dido António Augusto Teixeira, refugiado em Hespanha, para 
onde o governo portuguez sollicitou a extradicção, não realisada. 

O official, soffria desde logo as agruras do captiveiro no 
Forte de S. Julião da Barra, d'onde sahiu mezes depois. 

Determinou-lhe a liberdade um despacho do general Pi- 
menta de Castro, mas não sem que em redor do seu nome hou- 
vesse já uma atmosphera de arguições que um jornal contrario, 
a Tribuna, (6 de outubro de 191 1) exprimiu assim : 

«O nosso presado collcga o <£Mundo vem protestando e 
com razão contra um despacho do sr. Pimenta de Castro que 
mandou pôr em liberdade, sem mais formalidades, o alferes 
Franco. Este Franco, hoje alfeies de cavalaria, era cabo de in- 
fantaria n.° 24 quando da «revolta do grelo» nesta cidade, e 
tornou se celebre pelas suas faníarronadas e pelas violências 
que exerceu sobre o povo na Praça 8 de Maio. Diz o Mundo 
que os protectores desse oficial afirmam que elle era republicano. 
Mesmo que losse, que o não era, devia responder pelos seus 
actos. Republicano e oficial da guarda? Digam isso a outros e 
não a nós, que sabemos de que força elle é.» 

Realmente ao Mundo foi o informe de que o alferes não só 
«ra o único republicano da guarda, como até tivera relações 
com um chefe revolucionário. 

Contradictou tudo porém e demonstrou-o o tenente de lan- 
ceiros, Estevam Wanzeller, dizendo: (-) 

«No largo do Carmo havia postadas forças de infantaria da 
municipal ás embocaduras das diversas ruas. Os soldados de 
lanceiros receberam ordem de ir apeando e com as carabinas 
coadjuvarem a municjp^L N'essa occasião o alferes Franco da 
Guarda Municipal, incita os soldados da Municipal a espalha* 
remse, promptificando se a ir tomar uma peça com oito ho- 
mens. Vendo que ninguém o seguia, arrancou uma carabina 
da mão de um soldado e seguiu pela Rua da Trindade d'onde 
esteve fazendo fogo. 

— aE esse exemplo não se communicou ás forças? 



;*) O Correio da Manhã de 22 de Dezembro de 1910. 



212 ARMANDO RIBEIRO 



— c Apenas o impedido do alferes Franco, o seguiu pouca> 
depois, regressando com o oíficial só mais tarde.» 

Devido á campanha feita, Annibal Franco, desejoso de li- 
quidar esse extenso incidente, de permanentes insinuações, e 
pretendendo desaggravo de imputações accintosas, escrevia a 
seguinte carta ao jornal (*) de mais intenso combate contra 
elle, e onde de continuo se repetia a opinião de que o oíficial 
devia estar preso: 

«Sr. director do Mundo — Só hoje li a noticia de 10 
do corrente em que o oMundo duvida da minha innocencia no 
caso a que chama «repugnante crime de homicidio» pela morte 
do guarda-portao do prédio fronteiro, feita pelo meu impedido 
na madrugada de 5 de outubro de 1910. Mais diz o Mundo 
«que se tenho a convicção da minha inocência devo querer pro- 
vá-la no tribunal paia Uibar o meu nome e a minha farda». 
Nisto acertou o Mundo, porque eu não quero senão a maior 
pressa no meu julgamento, porque estou certíssimo da minha 
innocencia e sob esta condição aceitei a soltura. Quanto ao erro 
de oficio não me cumpre discuti lo. E* porém certíssimo que 
estive preso sem culpa formada onze meses e dez dias por um 
crime que não cometi e cujo julgamento se demora contra mi- 
nha vontade. Espero que o amor tão desinteressado do Mundo 
pela justiça concorra para que se me forme afinal a culpa e para 
que eu seja julgado com a máxima brevidade. Agradeço a pu- 
blicação destas linhas na mesma columna em que v. publicou o 
artigo aPelo cumprimento da lei» — Annibal de Almeida 
Franco, alferes de cavalaria». 

Este, dava, de facto, entrada na Torre de S. Julião, até ao 
julgamento. 

O processo entretanto, entregue nostribanaes civis, transitava 
a requerimento do oíficial, para o foro militar, em observância 
também do artigo i.° do decreto de 20 de Março de 19 1 1, mas,, 
como a transferencia devia ter sido reaíisada, segundo o paragra 
pho único do mesmo artigo, até 1 de Maio d'esse ánno, baixava 



(#) O mirnio de 14 de Outubro de 1911. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 21& 



outra vez ás instancias judiciaes civis, pelo cartório do escrivão 
Ferreira (2 5 de outubro de 191 1). 

Baldadamente tentada em Hespanha a ordem de extradição 
do impedido, considerado evadido politico e até fazendo parte 
das tropas realistas de Paiva Couceiro, apenas o alferes prese« 
guia jungido aos meandros do pleito, entrincando se em actos 
de formalismo. 

Conduziam estes ao incidente, levado ao Tribunal da Re- 
lação, (*) em que se estabeleciam prioridades de competência en- 
tre o foro civil e o militar, sanccionando aquella estancia a opi- 
nião de que ao segundo competia o julgamento. 

Proseguindo as duvidas sobre a legalidade do foro militar 
para o julgamento do caso, subiu uma consulta ao supremo 
tribunal militar que approvava no seguinte parecer a doutrina 
de que lhe se commetera ao tribunal marcial o processo Franco: 

«Determinou o governo da Republica, em portaria de 16 
do mês corrente, expedida pelo ministério da guerra, que este 
Supremo Tribunal Militar formule parecer ácêrca da interpreta- 
ção a dar ao art.° 123.° do Código do Processo Criminal Militar, 
em todos os seus aspectos; e considerando que este Supremo Tri- 
bunal Militar, na sua consulta de i3 de fevereiro ultimo, é de 
unanime opinião de que o aludido art. 123 ° não é susceptível, 
pelo sua urdidura e nitidez, de duas interpretações; e mais ha- 
vendo agora a ponderar que, se deficiências se dessem na legisla- 
ção penal militar, nos códigos de justiça correspondentes haveria 
a supri-los, e nunca no art. I 23.°, que se limita estritamente a as- 
sinalar que aos tribuaais militares territoriais e o tribunal de 
marinha são competentes para conhecer dos crimes previstos ncs> 
códigos de justiça militar ou da armada, cometidos respectiva- 
mente por militares do exercito ou da armada, seja qual lôr a 
sua situação; Considerando que o Supremo Tribunal da Justiça, 
no seu acórdão de 23 de janeiro pretérito, mandou submeter á 
acção da justiça militar o alferes Anibal de Almeida Franco, 
cujo processo tinha sido erradamente enviado pela repartição de 
justiça da i. a divisão do exercito para o toro comum, a fim de. 



(#) 15 de Novembro de 1911. 



•214 ARMANDO RIBEIRO 



por este seguir os seus tramites; Considerando que os factos, pe- 
los quais é incriminado o mencionado alferes, se encontram pre- 
vistos, segundo as doutas observações do mesmo tribunal, em um 
ou outro dos artigos go.° e 91. do Código de Justiça Militar, 
respeitantes á punição do abuso de poder; Entente, portanto, 
este tribunal, perante o que fica exposto, que o acórdão do Su- 
premo Tribunal de justiça deve constituir jurisprudência a apli- 
car nos casos análogos ao do Alferes Anibal de Almeida Franco, 
designadamente ao soldado António Augusto Teixeira, arguido 
igualmente de abuso de poder, e cujo processo foi indevidamente 
enviado também pela repartição de justiça da i. a divisão do 
exercito, para a comarca de Torres Vedras, em 20 de novembro 
de 191 1, estando desde então o acusado sujeito, na casa de re- 
clusão do Castelo de S. Jorge, a prisão preventiva, da qual o 
subsistente protelamento ofende os mais rudimentares preceitos 
humanitários. Pelo outro aspecto : Atendendo a que o artigo 
123.°, que se aprecia, quando estatue que os tribunais militares 
territoriais e o tribunal de marinha são competentes para co- 
nhecer dos crimes previstos nos códigos de justiça militar ou da 
armada, cometidos respectivamente por militares do exercito ou 
da armada, seja qual for a sua situação, se refere única e 
indubitavelmente aos que se encontram sob a alçada próxima 
ou imediata, e não mediata ou remota, das autoridades mili- 
tares; Atendendo mais a que de outro modo a falseariam as ine- 
quívocas afirmativas constantes do relatório que precede o Có- 
digo do Processo Criminal Militar, a cuja pag. 5 se reconhece 
que loram relegados para os tribunais comuns os julgamentos 
de todos os crimes que não tenham caracter militar, cometidos 
por militares; e a pag. 7 se preconiza que é necessário que «to- 
dos aquelles a quem incumbe o estudo do referido código o in- 
terpretem e executem não só na clareza das suas disposições, 
vias também no espirito liberal r que o orientou e orga- 
nizou;» Atendendo ainda a que o artigo 142. do Regulamento 
Disciplinar do Exercito de 19 de janeiro de 191 1 textualmente 
preceitua que «aos militares pertencentes á primeira e segunda 
reservas são aplicáveis as disposições deste regulamento: — 
-quando estiverem em serviço; nas revistas e reuniões de instru- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 215 

çao; quando vestirem uniformes militares, ou quando se acha- 
rem dentro dos quartéis ou estabelecimentos militares para as- 
sunto de serviço. E, íóra destes casos, somente licam sujeitos á 
acção disciplinar pelas intraçoes cometidas contra as ordens dos 
superiores, transmitidas no uso de atribuições legitimas; Aten- 
dendo tinalmente a que mal se compreenderia que diferenciação 
houvesse na descriminação de responsabilidades, cunsoante se 
tratasse de infracções disciplinares ou de actos criminosos; Por 
todos estes motivos, é o Supremo Tribounal Militar de parecer 
que as responsabilidades aduzidas se acham, na sua consubs- 
tanciação, harmonicamente pautadas e identicamente reguladas, 
em conformidade com o que o artigo 142. retroinvocado cir- 
cunstanciadamente regista, e o supracitado artigo 123.° laconi- 
camente prescreve. Sala das conferencias do Supremo Tribunal 
Militar, 18 de julho de 1912. — (aa; Sebastião de Sousa 
tantas Baracho, general de divisão, presidente; José Joa- 
quim Xavier de Brito, vice-almirante; José Augusto da 
Losta Monteiro, general do quadro de reserva; Joaquim 
Augusto Teixeira de Sequeira, general de divisão da re- 
serva; António Marinho de Sousa Barros, general; Júlio 
José Marques da Costa, contra almirante; Fernando Fre- 
derico Bartolomeu, juiz relator.» 

Mais tarde (*) realisou se no tribunal militar territorial de 
Lisboa, o julgamento do celebre caso, de novo citado pelo Mundo 
como que para dar incentivo a condemnaçÕes. 

Na audiência, onde compareceram como presidente, o coro- 
nel do estado maior João Gonçalves Mendonça Júnior; juiz au 
ditor, o dr. Moraes Sarmento; promotor da justiça, o capitão Ma- 
nuel Gusmão; secretario, o tenente, Azevedo Franco e Júri os 
tenentes Joaquim Feliciano de Azevedo, Pedro Augusto Ferreira 
da Silva, António Pereira Diniz, Manuel Dias, e Sérgio Ribeiro 
de Sousa, e servindo de defensor, o dr. Cunha e Costa, fazia o 
tenente a descri pção dos suecessos da noite trágica, consubstan- 
ciada nos seguintes curiosos trechos do julgamento ; (**) 



(*) 24 dd Janeiro de 1913. 

(#*) O Mundo de 25 de Janeiro de 1913. 



216 ARMANDO RIBEIRO 

«Lutei com indivíduos de bomba na mão, grita, e tenhc a 
consciência tranquila. Eu não era a'ecto ao regime. Fui simples- 
mente escravo do meu dever. Defenderia hoje a Republica como 
defendi o antigo regime. A acusação que me fazem, é, não di 
rei infame, mas productc de desvairamento, de smbção do 
mando, como que a pretender aniquilar o fraco. O regime tem- 
me dado prisão muito pouco liberal, mas eu acato o. 

f Nesta altura, o advogado de defesa faz sinal ao reu para 
não continuar no discurso. 

«O Jui\ audiclor : — Mas isso são considerações gerais. 
Era bom que contasse como os factos se passaram. . . 

«O reu, depois de contar que lhe haviam ordenado que fosse 
para a rua do Mundo com uma força, diz: 

— «Quando estava na esquina do largo da Trindade para 
a rua do Mundo, vi um individuo embuçado, esquivando se. 
Tomei o vulto como suspeito, presunção que, aliás, me fora con- 
firmada por vários indivíduos. Eu disse para o meu impedido, 
que era um valente: «Prende aquclle homem!» O individuo 
voltou se para o impedido, parece que sacando um revólver do 
bolso, o que não vi, por ser miepe O impedido disse me: «Eu 
mato-o, meu alferes !» Tomei a atitude do rapaz como uma de- 
fesa. Cumpre-me dizer que não pratiquei o que me acusam. 
Depois da descarga sobre o ÇMundo censurei os soldados, em S. 
Pedro de Alcântara, por haverem disparado sem minha licença. 
E, nessa altura, éramos 12, porque o resto tinha fugido. Eu não 
disparei tiro nenhum. Mas, se disparasse, era natural, porque se 
tratava de uma revolução. Eu não me sentia, por isso, um cri- 
minoso. Mandaram-me cumprir um dever e eu cumpri-o. 

«O jui\: — Tem a certeza de que u guarda portão tinha 
algum revólver? 

«O reu: — Eu não vi, mas disse-mo terminantemente o 
impedido. 

«O jui%\ — E não verificou? 

«O reu\— Não, porque nessa altura deu-se a retirada das 
forças . . . 

«O jui\\ — Mas parece que o reu disparou efectivamente 
tiros. . . 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 217 

(íO reu\ — Não senhor. Quem disparou foram os soldados 
de infantaria da guarda municipal que ali se encontravam junto 
a um tapume. 

«O jui% : — Que lhe disse então o impedido ? 

tO rtu\ — a Eu mato-o, meu alferes. Morrer por morrer, 
morra o meu pae que é mais velho». E eu acerescentei: «Não 
é preciso dai tiros, porque tudo isto se leva á pedrada.» 

A prova testemunhal da aceusação contra o impedido, pelos 
drs. Salvador Villarinho Pereira, Henrique Augusto da Silva 
Pinto, Luiz Júlio da Costa, António de Figueiredo Torres, 
José Braz e António França Borges, director do Mundo, asse- 
guraram quasi totalmente, a obediência do soldado á ordem da 
morte do guarda-portão, contada nas seguintes phrases: 

— iMata-me esse malandro! s> 

— aDá-lhe mais dois tiros que ainda não está morto!» 
Como mais concreto depoimento sobresahiu o do aceusador 

principal, a testemunha Manuel Ferreira da Silva, reproduzindo 
as allegaçoes da sua petição criminal, base de todo o processo. 

Reiterava essa aceusação, o sargento da guarda republicana, 
JoSo Bento Cordeiro, declarando, como presenciador dos factos, 
pois esse fazia parte do pelotão commandado por Annibal 
Franco : 

«O alferes estava a cavalo junto de um andaime. Viu o 
guardaportao perto do Mundo a conversar procurando reti- 
rar-se quando viu a força. Nessa altura o alferes disse ao sol- 
dado n.° 81, seu impedido, que o prendesse. Depois ouviu dois 
ou três tiros, mas não sabe quem os disparou. O guarda-portão 
voltou-se, procurando alcançar a porta, e, nesse momento, foram 
disparados outros tiros. O 81 ora se aproximava do alferes, ora 
se afastava, como a receber ordens. Ouviu dizer ao réu que o 
guarda-portão, quando caiu, estava a fa\er manha. O homem 
gemia com dores e o alferes continuava a animar o impedido, 
incutindo lhe coragem.» 

Nada elucidaram as testemunhas, António Luiz, soldado 
da guarda republicana, Quirino do Nascimento. Francisco Antó- 
nio da Assumpção e António Ferreira de Lima. 

Os depoimentos de defesa pelos tenente Carlos Maria Vel~ 

VOL. IV — FOL. 28 



218 ARMANDO RIBEIRO 



loso, Carlos Eugénio Alves Pereira e Joaquim António Marques, 
capitão Alfredo Ernesto Montez Pico, drs. Ernesto Carneiro 
Franco e Carlos Amaro de Almeida e Silva deram em parte a 
convicção de que o alteres commungava nas theorias republica- 
nas, com o intento de derrubar a base accusadora, alleganda 
até o ultimo dos depoentes que elle, ainda estudante em Coim- 
bra, manifestara ideias avançadas. 

E* certo que o alteres Franco, aliás não esquivo a commet- 
timentos de arrojo e a caminhadas de perigo, — dado foi como 
propenso á rendição ao amanhecer de 5 de Outubro, e quando 
elementos de sobra existiam para um proseguir de lucta, 

Cita esse parecer o coronel Malaquias de Lemos no seu re- 
latório posthumo: 

«Mo Carmo accentuava se o desanimo. O commandante de 
lanceiros diz-me ser insustentável a posição que lhe havia indi- 
cado, porque a metralha era cada vez mais violenta. Atordoado 
com todas estas informações, penso ouvir os oíficiaes que me 
rodeavam. Ao tenente Wanzeller de cavallaria 2, otrkial que 
sempre considerei como destemido e arrojado, me dirigi com 
o olhar, dizendo-me elle, antes de que eu tivesse tempo de 
formular qualquer pergunta, pouco mais ou menos o se- 
guinte : 

— aO que acaba de dizer a V. Ex. a o meu commandante 
(coronel Albuquerque) é a verdade. Nós vamos ser todos aqui 
sacrificados inutilmente; não temos meios de resistência e o 
que nos resta é a rendição. Posso tallar assim porque já mostrei 
que não tenho medo. 

— «Replico: 

— «Quero ouvir o alferes Franco. 

«Resposta do tenente Wanzeller: 

— «Escusa V. Ex. a de o chamar; está ali fora. E* da mesma 
opinião.» 

A defeza pelo dr. Cunha e Costa, fez salientar que o alferes, 
tendo cumprido o seu dever, merecia a absolvição e «que mili- 
tares assim, fieis ao juramento feito, preciosos e necessário» 
eram para a defeza da Republica e manutenção do seu presti- 
gio e bom nome.» 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 219 

Tudo contribuirá para um veredictum absolutório, que só 
o Mundo rematou com um semienccberto azedume: 

«Foi ontem absolvido no Tribunal Militar o alferes Anibal 
Almeida Franco, como implicado na morte do guarda portão 
que na madrugada de 5 de outubro íoi assassinado á porta do 
Mundo. Não podemos aplaudir a deliberação do Tribunal. 
Nada tínhamos nem temos contra o oficial acusado; vimo lo 
ontem pela primeira vez. Mas o facto é que o pobre guarda- 
portão, homem de bem, absolutamente inofensivo, que não po- 
dia por ninguém ser considerado como perigoso, foi assassinado 
sem mal ter feito, nem procurando faze lo. Admitamos como 
averiguado que o crime foi cometido exclusivamente pelo im- 
pedido do alferes, sem este ter dado ordem ou exercido qual- 
quer espécie de influencia. Procedeu o alferes comandante da 
força, imediatamente ou depois contra o homicida? Não proce- 
deu e assim ligou a sua responsabilidade ao acto. Pretender 
desculpar o facto com o estado de espirito que áquella hora do- 
minava os militares é uma rabulice que não pôde servir de ar- 
gumento para razoes serenas. A feliz realidade é que nenhuma 
moite se perpetrou em circunstancias semelhantes áquella, que 
foi um episodio único pas horas revolucionarias. Não foi um 
combatente que se matou. Foi um homem de 6o annos, doente, 
trôpego, que atravessando uma rua quasi deserta, sem nada di- 
zer, sem nada fazer, foi morto á queima roupa, como se não 
mata um cão. Este é o facto incontestável e incontestado. E este 
foi o facto que não foi punido. Parece que ontem no tribunal 
houve quem aludisse á nossa atitude para afirmar ou insinuar 
que nós quizeT.os servir-nos do triunfo da Republica para exer- 
cer represálias sobre os fracos Como o próprio caso demonstra 
bem o contrario! Não conhecíamos senão de vista esse guarda* 
portão. Não conhecíamos a mulher que elle deixou viuva nem 
a filha que elle deixou órfã. Mas foi em nome destes fracos, e 
pela memoria daquelle fraco, que pedimos justiça. Foram sen- 
timentos de humanidade que nos fizeram reclamar que não fi- 
casse sem punição um crime que averiguadamente se cometeu. 
Foi a causa dos fracos, e só essa, que nos interessou, para não 
se estabelecer o precedente de que em determinadas horas se 



nO ARMANDO RIBEIRO 



pode mat&r um cheíe de família, porque é humilde, porque é 
pobre, como se mata um animal nocivo. Se provocámos ódios 
por defender a memoria de um guardaportao, defendendo a 
causa de todos os humildes como elle, a nossa consciência ficou 
tranquila e serena, por nos afirmar que cumprimos singelamente 
o nosso dever, proclamando mais uma vez que o pobre e o fraco 
tem tanto direito a viver como o rico e o forte.» 

Liquidado ficou, porém, sem mais incidentes, o celebre epi- 
sodio sanguinolento do amanhecer de 5 de outubro, a poucas 
horas da victoria da Republica. 








Na Rotunda. — Hypothetica defesa. — A ambulância.— 
Os emissários. — Apresenta-se o capitão de fragata 
Lúcio Serejo.— O tenente Pires Pereira assume a de- 
fesa da Praça Marquez de Pombal. — O serviço de 

vedetas As precauções de Machado Santos — A 

phantasia sobre os ataques. — Um lance de arrojo do 
alferes Empis. — Resolve-se a juncção de combate 
da marinha e da Rotunda. — Reapparece Paiva Cou- 
ceiro. 




TS<>? 



que succedia entretanto na Rotunda? 

Os sucessivos sobresaltcs, desnorteavam qua- 
si em absoluto os deftensores da modesta bani- 
cada, anciosos de um ataque decisivo, liquidan- 
do a extranha perspectiva do proseguir da em- 
baraçosa situação. 

Havia comtudo mais esperança e com ella, 
novos reforços. 

Ao acampamento chegaram noticias que lançaram nas al- 
mas dos revoltosos mais fé no ideal porque combatiam. 
A esquadra bombardeara o Paço. 
O rei distanciára-se 

O D, Carlos tora já levado de vencida, e, de posse dos re- 
volucionários, auxiliava a causa da Republica. 

Moralmente as torças que se julgavam fieis, estavam venci- 
das, pela propaganda e pelo cansaço. 



222 ARMANDO RIBEIRO 



Alguns regimentos, já não faziam fogo sobre os insurrecio- 
nados. 

Todavia, sob a impressão de um combate accirrado, a Ro- 
tunda, presumia-se sempre alvo de ataques e inquietavase. 

Era o conhecimento exacto da própria fraqueza. 

O baluarte da Avenida constituía uma hypothese. 

A phantasia arvorou-o em local inacessível e se, a dentro 
do simulado reducto um rancho de audaciosos o fazia presumir 
um campo inexpugnável, os que de dever lhes cumpria a mis- 
são de assalto, transformaram esse frágil invólucro da defeza no 
castello lendário, com a legenda trágica do quem lá vae lá 
fica. .. 

Estabelecido assim o equivoco, d'um lado sonhou se com 
formidável ataque; do outro, pensou-se n'uma possível rendição. 

A Hespanha própria emittiu parecer n'esse sentido, pela 
penna de Augusto Vivero y António de la Villa, a paginas i3y 
do livro Como cae un trono: 

«Parece imposible que no se haya dificultado el acceso à 
la Rotunda, posicion única, de valor inapreciável. Como não ha 
pensaio en ello el Gobierno! Alguien aventura juiciosa su 
posicion. sin duia creyo que la columna marcha sobre el pa- 
lácio dis Necessidades, y ha concentrado alli todas las fuerzas 
disponibles. Sea lo que fuere, el azar es propicio á los sublevados.» 

As próprias torças semi-conniventes se deixaram penetrar 
d'essa duvida, mantendo certo equilíbrio. 

Tudo isso fazia crer n*uma intenção termal de só coadjuvar 
a revolta, abertamente, desde que para ella se inclinassem me- 
lhores augúrios. 

A noite trouxe alarmes e o toque de silencio soou lúgubre. 

Deu-se novo escoamento de revolucionários. 

Machado Santos, assignala (*) a existência, ás 8 horas da 
noite, de 5oo militares, 5oo civis armados e 5oo desarmados. 

Contradiz o evidente exagero de numero um dos assisten- 
tes ao espectáculo verídico d'essas horas de indecisão. 



(#) Relatório — Pag. 80. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 223 

Em pleno Senado (*) foi citado o depoimento do 2.° sar- 
gento de engenharia Manuel de Oliveira, entrado na Rotunda 
ás 7 horas da tarde de 4, e incansável preparador do movi- 
mento revolucionário: 

«Cheguei á Rotunda deviam ser 7 horas da tarde de 4, onde 
encontrei pouca gente, e tudo na mais completa desordem, (talta 
de direcção), e os poucos militares que lá havia não tinham coe- 
são nenhuma, pelo qTie comecei eu, pelo meu próprio amor á 
causa, a ligar todos os elementos, o que se prolongou por toda 
a noite, no decorrer da qual encontrei alguns sargentos, cabos 
e soldados vigilantes, mas outros que se me dizia estarem lá, 
não me foi possível encontral-os.» 

Todos esses contratempos, que por vezes, mais tarde se qui- 
zeram auenuar, embora, em horas de desillusao a verdade re- 
surgisse, fazendo incidir a luz forte sobre simples apregoados col- 
lossaes efíectivos — conduziram a macabros preparativos. 

Na previsão de derrota, collocadas foram sob as palmeiras 
centraes da Rotunda dois caixotes, com bombas destinadas aos 
supremos argumentos. 

A pouco e pouco actuariam sobre quaesquer forças assaltan- 
tes e, ante o conhecimento de uma derrota certa, serviria o resto 
para fazer voar o acampamento, a uma descarga dada nas cai- 
xas pelo advogado Mário Monteiro: (**) 

«Na ambulância, o dr. Macedo dos Santos (***) e duas enfer- 
meiras voluntárias, obravam prodigios de solicitude e carinho. 
Sob as palmeiras centraes da Rotunda foram collocados dois 
caixotes com bombas de dynamite, guardadas por dois soldados, 
«mquanto outro, com mais duas bombas apprehendidas lá den- 
tro a um empregado dos eléctricos (para evitar imprudências), 
eram postas no pavimento superior da ambulância. As que fi- 
caram no acampamento eram destinadas a fazer voar a munici- 
pal e todos os reaccionários que nos atacassem, bem como, em 



(*) Diário das Sessões do Senado — Sessão n.° 32 de 14 de Janeira 
<ie 1913. 

(##) O Século de 11 de Outubro de 1910. 
(###) Refere-se ao dr. Macedo Bragança. 



224 ARMANDO RIBEIRO 



ultimo recurso, para fazer voar todo o nosso acampamento, no 
caso de derrota, a uma descarga dada pelo advogado Mário 
Monteiro, sobre os caixotes.» 

O hospital de sangue, contribuía para um doloroso estado 
espiritual. 

Não se poude eximir o chefe da Rotunda a no seu relatório, 
citar os factos de simular não ouvir as exposições feitas sobre o* 
serviços de saúde e de conservar «a vista desviada do triste qua- 
dro que apresentava o hospital de sangue.» 

Teve elle de ser transferido. 

A primitiva installação, sob as palmeiras, já não obedecia 
ás necessidades do movimento. 

Alvitrado foi assim que para tal servia o palácio Sabrosa. 

Arrombada a porta da cocheira, para ali se fez o transporte 
de feridos. 

O acto de violência, sob justificação julgado foi pelo conde 
de Sabrosa, que, cedia ainda aos revoltosos alguns aposentos do 
primeiro andar. 

Machado Santos, consagra-lhe depois a paginas 85-1 56 do 
seu relatório, o agradecimento seguinte: 

iA' noite mudaram c hospital de sangue para a cocheira 
do conde de Sabroza. A entrada n'este edificio não foi feita com 
muita delicadeza; uzou-se mesmo de processos rudes de cam- 
panha; mas o seu proprietário não só se não zangou com isso, 
como também nos cedeu o primeiro andar e poz ás ordens do 
improvisado hospital os seus creados. 

«Egualmente é digno de louvor o ex. mo sr. conde de Sa- 
brosa, pela cedência da sua cocheira, onde se installou o hospi* 
tal de sangue.» 

Idêntica exposição fez o medico José Paulo Macedo Bra- 
gança, no seu relatório: 

«Na terça-feira, 4, ao anoitecer, reconhecendo o inconveniente 
dos feridos continuarem expostos ao frio e ao perigo de serem 
novamente feridos, resolvi violentar a porta da garage do sr. 
conde de Sabrosa, do lado oriental da praça, e ali foi installado 
definitivamente o hospital de sangue. Este titular no dia se- 



A REVOLUÇÃ'0 PORTUGUEZA 225 

guinte, mandou-nos oíferecer o préstimo dcs seus creados, pon- 
do á nossa disposição todas as dependências da garage e parte 
do jardim, onde foram estabelecidas cosinhas, arrecadações, 
dispensário, secretaria, etc, destinando se um dos compartimen- 
tos também para casa de reclusão dos presos.» 

Entretanto foram apparecendo novos vultos da revolta, se 
bem que curta demora tivessem no carrpo sempre ameaçado 
de catastrophe grossa. 

Ali surgia, com o republicano Arthur Marinha de Campos, 
o dissidente progressista, visconde da Ribeira Brava. 

De singularidade era a attitude d'este, aspecto todavia auxi- 
liado todavia pelo quartel general. 

Ribeira Brava, cuja parte activa na janeirada de 1908, era 
de sobejo conhecida, transitava entre os dois campos em litigio. 

Assim, ao passo que com um revolucionário, o commissario 
naval Marinha de Campos, ia até ao acampamento rebelde, con- 
ferenciar com o commandante da Rotunda, do ccmmando su- 
premo do exercito recebia um salvo conducto para evitar de- 
tenções e poder seguir sem embaraços até á sede da divisão^ 
onde devia ter palestra, visando a appressar desenlaces. 

Appareceu citada o pormenor sob pouco esclarecedor aspe- 
cto, no relatório do cspitão Remédios da Fonseca: 

«Durante essa noite, no Carmo rebentou uma ordem que 
nós trocaríamos bem por uma descarga do inimigo: seria meia 
noite, o Carmo transmittia ao commando das forças d'ali ao pé, 
que se chegasse o sr. Visconde da Ribeira Brava, com um salvo- 
conducto do Quartel General se deixasse passar, porque ia ter 
uma conferencia com o commandante da divisão, para vêr se 
acabava com aquillo! D'ahi a bocado era esta ordem confir- 
mada pelo tenente Maia de Magalhães, que, a cavallo, appare- 
ceu no Carmo. 

— «E o sr. Ribeira Brava appareceu? 

— «Não, senhor. Lá por quê não sei, que a Guarda Muni- 
cipal recebeu aviso de que o sr. Ribeira Brava tinha um salvo- 
conducto para ir ao Quartel General conferenciar, isso sei eu, 
porque me foi transmittido também esse aviso. E não foi o único 
que andou a serandar pelas ruas. N'essa noite de 4, ahi entre 

VOL. IV — FL. 29 



226 ARMAxNDO RIBEIRO 

as 8 e Q horas da noite, toi o sr. José de Alpoim ao Carmo e 
andou vendo as disposições das torças no Carmo e no Rocio. * 

Não se estabelece suficientemente a situação, pelas trans* 
criptas allegações, parecendo que se a conferencia era no quar- 
tel general, de pouco alcance era o aviso duplo ao Ca r mo e 
ainda pouco provável o capitão Remédios da Fonseca poder at- 
firmar a aliás certa não comparência do visconde da Ribeira 
Brava no commando da divisão quando na sede do das guardas 
municipaes permaneceu. 

Um ardil revolucionário andou talvez em volta do depu- 
tado dissidente, para que tivesse livre transito, e este lhe íacul- 
tou a entrada no acampamento da Avenida. 

NVile não teve productiv* acção, e segundo o relatório- 
de Machado Santos, apenas se limitou a insuflar ânimos (pa- 
gina 86). 

Breve troco de palavras, onde se resumia uma perspectiva 
dúbia e Ribeira Brava, que á Republica leita reconquistaria no- 
tável preponderância junto de um creado partido decrocratico 
da chefia do dr. Allonso Costa, abandonava o perigoso poiso 
com o commissario naval Marinha de Campos, a quem todavia 
veremos proseguir no revolucionário trabalho. 

Ribeira Brava, ia para a sua residência descançar. 

Ali o acolhia, perto da meia noite Marinha de Campos, 
que lhe íoi participar a detenção dos conselheiros Pereira dos 
Santos e José de Azevedo, feita na residência do dr. António 
Centeno e não inteiramente consummada, pois que, ante a ne- 
gativa, pela Rotunda, de escolta que até ali es levasse, os prisio^ 
neiros debandavam. 

Sempre no patente demonstrar de que sem entraves sérios 
se fizeram communicações com o centro rebelde onde Machado 
Santos actuava, lograva ali reentrar o capitão de íragata refor- 
mado, João José Lúcio Serejo Júnior. 

Eftectuando serviço de informes, assignalado como relevante 
por Machado Santos no seu relatório (pagina 86) volvia á Ro- 
tunda, indiflerente a anterior incidente em que lôra intimado 
a parar por um grupo de agentes oceultes pelo arvoredo. 

Longe de extranhar a presença do official, quando notória 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ^ 227 

*era a insurreição quasi geral da armada, bem acceitea foram as 
«explicações do capitão tenente, e em especial na parte que se 
referia á sua situação de reformado. 

Esse lance o teve o official como imperecível recordação da 
revolta: (•) 

«Duas impressões rijas, tundas, indeléveis: na noite de 4, 
Avenida acima, ao dirigir-me para a Rotunda onde começava 
o primeiro tiroteio, oito pistolas da policia, oito galfarros de pis- 
tola assestada á minha cabeça, junto ao arvoredo do coreto. De- 
pois lá se convenceram, lá me deixaram passar. . . A outra, a 
do enthusiasmo louco, febril que de todos se apoderou ao pro- 
clamar a Republica no Quartel General. . . » 

Rasgado caminho teve portanto para auxiliar a sedição, in- 
formando e combatendo. 

Lúcio Cerejo era pore'm um revolucionário com tirocinio e 
por descontentamento á monarchia. 

Não hesitando em formular a publica critica aos superiores, 
estabelecendo a bordo dos navios uma animadversão contra elles, 
teve, como esperado resultado, a reforma em 1907. 

Causas varias lhe deram origem. 

Em 24 de Novembro de 1892, Serejo, então i.° tenente, 
tinha pronuncia pela comarca de Moçambique, e detenção com 
homenagem na cidade, a 29 do mez seguinte, por incurso no 
artigo 2 18 o § único do Código Penal, sob fundamento de haver 
assignado inconsideradamente quatro ordens de despeza concer* 
nentes a um supposto fornecimento de materiaes feito á camará 
de Moçambique, de que elle era presidente. Um conselho de 
-Guerra o julgava, absolvendo-o em audiência de 8 de Julho de 
l8'j3, com o voto declarando apurado o facto, mas não provada 
a responsabilidade criminosa. 

Um acto politico serviu comtudo não só para o reavivar dá 
anterior accusaçao, aliás liquidada, mas do informe desfavorável 
dado em 3l de Dezembro de 1886, pelo commandante da ca» 
nhoneira Rio Ave, sobre o exercício do cargo de immediato, 
documento que o arguido deu como inserindo phrases de desfavor 



(#) O Intransigente de 5 de Outubro de 1911. 



228 ARMANDO RIBEIRO 



intercalladas pelo commandante da divisão naval de Angola^ 
contra almirante Teixeira da Silva, entre algumas que de lou- 
vor lhe dedicara o respectivo signatário. 

Esse incidente, consistiu numa manifestação feita em Lou- 
renço Marques pela cfficialidade e praças do cru?ador S. Ga- 
briel, a Lúcio Serejo, quando este, por desh; rmonia com o com- 
mandante Fontes, deixou o serviço do navio, pretextando doença, 
recolhendo a boido do lndia^ empregado em hospital da divi- 
são marítima. 

O successo, assignalado como prejudicial ao prestigio mili- 
tar e constituindo um protesto collectivo contra o commandante 
do S. Gabriel^ originou inquérito, donde surgiu castigo para 
o tenente Lamy. 

Serejo ficou sob má vista e para o anno de 1907 se relegou 
a represália. 

Um oífiicio de 25 de julho, do então major general da ar- 
mada, vice almirante Guilherme de Riito Capello, informava 
de todo o procedimento do official. (*) O relaiono, dado depois 
por insuficientemente esclarecedor, era presente ao Conselho 
Superior de Disciplina da Armada, que dava Serejo como in- 
curso nos artigos 1 1 5 e 1 16 do regulamento respectivo, sendo 
de parecer que devia ser reformado, em tace do artigo 120. Ao 
voto, ennunciado em conkrencia de 5 de Agosto de I907, se- 
guiase-lhe a reforma, por decreto de 19, data em que a Se- 
rejo competia a promoção a capitão de íiagata. 

No posto, succedia-lhe logo, o capitãounente Antcnio Jer- 
vius de Athouguia Ferreira Pinto Basto, promovido sem sua 
consulta. 

Serejo viu no facto de só tardiamente se reevccar actos lon- 
ge, passados em julgado até, e da reforma, tm momento que 
beneficiava um membro da casa militar de D. Cai los I, um 
accinte e uma represai a, corstiibida até no desappaiecimento 
da sentença absolutória do caso de Moçambique. 

De verdade, a condemnação, se attendtr se não quizesse 



(#) Diário do Governo de 17 de outubro de 1912. Pagina 3618. Da do- 
cumentação official ali publicada, extractámos os presentes tlen.entos. 



A REVOLUÇÃO PoRTUGUEZA 22£ 

aos veredictuns dos tribunaes e dos conselhos disciplinares, 
devia seguir se aos suecessos incriminados. 

Se revoltado erj*, mais em si sentia referver o capitão de 
fragata o desejo de que o vissem ainda, de arma na mão, com- 
batendo pela democracia, com o pensamento de que ella, menos 
madrasta, lhe devia de attenuar passados erros. 

Desconhecendo que errados eram seus cálculos, as conspi- 
rações de 1907 1908, lá o encontravam em posto firme, atean- 
do a revolta naval, e o 28 de Janeiro, embora íracassado, achou 
nelle um poderoso elemento incitador e organisador. 

Vinha pois de novo, ajudar a subversão da realeza em Por- 
tugal. 

Ao conseguido fim e por decreto de 18 de Novembro de 
19 IO, Lúcio Serejo, era louvado pela parte tomada na sedição, 
concedendo se-lhe a revisão do processo em virtude do qual tora 
reformado. 

Sendo esse o desejo do official, desde logo decidiu aprovei- 
tar essa concessão. 

«Ia chegar a desillusao, o convencimento de um inútil em- 
pregar de exforços em favor de causa que se mostraria ingrata. 

Irmanarse hia com o offichl de marinha Soares Andrta* 
se bem que mais teliz elle foi nas iniciaes horas de republica. 

Serejo, teve, logo a y de outubro de 191 o, um aviso: ao 
querer fazer um reconhecimento ptla rua 24 de Julho, o auto- 
móvel toi alvejado com alguns tiros de espingarda, que o não 
alcançaram. 

O mysterio envolveu esse acto, como rodeou aquelle de que 
se soube desembaraçar Soares Andrea, no quartel de Alcântara, 
na madrugada de 5 de outubro. 

Resolveu aguardar o desfecho da concessão, formulada no 
decreto de 1 8 de Novembro de 1 9 1 o, e desde logo notou dificul- 
dades em vel-o attendido, na parte que lhe dizia respeito. Dez 
dias decorridos sobre a publicação, o major general da armada, 
vice almirante José Cesário da Silva, dava parecer para que o 
conselho superior de disciplina, excluindo todos os antigos oth*- 
ciaes, tosse encarregado de rever o processo. O ministro, Amaro 
de Azevedo Gomes, concordava em 2 de dezembro, e asaudien- 



1230 ARMANDO RIBEIRO 



«ias começaram, sendo porém o contra almirante Teixeira Gui- 
marães, o único que declarava não estar feita a prova de in- 
competência naval. _ Seguiuse, pois, o confirmar da reforma, 
dizendo o ministro em 5 de Janeiro de igii, que não havia 
motivo para alteração do primeiro julgamento. A 7, Lúcio Se- 
rejo, procurava o chefe do governo, dr. Theophilo Braga, para 
lhe declarar haver pedido a demissão de otficial da armada e 
só acceitar como recompensa aos seus serviços á causa revolu- 
cionaria, a publicação do seu processo, pedido satisfeito no Diá- 
rio do Governo de 1 5 de fevereiro. 

Pouco depois, a 7 de Abril d'esse anno de 1911, dava-se o 
chamado caso do Arsenal Os operários d'esse estbeleci- 
mento do estado, rom elementos a elle extranho, sublevavam se, 
ameaçando de morte o ministro, Amaro Gomes, e chegando 
até a ser disparados tiros contra a janella do gabinete. Pedindo 
a sua demissão, chegaram a querer invadir o ministério, pelo 
que o titular da pasta, foi rodeado de especial vigilância. 

Serejo, era arguido da tentativa, que visava, disse-se, a subs- 
tituir Azevedo Gomes pelo otficial de marinha, Fontes Pereira 
de Mello. 

Sanado esse novo incidente, breve terminado com a sabida 
d'âquelle ministro, Serejo requeria, a 29 de Março de 1912, 
novo conselho, sob fundamento de que ao precedente nem todo 
o processo tora. O documento de petição, largo, historiando o 
passado, logrcu por despacho de 3 de abril, a conclusão de que 
não podia ter seguimento. Outro ministro, o dr. Celestino de 
Almeida, foi chamado a resolver o assumpto, ea 18 de Maio 
d^quelle anno, conformava se com o parecer de 1 1 da Procu- 
radoria Geral da Republica, e determinava a annu'ação do des- 
pacho de 5 de Janeiro de 1911, e a deliberação do Conselho 
Superior de Disciplina da Armada, tundandose tudo em que 
o processo só podia ser revisto por outros juizes quando reque- 
rido nos termos do artigo 7. da lei de i3 de Abril de 1906. O 
otficial, requeria a 25 de agosto de I9I2, a publicação do seu 
novo processo, o que se eífectucu no Diário do Governo de 
37 de outubro. 

De incidente em incidente, resolviase a revisão, concorde o 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 23* 

então ministro, dr Fernandes Costa, com pareceres da Procura- 
doria Geral da Republica. O Tribunal Disciplinar da Armada 
presidido pelo contra almirante Marques da Costa começou e 
concluiu trabalhos a 12 de Dezembro de 19(2, sendo n'essa 
data communicado o respectivo parecer e entregue o processo 
ao dr. Fernandes Costa, no dia seguinte. 

Foram esses documentos concedidos de caracter reservado-' 
e d'ahi se deduziram opiniões desfavoráveis ao requerente. Não 
conforme este, resultou a convocação de novo tribunal, (abiil 
de 191 3) presidido pelo contraalmiiante Nunes da Matta, com 
os capitães de mar e guerra Álvaro Ferreira, Almeida Lima e Al- 
meida d'Eça, e capitão de mar e guerra medico, Anciães Proença*. 
Durante a revisão do processo, para perguntas compareceu va- 
rias vezes o cfficial, até que a 22 de Abril de 1 9 1 3, era inti- 
mado a apresentar a sua defesa por escripto no praso de IS 
dias, afim de poder ser apreciada em sessão de 6 do mez se- 
guinte, não havendo deliberação por o official participar 
doença. 

Como o ministro José de Freitas Ribeiro, não condescen- 
desse, em que o representante do ministério publico e o advo- 
gado do aceusado assistissem ao termo e julgamento final do> 
processo, recorreu Serejo para o supremo tribunal administra- 
tivo, com o fundamento de que, «tratando se da revisão de um 
processo, no qual, segundo parecer unanime da Procuradoria 
Geral da Republica, tinha sido julgado contra direito porque a 
aceusação, o julgamento e a sentença se basearam sobre factos 
pelos quaes já tinha sido julgado e absolvido pelos tribunaes 
militares, ha naturalmente n'esse processo em revisão pontos de 
direito a discutir e para tal só jurisconsultos teem competência.» 

De discussão em discussão pedia Serejo em 3 de junho 
que por escripto lhe fosse intimada a matéria de aceusação do 
processo de revisão d'aquelle por que fora reformado, tudo ex- 
posto no seguinte documento, endereçado ao ministro da ma- 
rinha: 

«Ex. m ° Sr. Ministro da Marinha — Diz o capitão de fragata 
reformado, João José Lúcio Serejo Júnior, que tendo recebida 
hoje a nota n.° 425 da serie B, da 2. a repartição da Majoria. 



"232 ARMANDO RIBEIRO 



General da Armada, e que é do theor seguinte: a Ao capitão de 
fragata reformado João José Lúcio Serejo Júnior. De ordem de 
sua ex.a o Major General da Armada, deverá ir. senhoria apre- 
sentar se n'esta Majoria General no dia 3 do próximo mez de 
Junho, pelas 1 1 horas, afim de receber guia para o presidente 
do Tribunal Disciplinar da Armada, com & sua defesa escripta 
ou sem ella, se per ventura a não tiver podido concluir» — e 
sendo certo, porém, que o Regulamento Disciplinar da Armada 
determina no art.° 86° o seguinte: «O olficial que houver de 
ser julgado pelo Tribunal Disciplinar da Armada, será intimada 
do dia do julgamento e da matéria da aceusação, com antecipa- 
ção de dez dias, pelo menos, para poder apresentar a sua defe- 
sa escripta, bem como os documentos e as testemunhas que jul- 
gar convenientes para bem da sua causa» é egualmente certo 
que o capitão de fragata reformado João José Lúcio Serejo Jú- 
nior não foi intimado da matéria da aceusação, visto que ainda 
não lhe deram essa nota de culpa por escripto, como a lei ge- 
rente do processo criminal manda e o Regulamento Disciplinar 
do Exercito preceitua, embora o Regulamento Disciplinar 
da Armada seja omisso sobre este ponto, devendo por isto se- 
guir se a lei geral e a paralella, que é a do Regulamento Disci- 
plinar do Exercito. Não pode, pois, o aceusado formular com a 
precisão devida a sua deteza, porquanto no libello aceusatorio 
que serviu de base ao processo disciplinar, a cuja revisão se está 
procedendo, teem de ser eliminados, segundo o parecer unani- 
me da Procuradoria Geral da Republica, com o qual o governo 
se conformou, pontos que não podem, de modo nenhum, ser 
matéria de aceusação. Ainda o aceusado poderia dispensar o ter- 
mo de intimação da matéria da aceusação c a nota escripta dos 
pontos da oceusaçao sobre que o Conselho Superior de Discipli- 
na tem de formular quesitos precisos, votando se sim ou não 
estão provados os factos que nos mesmos quesitos teem de ser 
concretamente formulados, se por ventura lhe fosse permittido 
(como aliás a lei geral do processo criminal faculta c sobre que 
o Regulamento Disciplinar da Armada é omisso) fazer se assis- 
tir por advogado jurisconsulto nos termos do processo e respec- 
tivas audiências. Mas como lhe não foi dada, por escripto, nota 




A KEVOLUÇAO POKTUGUEZA 233 



di matéria da accusaçao e lhe íoi recusada a faculdade de se 
fazer assistir por advogado, não pode o accusado lormular a 
sua deteza, pois não sabe, nem precisamente de que o accusam, 
nem se ainda o accusam de factos que já não podem ser maté- 
ria de accusaçao contra elle. N'estas circumstancias requer a V. 
Ex a se digne ordenar que se cumpra o disposto no art.° 86 
do Regulamento Disciplinar da Armada, intimando se ao re- 
querente accusado a matéria da accusaçao, sendo lhe entregue 
a nota d*esta por escripto. E por ser de lei — Pede deferimento 
— João José Lúcio Serejo Júnior, Capitão de fragata re- 
formado.» 

Sciente lhe fez o tribunal que lhe não assistia o direito de 
interferir na sua acção, suspendendo porém os trabalhos até que 
a detssa lhe tosse presente. 

Já a imprensa (*) fazia bastos commentarios sobre essa 
attitude, da qual logo se deduziu uma favorabilidade ao pedido 
do official. 

De facto, o interrogatório d'este, (16 de junho de 19 1 3} 
ultimou a revisão do processo, e em sessão secreta do conselho 
superior de disciplina da armada, se deliberava que tosse man- 
tida a reforma nos termos du primitivo despacho ministerial^ 
conformandose (17 de junho) o então ministro da marinha^ 
com o parecer apresentado. Requereu o official a annulação de 
todos os quesitos formulados pelo tribunal superior, referentes 
aos casos passados em julgado, mas nada mais obteve. 

A esse tempo já o combatente de outubro, para que atte- 
nuado fosse o ódio votado á extincta monarchia, cahira sob a 
alçada militar, ingressando nos cárceres da Republica. 

Levado já de ha muito na onda dos descontentes, a cha- 
mada abrilada de igi3, succedida na madrugada de 27 
d'esse mez, trazia-lhe a detenção, a elle que merecera referen- 
cias assim: (**) 

«Quanto ao capitão-tenente reformado Serejo, a sua acção 



(#) As Novidades de 9 de Maio e 5 de Junho de 1913 e o Intransi- 
gente. 

(#*) O Pai?, Outubro de 1910. 

VOt. IT— FL. 30 



234 ARMANDO RIBEIRO 



na Revolução tez-se sentir com largos benefícios para a victoria. 
Foi elle quem, na Avenida, deu as melhores indicações á arti- 
lharia regulando as alças com uma maestria que d'ahi a pouco 
se manifestava, nos excellentes tiros feitos da Rotunda. Soares 
Andréa e Serejo são de resto, dois marinheiros valentes, com 
serviços que nenhum dos seus antigos camaradas contesta.!» 

Indo até aos cárceres de Angra e da Trafaria, com reclusão, 
precedente, no Gastello d e S. Jorge, d'este expandia os seus dis- 
sabores em documento (•) que por notável se teve; 

aMeu caro /Machado Santos — Dez dias de Casa de Reclu- 
são e nesses dez dias calculo cem vezes pelo telclone a seguinte 
pergunta: aQuj fazes tu aí? porque estás aí? Que querem de 
ti?» Massado, aborrecido como calculas que devo estar, nada 
respondi a tanta gente que me fazia a pergunta; mas é bom 
não ser muito malcreado. E quem sabe se entre tantas, algu- 
mis se não todas as pessoas que me faziam taes perguntas se 
interessam pela minha humilde personalidade: por isso resolvi 
hoje responder a todos e é para isso que te peço um cantinho 
do teu «subersivo jornal»: Lá vae pois. Meus senhores: Estou 
aqui «de conserva», nãc porque tenha tomado parte nem diréta 
nem indirétamente nos acontecimentos de 27 (é assim que 
se chamem) mas porque era preciso criar em torno de mim 
uma atmosfera de desconfiança, porque eia preciso que slguma 
coisa viesse perturbar o caminho que ia seguindo a revisão do 
processo que me reformou. A Procuradoria Ger&l da Republica 
entendeu, pela segunda vez, em seu parecer unanime que ainda 
se não tinha cumprido o determinado pelo Decreto com força 
de lei de 18 de novembro de 1910; que até então a revisão 
não tinha sido feita pelos dois tribunaes que para tal fim foram 
convocados porque não tinham sido cumpridas as formulas e as 
praxes obrigatórias em processos de tal natureza. Portanto o go« 
verno ordenou que a revisão do processo fosse feita e para 
tal fim é convocado novo Conselho Superior de Disciplina da 
Armada. Requeiro, visto tratar se de uma questão de direito, 
(pois que no processo cuja revisão se mandava fazer tinha havido 



(#) O Intransigente de 8 de Maio de 1913. 



A REVOLUÇÃO PORTUUUEZA 235 



julgamento contra direito) que aos termos do processo e ao jul- 
gamento assistam represent nte do Ministério Publico e o rr.eu 
advogado. Este requerimento é indeterido. Kequeiro certidão do 
teor desse requerimento e do despacho nele lançado, se de de- 
ferimento se de indeferimento. 

apossam me certidão de que o requerimento fora enviado 
ao auditor de marinha para dar o seu parecer (isto apenas!!!). 

«Requeiro de novo e peço se me certifique se o dito reque- 
rimento tinha sido deferiJO ou indeterido. Passam nova certi- 
dão dizendo qual o parecer do auditor e do concordo do mi 
nistio com esse parecer; mas a palavra fatal dt ferido ou inde- 
ferido não aparece na certidão. Reúne o conselho: sou chama- 
do á sua presença para ser intimado, dizia a guia, da matéria 
da aceusação. Peço se faça essa intimação nos termos da lei, 
daniose me copia da aceusação: é-me negada essa copia. Re- 
queiro em papel selado essa copia e que me seja dada vista do 
processo para eu o podei consultar a fim de poder formular a 
minha defeza por escrito. O presidente do Conselho de Disci- 
plina declara-me que o Conselho indeferira esse requerimento. 

«O Presidente do Conselho manda que me seja lido o libelo 
acusatório formulado em 1907 pelo vice-almirante Guilherme 
Capelo, acusação em parte anulada por parecer unanime da 
Procuradoria Geral da Republica, parecer com que concorda- 
ram por despachos seus os ministros de Marinha srs. Celestino 
cfAlmeida e Fernandes Costa, Nessa ocasião disse me o sr. Pre- 
sidente que eu acusado não sabia mesmo de que teria de delen- 
der-me porque alem da acusação que acabava de me ser lida 
outras acusações o tribunal poderia fazer-me ...!!! e diz me que 
no dia 6 de maio reunia de novo o Conselho, reunião a que eu 
devia apresentar-me trazendo a minha defeza por escrito sobre 
o que acabava de me ser lido e que depois me iria detendendo 
das acusações que posteriormente me seriam feitas. Pergunto 
ao sr. Presidente almirante Nunes da Matta se me tra permiti- 
do examinar o processo sempre que disso carecesse para formu- 
lar a minha defeza, responde-me que, me autorisava apenas e, 
naquela ocasião, emquanto o tribunal estivesse reunido, a tirar 
apontamentos. Isto passava se a 22 d'abrií. 



S36 ARMANDO RIBEIRO 



cA 28 cfabril cerca do meio dia entro em posse da 2 a cer- 
tidão que tinha requerido e a que acima me referi: nesse mes- 
mo dia ás 10 horas da noite sou preso e metido na Casa de 
Reclusão. Estava aqui o general Pereira d'Eça levantando o 
auto sobre os acontecimentos : nada se sabe a meu respeito pois 
que o meu nome não aparece apezar de s t r grande o numero 
de pessoas interrogadas a depor n'esse auto. Em 2 de maio apa- 
rece um coronel de engenharia encarregado especialmente de 
levantar um auto respeitante a mim: sou intimado a responder 
a três quesuos formulados numa nota de Majoria General da 
Armada. 1 ° Que relações tinha eu com o Centro Republicano 
Radical. A Majoria General da Armada enganara se, queria 
dizer Federação Republicana Radical. 2. Se havia concordân- 
cia entre a minha atitude nos movimentos anteriores e o movi- 
mento de 27 de abril; 3.° Quaes as razoes que me tinham le- 
vado a apresentar-me expontaneamente no Governo Civil a pres- 
tar declaração. 

«A estes quesitos respondi: i.° Que não tinha relações com 
a Federação; 2. Que a minha atitude era concordante em to- 
dos os movimentos pois que em nenhum tinha entrado; 3.° 
Que não tendo ido expontaneamente ao Governo Civil nem 
prjstído declaração de espécie alguma, razoes de espécie algu- 
ma me haviam levado a tal. Em 5 de maio (3 e 4 foram dias 
te^ados) requeiro ao ministro da Marinha, para que se inter- 
rompesse o Conselho de revisão até que fosse liquidado o tacto 
da minha prisão. A esse requerimento respondeu a Majoria 
mandando, no dia 6, um oficial para me levar debaixo de pri- 
são á presença desse Conselho. Felizmente a minha saúde não 
me permitiu, nesse dia, sair da cama. E hoje, 8 de maio, ainda 
me encontro detido na Casa de Reclusão. De tudo isto eu podia 
tirar conduzes, mas não o faço; deixo á perspicácia dos meus 
amigos, daquelles que por mim se interessam e do publico em 
geral, essa tarefa. E assim julgo responder á centena de per- 
guntas que durante dez dias de prisão me teem sido feitas pelo 
telefone Desculpa esta massada meu caro Machado Santos 
e manda sempre o — Teu velho amigo — João Serejo — 
Casa de Reclusão do Castelo de S. Jorge, 8 de maio de 1913.» 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 237 

N'essa noite de revolta, o 4 de outubro, não teve previ- 
sões do futuro, sempre enygmatico e, por vezes, de satânica 
justiça. 

Alegre de pela Republica combater, assumia, de prazer, a 
direcção da artilharia, graduando attento e febril as alças, dis- 
pondo bem as torças com o esperançoso aspecto de um victo- 
rioso. 

Era mais um auxiliar. 

Machado Santos, entretanto, deixando que ás baias trocadas 
tio Rocio entre as forças militares e as civis, a Rotunda corres- 
pondesse com metralha, como se o ataque ao Alto da Avenida 
íosse feito, — entregava a defesa da parte sul do acampamento, 
Praça Marquez de Pombal, ao tenente António Pires Pereira Jú- 
nior, indo assumir a chefia das posições do norte e leste, as Ter- 
ras de Eduardo VIL 

A' campanha contra o chefe da Rotunda, appareceu esse 
acto transformado n'uma completa abdicação de poder, á qual 
o alvejado respondeu (*) peremptório e verdadeiro: 

«O Diário Popular tem publicado varias coisas sob a 
«pigraphe Ao alto critério da Assembléa Nacional Cons- 
tituinte, sendo umas verdadeiras, e outras falsas. A nenhuma 
temos feito referencia; mas uma pergunta com que homem ter- 
minava a sua locai não podemos deixar de dar reposta. Diz o 
Popular : A quem foi que Machado Santos entregou o com- 
inando da Rotunda ás g horas da noite de 4 de outubro? Res- 
ponderemos nós: A ninguém.* 

De facto apenas confiado foi a defesa de uma das faces do 
acampamento. 

Estava b^m entregue. 

Pires Pereira, republicano de longa data, evidenciara já a 
serenidade em Villa Nova de Gaya manufacturando bombas 
de dynamite com os depois deputados, Miguel Augusto Alves 
Ferreira, e João Luiz Damas, (**) activos todos em carregar pro- 
jecteis para serviço aos levantamentos democráticos. 



(# O Intransigente de 3 de Agosto de 19 H. 

(#*) As Constituintes de içii e seus deputados — pagina 247. 



238 ARMANDO RIBEIRO 



No Porto, era tido, entre a oficialidade monarchica, «como 
uma enérgica organisação combativa». Os trabalhos na provín- 
cia, como Porto e Leiria, toram notáveis para o seguir da acçãa 
rebelde. De volta dedicou se cem José Valdez, á captagem dos 
graduados de caçadores 2 e infantaria 2, e intemerato o acha- 
ram os actos preliminares para a sahida do movimento na ma- 
drugada de 4 de outubro. 

Coadjuvando lhe a missão na Rotunda, estavam os alferes 
Alberto Camacho Brandão e Carlos Ludgero Antunes Cabrita, os 
tenentes picador Correia, e de reserva Fernando Mauro da As- 
sumpção Carmo. 

Este arvorava em seu ajudante o cadete João Sarmento Pi- 
mentel, para o qual propunha depois, no seu relatório, (*) o 
grau de oMicial da ordem de Torre e Espada, e com direito a pen- 
são vitalícia, apela sua coragem e demonstrado valor no desem- 
penho de todos os serviços durante a campanha, com risco da 
própria vida, debaixo de togo.» 

Desenvolveuse por necessário o serviço de segurança e po- 
licia, sendo commettido este à direcção do 2.° sargento de arti- 
lharia, Manuel Marques de Oliveira, e aquelle á do cadete João 
Ribeiro Gomes. 

Mercê de boates e de encobertas ameaças, Machado Santos 
sollicitava e rodeava se de uma vigilância especial, onentada 
pelos chefes civis, João António dos Santos (Belém) electricista 
da barca d'agua do Arsenal da Marinha e Alberto Silva, não 
desdenhando mais tarde o commandante da Rotunda dc.rse 
com vida pela persistente dedicação do segundo. 

Alberto Silva, já tivera acção no 28 de Janeiro, e salientá- 
ra-se na formação dos grupos revoltosos para o movimento de 
Outubro. 

Os primeiros passos da revolução, o encontraram firme no 
seu posto, (+♦) como á victoria republicana incumbido era, por 
de confiança ser, de conduzir de Cintra para Salamanca, o con- 
selheiro João Franco, collocando-o a salvo das manifestações* 



(*) O Intransigente de 17 de Outubro de 1910. 
(♦*) Viuè paginas 233 do 3.° volume d'esia obra. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 239 

populares, de forma a que no estrangeiro bem evidenciada fosse 
a sua chegada ali, vivo. 

A cumprida missão, trouxelhe censuras por não haver pro- 
cedido contrariamente, matando o chefe franquista, no caminho. 

Não procedeu assim, e mercê do bom desempenho d'esses 
encargos, collocado fci no logar de agente da policia de inves- 
tigação criminal. 

Dedicado ao partido evolucionista e a Machado Santos, era 
mais tarde perseguido e demittido, (21 de outubro de 191 3) 
sendo reintegrado no anno seguinte, não sem violentos ataques 
por parte do jornalismo democrático. (*) 

A escolta de confiança se entregara pois o chefe do acam- 
pamento rebelde, e de razão o fizera. 

Mauro do Carmo, assignala mesmo no seu relatório: (**) 

aSegundo informação, entrou certo sujeito na Rotunda e 
approximando se de Machado Santos, apontou uma espingarda 
contra elle. Machado Santos deteveo e tirando lhe a espingarda 
mandou o auzentar da Rotunda e que não seguisse pela Ave- 
nida porque podia ser ferido.» 

Mas, nem só da guarda interna se cuidou, organisandose, 
em larga escala o serviço de vedetas. 

Deu elle logar a incidentes curiosos. 

O estudante do curso commercial, António dos Santos Alhi- 
nho, natural da Vidigueira, morador na Estrada de Sacavém, 
J. M. 4 °, surprehendido no seu somno pelas primeiras granadas, 
veiu até á Rotunda ) onde não entrou, á perspectiva dura de uma 
má supreza, suscitada a primeira permuta de tiros entre a mu- 
nicipal e os revoltosos. (**•) 

Retrocedia para casa, até que, de manha, deitou a Alcân- 
tara, onde colhia pormenores de uma equivoca situação das 
torças da Avenida. 

Voltando para esta, ia auxiliar o sargento Ernesto Joaquim 
Feio, junto do qual se conservou. 



(*) O Mundo, de 24 de Março de 4944. 

(##) O Intransigente de 45 de Ouiubro de 1912. 

(###) O Século de 31 de Outubro de 4940. 



240 ARMANDO RIBEIRO 



Ao terminar do dia era lhe entregue o serviço de vigilância 
e inspecção ás vedetas. 

Attentas as achava, á exclusão de uma, adormecida no posto 
da Avenida Duque de Ávila, e que desarmou, ficandolhe com 
a espingarda e munições. 

Seguindo até S. Sebastião da Pedreira, junto do Jardim 
Zoológico, era intimado a parar por outra vedeta, a cavailo. O 
en baraço mutuo, não deu logar a explicações e Alhinho met- 
tendo a arma á cara, desfechava. . . Receando, de instante, ser 
de novo accommettido, tugia, a rédea solta, emquanto o outro 
cahia, embora não tivesse sido attingido. 

N'um galope destechado, reentrava na leira de Agosto, cnde 
estabelecido alarme, teve novo assalto por outras duas vedetas 
que, desconhecendo, na escuridão, o auxiliar da rebeldia, lhe 
atiraram um arame ao pescoço, derrubando o do cavailo. 

Perdida a espingarda, no incidente anterior, procurou de- 
fenderse com uma pistola. N'um erro, os outros vigiss as- 
saltantes fugiam, por presumirem chamada de retorços extra- 
nhos, valendo n'essa altura o revolucionário e antigo estudante 
da escola medica, Sequeira, que, correndo aos tiros, deparava 
com o assaltado, por equivoco, e reconhecendo o, com elle vol- 
tava á linha de fogo. 

Os incidentes evidenciavam bem, todavia, que a vigilância 
fácil era de ser inutilisada se de tal houvesse tenção. 

A crença dos que na Rotunda ficaram, tudo suppriu. 

A despeito porém da coragem doesse grupo, disposto a pere- 
cer com o seu ideal, pois que, convictos de uma derrota, hora 
a hora esperada, ali se mantinham, quando diflicil não era apro- 
veitar nocturnas sombras para novas deserções — o terror pro- 
duzia ás vezes um excesso de precaução, de envolto com phan- 
tasiados ataques. 

O incêndio da Avenida, trouxe calafrios, pela luz que fazia 
incidir sobre o acampamento. 

Desorientadamente, ou pela crença de que em lance egual 
os rebeldes lançariam mão, de um simulacro de auxilio a infe- 
lizes, para a absorpção do redueto. Houve o formal obstáculo a 
soccorros dos bombeiros, pelo receio de que um ardil das 



A KEVOLUÇAO PORTUGUEZA 24f 

tropas acampadas no Rocio desse origem á tomadia do ba- 
luarte. 

A debandada operou um socego relativo, curto, pois desde 
logo os postos avançados, annunciavam a marcha, a coberto, de 
núcleos realistas. 

Sentiam-se ali os toques de corneta ordenando fogo vivo, c 
deu-se por effectuado o nutrido tiroteio de forças procurando at- 
tingir a barricada: (*) 

«Estes não mais tentaram avançar, mas da praça dos Res- 
tauradores, do Thorel e nas immediações do hospital d'alienados 
rompeu o fogo contra o acampamento. A's cornetas do inimigo 
annunciando «fogo vivo» respondeu o tenente Pires Pereira or- 
denando a um corneta o toque de descançar. Do alto da feira 
um clarim recebeu ordem de tocar a silencio. Como, porém, o 
ataque fosse vigorosíssimo, a nossa linha fronteira ás avenidas 
da Liberdade e Duque de Loulé rompeu nutrido fogo e as peças 
collocadas nas terras do parque Eduardo VII sustentaram tam- 
bém o combate. O inimigo avançava a coberto, aproveitando se 
do incêndio. O combate durou umas poucas d'horas, quasi tão 
violento como o de dia, distinguindo se perfeitamente o fogo 
das metralhadoras e da artilharia do inimigo. Como do lado de 
Campolide apenas uns ligeiros tiros nos alvejassem, sem conse- 
quência, desci varias vezes á praça Marquez de Pombal e pude 
observar a serenidade com que o povo e a tropa sustentavam a 
posição. Vi com agrado os officiaes e aspirantes nos seus postos 
(os bravos sargentos consideravaos como officiaes) e o alferes 
Brandão commandando o fogo d'uma peça, com tanta sereni- 
dade e com um movimento de braços tão compassados como se 
estivesse dirigindo a orchestra de S. Carlos! Com tão brava 
gente bem desastrado seria quem se deixasse bater. O inimigo 
arrastando se pelos canteiros, a coberto do arvoredo, conseguiu 
avançar até ao coreto da Avenida; novamente a bateria colloca- 
da no alto da feira rompeu fogo, obrigando os contrários a dis- 
persar pelas ruas lateraes. No acampamento chegou a haver um 



(#) A Revolução Portuguesa — Relatório de Machado Santos — pagi- 
na 87. 

▼OL. IV — FL. 3i 



242 ARMANDO RIBEIRO 



relativo socego, talvez de duas horas. O inimigo nunca deixou de 
nos incommodar por todos os lados, com tiros isolados, e mui- 
tas vezes a precipitação dos postos avançados dava o signat 
cTalarme.» 

Mas nem só elle em erro se apresenta. 

Reeditava-o o medico Álvaro Bossa: (*) 

«Não calcula que bom serviço nos teria íeito a cavallaria. 
Se a tivéssemos ser-noshia relativamente íacil, apezar de arris- 
cado, aprisionar toda a artilharia de Queluz, pois lariamos com 
ella um movimento envolvente ao inimigo. 

— «E acabou por esse duello a acção da artilharia de Queluz ? 

— «Não. Durante a noite de 4 e madrugada de 5 constante- 
mente tomos atacados por ella de vários pontos, Thorel, etc.,. 
posições que lhe eram favoráveis, pois dominava o nosso acam- 
pamento, visto estar numa attitude superior á nossa. 

— «E nem assim Queluz os conseguiu vencer? 

— «Felizmente, tal não aconteceu e, devido ás bellas ponta- 
rias dos nossos bravos sargentos de artilharia e ás guarnições 
das nossas peças, conseguimos sempre reduzil os ao silencio. Ti- 
veram, sem duvida, bellos tiros, cujas granadas rebentaram no 
nosso acampamento, produzindo algumas baixas, mas a sorte 
protegia-nos e, por fim, encarávamos uma descarga inimiga com 
a serenidade que nos dá o habito de viver debaixo de fogo 
e a confiança na victoria. Tivemos varias tentativas de envolvi- 
mento pelas cavallarias inimigas, que sempre repellimos, sem 
lhes dar tempo sequer para esboçar uma carga.» 

— «E a bateria de Queluz — volvemos n'uma insistência de 
curiosidade insatisfeita — não os incommodou até final? 

— «Deixou-nos descançar algum tempo, para reapparecer, 
substituindo as metralhadoras por duas peças, que constante- 
mente nos bombardearam da rua do Príncipe, durante o alvore- 
cer do dia 5.» 

A não absoluta descoberta acção das forças em favor da 
republica, ligada á natural nevrose, conduziu a esse imaginário 
aspecto nocturno. 



(*) O Século de 9 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 213 

Presumia-se de mais da contrariedade á democracia, pelas 
tropas ao serviço da causa monarchica. 

O ataque não teve a proclamada violência e só muito tarde, 
quasi manha e não ao incêndio do prédio da Avenida se effe- 
ctuou, ainda por Paiva Couceiro, o bombardeamento pelos altos 
do Thorel. 

Vejamos n'este ponto o livro (*) do conselheiro Teixeira de 
Sousa: 

«O fogo intenso durara até cerca das 1 1 horas da noite. A 
essa hora somente se faziam tiros dispersos para algumas janel- 
las do Rocio, d'onde os populares lançavam bombas explosivas. 
A' meia noite, hora a que saí do Quartel General, o togo havia 
cessado quasi inteiramente e nada me referiram das disposições 
em que infantaria 5 e caçadores 5 se encontravam.» 

Uma séria opposição só poderia ter sido feita por caçadores 
5, o troço do alteres Empis, pois que o resto, com infantaria 5, 
se fazia fogo ao rugido do canhão da Rotunda, melhor oceupa- 
va o tempo em fuga, de simulado receio, ao menor estrondo. 

Reivindicando para infantaria 5 uma attitude de desfavor 
â causa que ali devia deflender, reaífírma a asserção o tenente 
José Valdez n'uma carta dirigida á imprensa: (**) 

«As forças de infantaria 5, postadas no Rocio, oceupando as 
ruas que dão ingresso a essa praça pelos lados norte e leste, não 
sahiram das suas posições, conservando se sempre nos seus lo- 
caes, debaixo do togo da Rotunda, sem poderem responder para 
ali. Embora quizessem atirar sobre os revoltosos da Rotunda, o 
que não se fez, porque o espirito do regimento era revolucioná- 
rio, não o podiam fazer, porque aquelles não eram vistos, nem 
eram conhecidas as suas posições. Fizeram se tiros, é certo, não 
ordenados pelos oríkiaes, mas sim devidr ao pânico que lavrava 
«ntre os soldados quando rebentava alguma bomba lançada de 
alguma janella ou quando as metralhadoras faziam fogo». 

Gae pela base, pois, esse apresentado quadro de combate ter» 
rivel á Rotunda ás horas do incêndio. 



(*) Para a Historia da Revolução — 2.° volume — pagina 395. 
(*#) O Mundo ae 13 de Outubro de 19 LO. 



244 ARMANDO RIBEIRO 



Era o terror imperando e assignala-o o tenente Mauro de 
Carmo, dizendo: (*) 

tCom um dos tiros leitos pela minha linha de fogo íoi der- 
rubada uma arvore, um pouco abaixo do coreto. Mais tarde um 
dos atiradores tomou o por gente deitada e tez fogo»* 

Manuel Lourenço Godinho regista até no seu relatório que? 
€a noite de 4 para 5, te i passada com muita anciedade e sobre- 
saltos». 

O acampamento não tendo até então uma sortida em forma, 
previsionou excepcional preparativo para a realisar e a fusilaria, 
isolada, prenuncio da chegada hora do lance final. 

Reinava, é certo também, o convencimento, proveniente de 
boatos levados á Rotunda, ao anoitecer, de que artilharia 3 es- 
tava já no Beato e depois de que se encontrava cerca do quartel 
general. 

Todavia, mais fortemente actuava a ideia de um assalto pe- 
las tropas que cercavam a Avenida. 

A's g horas da noite 5 correu o boato de que marchava para 
o castello de S. Jorge e para a Graça artilharia e munições para 
d'esses pontos alve arem a Rotunda, aprestando se a bateria para 
enérgica tomada do acampamento. 

L~vou-se ás tropas que definiam, aliás, uma attitude dúbia,, 
um labéu nem de leve sonhado: o aproveitar das sombras noc- 
turnas para a tomadia. 

O calculo ia muito alem de todas as intenções, consubstan- 
ciadas apenas em olhar attento de que lado baixava mais o fie! 
da balança onde se pesava, com a convicção de ambos os litigan- 
tes, a conveniência de bem cuidar do futuro. 

Mas, por anachronismo, os observadores volantes do mo- 
vimento, não iam levar ao alto da Avenida os echos d'essa favo- 
rabilidade ao empenho sedicioso. 

Havia externamente o boato, de cerca das 2 horas e meia 
da madrugada, haverem adherido caçadores 1, aquartellado em 
Abrantes e infantaria 17, com quartel em Beja. 

Esse boato, que O Mundo reproduziu em 5, não che^ 



(*) O Intransigente de 16 de Outubro de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 24$. 



gou todavia á Rotunda, andando apenas pelos grupos dis- 
persos. 

Rasgado a communicações, como livre a investidas se dar-se 
se quizessem, o proclamado baluarte, formava, por vontade pró- 
pria, um centro de isolamento onde não iam as boas noticias. 
O temor campeava ; não deixando ver que de facto, phantas- 
magorica era a resistência. 

A gente civil, fizera em parte, distanciamentos. O resto, en- 
tregou-se á mercê do destino, mas disposto a evidenciar que se 
encontrava em insomnia, è affeito a recompensar audácias com 
ousadias. 

O tiroteio feito no Rocio contra as janelUs d'onde se atira- 
vam bombas, echoava no alto da Avenida, que se julgou alvo 
constante de descargas. 

Fazendo fuzilaria, e vendo que cousa alguma decisiva se 
dava, a phantasia creou varias tentativas de assalto, repellidas 
sem custo. 

Declarava-o Machado Santos, em entrevista, concedida io 
Mundo em 12 de Outubro de 1910, e a primeira por elle fa- 
cultada á imprensa: 

«Em toda a noite não descansamos um momento. As forças 
do Rocio fizeram varias tentativas para assaltar o acampamento 
mas conseguimos repeli-las sem difficuldade.» 

Certo é porém que as torças do Rocio se limitaram a sim- 
ples evoluções sem grande aflastamento do seu ponto de locali- 
saçao. 

O Mundo chegou a reproduzir em 5, os echos de uma 
marcha de revoltosos: 

a3 e 45 — Parte das forças revolucionarias que estavam na 
Rotunda desceram com peças de artilharia até á rua das Pretas. 
Fazem fogo sobre as forças monarchicas que respondem contra 
as metralhadoras. Conclue se que o plano é entalar as forças mo- 
narchicas entre os dois núcleos de forças republicanas — a da 
Rotunda e a dos navios de guerrai. 

O boato, chegado ao quartel general, fez com que se incum- 
bisse o tenente da guarda municipal Raul de Menezes, da sua 
averiguação, dando esta em resultado a negativa. 



^46 ARMANDO RIBEIRO 



Nasceu elle porém d'um successo verídico, que appareceu 
transmudado. 

O alíeres Ernesto Empis, querendo libertar-se d'uma rede de 
expectativa, fizera arrastar até á rua das Pretas a metralhadora 
que tinha na Praça dos Restauradores e (Vali íez togo contra a 
Rotunda. 

Certeiro tiro, vindo do alto da Avenida fez todavia desmon- 
tar a peça, impossibilitando-a de seguir a acção. 

Entremeavam se pois pesadellos com esperanças e para que 
estas enfraquecessem o desanimo, o sobresalto constante por 
aquelles espalhado. 

A todo o instante se aguardava o desembarque da maruja, 
mas o 5. Raphael, postado perto do Terreiro do Paço, só as- 
sestava os holophotes sobre o Rocio, illuminando o espaço oc- 
cupado pelas tropas presumidas fieis e que a Rotunda alvejava, 
emquanto para esta fazia signaes com luzes brancas e encarnadas. 

Alarmava se, nos pontos combatentes, a existência a bordo 
do S. Raphael e do Adamastor, este, exercendo vigilância 
com os projectores eléctricos sobre a Outra Banda, — de 2.0CO 
homens entre marinheiros e civis. 

Era o terror para os não adherentes. Era um renascer de fé 
para os do acampamento do Parque Eduardo VII. 

Machado Santos, farto d'esse engarrafamento, instava pelo 
desembarque immediato d'essa tão apregoada forte columna de 
marinhagem. Boatos falsos iam chegando, para melhor disposição 
dos combatentes e assim, n'um automóvel ia o respectivo con- 
ductor, Júlio, ao serviço do hospital da marinha, levar a nova 
de que a armada estava entre Santos e Alcântara, em marcha 
para a Rotunda. (*) 

O emissário trazia, como signal, as fardas de alguns offi- 
ciaes de marinha. Tido foi todavia como suspeito e detido. 

Dos navios, só se efíectuára o desembarque para a abordagem 
ao C D. Carlos, não tendo vindo as praças a terra. 

Nada se sabia ali porém, embora em preparativos estivessem 
para o bombardeamento da cidade baixa. 



(#) O Século de H de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 247 



Os emissários do S. Raphael não se atreveram a transpor 
as ruas da baixa, aliás francas a todos os outros. A bordo iriam 
os de terra. 

Para interpretes do quasi ultimaium á acção da marinha,, 
sahiram do acampamento, perto das 3 horas da madrugada, o 
professor José António Simões Raposo e o lente da Escola Po- 
lytechnic3, Innocencio Camacho Rodrigues. 

Incumbidos iam também de participar a bordo que da Ro- 
tunda se eflectuaria ás 6 horas da manhã, intenso logo sobre o 
Rocio, cumprindo aos navios o appoio pelo destroço dos restos 
julgados fieis 4 monarchia. 

A marinha representava para Machado Santos um assegu- 
rar da victoria e elle o espelhou mais tarde no seu relatório, a 
pagina 86 : 

«A António Maria da Silva fiz idêntico pedido para o caso 
de qualquer d'eiles não poder desempenhar a commissão. Com 
uma centena de marinheiros, tendo bem seguro o meu eompo, 
como já tinha, eu contava levar de vencida o resto da guarnição 
de Lisboa». 

Se escasseavam as munições para as Mauser, abundavam as 
da anilharia, fazendose o ininterrupto transporte de granadas 
dos carros vindos do quartel de Cdmpolide, para junto das 
peças. 

Em relação a abastecimentos não existiam receios e quanto 
a rgua, abertas as boccas de incêndio, assegurava-se o seu for- 
necimento ás praças e aos cavallos. 

Assim pois se guiava a crença no êxito do projecto, a que o 
destino se encarregava de dar a máxima viabilidade. 

Abandonou egualmente a Rotunda, o revolucionário civil 
Pinto de Lima, para fazer sciente os grupos civis do plano a 
executar, e a que deviam dar auxilio, por unitário procedi- 
mento. 

O audaz avisante, pcis não deixou o acto de constituir pe- 
rigo, galgou o espaço até á Praça de D. Pedro e simulandose 
transeunte simples, annunciou, alta voz, a offíciaes e soldados, o 
bombardeamento próximo. 



:2 48 ARMANDO RIBEIRO 



Era a hora em que á Rotunda chegou a noticia de um pre- 
parado ataque sério. 

D'essa vez era âdedigna. 

Paiva Couceiro ia reentrar em scena, não para se coroar d« 
louros, porque impossivel era n'esse ambiente talso e perturban- 
te, de traiç5es e de controvérsias, mas para soffrer mais duro 
.golpe na sua aliás abalada illusão. 




iiií 



y 






I lírii 




VI 



No quartel general — O Governo e o commando da divi- 
são — Via dolorosa de trez ministros — Prosegue a 
desorientação — Approva-se outro plano de ataque — 
O fracasso pela attitude de caçadores 2— No quartel 
do Carmo— Os successos de S. Pedro de Alcântara — 
A Rotunda visando o Bairro Alto — De engano em 
engano — As granadas actuando no hospital da Mi- 
sericórdia — A municipal encerrada no Carmo — Pre- 
vendo o fim. 




noite foi decorrendo lenta para os tropas collo- 
cadas no Rocio. Sem comer quasi e sem dor- 
mir, fatigadas, as praças laaçavam-se sobre os 
passeios, somnolentas. A Rotunda mais vigilante 
do que os pretensos dettensores da realeza, des- 
pertavam a soldadesca, com o estampido das 
granadas, estilhaçando, ao rebentar, os vidro» 
das janellas. 

Era de desespero essa espectativa. 
Do quartel general não se dava ordens. 
Emquanto os soldados semi-dormitavam, o ministro da guer- 
ra, general José Nicolau Raposo Botelho, á paisana, tomava pa- 
chorrentamente um caldo, n'uma das salas do edifício. 
Servia-se o chá, para fecho da refeição reconfortante. 
Não ia porém a hora para boas disposições espirituaes. 

VOL. IT— FL. 32 



250 ARMANDO RIBEIRO 



Presumiam se semi exgotados os meios de defeza. 

Estava apenas reconhecida a ineficácia da estada de parte 
do Governo no quartel general 

Servira para atear a discórdia entre os elementos civis e mi- 
litares. 

Alguns haviam cedido o passo. 

Retirando d'ali, a uma patente animadversão de outros 
entregavam ao destino a suecessao dos acontecimentos. 

Todavia, por essas anomalias do pensar humano, se censu- 
rada toi a permanência no quartel general e o entromettimento 
nas ordens da divisão, de ironia eivada íoi o abandono das salas 
do commando do exercito. 

Deram-se os ministros dos estrangeiros, da marinha e das 
obras publicas, como em doce socego no domestico lar. 

Gomtudo atormentadas horas passavam elles, como prenun- 
cio seguro do que o futuro lhes reservava. 

O conselheiro Marnoco e Souza, sahindo do arsenal, che< 
gava á rua de El-Rei, no instante em que a municipal procu- 
rava eximir se a um annunciado bombardeio dos navios rebel- 
des. Ao alarme, retrocedia, para, pela rua de S. Julião, voltar á 
do Ouro, até á do Crucifixo, onde, ao reproduzir do sobresalto, 
ia sollicitdr refugio provisório em barata hospedaria. 

Foi como que oflerecer os pulsos ás algemas. 

Cahindo na sede d'uma associação secreta, ao reconheci- 
mento, teve logo a detenção, á chave, no quarto onde presumia 
achar tranquillidade. A verídica aventura á publicidade (*) veio: 

<cA voz popular conta porém, que o luminoso rastro do 
sr, Marnoco ainda aqui se não apagou; e ha quem diga que o 
intemerato Ministro da Marinha, que o sr. Teixeira de Souza foi 
pescar ao Mondego, uma vez na rua do Crucifixo batera a uma 
casa de quartos para alugar e tomou um aposento. O proprie- 
tário, carbonário, reconhecendo o Ministro, deixou-o entrar e 
íechouo á chave, por fora!» 

Por seu turno, e dada em maus transes a situação monar- 
chica, os ministros dos negócios estrangeiros, conselheiro José 



(#) Joaquim Leitão, Diário dos Vencidos. Pagina 190. 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 251 

de Azevedo Gastello Branco e das obras publicas, conselheiro 
José Gonçalves Pereira dos Santos, iam sollicitar asylo ao depu- 
tado dissidente, dr. António Centeno. 

Mal encaminhados haviam sido. 

Aos republicanos veio a lembrança de que só junto da dissi- 
dência progressista, alguns ou algum dos ministros, se julgaria a 
coberto. 

Entrando na sala da residência do director da Companhia 
do Gaz, defrontaram logo o revolucionário Arthur Marinha de 
Campos. Era a rede que ia envolvel-os como na rua do Cruci- 
fixo n'outra detido fora o ccnselheiro Mamoco e Sousa. 

Recebiam uma ordem de impedimento das commuicaçoes 
externas. 

Teve phrases violentas, o conselheiro José de Azevedo, ás 
quaes valeu o dr. António Centeno, oflerecendo o alojamento que 
aliás lhe ia ser pedido, tomando o compromisso de evitar que 
os dois membros do Governo entraves ^uzessem á sedição. 

Marinha de Campos, preferindo uma detenção na Rotunda, 
simulava condescender e ia junto de Machado Santos sollicitar 
uma escolta de 12 homens para conduzir os importantes detidos. 

A' recusa, pela escassez de gente, ante a imminencia de 
um ataque, para o romper do dia se deixou o commetimento, 
comunicado por elle, porém, ao visconde da Ribeira Brava, a 
cuja casa ia cerca da meia noite. 

Todavia ao nascer da alva, cessara o compromisso do de- 
putado dissidente. 

Conhecedores de quanto se tramava, os ministros abando- 
navam a moradia da Alameda de Santo António dos Capu- 
chos, n.° 4, e emquanto o conselheiro José de Azevedo, em uma 
habitação próxima deliberava aguardar os resultados d'essa lucta 
que antevira de mau aspecto para a realeza, o conselheiro Pereira 
dos Santos, desagradando-lhe a companhia, mais audaciosa e me- 
nos transigente do seu collega de ministério, procurou escuras 
ruas, até á Escola do Exercito, que, encerrada, não lhe deu poiso. 

Vendo-se ao abandono, por vontade própria, começou a 
odysseia do ministro das obras publicas, notável já por um sem 
numero de extravagantes distracções. 



252 ARMANDO RIBEIRO 



Identificando-se quasi com a do ministro da marinha, ap- 
pareceu descripta em humorístico ennunciado, (*) assignalan- 
do lhe os passos de receio. 

Procurando refugio na Escola do Exercito, debandava, ven- 
do a em silencio. Buscando um coronel amigo, residente ali 
perto, lá se detinha um pouco, para ligeiro descanço só, pois 
o otôcial, temerário de investidas por dar abrigo a um ministro 
da monarchia, envidava extorços e conseguia leval-o a abando- 
nar a residência. 

De trem, fechado, o conduzia até a porta do dr. Archer da 
Silva, que não estava ahi. 

O coronel, livrando se do companheiro, deixava-o, seguindo 
na carruagem. 

O ministro, maldizendo talvez o instante em que se jun- 
gira a um governo fatal, atravessava as avenidas novas, para o 
refugio distante, no Campo Pequeno, onde todavia era surpre- 
hendido pela existência de magotes de populares. 

Voltou, sobre o Jardim Zoológico, cerrado e cosendo-se com 
as paredes, buscou de novo a residência do conselheiro Teixeira 
de Sousa, contornada comtudo por elementos civis. 

Ia a fugir lhes, quando o acaso o fez ver do dr. Archer da 
Silva, passando, de automóvel. 

Quiz o deputado dar-lhe logar, mas o conselheiro Pereira 
dos Santos, registando o facto de elle ser conhecido e do carro 
ser descoberto, recusava e ia bater a casa de outros conheci- 
mentos. 

Senhoras edosas relacionadas com a família do ministro, 
amavelmente o receberam, não accedendo todavia ao pedido 
para ser recolhido até á noite, allegando a rasão de se encontra- 
rem sós e não desejar ditos exóticos da visinhança entromettida. 

Qual Ashaverus, sahia, lembrando se da marcha até ao Esto- 
ril, quando se reconheceu sem dinheiro, por a bolsa haver ficado 
na algibeira do casaco que no quartel general substituirá receoso, 
por um casaco curto. 



(#) Joaquim Leitão — Diário dos Vencidos — Pagina 29o — O Correio 
da Manhã de 10 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 253 



Decidia-se então a recorrer ao dr. Archer e Silva, que não 
achou ; mas de quem ficava á espera. 

Quiz elle depois levai o para casa do dr. Cassiano Neves ou 
do antigo ministro da guerra, conselheiro Luiz Augusto Pimen- 
tel Pinto. 

O temor, invadindo-o sempre, forçou á recusa, sob pretexto 
de serem vultos políticos, um, como dissidente e outro como 
palaciano. 

Ficava pois em casa do dr. Archer, até ao dia seguinte, em 
que transitava para a casa do visconde de Pedralva. 

A noticia da proclamada republica e da não existência de 
perseguições aos ministros, trazia lhe o socego e só então se 
predispoz a transmittir á tamiíia a noticia de se encontrar vivo. 

O conselheiro Pereira dos Santos, celebre era como já disse- 
mos, pelas suas distracções, e uma lhe dera mais notoriedade: 
tendo ido á leitura nocturna na Bibliotheca Nacional de Lisboa, 
tanto se embebeu no convívio com as lettras que, nem deu pe- 
lo encerramento, nem o pessoal o lobrigou no seu canto escuro. 
Mais tarde, reconhecendo se só, correu a chamar, até que, conse- 
guindo de uma janella communicar para a rua, obtinha, visto 
não ser encontrado o chde do pessoal menor, possuidor da 
chave, fosse opposta uma escada de incêndio, pela qual desceu 
até á rua. 

A travessia attribulada das horas de revolução foi todavia 
de mais sobresaltos do que a dos momentcs de surpreza da for- 
çada detenção no edificio da Bibliotheca de Lisboa. 

Foi essa a pouco banal odysseia a que deu logar a sahida 
de casa do dr. Centeno, para escapada ás ordens do revolucioná- 
rio Marinha de Campos. 

Todos esses successos ignorava o presidente do conselho. 

Quasi só, evidentemente deslocado, se peccou, por vezes te- 
ve assomos de desespero mal contidos, mas ante a evidente op- 
posição do elemento militar. 

Referil ohia, mais tarde, mas dando-lhe outra interpreta- 
ção, um amigo dedicado de Teixeira de Sousa, o jornalista Jú- 
lio Ribeiro, a propósito d'uma phrase d'aquelle estadista: 

«Devemos dizer que, se Teixeira de Sousa realmente tives- 



254 ARMANDO RIBEIRO 



se proferido a frase «Eu poderei cair antes de eu querer mas 
hàde cair commigo a monarchia,» os seus amigos, nas horas^ 
da Revolução, não lhe teriam visto as lagrimas aflitivas e amar- 
guradas que lhe escaldavam as faces, por não ver na rua aquel- 
les que horas antes lhe garantiam poder responder pela fideli- 
dade de toda a guarnição de Lisboa.» 

Para a defesa escolhido fora o Mundo, (•) o mais avança- 
do jornal republicano, e onde o deftensor, espelharia pouco de- 
pois o seu credo de democrata, partidário do dr. Aflonso Costa. 

Se isso contribuiu, para muitos, para a duvida sobre a deso- 
lada attitude do chefe do governo, não deixou para outros, de 
symbolisar um arrependimento dos iniciaes socegos ante a cep 
ta perspectiva de uma revolta. 

Quanto ao ataque de Júlio Ribeiro, como interprete d'a- 
quelle que queria collocar em logar de attribulado, ia direito 
aos commandahtes de lanceiros, da guarda municipal e da di- 
visão. 

De facto, do primeiro se salienta a attitude, desde a especta- 
tiva, ao pouco distante lance de lucta entre a artilharia revol- 
tada e a municipal da Estrelia até ao distanciamento no acto 
do tiroteio da bateria de Queluz. 

O segundo, no quartel, encerrado na secretaria, iria até a 
opposição de um continuar de repressão pela força do seu 
commando. 

O general Gorjao, foi talvez o único que deixou conduzir a 
sua fraqueza ao extremo limite de uma illusão sobre o trama 
rebelde, não lhe voltando as forças quando se quiz desligar dos 
fios, que de todo a esse momento o haviam enleado. 

A sciencia governamental exposta no commando da divi- 
são, quando se não evidenciara nas reuniões exclusivas do mi 
nisterio, onde havia militares, ateou animadversoes dos agaloa- 
dos, fazendo sentir o desagrado de um entromettimento civil 
nas theorias do exercito. 

Cerca da meia noite, o conselheiro Teixeira de Sousa, deli- 
berava sahir d'esse meio onde o reprovavam, afim de ir ver sua 



(*) 22 de Novembro de 1912. 



ARMANDO RIBEIRO 255 



esposa, recolhida em casa do dr. Joaquim Teixeira de Sampaio. 
Emquanto se apromptava o automóvel do ministro da guerra, 
o coronel José Celestino da Silva ia á Calçada do Garcia mu- 
dar de fato, para acompanhar o chefe do governo. 

Significava de facto essa intenção, um junccionamento de 
malquistados com a alta offiicialidade, pois bem mais carecia o 
quartel general, do coronel Celestino, em qualquer instante ne- 
cessário, visto o tiroteio indicar o proseguir de contenda, do que 
o chefe do governo, seguindo em simples missão do seu justo 
sentimento de marido. 

Prepararam os successos a desunião dos que juntos se iam 
affastar. 

Notado, por offiiciaes, a inconveniência de o automóvel ali 
se manter, de pharoes accesos, fazendo incidir a luz sobre a sol- 
dadesca, sujeita a assaltos, o conselheiro Teixeira de Sousa, 
num novo assomo por essa todavia sensata observação, e não 
querendo permanecer mais tempo n'esse centro mal disposto, 
^bstinha-se de acompanhar o coronel Celestino da Silva e só, 
tomava logar no vehiculo que rodou célere. 

Teixeira de Sousa, vendo quasi perdida a causa, confiada 
a uma defesa, em parte, suspeita, sahia portanto do quartel ge- 
neral, mas para se transformar n'uma victima dos acontecimen- 
tos que egualmente não soube entravar. 

Curiosa é a descripçao (*) d'essa odysseia que monarchicos e 
republicanos fustigaram com a sua ironia, sempre cáustica mas 
bem cabida: 

a No quartel general me conservei, com alguns collegas meus, 
até cerca da meia noite do dia 4, hora a que resolvi ir á rua de 
Andaluz, 49, casa de um tio meu, onde se encontrava minha 
mulher, levada pelo natural sentimento de quem se julga n'um 
momento grave da sua vida. Não quero referir scenas nem fac- 
tos, por ser muito cedo para isso, mas a verdade é que eu já não 
via possibilidade de, rarissimas excepções feitas, sair d*essa pas- 



(#) O Século de 19 de Outubro de 1910. O livro de Teixeira de Sousa, 
'Para a Historia da Revolução, relata estes incidentes a paginas 462-465 do 
2.° volume, apenas com ligeiras alterações descriptivas. 



256 A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 

sividade que cornpromettia definitivamente a causa monarchica. 
Saí por isso do quartel general á meia noite do dia 4, e não 
mais ahi voltei, pelo motivo de para isso me encontrar inteira- 
mente impossibilitado. 

— aPor ter sido íeiido, não é assim? 

— «Exactamente. Saí do quartel general n'um automóvel, 
sem outra companhia, além do chauffeur. Segui pela rua da 
Palma, ao Campo de Sant'Anna, e para não expor a casa onde 
se encontravam minha mulher e meu velho tio, não segui para 
a rua de Andaluz, mas para a Avenida Duque de Loulé', pre- 
tendendo parar no tundo d'uma travessa defronte do prédio 
para onde me dirigia. Como ali visse um grupo numeroso, se- 
gui com o automóvel mais algumas dezenas de metros na ave- 
nida do Duque de Loulé. Parei, saí do automóvel e caminhei 
em sentido inverso, dirigindome então para a rua de Andaluz. 
N'um certo momento vi que um homem, que descia a Avenida 
pelo lado direito, parou e me disparou um tiro que, pelo esta- 
lido secco, me pareceu d'uma Browning; mas, simultaneamente^ 
outros tiros foram disparados e uma lanterneta vinda d'uma pe- 
ça collocada no alto da Avenida, explodiu junto de mim. A lan- 
terneta fez fugir todos os assaltantes. De repente, vi me inteira- 
mente só e apenas senti na virilha direita a impressão d'uma 
grande pancada, após o que notei que me encontrava encharca- 
do em sangue. Segui a pé, encostado á bengala e á parede, até 
á rua de Andaluz, em cuja casa, n.° 49, fiquei, absolutamente 
inutiiisado. A inexcedivel dedicação dos meus queridos amigos 
Mello Barreto e Nicolau Mesquita, fez com que eu pudesse ob- 
ter os soccorros do dr. Cassiano Neves, o qual, aflrontando tam- 
bém todos os perigos d*uma noite de revolução, me prestou os 
primeiros cuidados. Verificou se então que sobre mim tinha caído 
uma verdadeira chuva de metralha. Appareceu cortada por uma 
bala a aba do chapéu de colla que eu tnzia, tiro que me foi dado, 
segundo todas as probabilidades, pelo primeiro que sobre mim 
disparou, as abas do frack que eu vestia estão perfuradas em 
diversos pontos e uma bala penetrou na parte interna da coxa 
direita, junto da virilha, e atravessou m'a inteiramente. Após o 
penso, tentei vestir-me, mas, não podendo manter-me de pé nem 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 257 



tendo vehiculo que me transportasse, considerei-me inutilisado. 
Communiquei, por intermédio do meu secretario, ao quartel ge- 
neral as circumstancias em que me achava, informando o mi- 
nistro da guerra do acontecido para que d'isso informasse quem 
informado devia ser, visto que eu, onde estava, nem tinha tele- 
phone, nem ordenanças nem agente que pudesse utilisar. E 
acabou aqui toda a minha intervenção nos acontecimentos de 
Lisboa. Não recebi mais prevenção nem aviso, ninguém me con- 
sultou sobre quaisquer factos que se succederam. Somente no 
dia 5, ás g horas da manhã, é que o meu velho amigo e pro- 
fessor Augusto de Vasconcellos me informou de que tinha sido 
proclamada a Republica, rendidos o quartel general e outros 
quartéis e nomeado, até o governo provisório. Havia caido a 
monarchia em Portugal, que eu, por honra minha, tinha de 
defender emquanto existisse. Quiz impedir a revolução, desar- 
mandoa com liberdades. Nada consegui. Quiz conjurar a revo- 
lução, quiz, como era de honra minha, impedir que a revolução 
caminhasse. Vi então, e vi depois, que toda a lucta era impossi- 
vel. A monarchia estava cercada, salvas raras excepções, de re- 
publicanos e indifferentes.D 

O commentario alegre, tomando posse da scena, conduziu até 
a caricaturas, em que o conselheiro Teixeira de Souza apparecia, 
crivado de balas, a irmanar-se com o celebre candieiro da Avenida» 

Incrédulos surgiram mesmo sobre a veracidade dos feri- 
mentos recebidos, não porque impossivel fosse o lance, mas pelo 
extraordinário do seu relate. 

De facto, porém, o successo era breve communicado em carta 
dirigida ao coronel Celestino da Silva e entregue no quartel gene- 
ral, que, cedendo ao appello do chefe do governo, não teve hesi- 
tações em deslocar algumas praças de cavallaria do seu serviço 
de vigilância, para escolta do portador do bilhete sollicitando a 
rápida comparência do medico dr. Augusto de Vasconcellos, 
que, mercê de embaraços, não conseguiu attingir a rua de An- 
daluz. 

Melhor succedido foi o jornalista e deputado João Carlos de 
Mello Barreto que, telephonando da sua residência, conseguiu a 
marcha da Avenida Ressano Garcia até á casa do dr. Teixeira de 

VOL. rv — FL. 33 



258 ARMANDO RIBEIRO 
_ 

Sampaio, do medico dr. António Cassiano Neves, republicano, 
que, confirmando, em parte, os recebidos ferimentos, disse, em 
attestado: 

«Eu abaixo assignado, attesto e juro que tendo sido chama- 
do á uma hora e meia da madrugada do dia 5 de Outubro de 
191 0, para a rua do Andaluz, n.° 49, ahi encontrei o Ex. m(> 
Senhor António Teixeira de Sousa ferido por uma bala que lhe 
atravessou a coxa, no seu terço superior, perfurando a pelle, te- 
cido cellular subcutâneo e a massa muscular subjacente, bala 
que, penetrando pela face antero-interna da coxa, proximamente 
três dedos abaixo da ancada crural, saiu na face externa — 
Cassiano Neves — Lisboa, 7 de Novembro de 19 10.» (*) 

O dr. Cassiano Neves, seria mais tarde, republica em Por- 
tugal, o governador civil de Lisboa, (19 14) logar que se veria 
forçado a abandonar (Julho de 19 14) por refractário a intole- 
râncias exigidas para o seu cargo. 

Era presidente de ministros, o dr. Bernardino Luiz Macha- 
do Guimarães. 

Feito o primeiro penso, tentou, contra voto medico, e ven- 
do se sem guarda ou ordenança, voltar ao quartel general. 

Não o poude conseguir, e se o lograsse, tendo boas inten- 
ções, apenas conseguiria a intima revolta ao presencear de uma 
situação cada vez mais complicada. 



O commando supremo, continuava a sinthetisar por comple- 
to, a desorientação e o desespero. 
Havia ordens e contraordens. 
Resurgia-se, mas ineficazmente, apoz uma lethargia que o 



(*) Para a Historia da Revolução — Pagina 467. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 259 



capitão Alfredo Pedreira Martins de Lima não poupou nas li 
nhãs acerbas mas justas, de um publico documento. 

«Nunca pensei, quer cm tempo normal quer em tempo de 
revolução, invadir as attribuições do chefe do estado maior, 
ccmo parece deprehenderse da sua carta, mas se durante a re- 
volução quizesse fazel-o, não teria de empregar astúcia nem ou- 
zadia, bastar-me-hia aproveitar uma d'aquellas occasiões em que 
o chefe, enterrado n um com modo fauteuil e com um cobertcr- 
zinho aos pés, dormia somnos reparadores, emquanto o general 
no auge do desespero me dizia: — a Você é que tinha razão. 
Martins de Lima, tudo quanto me prognostirou está acontecen- 
do!. . .» Nessas occasiões eu poderia passar per cima do chefe 
como se fora um cadáver, se ao meu espirito militar não repu- 
gnasse a ideia da usurpação e revolta. Eu respeito os galões 
ainda mesmo quando brilham no uniforme d'um morto.» (*) 

A' boa vontade de uns, correspondia, mas firmemente, a fla- 
grante desobediência de outros. 

Era o fim evidente e, reconhecendoo, já muitos não hesita- 
ram em depondo a mascara, assumir a figura favorecedora da 
causa sediciosa. 

Esse aspecto, mais desasombrado, mostrou-se á deliberação 
de um movimento tido como complexo. 

A officialidade reunida no quartel general, resolvia e desen- 
volvia tácticas. 

O chefe do estado maior, coronel José Joaquim de Castro, 
ante a derrocada da envolvente, fixava com o general de divi- 
são, um novo plano, em que, empregando infantaria i,2e 16, 
caçadores 2 e duas companhias da guarda, se tentaria a ofkn- 
siva pelos altos do Principe Real e pelas culminancias do Cam- 
po de Sant*Anna. 

O ataque abrangia os dois lados superiores e essa simulta- 
niedade, embaraçosa seria para a Rotunda, se executada fosse. 
Appareceu então o entrave, que más desculpas se encarre- 
garam de injustificar. 

Ao chefe da brigada das Necessidades, coronel Bernardo An- 

(#) Joaquim Leitão — Diário dos 'Vencidos — Pagina 340. 



260 ARMANDO RIBEIRO 



tonio de Brito e Abreu, era ordenada a execução do projecto, 
devendo observar, como preceitos essenciaes, a organisação de 
uma columna que, composta por infantaria 2 e 16, e guarda mu- 
nicipal, operaria, dirigindose para S. Roquí, outra, por caça- 
dores 2, que se dirigiria para o Príncipe Real e outra, por in- 
fantaria i, endireitaria ao largo das Duas Egrejas, pela Estrella, 
Largo das Cortes, Calçada do Combro e Calhariz. 

Para a marcha deveria evitar se a zona marginal, consi- 
derada como na esphera de vigilância dos na fios insurrectos. 

Brito e Abreu recusou se. 

Como pretexto serviu, inicialmente, o cansaço das torças, 
quando elle se não patenteava em outras que, ao contrario das 
suas, andavam em constante deslocamento. 

Depois, o cerco pelos revoltosos, que não tentou romper, a 
despeito da ordem, tantas vezes repetida pelo coronel José Joaquim 
da Castro, para que marchasse, a ferro e togo, a tiro e á baioneta. 

Notificada lhe foi a acção preparatória da guarda municipal, 
e lanceiros 2, varrendo todo o espaço do largo das Duas Egrejas 
á Patriarchal, ou fosse, as ruas de S. Roque, de S. Pedro de Al- 
cântara e D. Pedro V, para que as forças de Brito e Abreu, en- 
contrassem campo aberto. 

Para convencimento ainda, ao coronel Malaquias de Lemos 
foi determinado que telephonasse a Brito e Abreu, communi- 
cando lhe haver recebido aquellas inlicaçÕes. 

Insistindo, fizeram-lhe ver a acção que podia executar a arti- 
lharia no Thorel com o auxilio da guarda fiscal de serviço no 
cães da Fundição. 

Desenhava-se, é certo, um efifectivo problemático e tanto que 
com esta st não podia contar. 

Viu se á ordem transmittida ao major Ascensão para fazer 
seguir a força até ao Campo de Sant'Anna, e ao romper da ma- 
nhã, em que, com surpreza do capitão de caçadores 5, Carva- 
lhal Correia Henriques, acclamou ruidosamente a Republica, (*) 
seguindo o exemplo da guarda do posto de Queluz adherente 
desde o dia 4. 



(#) O Mundo de 27 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 261 

Eram os resultados da propaganda democrática, que, se- 
gundo Machado Santos, teve, como primeiras conquistadas, as 
praças da guarda 6scal, pelo trabalho do soldado Domingos Lo- 
pes < dos civis Paulo de Oliveira e Caries Cardoza. 

Brito e Abreu ignorava todavia essas falhas e essas utopias 
de numerário, e não foi isso, portanto, o que lhe fez renovar a 
recusa. 

Como attenuante se lhe concedeu o facto de mais segura ga- 
rantia oôerecer o avanço das forças numa só columna, do que 
a sua subdivisão. 

E* de ponderar o argumento, mas suggerido esse contra 
cumpria fundamentar com elle, a negativa da marcha. 

Mal dispuseram ainda as determinações contradictorias, quer 
para retirada, quer para espera, sendo d'isso testemunha o i.° te- 
nente Victor Leite de Sepúlveda que no paço se conservou de- 
pois da retirada regia. Segundo elle, «os coronéis e tenentes- 
coroneis trocaram impressões pelos cantos ou dormitavam». 

Lembrado pelo official de marinha ao coronel Brito e Abreu, 
a convocação de um conselho de graduados, foi elle de parecer 
que as forças deviam permanecer ali, até para guardar o edifí- 
cio, embora, de inicio se houvesse pensado na sahida, ficando 
apenas a municipal, o que teve enérgica opposição do capitão 
que a commandava. 

A's instancias do commando da divisão, correspondeu-se, 
enfadados, com um gesto supremo: c interromper da communi- 
caçao telephonica. 

Era a indisciplina no máximo grau. 

A bello talante se procedia, olhandose o quartel general 
como cousa insensata a que cumpria não attender. 

A revolta ganhava assim, passo a passo, mais pela attitude 
dos que lhe deviam ser contrários do que pelos altos commetti- 
mentos dos seus partidários, aos quaes quasi bastava saber es- 
perar. . . 

* 

Entretanto, do quartel general, em face do que se dissera ao 
coronel Brito e Abreu, determinava se ao coronel Malaquias de 



262 ARMANDO RIBEIRO 



Lemos a sahida para o Campo de Sant'Anna do 3.° batalhão e 
da 3. a companhia da guarda municipal, afim de conservar li- 
vre a zona até ao Bairro Camões; do 3 o esquadrão para o quar- 
tel general, e de lanceiros, com o que se pudesse arranjar da 
municipal para a parte comprehendida entre S. Pedro de Al- 
cântara e Rato. 

Cavallaria 2 não descançara. 

De regresso dos altos da Penitenciaria, o commandante, 
coronel Alfredo de Albuquerque fora encontrar o coronel Mala- 
quias de Lemos, rodeado de officiaes, entre elles o major Carlos 
Frederico Chateneuf, e o tenente, Eduardo Augusto de Oliveira 
Pessoa. 

Os teiephones, só transmittiam pessimismos, como continuo 
rebentar de bombas, phantasmagoricos desembarques de marujos, 
destroços na guarda, todo um conjunto de maus transes. 

Conseguiu Alfredo Albuquerque, approximer-se do com- 
mandante da municipal, sollicitando lhe mantimentos para os 
soldados, pedido não satisfeito. 

Como recurso, a soldadesca deitou se, seguindo o preceito de 
que o somno é meio alimento. 

A breve trecho, o telephone communicava a deliberação 
para que lanceiros seguisse até ao quartel general, afim de to- 
mar conhecimento do novo encargo a cumprir. 

A custo as praças poderam executar a ordem, por exhaus- 
tas de forças. 

Quasi o mesmo suecedeu com alguns officiaes, e por doença 
não puderam acompanhar o regimento, o tenentecoronel Souza 
Araújo e o tenente Accacio Adjuto Augusto Nunes. 

Ao atravessar do Rocio para S. Domingos, eram atacados, 
n'um equivoco, por descargas, que não conseguiram amedron- 
tar o regimento nem attingil o. 

Ao coronel Alfredo Albuquerque, quasi faminto, apresentan 
dose no quartel general, onde via vestígios de tomadas refei- 
ções, era-lhe notificada nova ordem, pelo general Raphael Gor- 
jão; o guarnecer do Alto de S. Pedro de Alcântara, para evitar 
um annunciado bombardeamento do Rocio pelas forças revolto- 
sas e ao tempo actuar contra ellas. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 263 

Seguiram os lanceiros, interrompendo mesmo uma ligeira re- 
feição de pão e conservas, por lavor especial fornecida pelo alho 
do general Gorjao. 

Apenas carregada a carroça da administração militar, a 
cavallaria endireitou a S. Pedro de Alcântara, recebendo no largo 
de S. Roque o retorço de i 5 praças da municipal. 

Eflectuado reconhecimento nas ruas próximas, desertas, ta- 
zia-se o cerramento das embocaduras. 

Antes, effectuára-se o guarnecimento do largo de S. Roque, 
pela torça da guarda, que sob o commando do tenente João Luiz 
Ferreira da Silva, tez trente á Travessa da Queimada, costeando 
a parte desde a Calçada do Duque até junto da egreja de S. Ro- 
que. 

Vencendo o serviço de precaução e patrulhamento, as bom- 
bas cahiam por vezes, atiradas dos telhados. 

Os i5 soldados de intantaria, foram collocados na Rua de 
de D. Pedro V e junto das grades de S. Pedro de Alcântara, em 
trente da antiga legação da Holianda. 

No plano geral entrava, procurar impedir, se fosse possível, 
que os revoltosos tomassem S. Pedro de Alcântara, que se tor- 
naria assim ponto estratégico desfavorável aos troços fieis; no 
caso contrario, recuar, e na Rua de S. Pedro de Alcântara, usar 
da conhecida táctica, do ataque de fl&nco pela cavallaria, á arti- 
lharia em marcha e por isso em condições de inferioridade. 

Para a execução do projecto, acampou parte de lanceiros 2, 
nas travessas que desembocavam em S. Pedro de Alcântara. 

Cerca das 3 horas da madrugada de 4 para 5, e emquanto 
>o major Thimoteo Alvim com dois esquadrões effectuava um re- 
conhecimento na Praça do Principe Real, Rua da Escola Poly- 
technica e Praça da Alegria, os municipaes, dirigidos pelos offi- 
ciaes de lanceiros Estevam Pereira Palha Wanzeller, D. Luiz 
da Cunha Menezes, Fernando Coutinho da Silveira Ramos, D. 
Nuno Maria do Carmo Noronha, Francisco Martins Lusignan 
de Azevedo, José de Liz e Cunha, e Carlos Eugénio Alvares 
Pereira formavam singular barricada com taboas de uma obra 
próxima, para abrigo do reduzido núcleo 

A phantasia, tomando posse do acto,- fez logo espalhar boa- 



264 ARMANDO RIBEIRO 



tos de construção de pontes da Rua das Taipas para a Travessa 
do Falia Só, d'onde, a salvo, pudessem víctimar a Rotunda. 

A defeza presumia-se ataque. 

De sonho em sonho, vislumbrou-se do Alto da Avenida não 
já uma probabilidade de assalto mas um effectivo tiroteio e 
aguardou ponto de mira para violento proceder, a que vamos já 
assistir. 

A esse tempo, aguardava ainda o coronel Alfredo Albuquer- 
que a infantaria que lhe haviam dito devia proteger e auxiliar» 

O chefe da brigada que nas Necessidades mantinha uma 
attitude de inutilidade, nem sequer cedeu um passo na sua de- 
terminação de não avançar. 

Indiflerente a ordens e a rogos, tanto se curvou ante a or- 
dem do quartel general, como ás insinuações do coronel Mala- 
quias de Lemos, assegurando-lhe livre o caminho, e, querendo^ 
pela fixação da attitude de Brito e Abreu, obviar a uma inútil 
manobra das suas forças. 

As evasivas para o quartel do Carmo, reproduziram se. 

As tropas tinham fome. 

Retorquiram- lhes que avançassem, que no ponto de destino 
aguardavam a columna os viveres necessários. A brigada tinha o 
caminho cerrado pelos revoltosos, allegou se. 

O coronel Maiaquias, sob palavra de honra, assegurava de- 
simpedido o passo pela Calçada da Estrella, Rua de S. Bento e 
de S. Marçal. 

De novo foi objectado, que os revolucionários estavam pró- 
ximo, vendo se-lhes os vultos e os canos das espingardas apon- 
tadas. 

Já vimos o que havia de ephemero na defeza do quartel de 
Alcântara. 

Assim, evidenciava-se a deserção, dissimulada n'uma immo- 
bilidade. 

Era o exacto reproduzir da concentração das forças do Rocio 
e que os próprios republicanos (*) reconheceram como prejudi- 
cial á monarchia : 



(#) Hermano Neves — Como triumphou a Republica— Subsídios para a 
historia da Revolução de 4 de Outubro de 1910. Pagina 96. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 265 



«Vem a propósito observar que a táctica seguida pelos offi- 
ciaes superiores affectos ao velho regimen foi a mais infeliz que 
podiam ter escolhido. Perto de 40 horas permaneceram no Ro- 
cio as tropas realistas, constantemente importunadas pelo fogo 
dos adversários. A mais rudimentar prudência teria aconselhado 
que essas tropas se movessem exercendo de qualquer forma a 
sua acção, para evitar aos soldados o nervosismo e a desmcrali- 
saçao que facilmente devia apoderar-se d'elles.» 

Cumpria, ao observar-se a proximidade, attenta e 6rme dos 
revoltosos, um romper d'esse evocado cerco, tanto mais inau- 
dito, quanto se não forcejara conhecel-o em todo o seu conjuncto 
e forças, por meio de uma enérgica tentativa para o quebrar. O 
coronel preferiu a estreiteza d'esse circulo commodista. 

Dando se como encerrado em cadeia íerrea, como impossi- 
bilitado de caminhar ao encontro de um combate definitivo, 
pela visão de uma chacina e pelo appello de uma inaniçao da 
soldadesca, manteve a immobilidade de uma situação mal defi- 
nida. 

Valendo á ultima phase das objecções á marcha, a falta de 
mantimentos, o quartel general, enviaria, ás Necessidades, acom- 
panhando provisões, o alferes da administração militar Fran- 
cisco Gonçalves Velhinho Correia. 

Este, todavia, installando-se no hospital da Estrella, limi- 
tava- se a remetter d'alli 5o pães, e ainda para caçadores 2, (*) 
tido como revolucionário, seguindo apoz essa cumprida missão, 
de vontade própria, favorável á revolta, para a Rotunda, onde 
foi participar a forma como desempenhara o encargo de con- 
fiança e de humanidade que o quartel general lhe determinara, 

O tenente Mauro do Carmo, registou-o assim no seu rela- 
tório: (**) 

«Em 6, próximo do meio dia, apresentaram-se-me o alteres 
Velhinho e um aspirante da administração militar para tomar 
conta dos serviços. Já não eram precisos para a campanha* 
Retiraram em seguida depois de termos combinado em que pio- 



(*) O Século de 15 de outubro de 1910. 

(#*) O Intransigente de 8 de outubro de 1912. 

VO t. 1Y— FL. 34 



266 ARMANDO RIBEIRO 



▼idenciariam sobre o que fosse preciso no caso de que as forças 
ali continuassem acampadas para segurança da Republica». 

Machado Santos, assignala, porém, cem mais razoável agra* 
ro, a chegada, não em 6, mas em 5, do alferes Velhinho Cor- 
deia e do aspirante da administração militar, Fernando Victor 
Valente Valladas Vieira. 

A' republica victoriosa, ambes tiveram os nomes incluídos, 
com louvor, na ordem do exercito publicada em 25 de outubro 
de 1910. 

# 

Debalde pois esperou o coronel Alfredo Albuquerque, o pro^ 
mettido resto da força de ataque á Rotunda. 

Cançada de uma espectativa que lhe era desagradável, a. 
municipal descarregou as armas para a Avenida. 

Da Rotunda corresponderam com um tiro de peça, que detr 
em resultado a retirada do pelotão, seguindo-se-lhe a de toda a 
cavallaria, por ser vista inútil a permanência ali. 

Confirmou o pensamento uma ordenança do quartel das 
guardas municipaes, participando que do quartel do largo de 
S. Domingos lhe fora transmittido pelo telephone o não avanço 
da lorça de Brito e Abreu, devendo seguir para ali, lanceiros^ 
afim de auxiliar á defeza do quartel do Carmo. 

Dava-se o regresso, pois, emquanto da Rotunda, para des- 
fastio se continuava a visar o largo de S. Roque e immediações. 

As granadas attingiram vários prédios, como o n.° 7 da Rua 
dos Mouros e nem pouparam o hospital da Misericórdia, indo 
ali levar o terror aos feridos e doentes de ambos os sexos. 

Um tiro, do alto da Avenida, fazia desabar a chaminé do 
hospital, indo os destroços cahir sobre as enfermarias. 

Outros, efíectuaram novos estragos, salientados no «Relató- 
rio dos serviços médicos e pharmaceuticos da Misericórdia de 
Lisboa», relatório igiO-1911. 

Representa elle uma notável pagina da revolução porque se 
refere áquelles que longe de derramar sangue, atravez de peri- 
gos se extorçaram, humanitariamente, em remediar quanto pos- 
sível, os trágicos efleítos da lueta: 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 267 



alll. m0 e Ex. mo Sr. Provedor da Santa Casa da Misericórdia 
de Lisboa — Do que se passou no Posto de Soccorros Médicos 
d'esta Santa Casa da Misericórdia, durante o periodo da revolu- 
ção, fui encarregado^ logo no dia seguinte ao da proclamação 
da Republica, de fazer o respectivo relatório. D'esse encargo me 
venho hoje desonerar. No dia 3 de outubro, pelas 8 horas da 
noite, dirigi me para este posto de soccorros, na intenção de dis- 
por as coisas de forma tal que se pudesse recebe^ sem faltas e 
de um momento para o outro, avultado numero de feridos. Ti- 
ve então ensejo de vêr que tudo já estava preparado e a postos, 
devido ao cuidado do colega de serviço, Vasques Machado, que 
igualmente tivera aviso de que n'essa noite seria o movimento 
Tratei imediatamente de avisar os meus colegas d'este Posto.. 
Só consegui encontrar o colega Henrique Sanguinetti. A Corvi- 
nel Moreira não tive tempo para o procurar e Simões Ferreira 
achava se em Cascaes, sendo-me impossivel avisal-o. Para o posto, 
a fim de nos ajudar, veiu comnosco o dr. Isaac Anahory, cujo 
concurso muito útil nos foi. Logo a seguir ás primeiras descar- 
gas entraram os primeiros feridos. Já não os pudemos tratar no 
Posto; a nossa estada ali era perigosa, por causa das balas, que 
entravam pelas janelas. Resolvemos então ir para a parte cen- 
tral do edifício. Em menos de uma hora, devido á boa vontade 
de todo o pessoal menor, enfermeiros, enfermeiras e criados, fo- 
ram transferidas as recolhidas que estavam na enfermaria de 
Santa Vitoria, e ali armadas 25 camas em condições de rece- 
berem os feridos. Da chamada Sala da Receita fez-se casa de 
operações, para onde se transportou todo o material cirúrgico 
do Posto. Na manhã de 4, apresentaram-se o dr. Corvinel Mo- 
reira, e o enfermeiro Alves, que, com muita dificuldade, conse- 
guiram chegar até ao Posto; egualmente se apresentaram os 
farmacêuticos António Silva e Aguiar Saldanha. Com a conti- 
nua afluência de feridos, a breve trecho estavam ocupadas todas 
as camas da enfermaria de Santa Vitoria, vendo-nos obrigados 
a transformar o refeitório em nova enfermaria, onde mais 20 
camas se armaram. Um dos problemas dificeis foi a alimenta- 
ção para os doentes, principalmente o leite. De tudo se encarre- 
gou o ecónomo sr. Seromeoho, havendo-se de forma tal que não 



268 ARMANDO RIBEIRO 



faltou o indispensável, sendo n'isto, como em todos os serviços 
a seu cargo, digno dos maiores elogios. Como durante toda a 
manhã a Misericórdia tivesse sido alvejada e fossemos informa- 
dos de que havia tenção de bombardear o quartel do Carmo, 
resolvemos içar na Misericórdia a bandeira da Cruz Vermelha. 
Precisávamos que soubessem e vissem que estava ali um hospi- 
tal de sangue com grande numero de feridos, cuja vida era for- 
çoso respeitar. 

cNa noite de 4 de outubro apareceu, para nos ajudar, o 
coltga dr. Artur Ravara. Foi na madrugada de 5 que o traba- 
balho foi mais extenuante e a nossa situação mais critica. Uma 
granada, tendo deitado abaixo uma parte do tecto da enferma- 
ria de Santa Vitoria, matou um doente e feriu outro. Vimo nos 
na necessidade de abandonar a enfermaria e transportar os feri- 
dos para o corredor que se segue ao refeitório. Ainda aí não pu- 
demos ficar; uma outra granada, entrando pela clarabóia, mos- 
trou nos que a nova situação não era menos perigosa. Resolve- 
mos então vir para os corredores abobadados do rez-do chão, 
onde ficámos até á hora da proclamação. Como tivesse havido 
pânico entre as internadas da Misericórdia e receássemos pela 
vida de tantas mulheres e creanças, resolvemos abrigai as n'um 
dos subterrâneos. Em todos estes serviços foi incançavel o dr. Ar- 
tur Ravara, que muito nos ajudou com a sua boa vontade, pro- 
ficiência e sangue frio. Uma vez tudo serenado, transportámos 
novamente os feridos para as enfermarias do primeiro and8r c 
Pelo meio dia do dia 5, seguidamente ás ultimas descargas do 
Alto da Avenida, entraram-nos mais cincoenta e cinco feridos, 
que nos obrigaram a armar mais 20 camas na casa que se des- 
tina a enfermaria do isolamento. O numero de feridos, de que 
consegui tomar nota, foi de 1 55 e o de mortos de 14. Ficaram,, 
do dia 6 em deante, 42 feridos em tratamento nas enfermarias. 
Tanto eu como os meus colegas tencionamos apresentar a v. ex. â 
o relatório clinico para ser publicado no relatório dos serviços 
médicos d'esta casa de Misericórdia. E' com verdadeiro prazer 
que participo a v. ex. a que nada faltou de material de pensos 
j^este Posto, que mostrou estar em condições de receber um nu- 
mero muito maior de feridos, São dignos do maior elogio os 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 269 

farmacêuticos António Silva e Aguiar Saldanha, os enfermeiros 
Alves, Costa, Ferreira e Mousinho, os srs. Trindade Alves e An- 
drade Corvo, que auxiliaram o serviço de enfermagem, serviço 
verdadeiramente exaustivo, que durante dois dias não lhes per- 
mitiu um momento de repouso, nem sequer uns minutos para 
uma ligeira refeição. Da mesma forma, para as enfermeiras Ma- 
ria Serrão, Maria Onofre, Laura Couto e para todas as ajuda n- 
tas da enfermaria das mulheres e crianças da Misericórdia, cha- 
mo a atenção de v. ex. a ; exerceram os seus serviços por tal forma 
e com uma coragem tão fóra do vulgar, que são merecedoras 
dos maiores encómios. Egualmente são dignos de louvor todos 
os creados. — Lisboa, 20 de Dezembro de 1910. — José da 
Silva Ramos.» 

A bandeira da convenção de Genebra, não foi assim respei- 
tada, embora desculpar se quizesse o acto com um falso ataque 
da artilharia, por S. Pedro de Alcântara. 

A extranheza do tiroteio deu azo ainda a outros boatos sem 
base. 

Affirmou-se (*) effectuado um combate na Rua de D. Pedro V 
entre os núcleos antes dispostos em S. Pedro de Alcântara e um 
troço de artilharia sahido da Rotunda, que puzera as tropas rea- 
listas em debandada. Do acampamento rebelde nada sahiu, po- 
rém, mantendo-se o anterior municiamento e guarnecimento^ 
a despeito de o coronel Alfredo Albuquerque declarar: (**) 

«Essa metralhadora não foi vista. O ataque deu-se efectiva- 
mente do lado da Praça do Principe Real. fazendo-lhe frente a 
soldadesca de intantaria da guarda municipal, mas os revoltosos 
nunca avançaram para aquém da dita praça». 

O choque, se se deu, pois nenhum dos grupos rebeldes com 
chefia, o assignala, constituiu apenas ligeira represália de ele- 
mentos dispersos, sem commando especial. 

Esse incidente, não se deu, pois, entrando no numero das, 
phantasias espalhadas durante a sedição. 



(*) O Mundo de 12 de Outubro de 1910. 
(##) Os Cem Dias Funestos. Pagina 270. 



370 ARMANDO RIBEIRO 



Desguarneceram-se portanto essas alturas, antes consideradas 
perigosas se tomadas íossem pelas tropas em revolta. 

Voltando ao anterior posto, as praças de lanceiros desmon- 
taram logo, sendo dispostas com carabinas, no largo do Carmo 
e embocaduras, e auxiliadas pela municipal. 

Interferindo mais directamente n'esses núcleos ficou o te- 
nentecoronel da guarda, Alfredo Ferreira de Souza Alvim. 

Ia aclarando, como se as trevas fossem sendo afugentadas 
pelo canhoneio e fusilaria a esboçar-se além. 

A situação viu-se mais critica. 

O que se passava, para lá do Campo de Sant'Anna, d'onde 
parecia provir o bombardeamento ? 

Algumas granadas dos rebeldes cahiram no largo do Carmo. 

Sob parecer dotenente-coronel Sousa Alvim, o coronel MaW- 
quias de Lemos, mandava retirar as forças para dentro do edi- 
fício, cujas portas foram encerradas. 

Julgou-se chegado o fim. 

Não o era ainda n'essa hora, apenas por entrave opposto, no 
limite das suas forças, excluídas do sobrehumano, pelo único que 
de alma e coração combateu em prol da monarchia : Paiva Cou- 
ceiro, 




2o- 



A MANHÃ DE 5 DE OUTUBRO 



A PROCLAMAÇÃO 







r, 



^K 




y^ 



i 



O derradeiro ataque das baterias de Queluz— Nos altos 
do Thorel — Aspectos da Rotunda — O grupo de def- 
fensores — Machado Santos e o ataque do Thorel — 
Supremo lance — A intervenção allemã — Divergên- 
cias e terrores— O negociar do armisti cio — Lance 
ganho. 



L hegámos á manhã de 5 de Outubro. 

As primeiras claridades, dúbias ainda, co- 
lheram no seu posto firme, as peças do cominan- 
do do capitão Henrique de Paiva Couceiro. 

O sol, quando despontasse, vincando de oiro 
o azul do ceu lindo de Portugal, e em chispas 
radiosas fosse innundar de luz viva as ruas da 
sua capital, assignalaria, cem o fim de uma monarchia, o come- 
ço de uma illusão a destazerse breve. 

A existência lusa ia envolver-se n'uma embriaguez de enthu- 
siasmo, de que não tardaria a querer dessoltar-se. 
▼ot. ir- fl. 35 




274 ARMANDO RIBEIRO 



Mas, 10 desapertar os pulsos das manilhas férreas que lh'os 
cingiam, segundo apresentado aspecto, não sentiu o reenca- 
deiamento a formar se, sob o sorriso benévolo de uma promes- 
sa que, só ao ser exigida, reconheceu assente em movediço ter- 
reno de conveniências. 

O futuro, que aliás indeciso era, quasi o preadvinhou Paiva 
Couceiro, querendo aftastal o, mas com o inútil do extorço hu- 
mano, sempre frágil ante os dictames do Destino, ante a força de 
Deus. 

Se uma creança que quebra um vime não liquida um tronco 
secular, como lograria o homem, sempre misero ante o poder 
de Deus, derrubar o mandato collossal d'este, que para elle está 
como a arvore centenária para as mãos flebeis de quem recem- 
viu a luz solar? 

Paiva Couceiro significava pois um exemplo notável da fra- 
queza humana. 

Collosso em energia e em fé, em audácia e em heroísmo, 
não conseguiu vencer o reíiuxo fatal que abaixo deitou o throno. 

Só pelas duas horas da madrugada, apoz um rápido conse- 
lho, se resolveu no commando da divisão aproveitar de novo os 
serviços do destemido official. 

Avisado, deixava elle o posto no começo da Praça dos Res- 
tauradores, para receber ordens transmittidas pelo chefe do es- 
tado maior. 

Por ellas, devia aprestar tudo para que, antes do romper da 
manhã, reproduzisse, do pateo do Thorel, a acção que se não 
conseguira levar a bom ofteito dos altos da Penitenciaria. 

Como se aguardava um desembarque da maruja revoltada, 
em acção conjuncta com a Rotunda, convinha deixar três das 
peças para obstáculo a essa tentativa. 

O commandante das baterias retiral-as-hia pois das embo- 
caduras da Rua Augusta e da do Ouro para a da Avenida, pro- 
cedendo, do Campo de Sant'Anna, com uma. 

Paiva Couceiro nem uma contracção teve ao irrisório plano. 

Se as faces o não mostraram, sentia-o porém o coração, ad- 
vinhando-se joguete de um projecto in:oncebivel, mas dedesfa- 
vorabilidade á sua causa. 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 2/5 

—■ — ' 7 ' • ' 

Mal refeito da triste surpresa da extranha retirada do 
Alto das Necessidades apenas disse duas palavras: 

— Lá estarei ! 

Emquanto uma parte de cavallaria 4 e um esquadiao da 
municipal, seguiam, em reconhecimento de terreno, pela Calça- 
da do Garcia e de Sant'Anna, até ao Thorel, o capitão, com o 
tenente Albino Penalva de Figueiredo Kocha, ia dirigir os tra- 
balhos de collocaçao de duas peças junto ás metralhadoras que 
estavam á entrada da Avenida. 

A*s 3 horas estava concluída a tarefa, ao tempo que se reco- 
nheceu acharse desempedido o caminho. 

Com a serenidade e a boa vontade de agir, Paiva Couceiro, 
procedeu á distribuição das munições. 

Escapou lhe uma phrase incorrecta, mas de commentario 
efficaz á situação que lhe preparavam. 

Apenas lhe foram fornecidos elementos para 28 tiros por 
peça, ou a totalidade de 112, como resto de balas disponíveis. 

Seguiu comtudo, com a única concedida peça e o largo 
municiamento de 28 balts. 

Galga o itinerário marcado e installa-se no jardim da casa 
do conde de Castro Guimarães (Manuel). 

Ali se aguardou o romper da alva. 

Traria esta dolorosa surpreza para os defknsores, leaes, da 
realeza. 

Paiva Couceiro seria um vencido, mas sei o hia com a jus- 
tiça de heroicidade, reconhecida pelos próprios adversários. 

Quando ia iniciar o lance de armas, procurou com a vista 
as forças que lhe haviam promettido para o auxiliar. 

Era a reprodução exacta da scena pouco tempo antes dsda 
com Alfredo Albuquerque na cumeada de S. Pedro de Alcântara. 

Apenas o esquadrão da guarda municipal, do comirmndo 
do tenente Raul de Menezes, que, como já vimos, fora o chefe 
da escolta que até á estrada da Pimenteira acompanhou D. Ma- 
nuel II. 

Parecendo singular que a tentativa a fazer, apenas ccmmet- 
tida fosse a uma metralhadora, Raul de Menezes, transformou 
em numero maior o reduzido etfectivo: 



276 AB MANDO RIBEIRO 



<tDe manha fomos para o Campo de Sant'Anna onde nos 
encontrámos com Paiva Couceiro e a sua peça, duas metralha- 
doras de caçadores e um pelotão de cavallaria, ponto onde esti- 
vemos até á proclamação da Republica.» (*) 

De facto, o official teve ainda de deixar três das peças da 
sua bateria junto á Avenida, o que depõe contra a existência 
das metralhadoras de caçadores no Thorel. 

Cita-o testemunho idóneo, (**) confirmado pelo dirigente 
da acção: 

«Chegados ao pateo do Thorel installaram-se dentro do jar- 
dim do sr. Castro Guimarães, onde o romper da manhã os foi 
encontrar promptos para o fogo. Avistava se o terreno da Rotun- 
da e os tiros puderam assim realisar se com efrlcacia perfeita- 
mente visível. 

— «Sim! effectivamente o effeíto d'esses tires devia ter sido 
excellente, pois que, como se sabe, essa única peça que estava 
no Thorel foi considerada pelos revoltosos como sendo as bate- 
rias de artilharia 3, fazendo fogo do Campo de Sant'Anna. De 
artilharia 3 que, como sabe também, não chegou a passar de 
Villa Franca de Xira!» 

Reforça ainda esse depoimento, outro livro, (••*) dizendo: 

«Ao romper da manha, Paiva Couceiro achava se no jardim 
do conde de Castro Guimarães, no pateo do Thorel, com a 
única peça de que dispunha, tendo deixado as três restantes no 
Rocio, postadas á entrada da Praça dos Restauradores.» 

Ao raiar do dia, Paiva Couceiro, analysou o posto. 

Seria explendidamente oflensivo, se o garantisse a devida 
força e o respectivo municiamento. 

Assim, era até inutilmente deffensivo. 

Todavia, o official de Africa, com o tenente Albino Pe- 
nalva de Figueiredo Rocha, fizeram os primeiros tiros. 

A Rotunda, desnorteou se e á queda das granadas, com 
os boatos espalhados de uma simultaniedade de ataque, não fe 



(*) O Século de Vô de Outubro de 1910. 

(*#) Joaquim Leitão — Diário dos Venciios, pagina 212. 

(###) Do desafio á debandada — i.° volume — pagina 68. 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 277 

só pontaria para o Campo de Sant'Anna, como S. Pedro de 
Alcântara, Graça e outros pontos. 

A resposta ás balas despedidas pela iorça de Paiva Coucei- 
ro, nunca attingiram o alvo, por não haver sido verdadeira- 
mente descoberto pelos revoltosos. 

Nenhum relatório o occulta, e o do tenente Mauro do Car- 
mo, indica mesmo logares d'onde nem houve ataque: (•) 

«Foi atacado pela artilharia de Queluz, do Thorel, Graça e 
S. Pedro de Alcântara; muitas granadas rebentaram e se enter- 
raram na Rotunda e Campolide, alguns estilhaços de granada e 
baias produziam estragos, mas não toram estes tão importantes 
que não prohibissem de fazer a derrota que muitos presencea- 
ram. A peça que o inimigo collocou na Graça ao primeiro tiro 
que para lá se mandou, deixou de tazer fogo porque a guarni- 
ção fugiu. Do Thorei a artilharia fez fogo e por informações 
bem seguras soube que o coronel de cavallaria 4 estivera gra- 
duando as granadas e as peças e fazendo fogo (e de nada lhe 
valeu o expediente que mais tarde pretendeu tomar) mas a Ro- 
tunda de sua linha de fogo que lhe fazia frente, mandou-lhe 
dois tiros que os obrigou desde logo a perder a força ao mesmo 
tempo que de Campolide os atacavam também muito principal- 
mente com a força dos que era chefe o sargento Firmino Rego 
e na qual também estavam o i.° cabo n.° 32 da companhia de 
telegraphistas de praça, que em varias vezes esteve como chefe 
das mesmas peças, e como apontadores o soldado n.° 18 da 7.* 
bateria e outras praças que já passaram á reserva.» 

Por seu turno, o trabalho da metralhadora do Thorel não 
teve efteito sensível na Rotunda, onde aliás estabeleceu pânico. 

A* i8. a granada, renovava-se a scena dos altos da Peniten- 
ciaria. 

A galope desfechado, entrava no jardim uma ordenança do 
quartel general, que nas mãos do capitão depunha uma ordem 
para cessar hostilidades, por haver sido concedido armistício de 
uma hora para embarque dos allemães residentes em Lisboa. 



(#) O Intransigente de 11 de Outubro de 1912. j 



278 ARMANDO RIBEIRO 



Determiaava-se-lhe assim o regresso ao quartel do largo de 
S. Domingos. 

Couceiro, tinha ainda dez balas para empregar. 

Se a retirada da quinta do Seabra o chocou, aquella já me- 
nor abalo lhe fez. 

Comprehendeu, mas ainda obedeceu. 

Poz se em marcha, com a mesma lentidão com que o fizera 
na tarde de 4, á ordem do general Carvalhal, para abandonar o 
ataque á Rotunda. Do Thorel á Calçada da Graça, o trajecto foi 
demorado. 

Era o presentimento a segredar lhe que já não eram neces- 
sárias pressas. 

Viu-o ao chegar ao cimo da Calçada, d'onde se avistava o 
Rocio. O povo confraternisava já com a tropa. 

O sonho de. manter a realeza começou a esboroarse no cé- 
rebro do intrépido capitão. 



Antes de descrevermos os successos que originaram essa 
confraternisação no Rocio, vamos registar os factos succedidos 
na Rotunda, ao ataque do Thorel e suas consequências. 

Ao aviso de uma mais forte investida, se para alguns houve 
o apresto, para muitos houve a deserção. 

Era o momento em que Machado Santos, para manter a 
combinação feita com os navios, por intermédio do dr. Malva 
do Valle, ordenou o começo de fogo contra as forças do Rocio. 

N'essa altura a guarda municipal, lez, de S, Pedro de Alcân- 
tara, uma descarga. 

O núcleo defensor da Rotunda, desmembrou-se, abando- 
nando quasi o cadete da Escola do Exercito, Viriato Correia de 
Lacerda, attingido por uma bala que lhe roçava a testa. 

Dispersos andavam os outros cadetes, que, á inútil tentativa 
para virem sob commando dar o seu appoio á revolta, haviam 
tugido, de madrugada, da Escola, vindo reunir-se aos seus ca- 
maradas Correia de Lacerda, Humberto de Athayde Ramos e 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 2/ ( J 



Oliveira e Manuel Fernandes Beirão, que desde a noite ali esta- 
vam. 

Do grupo faziam ainda parte os cadetes, Sarmento Pimen- 
tel, Filippe Tribolet e António José Soares Durão, mencionados 
com elogio ns relatório do tenente Mauro. 

O ultimo, depois aspirante de infantaria 34, iria até ao tri- 
bunal militar territorial, sob accusação de indisciplinado, feita 
pelo tenente Francisco Rodrigues da Gosta Baptista. 

Durante os exercícios em Atalaya de Alemquer (23 de abril 
de 191 3a o tenente notando o aspirante de brincadeira com os 
soldados, reprehendeu-o. Resposta desabrida teve e, retrucando- 
Ihe, ainda o aspirante o fazia cahir, num encontrão dado een 
plena formatura. 

Levado o acto de indisciplina a juizo militar, o tribunal, 
reunido (10 de julho de 1914) absolveu o, attendendo ao com- 
portamento anterior, aos bons precedentes como republicano e 
aos mezes de prisão soffrida. 



Suppoz-se que a fuzilaria ia continuar, e reorganisado o 
posto de ataque, rlzeram-se para S. Pedro de Alcântara, os pri- 
meiros tiros de peça, pelas da linha central, Parque Eduardo VII 
e a collocada á porta do Quartel de Campolide. 

Julgandose atacados pela artilharia ali disposta, erro que 
mais tarde se manteve e até em livro (Da Monarchia d Re- 
publica, pagina 67) para os altos de S. Pedro, foram projecta- 
das algumas granadas. 

Breve entrava em toco, a artilharia collocada na embocadura 
da Rua do Principe. 

Mal graduada a alça, o primeiro tiro não chegou ao acam- 
pamento, cahindo a 5o metros da sua posição. 

Todavia, de roldão se fez o escoamento para as ruas lateraes 
e Avenida Fontes Pereira de Mello e Braancamp. 

Pouca gente se conservou no logar que, antes, de bom gra- 
do havia tomado. Além dos nove sargentos, firmes da primeira 
hora de desanimo, poucos ali se mantiveram. 



280 ARMANDO RIBEIRO 



A barricada ficou, como muitas vezes esteve, em condições 
da tomadU sem custo. No sitio central, a face olhando a Ave- 
nida, estavam além do alferes Brandão e tenente Mauro, o i* 
cabo conductor de artilharia, José Lopes Moleiro e um soldado; 
actuando com a peça do centro, o 2° marinheiro artilheiro 
n.° 4o5o, Miguel Fernandes e o civil José Callado de Almeida, 
á peça da esquerda e um grupo de paisanos por detraz das cha- 
pas de zinco. 

No alto do Parque estavam os sargentos Mathias dos Santos 
e Francisco Garça Tereno e o ferrador Bento Vaz. 

Defrontando a linha do Thorel, actuava o sargento Ernesto 
Joaquim Feio. 

Junto á parte que deitava para a Avenida Fontes Pereira 
de Mello, collocara se o 2.° sargento da marinha, António Au- 
gusto de Almeida. 

D*este informa o tenente Mauro no seu relatório: (*) 

«O 2.° sargento do corpo de marinheiros d'Armada, Antó- 
nio Augusto de Almeida, que dirigiu a linha de fogo Avenida 
Fontes e que comquanto o serviço de artilharia n'este local fosse 
pouco, esteve e andou debaixo de logo na noite de 4 para 5, 
prestando aparte d'isto, outros serviços. Pelo motivo de estar de- 
tido no quartel general só lhe foi possivel fazer a sua apresenta- 
ção na Rotunda em 4 próximo das 7 horas da tarde.» 

Na linha de fogo, frente á Penitenciaria, junto á porta dê 
artilharia 1, o 2. artilheiro da Armada 2692, César Correia. 

Frente a Campolide, com o sargento Firmino Augusto da 
Silva Rego, os chefes civis, Jorge de Carvalho, Manuel Braz 
Simões, João Gomes Froes Júnior e Alfredo Gomes Froes. os 
I. 08 cabos 32 da companhia de telegraphistas da praça, Calhxto 
Morgado, e 25 da 8." bateria, Manuel António e servindo de 
apontador da peça o soldado 18 da 7.* bateria. 

Morgado, teve á victoria ganha, a promoção a i.° sargento 
para a guarda republicana. 

O tenente Mauro do Carmo, que esteve na linha de togo da 



(*) O Intransigente de 7 de Outubro de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 281 

Avenida, manifestou-se no seu relatório, la elevação a i.° 

-sargento, dizendo: 

aE* actualmente i.° sargento da guarda republicana e não 
•acho que esta promoção seja compativel com os importantes ser- 
viços que prestou e á enorme dedicação que provou pela repu- 
blica sendo chefe encarregado do posto óptico do regimento de 
artilharia n.° i, podia com muita facilidade ter feito lograr o 
movimento pois estava na sua mão ter o antigo governo conhe- 
cimento do plano da revolta que soube com a devida antece- 
dência e por meio do serviço de lanternas com que fazia serviço 
todas as noites e com o fim especial de terem um meio de com- 
munícaçoes no caso de uma revolta inesperada, e que os revol- 
tosos cortassem os fios. Além de se prestar a inutilisar os appa- 
relhos, deu com a devida antecedência a entrada no quartel a 53 
individuos da ciasse civil e armou-os dento de uma sala do re- 
ferido posto óptico e para com elles conseguir a prisão dos ofrl- 
ciaes de artilharia I. Algumas vezes durante a campanha esteve 
á testa de uma peça no Parque Eduardo VIL 

Não foi alterada porém a cathegoria do premio, succeden- 
do o mesmo ao cabo Manuel António, collocado, no mesmo 
posto, na guarda republicana, embora o tenente Mauro, para 
elle propuzesse em 1912, c de 2, sargento. 

N'um dos logares principaes, estava ainda o aspirante de 
marinha, Adolpho Trindade, 

Mais tarde, pelo deputado Inno-encio Camacho, era presente 
á Assembleia Nacional Constituinte, (**) um projecto de lei con- 
firmando as promoções feitas pelo governo provisório da republica 
e propondo o grau de cavalleiro de Torre e Espada, com a pen- 
são vitalicia de i5o$OCO réis ao aspirante Trindade. 

A campanha sobre galardões, tudo postergou. 

Um dos primeiros a erguer a voz contra as recompensas, 
íoi o deputado José Affonso Palia, e completando esse pensa- 



(*) O Intransigente de 16 de outubro de 1912. 
(*#) Sessão n.° 16 de 7 de Julho de 19U. 

VOL 1Y — FL. 36 



282 ARMANDO RIBEIRO 



mento, o major Sá Cardoso, (*) declinando todo e qualquer 
premio, 

Seguiu-se-lhe o deputado Joaquim Ribeiro, fazendo notar 
que tudo daria a noção falsa de se haver innundado de ouro o 
paiz á simples proclamação da republica. 

Tudo originou o fracasso quasi geral de todas as propostas 
e Adolpho Trindade, apenas teve depois (abril de 19 14) o car- 
go, de confiança, de governador civil do districto de Angra do 
Heroísmo. 

N'outro ponto do campo aberto ao fogo da bateria de Que- 
luz, estava ainda o soldado telephonista de engenheria, Virgílio 
Maria da Encarnação que, pelo seu valor, teve, á hora dos pré- 
mios, o posto de i.° sargento, com retrocesso, no momento das 
reclamações ao de 2. sargento, de que pouco gosou, vindo a 
fallecer em Africa em junho de 19 14. 

DeflBciente era todavia o grupo defíensor do acampamento 
e até pela fuga dos civis. 

O sargento de engenharia Manuel de Oliveira, collocado á 
peça do lado do Rato, em Valle de Pereiro, tentou oppor-se á 
sua dispersão. 

A fuga, louca, de vários dos soldados e paisanos, continuou, 
e emquanto uns, empurrando o sargento, procuravam furtarse 
ao combate, enveredando pelos arruamentos fora do acampa- 
mento, e se iam esconder nas trczeiras dos prédios que o ro- 
deavam, a maioria foi refugiarse no hospital de sangue. 

Houve um compasso de espera e o sargento, annotando 
que o projéctil se não detonara dentro, mas áquem do reducto, 
julgou o tiro erro de graduação do sargento Mathias dos Santos 
e, para n'um explicar de situação, trazer aos seus postos os fu- 
gitivos, galgou até ao alto do Parque Eduardo VII, onde aquel- 
les se encontravam. 

Desfazia se o equivoco. 

O ataque partia do principio da Avenida. 



(♦) Sessão n.° 15 de 4, 6 e 7 de Julho de 1911 da Assembleia Nacio- 
nal Constituinte. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 283 

O sargento Manuel de Oliveira, sabedor emfim de que a 
contar estava com um resurgir de hostilidades, rápido voltava 
ao seu logar, que manteve firme. 

O tenente Mauro do Carmo, propunha, no seu relatório, a 
promoção ao posto de alferes. 

Desfazendo ainda mais as duvidas, uma segunda granada 
attingia o carro de munições onde se abrigavam alguns dos re- 
voltosos e logo outras iam cahir ao cimo da Rotunda. 

Cahiam feridos n'uma perna, o soldado n.° 83 da 3 a bate- 
ria de artilharia, Arsénio Rasteiro, de 21 anos, e com um 
braço esmigalhado, um civil, João Maria Casaca. 

Gritando para que o ajudassem, o soldado só decorridos 
dez minutos logrou que dois paisanos, até então occultos á es- 
quina da Avenida Braamcamp, o viessem erguer, e conduzir ao 
local de curativos, repleto de foragidos e onde a custo pene- 
trava. 

Ao inicial tratamento, reconhecido grave o ferimento, era 
transportado para a enfermaria de Santo António do hospital 
de S. José, d'onde sahiu dias decorridos, á republica feita. 

Arsénio Rasteiro, á victoria conseguida, era incluido na lista 
promoções, como collocado em primeiro cabo. 

Incorporando se no numero dos descontentes, sahia do ser- 
viço militar, fornecendo depois elementos para o já aqui citado 
c memorável discurso do capitão José Affonso Palia, na sessão 
do Senado de 24 de Janeiro de 1913. 

O quarto tiro, que cahira junto do theatro Júlia Mendes, 
evidenciando o proseguir da lueta, não fez voltar aos seus loga- 
res, os transviados. 

Segundo o i.° cabo José Martins, a granada que explodiu 
junto do theatro, foi ã primeira, allegação contrariada sob mais 
veridicas bases pelo alferes Camacho Brandão. 

De facto, desculpável é o erro, visto que José Martins, tendo 
ido a curativo, regressou apenas ao logar no momento em que 
o quarto tiro era feito contra a Rotunda. 

Apoz este, houve um interregno, curto, cortado logo por 
outras granadas, visando Campolide. 

Desorientadamente, não lhe assignalaram o ponto de par» 



284 ARMANDO RIBEIRO 



tida, quando pelo local de preferencia attingido, relembradas 
deviam ser as peças de Queluz. 

Era a mesma artilharia, do Thorel. 

Era Paiva Couceiro, manobrando. 

Não descoberto o poiso, as balas da Rotunda, visavam to- 
dos os altos, desde S. Pedro de Alcântara á Graça. 

Foi alcançada a Calçada do Monte e o largo de egual nome. 

Ao hospital de S. José foram mesmo parar algumas grana- 
das, e estabelecendo o alarme na enfermaria de Santa Joanna, 
tiveram os doentes de ser transportados para outra. 

Fazia fogo ininterrupto, embora perdido. 

Attingido depois de disparar três tiros, tinha de deixar a li- 
nha, o marinheiro Miguel Fernandes. 

A' victoria ganha era lhe proposto, pelo tenente Mauro, o 
posto de i.° sargento. 

Proseguiu a investida, já pelas peças de linha da Avenida, 
já pelas do Parque Eduardo VII e Campolide. 

Da oficialidade, o alteres Camacho Brandão, mantinha in- 
concebível serenidade. 

Ao lance conseguido, teve proposta para ascender a capitão 
o que se não consummou, ficando 8 penas com o louvor pelo 
acto de auxilio á revolta. 

A's constituintes (sessão de 7 de julho de 191 1) veio o pro- 
jecto de concessão do grau de grande oficial da Ordem de Tor- 
re e Espada, com a pensão de goo$ooo reis. Um projecto de 
lei foi também apresentado (7 de março de 1912) em camarás 
pelo deputado António Granjo, arbitrando ao então tenente Al- 
berto Camacho Brandão, aa pensão annual e vitalícia de 
i:200$000 livres de todos os descontos pelos serviços relevan- 
tes prestados á Republica na manha de 4 e 5 de outubro.» 

Nada seguiu porem, pelas constantes controvérsias erguidas- 
em volta das recompensas aos revolucionários. 



Couceiro, reeditou a orientação dos altos da Penitenciaria e 
atirou sobre Campolide, 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 28$ 

A resposta veio, infructifera todavia, por se não ter assigna* 
lado o local d'onde partira o ataque. 

Depois, a peça do Thorel visou o Parque Eduardo VII. 

Este, egualmente mal guarnecido estava. 

O i.° sargento Francisco Garcia Tereno, apenas tinha junta 
de si um quarteleiro dos serventes da 6 a bateria, quando de seis 
auxiliares precisava. 

Muitos mais tivera, mas haviam procurado refugio nas tra* 
zeiras dos prédios que envolviam a Praça Marquez de Pombal. 

Ccmtudo retorquiu ao cartel de desafio. 

Acceite pelo chefe das baterias de Queluz, sobre o Parque 
imperou o mais forte do tiroteio, ficando em parte livre a Ro- 
tunda, ou linha principal, onde estava o tenente Mauro, que in- 
formou (*) assim da situação da gente ali existente: 

«No combate principal, isto é, durante o grande ataque que 
o inimigo nos fizera em 5 de madrugada estive como já disse 
á testa da principal linha de fogo, e ahi reconheci não ser pre- 
ciso ordem alguma excitante por que o desejo dos nossos de- 
monstrou-se bem e instruía apenas sobre a maneira como 
haviam de proceder.» 

Vendo que o local das attençoes do inimigo era o Parque, 
Machado Santos, a cavallo, transpunha o espaço que d'ali o se- 
parava e corria para junto da peça de Garcia Tereno, alvo pri- 
macial das granadas do Thorel. 

Isso forçou ao seu deslocamento, ficando mais recuada e in- 
clinada á direita, acto levado a cffeito com a ajuda de um civil 
que se decidiu a tomar parte no trabalho, a despeito de a em- 
briaguez lhe perturbar os sentidos. (**) 

O gado e soldados estavam abrigados em covas feitas na 
terra. 

N'uma rampa, cavada a pique, da altura de 4 metros ea 5 
de distancia da metralhadora, recolherase victima de contusão^ 
o tenente de caçadores 6, António Pires Pereira Júnior. 

O commissario naval, surgindo, a cavallo, no ponto mais as- 



(*) O Intransigente de 10 de Outubro de 1910. 

(##) Cita o caso o i.° sargento Gonzaga Pinto, a pagina 63 do seu Rela— 
tario. 



286 ARMANDO RIBEIRO 



sediado, offerecia grande alvo. Assim o comprehendeu o sargento 
Tereno, gritando-lhe a conveniência de desmontar ou de se re- 
tirar. 

Machado Santos, expunha-se temerariamente, ao ponto de 
quasi ser intimado a procurar abrigo. 

Àpoz ligeiras hesitações e vendo o tenente Pires Pereira, ia 
junto do seu refugio transmittir-lhe as impressões d*esse novo 
transe. 

Isso serviu, mais tarde, á hora das questões sobre heroicida- 
des, para a segunda parte da campanha contra o chete da Ro- 
tunda. A primeira, consistiu, como já vimos, nas accusaçÕes de 
haver querido desertar do local perigoso. 

A outra visou a sua attitude no instante do ultimo incidente 
com a bateria de Queluz. 

Machado Santos, teve a arguição de permanecer n'uma cova, 
durante o ataque do Thorel. 

Reproduziu o sargento Gonzaga Pinto, no seu relatório, (pa- 
ginas 64-66) o testemunho, n'esse sentido, do clarim 22 da 5. a 
bateria, Ernesto Armando de Albuquerque, do clarim 5, da i. a 
bateria, promovido depois a contra-mestre de clarins da guarda re- 
publicana, Raul de Figueiredo, do terrado! 22 da 2. a bateria, 
Bento Vaz e do clarim n.° 7 da 5. a bateria, depois premiado com 
o posto de mestre de clarins da mesma guarda, Arnaldo Au- 
gusto Quintas. D'este viria ainda o seguinte documento: (*) 

«Mais uma vez venho pedir um cantinho do seu muito acre- 
ditado jornal por causa de uma carta que toi publicada no 
Mundo do dia 24 do corrente e que tinha a data de a3 e que 
diz o seguinte: «Atârmo e juro que pelas 10 horas da manha 
do dia 4 de outubro estando na Rotunda, o sr. Machado dos San- 
tos dirigiuse a mim e disse-me: Rapaz, isto é uma causa per- 
dida e quem se quizer ir embora pode ir, que não ha salvação; 
ao que eu respondi: d'aqui ninguém arreda pé, ou a vida ou a 
morte». Pois tudo isto é talso; porque nada d*isto declarei. Ago- 
ra simplesmente o que declarei, íoi que tinha visto o sr. Macha- 



(#) Memorias dj T^evolução — Relatório do sargento revolucionário < 
artilharia i, Gonzaga Pinto. Pagina 93. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 287 

do dos Santos n'uma cova, porque o sargento T-reno, hoje te- 
nente da guarda republicana o tinha mandado retirar por estar 
a servir de alvo á bateria de Queluz por estar a cavallo. Agra- 
decendo a V. Ex. a a publicação d'esta carta, me subscrevo — 
Arnaldo Augusto Quintas, mestre de clarins da guarda re- 
publicana, 25-2 -91 it.(*) 

Dada toi esta carta como apocrypha, vindo á imprensa o 
desmentido (**) assim exposto: 

a Declaro que em seguida á publicação do jornal O SMun- 
do, relativa ao procedimento do sr. Machado dos Santos na Ro- 
tunda, este senhor chamou-me a sua casa e propoz-me que eu 
me retratasse do meu juramento; declarei-lhe terminantemente 
que não praticava tal infâmia; só dizia a verdade e mais nada. 
E em seguida retireí-me de sua casa. Mais tarde soube pelo meu 
camarada, contra-mestre de clarins, Raul do Figueiredo, que 
tinha escripto no Mundo uma carta assignada por mim, des- 
mentindo o meu juramento. Ora isto é talso, eu não escrevi essa 
carta. E se no tempo competente a tivesse visto, tinha*a desmen- 
tido immediatamente no jornal O Mundo, Intimo quem quer 
que seja a conferir a lettra d'esta carta que foi publicada no 
éMundo e ver-se ha immediatamente a mentira de tanta trapa- 
lhice. Rectifico escreveram em meu nome a carta de que não 
tui sabedor. — Arnaldo Augusto Quintas, promovido por 
distinção a mestre de clarins da guarda republicana». 

Já n'essa hora de apoz victoria, Machado Santos, se podia 
considerar derrubado do pedestal de gloria formado na Rotunda. 

O exaspero de uma situação nova, rodeouo de inimigos e 
a carta, indo pela negativa de Arnaldo Quintas, obra foi de mys- 
terioso accirrador da campanha contra o chefe da Rotunda. 

Mas não valia a pena o empenho de quebrar a affirmativa 
quanto á recolhida na cova, por intimativa do sargento Tereno, 
quando este, parecendo accusar Machado Santos,, lhe salienta um 
certo desprendimento, nas linhas de uma outra carta: (**) 

Vejamos o testemunho principal, accusador, do sargento 



(*) Obra e pagina citada. 
(##) Obra citada. Pagina 66. 



'288 ARMANDO RIBEIRO - 



-Garcia Tereno, incluído no Relatório do i.° sargento Gonzaga 
Pinto, pagina 66: 

«Declaro que estive a commandar uma secção no alto do 
Parque Eduardo VII, sobre uma esplanada na extensão de 200 
metros á frente da Feira de Agosto. A' rectaguarda da secção 
de uns dez metros de distancia, havia um corte de terreno, a 
prumo, de altura superior a seis metros. Na manhã de 5, a arti- 
lharia monarchica, collocada no Pateo do Thorei, debaixo do 
commando do capitão Couceiro, começou a bater a minha sec- 
ção que toi batida com grande intensidade. E eu tive de retirar a 
secção para o que me ajudou um individuo da classe civil que 
ali estava próximo quando esta e a artilharia parou com o movi- 
mento. N*esta occasião chegou ás terras o sr. Machado dos Santos, 
montado u'um cavallo. Na mesma occasião rompeu o fogo inimi- 
go, bradeilhe que se atirasse do cavallo abaixo ou apressasse o 
andamento; que viesse para aqui ou se escondesse. Respondeu me 
que me não importasse com elle e em seguida apeou-se do ca- 
vallo e sentou-se no alto das terras ao pé d'um sujeito que ali 
estava cahido e que antes nos ajudou a retirar a secção. Tornei 
3 dizer ao sr. Machado dos Santos: 

a — Tire se d'ahi: venha para aqui ou para a cova! 

<r Já então se encontrava ali o sr. tenente de caçadores 6, que 
julgo se chamava Pereira. O sr. Machado dos Santos, meneou a ca- 
beça e íoi para junto do tenente e lá esteve até terminar o fogo. 
No momento em que estávamos sendo fortemente batidos, o fer- 
rador Bento Vaz ajudou-me ao serviço e disse- me: 

c — Que lhe parece, m«u sargento, aquelles figurões lá em 
baixo escondidos e nós aqui estoirando com trabalho e ellas a 
zunirem aos ouvidos! 

cEu sorri-me e disse lhe: 

<c — Que se lhes ha de fazer é continuar e mais nada e dá 
cá granadas. 

«Quando a artilharia inimiga nos batia com grande força 
ouvi uma voz dizer: Faça alto fogo! Eu parei por um momento 
€ pensei. Por fim disse: Bolas! Eu também mando e continuei 
o togo. Esta voz foi dada pelo tenente de caçadores, julgo eu.' 
Continuei o fogo e em seguida deu outra voz semelhante e eu 



A REVOLUÇÃO PDRTUGUEZA 289 

não obedeci e continuei até calar o fogo inimigo. Sahiram da 
cova depois de terminar o logo». 

te~4Tereno, um dos nove sargentos da Rotunda e que em grupo 
photographico figura com Machado Santos, no relatório d'este, 
no mesmo apparece mencionado como um bravo e eximio ati- 
rador. 

Foi elle todavia com o sargento Mathias dos Santos o úni- 
co que, desliçandose do núcleo amigo que os nove haviam for- 
mado em roda de Machado Santos, veio, auxiliar a campanha 
contraria ao chefe da Rotunda. 

Os dois delfensores do Parque Eduardo VII, em elementos 
adversos a Machado Santos se tornaram, e ao encerrar da cam- 
panha, o sargento Mathias não desdenhou iniciar as hostili- 
dades em lance enérgico, onde, de pistola em punho ? formulou 
a ameaça de se transformar de republicano em anarchista pra- 
tico. (*) 

Não formula eomtudo violentas aceusaçoes, o documento de 
Garcia Tereno e antes se evidencia uma pressão exercida para 
que o commissario naval não fosse victima do ousado passo de 
manha até ao ponto de reconhecido perigo. 

O ferrador Bento Vaz, assignala no seu libello: 

«O ataque da artilharia inimiga, na manha de 5, collocada 
no pateo do Thorel, não foi á Rotunda, mas sim ás três peças 
que estavam no alto do Parque Eduardo VII.» 

Deduz se pois que, Machado Santos, estando na Rotunda, 
local não visado, querendo eximir se a contingências, lhe basta- 
ria manter se ali, não seguindo até ao Parque, batido pelas 
peças de Paiva Couceiro e junto da de Tereno, segundo o re- 
ferido Bento Vaz, atão atacada pelo inimigo que o pó desenvol- 
vido pela queda dos projecteis no terreno a envolvia completa- 
mente.» 

Pouco antes se dera ainda um facto, citado (**) pelo revolu- 
cionário José Dias dos Santos, um dos assaltantes do quartel de 



(#) Vide o 3.° volume d'esta obra, pagina 766. 
(##) O Intransigente de 5 de Outubro de 1911. 

VOL. IV — FL. 37 



290 ARMANDO RIBEIRO 



infantaria 16, e que tiraria o commissario naval de collisÕes, se 
elle o tivesse querido aproveitar. 

N'essa madrugada, leito de novo o terror, um popular ap- 
proximou se de Machado Santos, por entre o fogo que se cruza- 
va e disse lhe: 

— alem feito mais do que era possível fazer, tenho visto 
tudo. Mas d'aqui a pouco estará tudo perdido. Não pode haver 
esperanças. Com certeza não tem dinheiro para iratar de fugir. 
Aqui estão 200000 réis e se precizar de um cúmplice para 
o ajudar na fuga, para o ajudar a salvar a cabeça, conte co- 
migo!. . t> 

E depois, reavivada a lucta, sumiu se na linha de togo. 

O chete da Rotunda não utilisou essa nova cccasião de se 
eximir a responsabilidades, o que basta para enfileirar o caso 
succedido durante o ataque das baterias, no numero das conve- 
niências occasionaes. 

Machado Santos mesmo, não occulta a recolhida, expondo a 
{*) claramente e quasi ao mesmo tempo da publicação do re- 
latório de Gonzaga Pinto (fevereiro de ígi i): 

«As peças collocadas no alto da feira tiveram de mudar de 
posição, e Pires Pereira alvitrou que era melhor não responder 
ao fogo; condescendi; os soldados e o gado abrigaram st todos 
nas covas e eu fui conferenciar com Pires Pertiia, que tinha 
soflndo uma ligeira contusão e que também buscara um abrigo. 
Disse lhe que, apesar dos successos do dia e noite anterior, a 
nossa sitUÈçáo era angustiosa por se não ter eftcctuado ainda o 
desembarque dos marinheiros e que ia ordenar que se recome- 
çasse o togo para tentar desalojar a artilharia inimiga do Tho- 
rel e da praça dos Restauradores, para não desmoralisar os nos- 
sos soldados. Assim se fez e immediatamente as nossas baterias 
romperam de novo o fogo, obrigando o inimigo a calar o seu. 
Firmino Rego, Mathias dos Santos e Garcia Tereno mais uma 
vez se evidenciaram ptla coragem e sangue frio que mostravam, 
sustentando no alto da feira este renhido combate.» 

Machado Santos, comprehendendo que, a cavallo e com a 



(#) Relatório — Pagina 87. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 291 

sua farda, de dragonas, chamava para ali especiaes attençoes, 
desmontou e foi junto do tenente Pires Pereira, expor lhe a pou- 
co risonha situação. 

Contrariamente aos planos feitos, a armada não havia efle- 
ctuado o desembarque, e as torças do Rocio decerto se prepara- 
vam para o lance anal, rasgando caminho a artilharia. 

Cumpria, acatando o destino no seu desideratum, eflectuar 
uma resistência tenaz. 

O tiroteio seguiu, impetuoso. 

Comprehendeu se a inefficacia da resposta e deliberou se 
cessar fogo, poupando munições, só empregadas quando o ini- 
migo se propuzesse ao assalto a descoberto. 

A proposta, pelo tenente Pires Pereira para que se não res- 
pondesse ás granadas teve um curto retrahimento. 

Era já abdicar. 

O ccmmissario naval, condescendeu, no pensamento decerto 
de renovar o dudlo ao approximar dos contrários offerecendo 
desassombrado campo aos etfeitos mortiferos da artilharia da 
Rotunda. 

Mas, se elle acceitou o alvitre, os sargentos Tereno e Ma- 
thias dos Santos, apoz ligeira cbediencia ao mandado, optavam 
pelo proseguir da contenda e novos tiros se fizeram para todos 
os pontos d'onde se julgavam alvejados. 

Sem descanço, o 2° artilheiro naval n.° 405o, Miguel Fer- 
nandes, encarregou se de despejar granadas sobre o Thorel, in- 
ditferente ao rebentar das que d'aquelle alto desciam ao acam- 
pamento. 

Da linha de fogo feito á Penitenciaria, junto ao portão de 
artilharia i secundava-o o 2.° artilheiro da armada n.° 2692, 
Carlos Correia. 

Mencionou-os assim o tenente Mauro do Carmo, no seu Re- 
latório, propondo, para o primeiro, o posto de i.° sargento ç 
para o segundo, o de 2. sargento ou o cargo de continuo em 
secretaria do estado: 

«2.° artilheiro Miguel Fernandes — Esteve á testa da peça 
do lado oriental da linha de togo frente á Avenida desde 4 até 
6 mantendo um fogo vivo no maior ataque da madrugada de 5, 



292 ARVAKDO RIBEIRO 



e não temendo o fogo do inimigo do qual as balas passavam 
junto de si. Mostrou a maior coragem e valor militar. Conser- 
va se r.o posto que tinha. E* esperto, inttlligente e fiel á Repu- 
blica. (*) 

«2.° artilheiro Carlos Correia — Prestou vários serviços du- 
rante a campanha e esteve na linha de togo frente á Peniten- 
ciaria, porta do quartel, até 5. Coadjuvou o serviço de policia 
por algumas vezes dentro e tora do acampamento, mas próximo 
cTelle. Esteve também debaixo de fogo e c merecedor d f esta re- 
compensa; e prestará bom serviço entre os indivíduos com quem 
fôr lidar. E' de confiança e muito conveniente a sua collocação 
como proponho.» (**) 

A situação não foi alterada. 

Mantendo o combate, viram de súbito os paladinos da cau- 
sa democrática uma súbita interrupção da parte dcs contrários*, 

Reanimaram se, prevista já uma alcançada victoria. 

Proseguiram pois, para coroar esse sonho, tanto mais sober- 
bo quanto registado apenas havia sido dúzia e meia de tiros. 

Debalde aguardaram novo ripostar. 

O fogo de baixo e do Thorel terminara. 

Já sabemos os motivos. 

A ordem de cessar hostilidades, pelo plano machiavelico a 
que servira de instrumento, sem o saber, o delegado da Alle- 
manha. 

Mal interpretado foi o facto. 

Presumia se (*•*) victoria alcançada pelo ataque da re- 
beldia. 

A phantasia imperava no cérebro dos revoltados. 

Que seria d'estes, se se tivesse deixado manobrar, á vontade,, 
os dedicados á realeza e se o entrave á revolta não losse, em 
maioria, um simulacro?. . . 



(*) O Intransigente de 16 de Outubro de 1912. 

(**) O Intransigente de i7 deOuiubro de Itílí. 

(###) Relatório de Machado Santos, trecho airaz citado. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 29£ 

* Derrubando mesmo a visão d*um gigantesco reprimir do 
movimento, alguns rebeldes não hesitaram em carregar as tin- 
tas no quadro de inércia dos adversos, de apparencia, pois a sol- 
dadesca pouco disposta se encontrava, mercê de diverso incita- 
mento, a conceder auxilio á monarchia. 

Reproduz esse sentir o sargento José Mmins . (*) 
«A partir d'este momento (o ataque da cavallaria da muni- 
cipal) nunca mais a Rotunda íoi atacada por forças regulares.. 
Os tiros da Rua do Principe, pela artilharia inimiga, o mais 
baixo, deu na teira de agosto, no theatro de Júlia Mendes. Eu 
encontrei me sempre na rua Central da Rotunda, até ser pro- 
clamada a Republica, como apontador de peça que bateu o cen- 
tro da Avenida.» 

Ainda o ferrador Bento Vaz, promovido, á victoria feita, a 
mestre de ferradores da guarda republicana, assignalava que 
apoz a tentativa de 4 pela guarda municipal, «nunca mais as 
peças que estavam na Rotunda foram atacadas por artilharia.» 
O erro é flagrante, evidenciando-o es ataques pela bateria 
de Queluz, senão própria e especialmente á Rotunda aos pontos 
que com ella se ligavam. 

Todavia, serve para assignalar, com a reprodução do pen- 
samento de a repressão não haver correspondido á presumida 
violência, um vislumbre, para muitos, de alfastamento do locai 
onde a artilharia se não radicou efíeitos, loi pelo travão impos- 
to sempre nos instantes em que a obra repressora ameaçava ga- 
nhar terreno. 

O derradeiro, — e talvez derradeiro, porque o destino julgasse 
prescindível mais inútil esgrimir com os seus dictames, — surgiu* 
no alto do Thorel, pelo rescripto do commando da divisão, pro- 
curando o cessar de hostilidades quando tudo exigia o seu prose- 
guir. Que o acaso os estava a servir, ignoravam os rebeldes. 

Mixto de sur r reza e de receio, de alegria e de pavor, foi o 
approximar de um parlamentario, a todo o galope, e quando a 
peça da direcção do sargento Manuel de Oliveira disparava o seu, 
quinto tiro. 



(*) Relatório do 1.° sargento Gonzaga Pinto — Pagina 52. 



294 ARMANDO RIBEIRO 



Se muitos entreviram o fim, por um ultimafum % n 'alguns 
transluziu a esperança d'um armistício, por perdida contra cor- 
rente ao ideal da Republica. 

Venceram estes, porque os outros sonhadores eram, envoltos 
em pesadello, quando lhes sorria o todo de uma gloria, mais co- 
roando tenacidades, a sciencia de saber esperar, do que lances 
onde Mavorte audaz surgisse. . . 

• 
• • 

Havendo caducado o tiroteio, com curiosidade se aguardou 
o conhecimento da missão que até ali levara o emissário, escol- 
tado, a cavallo, por uma ordenança com bandeira branca e por 
um clarim. 

Do acampamento foi visto e como estrangeiro teve entrada 
franca. 

Era o encarregado dos negócios da Allemanha, que na sua 
lingua, sollicitava um armisticio. 

Não comprehendido pelos populares iam estes chamar c sar- 
gento Manuel de Oliveira, que pouco mais logrou. Disse se a 
entrevista objecto de acalorada discussão, onde não houve dis- 
tincções de cathegorias. 

Affirma o o revolucionário Manuel Ambrozio de Souza: 

«Na quarta ítira de manhã, Machado Santos recebeu uma 
carta d*uma legação estrangeira pedindo-lhe um armistic o de 
horas. Este facto deu origem a uma acalorada discussão em que 
tomaram parte tanto elementos da classe civil como da classe 
militar». 

Era certo. 

Manuel de Oliveira, conduzindo o delegado germânico para 
dentro do acampamento, e pensando em qualquer anormalidade 
que assumisse foros de ardil monarchico, deu tempo á chegada 
do tenente Mauro do Carmo e outros, mantidos em controvérsia 
sobre as intenções do estrangeiro. 

N'essa altura surgiu o commissario naval, a quem comochefe 
do campo rebelde, evidenciado pelas deíerencias dos outros, se 



A REVOLUÇÃO POKTUGUEZA 295 



dirigiu, em francez, o delegado allemão. Machado Santos, cha- 
mava par* junto de si o capitão tenente Lúcio Serejo e o enge- 
nheiro António Maria da Silva. 

O representante germânico apresentava uma carta do geie- 
ral Manuel Raphael Gorjão, reiterando o pedido de armistício 
leito para o embarque dos súbditos de Guilherme II. 

O commandante da Rotunda, pouco crente n'essa maravilha 
do accaso que o ia favorecer, e desconfiando também, pela opi- 
nião geral, de um ardil monarchico, começou per apoderar se 
da escolta do negociador diplomático, emquanto commettia ao 
engenheiro o encargo de attender o intermediário, sob a pitto- 
resca phrase histórica: 

— O* Silva, taze tu de ministro dos negócios estrangeiros da 
Avenida! Eu tomo a responsabilidade. 

António Mana da Silva, seria, á victoria obtida, premiado 
com o cargo de administrador geral dos correios e telegraphos 
pela aposentação dada ao respectivo director geral, conselheiro 
Altredo Pereira. 

Nasceu a escolha da ordem de trabalhos confiados ao 
engenheiro no mallogrado movimento de 1908: o delinear 
do mappa dos cortes das linhas telegraphicas e telephoni- 
cas. 

Era premio aos seus serviços revolucionários, que assim ap- 
pareceram descriptos: (*) 

«Este deputado tomou uma parte activa na preparação do 
malogrado movimento revolucionário de 28 de janeiro de 1908. 
Convidado por António José d'Almeida, actual ministro do In- 
terior, o engenheiro António Maria da Silva encarregou se do 
serviço de telephones e telegraphos do Estado tanto civis como 
militares marcando n'elle os cortes que julgou indispensáveis. 
Todos os revolucionários que tiveram conhecimento d'este tra- 
balho o applaudiram. Foi ainda incumbido por António José 
d'Almeida da inspecção da Artilharia Civil que ficou á sua 
guarda e dos commerciantes Neves e Martins Cardoso. A oífi- 
cina ou Laboratório ficou estabelecida na Calçada de S. Fran 



(#) As Constituintes de içii. 



^96 ARMANDO RIBEIRO 



cisco. Foi ainda o deputado António Maria da Silva quem esta- 
beleceu o plano de ataque aos quartéis da guarda municipal 
nomeando os grupos, instruindo-os, levantando plantas, etc. Para 
chefe d'um d'esses grupos, destinado a essaltar o quarul dos 
Loyos, o deputado Silva havia escolhido o regicida Alfredo Costa, 
que tinha por auxiliar a Buiça, Tendo §e dado a celebre íuga de 
Aquilino Ribeiro da esquadra do Caminho Novo, caso então 
muito fallado, o engenheiro Silva esteve sempre ao facto das di- 
ligencias que o governo de Joio Franco fizera para recapturar o 
fugitivo por intermédio de Annibal Lameiras, da estação tele- 
graphica Central de Lisboa,. Em 28 de Janeiro o engenheiro 
António Maria da Silva e o professor Ferrão distribuíram arma- 
mento e bombas aos revolucionários, que trabalhavam muito 
perto do quartel do Carmo, n'uma pequena loja de funilaria da 
Calçada do Sacramento — Em 1908 foi iniciado na Loja So- 
lidariedade do Grémio Lu\itano á qual pertenciam já o 
deputado José Carlos da Maia, oflicial de marinha, e Trindade 
Coelho. Em setembro do mesmo anno entrou com Machado 
Santos para a Carbonária portuguesa, sendo eleito pela Ven- 
da Joven Portugal, para fazer parte do comité a Alta Ven- 
da, datando d'essa época os trabalhos mais importantes e activos 
da aggremiação.As ramificações da carbonária que nos jornaes 
passaram a ser designadas por Associações secretas espalha- 
ram se pelo paiz. Nada lhes era occulto: desde os segredos regi- 
mentaes y instrucçoes confidenciaes, até mesmo algumas do Es- 
tado Maior. Começou depois o frabalbo na província estabele- 
cendo muitos nu:leos carbonários. Depois do celebre caso de 
Cascaes a policia de Lisboa que já conhecia Luz d'Almeida, 
quiz prendel-o, não o conseguindo porque o engenheiro Silva o 
foi buscar ás duas horas da madrugada, obrigando o quasi a 
homisiar-se. Na noite de segunda-feira de carnaval de 191 um 
alitomovel levou-o á fronteira, sendo o deputado António Maria 
da Silva, Américo Pinheiro e Pinharanda dos que mais traba- 
lharam para a evasão de Luz d^lmeida. O deputado engenhei- 
ro António Maria da Silva, Cândido dos Reis, Miguel Bombar- 
da, Machado Santos, Simões Raposo, Monteiro Cardoso e José 
Cordeiro Júnior, este ultimo tambera deputado ás Constituintes, 



A KEVOLUÇAO PORTUGUEZA 297 

pertenceram á junta revolucionaria que iniciou o movimento 
de 5 de outubro.» 

Mais tarde ainda, e já então fortemente ironisada (•) a sua 
acção como dirigente da revolta iria a ministro do lomento em 
gabinete da presidência do dr. Bernardino Luiz Machado Gui- 
marães, abandonando a pasta á celebre questão conhecida pelo 
nome das Aguas de Rodam, ou fosse a concessão de umas 
quedas de agua em Rodam, requerida em tempos monarchicos, 
mas dada em epocha de republica, e quando do privilegio e 
mesmo por lei *e não devia utilisar, visto estar scb a alçada do 
artigo 2I.° da Constituição da Republica, que prohibia a depu- 
tados e senadores o estado de concessionários ou sócios de fiimas 
contractadoras de concessões. 

D'ahi a annullação do decreto de 23 de Março de 1914. 

Já a esse tempo, António Maria da Silva, tiver?, per repu- 
blicanos, uma manifestação de desagrado á sahida das cama* 
ras, f**) n'um reproduzir quasi de antigas scenas que a democra- 
cia fez resurgir (***) á hora de flagrantes desintelligencias: 

«Enoja mais que revolta a estúpida porcaria. P'az pena ver 
que homens que a Republica levantou oftereçam espectáculos 
que monarchicos não deram. O sr. António Maria da Silva que 
antes de ser republicano, foi um triste administrador do conce- 
lho monarchico em Redondo, de onde teve que sahir protegido 
pela lorça militar, tez resuscitar os seus deleites cemo adminis- 
trador geral dos correios e telegraphos. E* lastima. Melhor lôra 
que em vez de ordenar ou sanecionar porcarias taes, picmoves- 
se acudir á desorganisação e decadência em que dia a dia vem 
cahindo o serviço de correios e telegraphos com vergonha para 
a Republica. Bem melhor lôra!» 

O caso de Redondo, foi o seguinte: (****) 

Estando no poder o partido regenerador, da chefia do cen- 



(*) Opúsculo de Celestino Steffanina Subsídios para a historia da re- 
volução de 5 de Outubro de jqio. Citado a pagina 603 do 3.° volume d'esta 
obra. 

(*#) A Republica de 19 de Junho de 1914. 

(*«#) O oMundo de 17 de Setembro de IÍM2. 

(####) Descnpto na Vanguarda e no T>ia de 18 de Junho de 1914» 

VOL IY — FL. 38 



Í98 ARMANDO RIBEIRO 



selheiro Hintze Ribeiro, realisavam-se a 27 de janeiro de 1901, 
as eleições de deputados, e vencido o partido na primeira assem- 
bleia do circulo de Évora, procurada foi a compensação nocon* 
celho de Redondo, leudo progressista. 

De arte em arte, operou-se uma substituição de listas pro- 
gressistas pelas regeneradoras, mercê de um arrombamento das 
urnas. Voltaram se os eleitores de Redondo contra o adminis- 
trador do concelho, o qual, ao tumulto, com casas apedrejadas, 
tiros e cargas de infantaria, teve de procurar refugio entre praças 
de lanceiros I, até Évora, emquanto no logar era substituído 
pelo major Oliveira Mascarenhas. 

Annullado o acto eleitoral, era processada a auctoridade 
administrativa, á qual valeu o conselheiro Hintze Ribeiro, com 
o decreto seguinte: 

(tSua Magestade El Rei, a quem foram presentes, por certi- 
dão, os autos do corpo de delicto processados pelos cartórios do 
primeiro e do segundo officio do competente juizo de direito, 
contra o administrador, que foi, do concelho de Redondo, An« 
tonio Maria da Siva, e o seu delegado ns respectiva assembleia 
eleitoral, por lhes serem imputados diversos actos e violências 
ofíensivas das pessoas e dos direitos dos eleitores poroccasiaoda 
«leiçao a que n'aquella villa se procedia em 27 de janeiro de 
1901 ; vistas as informações do Governador Civil do districto 
de Évora e o accordao do Supremo Tribunal de Justiça de 23 
de julho do mesmo anno. Ha por bem denegar, nos termos do 
artigo 434 do Código Administrativo a precisa auctorisação para 
o seguimento dos sobreditos processos. Paço, em i3 de janeiro 
de 1902. — Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro.» 

Quando voltou a Redon Jo, desde logo a população se apres- 
ou de novo para renovar o seu protesto, que, devido ao então 
administrador Santos Rosado, se limitou a apupos e assobios, 
no largo do Calvário, como fecho dos actos eleiçoeiros de 1901, 
em favor dos partidaristas de Hintze, o mais ferrenho dos mo- 
narchicos, actos atirados de novo para a publicidade, republica 
íeita, pelos correligionários do engenheiro Silva. 

Nas horas de embaraço do campo rebelde, não se evocou 
todavia o antigo monarchico, mas apenas o chefe da carbonária, 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 299 

o rachadcr sequioso de derrubar a arvore symbolica da realeza 
de Portugal. 

Assumiu ali as funcçoes honorificas de ministro dos estran- 
geiros da Rotunda, íntegrando-se na personalidade pela atten- 
çao dispensada ao emissário allemão, portador da missiva do 
commando superior das torças monarchicas. 

O sollicitar de um interregno de sessenta minutos para a 
sahida das famílias estrangeiras, causou extranheza, e ate' pela 
demora pedida que Machado Santos percebeu curta para a ideia 
a executar. 

De novo se lembrou de um subterfúgio e que o acto só 
directamente podia servir á causa monarchica, faculiandolhe 
exhortaçoes junto do exercito semi convencido a favor da demo- 
cracia, e o artificio de se allegar a paz na Rotunda como pro- 
dueto de uma derrota. 

Não seria de todo descabido o pensamento, se attender- 
mos a que na guerra, todes os ardis valem. 

Mas, em baixo, em S. Domingos, ninguém se lembrava de 
sacrifícios em proveito da realeza. 

A Allemanha, serviu até, sem saber, para o accelerar da 
victoria, que derrubou o throno de Portugal. 

Presumindo mais dos seus deflensores, de que elles pelo 
ideal se interessavam, e desconhecendo ainda quanto suecedia 
no Rocio, Machado Santos, recusou o interregno nas hostilida- 
des, declarando que, sendo a força do seu lado, a divisão mo- 
narchica que se rendesse. 

Pelo encarregado germânico, houve a resposta secca, de ul- 
timatum, de que não ia discutir razoes de força, e que se a re- 
cusa persistisse a Allemanha mais eficazmente decidiria da 
contenda . . . 

Era a arrogância do império de Guilherme II, a transpare- 
cer n'uma ameaça de violência. 

Essa attitude passou ao estrangeiío, quí a descreveu ros 
seguintes termos: (*) 



vero v 



(#) Como cae un trono — La revolucion en Portugal, por Augusto Vi- 
y António de la Villa — Pagina 14b. 



300 ARMANDO RIBEIRO 



«N^sto — são 8 e meia — avança pela Praça dos Restaura- 
dores e Avenida, um individuo a cavallo Acompanhao um sol- 
dado arvorando uma bandeira branca. Que será? Render se hão 
as tropas leaes? Não. E' o encarregado dos Negócios da Allema- 
nha que traz uma carta do commandante da divisão, annun- 
ciando que havia concedido uma hora de armistício para que 
possam embarcar os súbditos sllcmãts. Machado dos Santos re- 
cusa o armistício A força está do seu lado e o general deve ten- 
der se. Pore'm o diplomata protesta energicamente, arfirmando 
que nada tem que ver com un> nem com outros e que se se lhe 
nega o armistício, a Allemanha exercerá a sua intervenção. Ante 
Isso cede o chete revolucionário e emmudecem as armas. Já não 
volverão a troar » 

António Maria da Silva, poz termo ao conflicto a esboçar se 
aconselhando prudência ao commissario naval que, determi- 
nando de novo ao engenheiro a investidura em intermediário 
diplomático, lhe indicava o seguir da conversa, de modo a dar- 
Ihe tempo para analvsar a situação. 

A perspectiva animante trazida pelo delegado allemão, ras- 
gou-lhe horisontes de esperança. 

As peças visavam, para bombardeio, o quartel do Carmo, e 
e o Cistello, séie de caçadores 5. 

Pelos soldados da escolta, soube o estado de animo das pra- 
ças estacionantes no Rocio. 

Teve relato de haver sido arvorada bandeira branca, de ar- 
mistício e que o povo julgava de transigência. 

Era inútil abrir scisões, demais com plano feito. 

Os revolucionários portuguezes iam aproveitar, com bom 
êxito, a espécie de ponte offerecida pela Allemanha, attitude 
que mais tarde a França, sua eterna inimiga, aceleraria com 
palavras do senador Gaudin, trazidas á publicidade no telegram- 
ma seguinte (6 de abril de 191 i ) : 

«Paris, 6 — O senador Gaudin de Vilaine, discursando no 
senado sobre politica exterior, referiu se a Portugal, por forma 
tal que merece referencia. E* que o sr. Gaudin descobriu uma 
razão da queda da monarchia portugueza em que até agora nin- 
guém sonhara. Segundo o illustre senador, essa monatchia caiu^ 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 301 

simplesmente, por influencia da Allemanha, que de bom grado 
não podia ver reinar em Portugal uma dynastia francesa pelo 
coração e inglesa por interesse. Não admira, porém, que o 
sr. Gaudin manifestasse no senado tão extravagante opinião, pois 
que este senhor senador é monarchico e, por conveniências da 
sua politica, vê sempre, em todas as rebçÕes da França com o 
estrangeiro, o perigo allemão. Assim, é que a queda, na Hespa- 
nha, do gabinete Maura, que o sr. Gaudin diz que é um grande 
amigo de França, e que os hespanhoes consideram como o mais 
reaccionário possivel, também loi devida ás mesmas influencias 
da Allemanha. E ainda a má situação em que actualmente se 
encontra o bispo de Beyrouth não tem por causa senão o facto 
de aqutlle bispo ser o chefe dos maronitas, os quaes são também 
muito amigos de França. Tudo isto disse o sr. Gaudin de Vilaine 
no senado trancez, na sessão de hoje, quando, interpellando o 
governo sobre o estado das relações diplomáticas da FYança, 
pretendeu fazer o processo do regimen republicano, o qual, bem 
se vê, não é muito das suas sympathias». 

Essas insinuações, de ha muito feitas^ contribuíram talvez 
para que a Allemanha, repudiando o proclamado auxilio, em 
pratica puzesse um acto logo trazido a publico. 

Segunio boatos, Guilherme II, manifestara desejos de ser eli- 
minado de commandante honorário do regimento n.° 4, de 
cavallaria, e certo é que passando em 27 de Janeiro de 1 g 1 3 o 
anniversario natalicio do imperador, já n'aquelle quartel se não 
realisou a habitual iesta. 

Obedecendo ás resoluções do breve conselho effectuado, o 
engenheiro redigiu, á pressa, uma já a esse tempo desnecessária 
annuencia ás pedidas tréguas, assignada por Machado Santos, 
mesmo a cavallo. 

Começariam ás 8 horas e três quartos, (*) vindo o praso a 
terminar ás g e três quartos. Gomo condição o commissario naval 
irisava que, emquanto durasse a paz, considerava caminho aberto 
para as tropas realistas que quizessem adherir. Visava o acto con- 



(#) Hora do Relatório de Machado Santos, a pagina 89. 



SÒ2 ARMANDO RIBEIRO 



dicional a auxiliar a reunião dos marinheiros, prestes a desem- 
barcar, ás forças da Rotunda. 

O negociador diplomático, protestou apenas desejar o armis- 
tício, sem restricçÕes, mas como o commissario naval allegasse 
só assim o conceder, para garantir a sua superioridade, retirava,, 
mas não sem a pergunta pelos soldados da sua escolta. 

Deramse como enfileirados no corpo rebelde e em troca, 
de guardas serviram dois populares a cavallo. 

O diplomata retirava, sob despedida cortez e não sob a 
phantastica e irrisória intimativa que o tenente Mauro do Car- 
mo esboça no seu relatório: (*) 

«Apresentou se na Rotunda munido de uma carta um mi- 
nistro allemao, na qual se sollicitava a sua permanência durante 
uma hora na Rotunda. Por deliberação tomado por mim e Ma- 
chado Santos, foi mandado regressar ao quartel general. E o 
mesmo lhe aconteceria se eu n'essa occasião estivesse só. . .» 

Não assenta sobre base alguma o ultimatum a que nem 
sequer fazem menção nenhum dos assistentes ao colloquio com o 
delegado estrangeiro, que se teve tal intimação, decerto íeita lôra 
em idioma luso, não comprehendido pelo intimado. 

O facto, ficou todavia compensado, pois por seu turno, não 
comprehendeu o tenente o exigido pelo encarregado de negócios, 
querendo, não «a sua permanência durante uma hora na Ro- 
tunda» mas «um armistício de uma hora afim de que os estran- 
geiros residentes em Lisboa pudessem embarcar». 

Assim o dizia o texto da carta aliás, declaração, entregue 
pelo delegado germânico ao commissario navai Machado Santos, 
e que já vamos transcrever. 

Logo que o negociador do armistício se poz a caminho do 
quartel general, o commandante da Rotunda, resolvia aproveitar 
essa occasião, talvez única, de derrubar, de um golpe, todas as 
impossibilidades de avanço. 

De novo fazia aviso ao dr. Malva do Valle, para que apres- 
sasse a victona, antes mesmo de começar o armistício. 



(*) Elementos para a historii. — O Intransigente de 10 de ouiuDro 
<ie 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 303 

A*s 8 e 35, isto é, faltando lo minutos para a entrada na 
suspensão de hostilidades, o commissario naval, com o revolu- 
cionário Américo de Oliveira e povo marchava sobre o Rocio, 
deixando a Rotunda entregue aos outros chefes, exceptuando o 
tenente Pires Pereira, recolhendo a casa por aggravamento de 
contusões sofíridas. 

A's questiúnculas sobre prémios, nada, como os outros, ob- 
teve, sendo ainda tenente, a quatro annos da republica feita. 

Apenas teve a proposta para a concessão do grande oflicia- 
lato da Torre e Espada, com pensão annual de goo$000 réis, 
(Sessão dás Constituintes de 7 de Julho de 1911). Mas nem 
isso logrou, no collossal brado feito contra galardoes, dos quaes 
só beneficiaram a gente da marinha e os sargentos do exercito. 

Machado Santos, a poucos passos dados, era surprehendido 
com os gritos ensurdecedores de acclamação á republica. 

Era a victoria. 

Da Rotunda veio egualmente o echo de saudações enthusias- 
ticas. 

Pelas Portas de Santo Antão, galgando a S. José e d'ahi por 
Santa Martha, até ao acampamento fora, um soldado de cavai- 
laria, agitando um lençol, como symbolo de paz. 

Era outro emissário, d'essa vez do general António do Car- 
valhal da Silveira Teiles de Carvalho, participando estar ganho 
o lance, próxima a marinhagem, desembarcada, e que poderia 
a Rotund* receber as tropas submettidas, mas sob a cautella de 
completo desarmamento. 

A aventura coroára-se de êxito. 

Mas como? 



í 




fill 



fcâ 



j.j--.. — 




II 



Combina-se a deposição das armas — A analyse da si- 
tuação em terra e no mar — A posse do «Pêro de 
Alemquer» e das fragatas «D. Luiz» e «D. Fernando» 

— A attitude de caçadores e infantaria 5 — inter- 
mediário da entrega— A bordo do «S. Raphael» — A 
intervenção allemã no quartel general — O que se 
passava no quartel do Carmo — O conselho supremo 

— Scenario de depressão — Causa victoriosa. 




situação anormal ia-se prolongando. 

Um desfecho qualquer se impunha, para 
que não proseguisse essa polemica fastienta e 
indecisa. 

Passo a passo, a indisciplina surgia e evi- 
denciava*se a nostalgia da soldadesca prestes a 
lançar-se, de motu próprio, numa aventura que 
tanto poderia ser o ataque aos reduetos rebeldes como a união 
sem restricçoes aos soerguedores da bateria sediciosa. 

A propaganda da officialidade que sob esta militava, íez 
pender para a segunda hypothese a balança que em equiiibrio 
se mantinha. 

O tenente José Valdez, tinha findo o seu trabalho de propa- 
ganda junto dos camaradas não alliciados, conjugando assim o 
exforço, com êxito, dos sargentos Flores e Matheus, junto dos 
officiaes interiores. 

VOL IV — FL. 39 



306 ARMANDO RIBEIRO 

A Rotunda assumiu todavia um aspecto nebuloso para as> 
combinações, ignorando-se se a submissão, mal interpretada, não 
daria em resultado um bombardeio mortífero. 

Urgia todavia uma acção pratica, para obstar a incidentes 
fataes. 

Assentou se em não fazer logo sobre os rebeldes, civis ou 
militares. 

Arrojado, o alferes de infantaria 5, João Carlos Telles de 
Azevedo Franco, pelo 2 o sargento Rosa Mendes fazia expor ao 
commandante de caçadores 5, José Joaquim Peixoto, as resolu- 
ções tomadas, 

Não foi evocada a disciplina nem verberada a attitude. 

O tenente-coronel, apenas procurou entender se com o chefe 
de infantaria 5, Ribeiro da Fonseca, perguntando lhe despren- 
didamente: 

— E' preciso que saibamos as cartas com que se joga! (*) 

Era a monarchia a ser jogada na vasta Praça de D. Pedro 
IV, o rei soldado. 

Passava das 6 horas e meia da manha, o tenente-coronel 
Peixoto, longe de expor superiormente o estado anarchico dos 
regimentos recusandose a fazer fogo, resolvia convocar o con- 
selho de ofliciaes. 

Este, ouvindo, teve um silencio gelado para os factos sum- 
manados. 

Quebravam-no o capitão Penha Coutinho e o alferes Gomes 
da Silva Júnior, reiterando ser essa a intenção da soldadesca. 

Quasi unanimemente fixavam os outros a necessidade de 
definir situações apara terminar aquelle crime que terminaria 
talvez n'uma chacina». 

O tenente-coronel, sem previa consulta ao commando da di- 
visão e sem um exíorço para suflocar essa evidente indisciplina^ 
proclamou ser melhor, n'esse caso, a retirada. 

Ribeiro da Fonseca sabia já, pelas novas espalhadas pelos 
revoltosos, a submissão do cruzador Z). Carlos; a escassez de 
munições das baterias de Queluz; a renitência do coronel Brito 



(#) Cita a phrase O Século de ii de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 307 

2 Abreu em trocar a inactividade do Largo das Necessidades 
pela travessia perigosa, julgava, d'ali a S. Pedro de Alcântara e 
ao Rocio. 

Via o povo a trabalhar pela republica. Apresentou, pois, as 
cartas de jogo que o coronel de caçadores quizera conhecer. 

A monarchia considerada morta era, e julgado inútil sacri- 
fícios, convinha não atirar sobre os rebeldes. 

Houve a concordância e o tenente-coronel Peixoto, reunindo- 
3e ao commandante de infantaria 5, seguia para o quartel gene- 
ral, onde de entrada expunha ao chefe de estado maior, a ap- 
provada ideia. 

O assumido aspecto, concitou depois acerbas censuras pelo 
capitão Martins de Lima em pleno conselho de ofíiciaes do 
quartel general, o que deu origem á seguinte carta (*) do te- 
nente Saturio Pires: 

«... Sn director do ^Correio da Manha* da minha 
muita consideração. — No numero de 28 do corrente, do seu 
muito conceituado jornal, publica o sr. Joaquim Leitão, no 
diário dos Vencidos, a conclusão de uma entrevista com o 
brilhantíssimo e glorioso oôicial, que se chama o sr. capitão 
Martins de Lima. Entre outras justíssimas considerações, diz este 
meu illustre camarada, quando se refere ao conselho de oíficiaes 
havido no quartel general na manha de 5 de outubro passado: 

3 Que tinha toda a consideração por aqnelles que vinham para 
a rua expor a vida e a carreira, mas não tinha sombra de con- 
sideração por aquelles que jogavam com um pau de dois bicos, 
que tinham estado a ver até ao fim para que lado se haviam de 
voltar e que, á frente d'esses estavam o commandante de in- 
fantaria 5 e o coronel commandante de caçadores 5.» Não te- 
nho o dom de lêr no intimo dos meus camaradas. Respondo por 
mim : elles, se quizerem, que respondam por si . . . Pertencia 
n'essa data ao batalhão de caçadores n.° 5, commandando uma 
secção de metralhadoras, que tomou posição desde a manhã de 

4 á manhã de 5 nas emboccaduras das ruas do Ouro e do Car- 
mo. Devo pois — o diário dos Vencidos constitue um im- 



(#) Diário dos Vencidos por Joaquim Leitão, pagina 328. 



308 ARMANDO RIBEIRO 



portante documento para a Historia da Implantação da Repu- 
blica em Portugal — afirmar muito categoricamente e debaixo 
de minha palavra de honra, que procedi n'esses dias, como sem- 
pre me prezo de proceder, como soldado, que sou, leal e dedi- 
cado ao meu Dever. Não estive na rua, com um pé na mo- 
narchia e outro na republica, a ver em que paravam as 
modas. Estive sempre, e o mesmo posso dizer dos meus cama- 
radas, que estiveram defendendo a emboccadura d'essas duas 
ruas, na melhor boa fé e com o mais firme desejo de cumprir 
com a minha obrigação. Se outros de outros corpos assim não 
procederam, nada tenho. Fica, pela minha parte, varrida a mi- 
nha testada n'este assumpto e junto mais este esclarecimento ás 
exactas palavras do sr. capitão Martins de Lima. Na parte que 
diz respeito ao então Commandante de Caçadores 5, sr. Tenente 
Coronel José Joaquim Peixoto, devo intormar V. de que este ot- 
flcial, como homem de bem, que é, não duvidou um momento 
da lealdade dos seus otficiaes e portanto podia fazer as afirma- 
ções, que fez ao sr. General Gorjão. Foi devido á p rticipaçaa 
feita pelo então Commandante de Infantaria 5, de qne zr/ão 
nos apoiaria, por considerar inútil toda a resistência, se 
tentássemos resistir aos marinheiros» e devido ao pouco e 
disperso eôectivo de que dispunha, que o Tenente Coronel Pei- 
xoto convocou os oíficiaes do batalhão e lhes expoz o que havia. 
Ainda assim elle affirmou que «se conformaria com o pare- 
cer dos seus camaradas, fosse elle qual fosse» — rendição 
immediata ou defeza malgrè tout até ficarmos todos ali mortos! 
«Esta é a verdade. Se houve pau de dois bicos fjulgo dever 
esta justiça 30s meus antigos camaradas de Caçadores 5> não 
foi certamente entre os oíficiaes do meu antigo Batalhão, que 
estiveram no Rocio. A situação era realmente insustentável para 
nós: dispúnhamos de pouco mais de ioo praças fque hoje se 
sabe não serem de confiança, pois a propaganda revolucionaria 
tinha sido muito intensa entre ellasj. Estas mesmas achavam-se 
dispersas pelas emboccaduras das ruas, desde a rua da Magda- 
lena, junto ao Poço do Borratem, até á Rua do Carmo — e so- 
bretudo tínhamos pela recta guarda um corpo, que bem se po- 
deria considerar adverso. Isto não contando com as bombas r 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 303 

que enchiam as casas das emboccaduras das ruas (sabemol-o hoje 
positivamente,). Em presença de tal situação o que tazer senão o 
que fez o sr. Tenente Coronel Peixoto? Julgo do meu dever es- 
clarecer V, com estas palavras, que teem o duplo fim de atirar 
com mais um documento para a Historia e levantar qual- 
quer suspeição menos justa lançada sobre o procedimento de um 
official tão digno, tão distincto e tão leal como o meu antigo 
Commandante. E' natural que o sr. Capitão Martins de Lima 
ignore estes pormenores; aliás, com a int:ireza do seu caracter, 
narralos hia na sua entrevista com o sr, Joaquim Leitão. Eu é 
que não devo calal-os : Ficar-me-hia pesando tal facto na minha 
consciência. E' este o único fim da minha carta, que V. perdoará 
de já ir longa, e que lhe rogo, caso possa ser, inserir no diá- 
rio dos Vencidos. Não estive em local atacado pelos revolto- 
sos. Se tosse atacado defender-mehia e cumpriria com o meu 
dever: estava n'esta firme intenção. Portar-me-hia bem? Fugi' 
ria? Resistiria como um leão? Não sei, porque. . . não fui ata- 
cado. Com pau de dois bicos, isso creia V. que não jogaria, 
como não jogo hoje, nem jogarei nunca! Muito grato lhe ficará 
pela inserção d'estas verdadeiras mas desaiinhavadas palavras, 
o de V. etc, etc. — Lisboa, 3o-XI"C)io — Tenente Salurio 
Pires. » 

Em resposta, (*) Martins de Lima, não deixou de indicar o 
facto de ser de caçadores 5, o otficial qne a bordo íôra commu- 
nicar a entrega das torças do Rocio, frisando todavia não se 
haver reterido ao tenente quando indicava a attitude republicana 
do seu regimento. 

De tacto, Saturio Pires, á victoria republicana, emigrava, 
apparecendo depois citado (**) como um dos chetes da coiumna 
realista de Paiva Couceiro. 

Quanto ao allegar de situação insustentável, respondera já 
uma carta (•**) sahida do regimento, declarando: 

«Melhor sorte teve a força do commando do capitão sr, Car- 



(*) Diário dos 'Vencidos por Joaquim Leitão. Pagina 74. 

(#*) Manuel Valente — QA contra-r evolução monarchica» Pagina 155 

(##*) O Século de 15 de Outubro de 1910. 



310 ARMANDO RIBEIRO 



vaihal, que se achava de guarda ao Arsenal do Exercito que, fa- 
zendo causa commum com o povo, arvorou a bandeira republi- 
cana naquelle ediâcio, o qual logo ficou em poder dos revolto* 
sos. Por isto se vê que caçadores 5, não se rendeu por temei as 
forças revoltosas, mas sim adheriu com bastante dedicação á 
causa republicana, que era a ambição generosa da quasi totali- 
dade dos sargentoi e mais praças.» 

Havia sido feita entrever uma atmosphera terrivel. 

Emquanto se celebravam as convenções regimentaes, o re- 
volucionário civil Joaquim Augusto Pinto de Sousa, delegado 
secreto das forças de marinha, semeava projectos de gravidade. 

Lançaranvse pois ideias sobre a maruja, dita prompta ao 
bombardeamento. 

Deram se como submettidos, alem do Arsenal de Marinha, 
o transporte Pêro de Alemquer, o Berrio e ás fragatas 
D. Lui\ e C D. Fernando. 

Não eram falsos os boatos. 

Prevendo possibilidades de ser necessária toda a força dis- 
ponível de marinha para o acto de submetter as tropas do Ro- 
cio, a bordo do Adamastor, 02 o tenente João Mendes Cabeça- 
das Júnior, não esquecendo o credo em que commungavam as 
guarnições dos navios, só de aspecto não adherentes, resolveu 
dedicar-lhes a sua attençao. 

Da posse encarregou o commissario naval Henrique da 
Costa Gomes, ao mesmo tempo que mandava pedir munições 
á corveta Mtndello e organisava outra expedição com destino 
a Vaile do Zebro, para eôectuar a vinda dos torpedeiros. 

O patrão do arsenal, Victor, entregara á revolta o vapor 
Azinheira. 

Serviu elle, logo de manha, para a expedição junto aos na- 
vios ainda sem bandeira revolucionaria. 

Cerca das 6 horas, Costa Gomes, com os sargentos José 
Rodrigues e Rodolpho, os cabos José Martins e João Luiz Mon- 
teiro e 3o praças, embarcando no Azinheira, endireitou á 
fragata. 

O sargento João RoJrigues, com acclamações á republica, 



AREVOLUÇAO PORTUGUEZA 311 



fez logo a captagem da guarnição, que facultou o ingresso a 
bordo. 

Costa Gomes deparando com o capitão de mar e guerra 
Caetano Rodrigues Caminha, rodeado de alguns officiaes, inti- 
mavs-lhes a adhesão ou a rendição. 

Passou-lhes pela mente, célere como relâmpago, a visão da 
que no D. Carlos succedera de madrugada. 

Se lhe repugnou adherir não lhe sorriu resistir. 

Optaram por se considerar presos, no reproduzir da scena 
do Pero de Alemquer. 

Acceite a situação, foram desde logo transportados para o 
cruzador D. Carlos, onde eram recebidos ás 8 horas da ma» 
nhã (*) e desembarcados mais tarde em Belém. 

Feita a posse, o vapor ia junto do Pero de Alemquer 
cujos tripulantes não corresponderam aos vivas á Republica. 

Mas estava livre o campo e essa attitude talvez correspon- 
desse po pesar do que a bordo se passava. 

De surpreza em surpreza os próprios rebeldes caminharam. 

Nem um simples gesto de revolta se esboçava ante a sua 
marcha mais de recepção do que de combate. 

Era o simples acto de entrega, summario, quasi inacreditável* 

No Pero de Alemquer, apenas se lhe deparava o mestre 
do navio, com os marujos. 

A oficialidade, longe ainda a exigência d'essa submissão, 
depozera as espadas e recolhera aos camarotes, considerando-se 
detida, sem que a tal sequer intimada fosse. . . 

Machado Santos (Relatório, pagina II 6), traça a scena com 
sabia mão, embora pretendesse attenuar o acto com as cores 
d'uma táctica soberba, se bem que por imprópria egualmente 
se podesse considerar, quando executada fosse: 

aO navio estava sendo commandado pelo mestre, a quem 
o capitão tenente Macieira havia entregue o commando, consi- 
derando se preso com os seus otficiaes, sem que ninguém o ti- 
vesse prendido, pedindo á guarnição n'esse acto que não se ma- 



(#) Hora do relatório do commandante revolucionário do cruzador 
D. Carlos, 2.° tenente José Joaquim da Silva Araújo. 



812 ARMANDO RIBEIRO 



nifestasse. Como Macieira e seus officiaes não quizessem adhe- 
rir, foram presos para bordo do S. Raphael, mandando os o 
tenente Parreira pôr em terra, O acto original do commandante 
do Pero, no caso de ser suflocada a revolta, collocava o mestre 
do navio numa situação delicada. Era cabeça de motim sem 
nunca o ter sido. E' certo que o commandante Macieira e seus 
officiaes haviam de testemunhar a verdade dos tectos, mas o 
pobre do mestre é que se não livrava d'um conselho de guerra. 
Tanto mais que um dos seus officiaes era considerado ver- 
melho na Majoria General. Se fosse absolvido andava com 
sorte!» 

O capitão tenente Henrique Eduardo Macieira, conduzido, 
com os seus companheiros, a bordo do S. Raphael, era olhado, 
todavia, sob o aspecto de um não entravante da causa republi- 
cana, fosse qual fosse a conjunctura. 

Encarado assim benevolamente, o tenente António Ladis- 
lau Parreira, não mantinha a sua detenção e tazia-o transportar 
para terra. 

O caminho fácil havido até então, fez entrever ao commis- 
sario naval Gosta Gomes, probabilidades de resistência segura, 
no Berrio e na canhoneira D. Lui%. 

Tal não succedeu, para que se não desmanchasse essa sin- 
gela nota de recolher detidos sem trabalho de os intimar á clau- 
sura ou de os submetter pela violência. 

Ao subir da bandeira republicana na fragata Z). Fernando 
os dois, serenos fizeram ascender no mastro grande o estandarte 
verde rubro, como se poupar quizessem até os passos dos adver- 
sários de uma causa tão perdida quão mal deâendida era . . . 

O Azinheira retrocedeu, levando a bordo os satisfeitos 
assistentes d'uma victoria fácil. 

A alegria era justa, porque, emquanto os outros só imagi- 
navam estender os pulsos ás férreas pulseiras, a rebeldia, n'uma 
illusão que bem lhe ficou, só intreviu resistências ferozes e san- 
grentos lances combativos. 

O commissario naval, Costa Gomes, em vez de voltar ao 
Adamastor, mandava para o D* Carlos, a esse tempo já com 
as machinas confiadas ao machinista de 2. a classe, Alfredo Tho- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 313 



maz dos Santos, os detidos da D. Fernando, acompanhando 
elle os outros ao S Raphael 

Chegava a tempo de receber o appello de Machado Santos 
para o desembarque. 

Estava já tudo resolvido, cabendo a chefia aos tenentes La- 
dislau Parreira e José Carlos da Maia e medico naval Vas« 
concellos e Sá, destacandose outra columna, sob o commando 
do capitão Nascimento, da administração militar, afim de 
eflfectuar o assalto ao Museu de Artilharia. 

Convinha todavia preparar terreno e consistia isso no bom- 
bardeamento das forças retrahidas. 

Ia o navio na volta para oeste, quando chegaram os emis- 
sários da Rotunda, Joaquim Augusto Pinto de Lima, Innocen- 
cio Camacho e José António Simões Raposo. 

Ouvindo os decidia-se abreviar a acção. Cumprindo aprovei- 
tar a disposição das forças e nunca o seguir, pausado, do movi- 
mento, offerecendo suas probabilidades de reviravolta, contraria 
á democracia, estabeleceu se a necessidade de proceder. 

Collocando-se de forma a poder iniciar o bombardeio pelas 
ruas Augusta e do Ouro, apenas aguardou o instante apro- 
priado. 

Ao Rocio chegara pois, e quasi durante o conciliábulo dos 
officiaes, o aviso do que se premeditava. 

O alferes Gomes da Silva Júnior, frequentador das confe- 
rencias politicas no escriptorio do pamphíetario João Chagas, 
teve ensejo para um golpe decisivo, de ardil embora. 

Antes mesmo de qualquer acto de energia e para que 
o povo fizesse constar longe o inicio de uma complacên- 
cia, já havia sido quasi abandonado o cerramento das ruas. 

Sabido assim o que se tramava a bordo e ouvida a resolu- 
ção dos chefes de infantaria e cavallaria, Gomes da Silva, dei- 
xando logo o seu posto na embocadura da rua Augusta, ligeiro 
seguia e sem entrave, até ao Terreiro do Paço e d'ahi fazia-se 
transportar ao navio chefe da sedição. 

Recebido ali com extranheza, expunha ante os tenentes La- 
dislau Parreira e Sousa Dias um quadro de absoluta entrega 

TOL. IV-FL. 40 ° 



314 ARMANDO RIBEIRO 



e «da parte do commandante das torças que guarneciam o Ro- 
cia declarou querer submetter-se á marinha,» (*) 

O tenente Annibal de Sousa Dias, não se capacitou em ab- 
soluto da affirmâtiva do alferes Gomes da Silva de que as tropas 
não fariam fogo sobre os marinheiros. 

De verdade, a segurança na declaração não podia ser com- 
pleta e não o seria senão houvesse uma tacita acquiscencia e 
uma tolerância emanada do alto, desprezando o insuflar da ener- 
gia á soldadesca. 

Esse cathegorico aspecto só o podia assumir o revolucio- 
nário Pinto de Lima, que, ao informar o coronel de infantaria 
5 e o major Lima do premeditado bombardeio, d'elles escutara 
a resposta de que adheriam ao movimento. .(**) 

A' desenhada situação não soube Sousa Dias, retrahir a 
duvida. 

Causoulhe surpreza o abandono da posição, por um official, 
podendo atravessar assim impunemente a rua e dírigir-se sem 
obstáculos a um dos navios revoltados. 

Era certo que o facto constituia prova flagrante da inércia 
dos deftensores da monarchia. Não o comprehenderam assim os 
núcleos rebeldes, predispostos a acreditar em ardis subtilosos. 

Manifestadas inacreditabilidades, Gomes da Silva, explicava 
o facto de preferir a armada á Rotunda, para a submissão, como 
proveniente do receio do bombardeamento do Alto da Avenida, 
das forças que fossem render se. 

O tenente, interrogou ainda: 

— Garante-me sob sua palavra de honra que as forças não 
fazem fogo? 

O alferes teve uma hesitação, logo remediada ao ver a atti- 
tude de desconfiança de Sousa Dias: 

— Não posso empenhar n'isso a minha palavra de honra, 



(#) Relatório do tenente António Ladislau Parreira. — A Republica Por- 
tuguesa, de 2 de novembro de 1910. 

(##) Relatório de Machado Santos, pag. 128. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 3io 

mas promptifico-me a acompanhar ao quartel general qualquer 
official de marinha para ajuizar da attitude das torças. . . 

Era acreditar que o alferes não possuía a certeza de uma 
adhesão e que por isso não era ainda positivamente infiel á mo- 
narchia, a orientação da soldadesca. 

Mantido o retrahimento, alvitrava o oíficial do exercito que 
tudo poderia ser confirmado em terra, sendo elle acompanhado 
por um delegado da armada. 

Acceite, resolvia se o sobreestar nas hostilidades, e nomeado 
foi o commissario naval Marianno Martins, para seguir com 
Gomes da Silva, com incumbência de junto do commandante 
das torças do Rocio evidenciar as intenções do bombardeio, den- 
tro de duas horas, ante a não entrega na Rotunda. 

A caminho se puzeram os dois, tranquilíos, na ignorância 
do que se havia passado já no Rocio. 

No intervallo decorrido entre a partida do alteres e a deci- 
são da marinha revoltada e ainda antes das 7 horas, chegava ao 
quartel general, em automóvel, o encarregado de negócios da 
Allemanha. 

Presumido um longo arrastar da revolta pela vista impossi- 
bilidade de ser pelo governo portuguez rapidamente sutrocada^ 
exigia um armisticio de uma hora para o embarque dos estran- 
geiros e em especial dos súbditos do império. 

N'uma analyse imroediata, o capitão Alfredo Pedreira Mar- 
tins de Lima, pronunciou-se pela concessão que daria tempo á 
chegada de reforços. 

Era certa a inutilidade da recusa, pelo argumento — apre- 
sentado já na Rotunda, — que opporia a embaixada: a acção 
violenta da Allemanha. 

Mas convém frisar a illusão que imperou mesmo n'aquelles 
que muito haviam visto já em matéria de surprezas dolorosas. 

O commando da divisão, curvouse ao pedido. 

A Allemanha, servia assim, n'essa nota, de impensada ponte 
de passagem para a substituição, em Portugal, de uma realeza 
por uma republica. 

Accedendo, o quartel general offereceu o pescoço á férrea 
gargantilha que o destino lhe apresentava. 



316 



ARMANDO RIBEIRO 



Apenas disse que tudo dependia ainda da condescendência 
dos rebeldes. 

Lá iria, como ali tora, o delegado diplomático. 

Ante a resposta, o general Manuel Raphael Gorjao, redigiu 
o documento celebre : 



COMMANDO 

DA 

I.* DIVISÃO MILITAR 

Gabinete do General 



Eu abaixo assignado, commandante da 
/.a divisão militar, declaro que concederei 
um armistício de uma hora a fim de que os 
estrangeiros residentes em Lisboa possam 
embarcar. Faço esta concessão por me ser 
pedida pelo Ex. mo Sr. Encarregado dos ne~ 
gocios da Allemanha. 



Lisboa, 5 de outubro de igio. 



Manuel Rafael Gorjão 

General de divisão 



O laço apertou-se e ao reconhecer do erro, aliás impossível 
de evitar, o passo estava dado e a revolta agitando já o victorioso 
estandarte da Republica. 

O emissário germânico poz se a caminho, com a fornecida 
escolta: uma ordenança, com bandeira branca e um clarim. 

De regresso, registou as condições postas pela Rotunda. 

Não houve reluctancia mesmo na acceitaçao das clausulas 
relativas á impossibilidade de retomar as posições de que as tropas 
realistas houvessem sido desalojadas, e ao não impedimento a 
adhesao dos que quizessem cooperar com os revolucionários. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 317 



NSo eram artigos de armistício; eram imposições de vence- 
dor a vencidos comprovados. 

Todavia, desde que o negociador acceitára e que a visivel 
má disposição, accirada com a tomadia da escolta, se espelhava 
no rosto do intermediário entre a Rotunda e S. Domingos, — 
houve a transigência. 

A bandeira branca subiu lesta. 

O povo, que a tropa simulava conter, não a julgou signal 
de tréguas e teve-a por voto de derrota. 

Rejubilou e acclamou. 

N*esse instante, de bordo regressava o alteres de caçadores, 
Gomes da Silva Júnior com o commissario naval, Marianno 
Martins. 

O general Gorjão, recebendo-os, julgou-os portadores de 
boas novas. 

O otficial de marinha, revolucionário, bradou, comtudo, 
sem olhar ás estrellas do superior: 

— Este meu camarada, foi a bordo communicar que infan- 
taria 5 e caçadores 5, já não disparam sobre o povo nem sobre 
a marinha. O tenente Parreira, commandante do corpo de ma- 
rinheiros, quer saber, para evitar o immediato bombardeamento, 
se os senhores se rendem e sob que condições. . . 

O general, retorquiu: 

— Quem lhe deu auctorisaçao para ir a bordo dizer tal 
coisa ? 

Não quiz Gomes da Silva, evocar nomes e assumiu a res- 
ponsabilidade, allegando haver procedido de livre vontade, em- 
bora como interprete da resolução dos soldados de infantaria 5 
e caçadores 5. 

O commandante da divisão, n'uma irascibilidade que nada 
remediava, só teve a aceusação ao alteres de que fizera uma em- 
brulhada, pois apenas se sujeitara a um íirmisticio tendente a 
dar tempo ao embarque dos estrangeiros. 

— Não nos rendemos! Ainda temos torças. . . 
Interveiu o alferes Gomes da Silva: 

— Perdão, general, não tem nenhumas. 

— Como ! ! . . . E caçadores 5 ? ! . . . 



318 ARMANDO RIBEIRO 



— Dou-lhe a minha palavra de honra de que não pode con- 
tar com um único soldado! 

Gorjão, reparando então no regimento a que o alferes per- 
tencia, insinuou que caçadores 5, fora sempre fiel e assim se 
mantinha decerto. 

O outro repetiu a aífirmativa. 

— Pois fez uma salsada. 

O commissario naval, aproveitou a estupefacção do com- 
mandante da divisão, para pôr o ultimatum: 

— Concedo lhe uma hora para reflectir. Se ao terminar, 
não houver resposta, os marinheiros do S. Raphael começa- 
rão o bombardeamento da cidade, varrendo as ruas Augusta e 
do Ouro. 

Marianno Martins e Gomes da Silva sahiram, não sem a 
resposta do general: 

— Façam o que entenderem. Não me rendo, porque ainda 
tenho muita gente. 

O povo, que ia tendo caminho livre, acclamou pois phrene- 
tico os officiaes que sahiam. 

Os outros, correram ás janellas. 

As praças, longe de tusilar os revolucionários, confraterni- 
savam com elles. 

Era o desenlace. 

De facto, o tenente José de Ascensão Valdez, quebrando o 
balanço observado dava campo á populaça, facuitando-lhe en- 
trada do lado da Rua de S. Domingos, pelo descerramento das 
fileiras da soldadesca. 

Era a entrega da monarchia, era a juncçao de ha muito pre- 
meditada. 

O commissario naval Marianno Martins vendo o também, ia 
a bordo participar a proclamação e evitar que o Rocio fosse al- 
vejado pelas granadas. 

Deuse como ettectuado um principio de bombardeio e re- 
gistou-o erradamente, o presidente do conselho, António Teixeira 
de Sousa, n'uma entrevista concedida á imprensa: (*) 



{#) O Século de 13 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 319 

a — Mas não houve um renhido combate entre os marinhei- 
ros, no Terreiro do Paço, e as torças fieis, na manhã do dia 5 ? 

« — Não, senhor. O que houve foi o S. Raphael metter suc- 
cessiva mente duas granadas, uma pela rua do Ouro e outra pela 
rua Augusta, que levaram o pânico ás forças que defendiam o 
quartel general. N'essa occasião, dizse, o cônsul allemao pediu 
no quartel general uma trégua de duas horas para alguns dos 
seus compatriotas poderem embarcar. 

O equivoco é manifesto, 

Do S. Raphael não se chegou a fazer fogo e as duas gra- 
nadas referidas na entrevista foram disparadas na tarde de 4, 
ao regresso do canhoneio contra as Necessidades. 

As acclamaçoes aos dois oíficiaes, e a união entre paisanos 
e soldados, trouxe ao quartel general o conhecimento de que 
tudo estava findo. 

Observando essa actitude, os agal ados correram a commu- 
nical-a ao commandante da divisão, julgando ainda que tudo 
se resumia no Rocio. 

Mas, como já vimos, no quartel do Carmo, a desorientação 
subira de intensidade. 

O coronel Malaquias de Lemos, perdia se no labyrinto de 
communicaçoes telephonicas e ao ponto de se julgar apocrypha 
a ordem de armisticio. 

Ali já nem havia defeza nem ataque. 

As torças como que accumuladas no edificio, faziam um ser- 
viço de inactividade prejudicial. 

O próprio tenentecoronel Alfredo Ferreira de Sousa Alvim, 
sollicitára licença para recolher, visto o proseguir do lançamento 
da bombas, que já haviam victimado o soldado i5y, da i. a com- 
panhia, João do Sacramento. 

Malaquias de Lemos quiz reunir o conselho de offi- 
ciaes. 

O tenente de lanceiros, Estevam Wanzeller pronunciava- 
se logo pela rendição, assignalando uma impossibilidade de re- 
sistência e dava como de idêntico parecer o alíeres da guarda, 
Annibal Franco. 



320 ARMANDO RIBEIRO 



Ao embaraço do coronel, correspondeu a phrase do tenente- 
coronel de reserva, Brito e Cunha: 

— Resigna-te! Tens que conformar-te ! 

Evocou-se, de instante, o perigo a que estavam sujeitas as 
famílias residentes no Carmo. 

Uma taisa informação registava o approximar da marinha. 

Malaquias de Lemos, sem previa analyse, ordenava ainda, 
á 5. a companhia da municipal, guardando o Banco de Portugal, 
que, sem o desguarnecer, se oppuzesse ao desembarque dos ma- 
rinheiros. 

Era irrisória a determinação e assim o explicou o comman- 
dante da companhia, José Pires, fazendo notar egualmente que 
os navios tinham as peças assestadas para o Terreiro do Paço. 

O commandante de cavallaria 2, coronel Alfredo Albuquer- 
que, decidiu n'essa situação de desespero entender-se com o da 
guarda municipal, meio perdido n'aquella avalanche de más no- 
vas, que o quartel general parecia comprazer-se em espalhar, 
para desmoralisar, elle, que como principal elemento de deteza, 
se podia orgulhar de ter sido o principal factor da indeíeza da 
causa monarchica. 

Alfredo de Albuquerque, fallou mas já quando o mal podia 
considerar se sem remédio. 

Não houve sérios obstáculos á marcha da artilharia até á 
Estrella; não existira profiqua acção pelas forças de lanceiros nos 
altos da Penitenciaria. Mas, como sempre, tardiamente, surgi- 
ram os projectos grandíloquos. 

Dava se então o dialogo seguinte : 

— A nossa situação está cada vez a tornar se mais critica ! 
Já não tenho esperança alguma que com as forças da divisão, 
possamos fazer qualquer coisa. Com certeza, o governo mandou 
vir de fora alguns regimentos de infantaria e artilharia, para 
dominar a revolução. Vamos sahir do Carmo, você com toda s 
força de que dispuzer, e eu com o meu regimento, (que está 
prompto para tudo) e ali na serra de Monsanto, ou n'outro qual- 
quer ponto que entenda, aguardamos as forças de fora que com 
certeza não devem tardar. Vamos a isso? 

— Eu não saio d'aqui, — declarou o coronel Malaquias* 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 321 

aqui é que é o meu posto. Demais a mais, tenho o quartel cheio 
de famílias de officiaes e de soldados, e não as abandono, porque 
tenho a certeza de que, se o quartel fosse tomado pelos revolto- 
sos, a sorte de toda esta gente seria desgraçada. Não faço isso; 
não, não saio d'aqui ! 

— Pois eu, inactivo e prisioneiro aqui no Carmo com o 
meu regimento é que não fico. Entendo que não devo deixar 
inutilisar tanta boa vontade e tanta dedicação como é a dos 
meus officiaes e praças. Vou já propor isso ao commandante da 
Divisão.» (*) 

Era boa a intenção do coronel Albuquerque, ainda que se 
se tivesse realisado, a acção resultaria nulla, pois de fora nenhum 
reforço veiu, sustido pela força revolucionaria, e a manobra sim- 
ples da cavallaria em Monsanto nenhum resultado dava, a não 
ser o poupar o regimento á desillusão, prestes a chegar com as 
acclamaçÕes á republica victoriosa. 

Todavia, o commandante de lanceiros, utilisando se do te- 
lephone, ao major Vasco Martins, sub chefe do estado maior, re- 
latava as suas intenções, ficando aquelle de as communicar ao 
general Gorjão, que disse oceupado em resolver assumpto grave. 

Era elle o de um concilio, onde se conheceram todas as im- 
possibilidades de entravar a acção revoltosa. 

Emquanto augmentava o agitado aspecto do Carmo, o com- 
mandante de linceiros ia esperando, baldadamente, noticias do 
quartel general. 

Depois de novas e atabalhoadas perguntas e reconhecidas 
evasivas, em logar de se responder ao alvitre, optava se pela cha- 
mada á sede da divisão dos chefes de cavallaria 2 e da guarda 
municipal, a pretexto da necessidade de reunir um alto conselho 
de officiaes. 

Se Malaquias de Lemos, recusava ainda, e talvez por ter 
visto o povo contratemisando já com as tropas, Albuquerque, 
cedia, condescendendo em ser o representante do dirigente das 
guardas municipaes. 

N'um galope desfechado foi do Carmo a S. Domingos e 



(#) Joaquim Leitão — Cem Dias Funestos, pagina 283. 

TOL. IV — FL. 41 



322 ARMANDO RIBEIRO 



registando a extranha agitação do Rocio, ia cahir em pleno pre~ 
paro da reunião da officialidade superior, acolhido pela phrase 
celebre do general Raphael Gorjão: 

— Mandei-o chamar aqui para reunir um conselho de olfi- 
ciaes, afim de lhe expor um assumpto muito grave que é pre- 
ciso resolver. 

Em redor da saia vasta, foram-se aggrupando, alem de Al- 
fredo de Albuquerque, os coronéis José Joaquim de Castro, 
chete do estado maior, José Celestino da Silva, António Vaz 
Correia Seabra de Lacerda, Jesuino Gregório Pessoa de Amorim, 
commandante de cavallaria 4, Ribeiro da Fonseca, de infanta- 
ria 5, tenente-coronel José Joaquim Peixoto, de caçadores 5, 
capitão Alíredo Pedreira Martins de Lima, ajudante do chefe 
da divisão. 

Este ultimo, vira o estado anarchico do Rocio e que infan- 
taria 5, largara a vigilância da Rua do Amparo. 

Mande u retirar o povo ante a comunicação de que as tré- 
guas eram curtas e de repente podiam renascer as hostilidades. 

A multidão, refluiu, cumprimentando o otficial que corres- 
pondeu abatendo a espada. 

Apoz, em nome do chefe do quartel general, intimava o 
major João Pedroso de Lima, a reoceupar o posto do largo de 
S. Domingos. 

A resposta chocou o ofrlcial. 

Pedroso de Lima, allegava já nao receber ordens da divisão, 
e que mais novidades poderia dar o commandante do seu regi- 
mento, que se encontrava no quartel general. 

De facto já haviam expressado a sua transigência ante a revolta. 

Para ali seguiu o capitão, antevendo a derrocada de tantos 
esforços para suster a victoria dos rebeldes. 

Chegara entretanto o capitão Henrique de Paiva Couceiro. 

Mal ensombrado notou o estreito elo que jungia o povo á 
militança. 

As acclamaçoes á republica de tedo lhe tiraram a illusão. 

Ali era perdido tempo manobrar. 

Entrando no gabinete do chefe da divisão, pouco tempo es- 
perou Paiva Couceiro que se desse por iniciado o conselho. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 323 

O general Raphael Gorjão, fallava então assim ao grupo de 
officiaes que o rodeavam : 

— Ha pouco, apresentou-se aqui o sr. Encarregado dos ne- 
gócios da Allemanha, pedindo auctorisação para tratar um ar- 
mistício com os revoltosos, afim de que os seus nacionaes possam 
sahir já da cidade. Entendi que não podia recusar tal pedido, e 
forneci para o efíeito um parlamentado com bandeira branca. O 
armistício hade ter logar, e por conseguinte nós temos tempo 
para apreciar a situação geral e resolvermos o que se deve fazer. 
Não dou a minha opinião, exponho a situação tal qual ella é 
n'este momento, e o conselho se pronunciará, para eu depois 
resolver como entender. A situação é a seguinte : ordenei hon- 
tem ás forças que guarneciam o Paço das Necessidades que 
marchassem sobre S Pedro de Alcântara, por onde vissem que 
«m medhores condições pudessem effectuar essa marcha ; que 
chegadas áquelle ponto obstassem a que os revoltosos d'elle se 
assenhoreassem, pois constava ser esse o seu intento, a fim de 
bombardear o Rocio e o Quartel General; essa ordem foi trans- 
mittida repetidas vezes, até que o seu commandante declarou 
que não emprehendia essa marcha, porque já não tinha confian- 
ça na sua tropa. Não podemos, pois, contar com ella absolu- 
tamente para cousa alguma. Com a bateria de artilharia 3, que 
ioi mandada marchai sobre Lisboa, também já não podemos 
contar, porque se acha* cortada a ponte de Sacavém. As baterias 
a cavallo estão sem munições, e o sr. general Joaquim Augusto 
Teixeira de Sequeira, presidente do conselho de administração 
das fabricas e depósitos do material de guerra, informa que não 
podem ser remuniciadas, porque no Arsenal não ha mais pro- 
jecteis promptos para serem distribuídos, que ha material mas 
faltam operários para as fabricar. Os srs. commandantes das 
forças estacionadas no Rocio intormaram-me ha pouco ser ex- 
trema a fadiga das praças, e mais que lhes notam poucas dis- 
posições de fazerem fogo sobre os marinheiros que, consta, co- 
meçam a desembarcar no Terreiro do Paço e no Cães do Sodré. 
Finalmente, n'este momento, de todas as forças da divisão só 
posso contar com as baterias a cavallo, sem municiamento, o 
regimento de lanceiros e o resto de cavallaria 4. Agora exposta 



324 ARMANDO RIBEIRO 

a situação, os camaradas façam favor de dizer qual éa sua opi- 
nião? (*) 

Sendo de alto valor histórico, a reproducçao das phrases do 
conselho, impÕe-se ainda a das que Paiva Couceiro cita coma 
do general Gorjão. Dadas foram ellas como as mais certas e> 
por elles se pronunciaram livros vários: (**) 

— et Tendo de tomar resoluções, convoquei os senhores com- 
mandantes das unidades. Ás circumstancias são as seguintes: or- 
denou hontem este quartel general ás torças que guarneciam as 
Necessidades, que se approximassem d'este local e que, ou por 
S. Roque ou por onde entendessem conveniente, tentassem obs- 
tar á descida da artilharia revoltosa para S. Pedro de Alcânta- 
ra, d'onde constava que ella procurava bombardear o Rocio. 
Apesar de repetidas vezes transmittida, esta ordem não foi cum- 
prida até agora. Os batalhões de artilharia 3 encontraram cor- 
tada a ponte de Sacavém, e não podemos por conseguinte contar 
com elles. O sr. general Sequeira intorma-me que as munições, 
de artilharia armazenadas em Beirollas não podem d'ahi obter- 
se porque o impedem barricadas com fortes guarnições de pai- 
sanos armados. Não temos por isso possibilidade de remuniciar 
a bateria a cavallo, de Queluz, á qual apenas resta um pequeno 
numero de tiros. Os srs. commandantes das torças de infantaria 
do Rocio fizeram-me constar a fadiga das suas praças; e mais 
tarde, sabendo-se que os marinheiros, senhores do Arsenal, pro- 
cediam ao desembarque para investir o Rocio, os mesmos srs. 
commandantes informaram das más disposições dos seus solda- 
dos para fazerem fogo contra os ditos marinheiros. 

aFinalmente, ha cerca de meia hora, apresentou-se-me um 
representante da Allemanha pedindo auetorisação para tratar 
com os revoltosos no sentido de obter um armistício, a fim de 
que os seus nacionaes pudessem sair a salvo. Entendendo que 
não devia recusar, forneci para o efíeito um parlamentai io com 
bandeira branca. Mas mal a bandeira branca saiu o portão d'este 



(#) Os Cem Dias Funestos, por Joaquim Leitão — Pag ; na 287. 
(*•*) HDa Monarchia á Republica, (com prefacio do dr. Magalhães Lima). 
— Pagina 152. — diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão — Pagina 214. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 325 

edifício, isso foi como que um sigml de destroçar, saindo todas 
as praças das fileiras e misturando se com os magotes de povo 
que, a agitar bandeiras brancas, surgiam pelas embocaduras 
das diversas ruas. N'estas circunstancias. . . 

Paiva Couceiro decidiu-se também a transformar-se em in* 
subordinado. 

Erguendo-se de choíre, interrompeu, a completar as palavras 
do general Gorjlo: 

« — Nestas circunstancias, vista a exposição de v. ex.*, e 
visto o espectáculo da quebra dos laços de disciplina que por 
esta fanella se avista, concluo que v. ex.a já não tem soldados. 
Eu não o abandono ; mas v. ex* é que já não precisa de mim\ 
Sigo, pois, o meu destino. » 

O chefe da divisão, fallando, retrucou haver ainda a assignar 
a acta. 

Couceiro, frisando que era homem de Iucta, não de papeis: 

— Acta? Acta?! Isso é com V. Ex. a , commigo, não. Com- 
bati hontem. Combati hoje. Estou prompto a combater ainda. 
Com actas não tenho nada. E, com licença de V. Ex. a , sigo, re- 
pito, o meu destino para o Norte. 

Sahia, entre um murmúrio de approvação de alguns. 

As informações eram em parte inexactas. 

Affirmava-se interceptada a marcha de artilharia 3 pelo 
corte da ponte em Sacavém. 

Afim de o verificar, disfarçado e a pé foi até i Povoa, o 
tenente de cavallaria marquez de Bellas. D. José Ignacio de Cas- 
tello Branco e vendo que a ponte apenas se encontrava damni- 
ficada. 

De facto, deu-se o corte no próprio Valle de Santarém e o 
grupo de artilharia, do commando do capitão Sarmento e com- 
posto por 6 peças, com o appoio de 180 praças de caçadores, 
da chefia do capitão Viegas, partiu de Santarém pela via ordiná- 
ria, e na Povoa, se deteve, chegando pela tarde de 4 áquella 
povoação, próxima a Villa Franca, bivacavam na Alto do Bar- 
reto, para lhes ser distribuido o rancho, apoz o qual, seguiam 
até á Povoa, onde de manhã as colheu a ordem do governo prcv 
visorio marcando-lhes o regresso aos quartéis. 



326 ARMANDO RIBEIRO 



Apparece comtudo, o capitão Martins de Lima, decla- 
rando: (*) 

«Os officiaes que lá havia eram poucos, mas alguns d'elles 
desempenharam missões muito arriscadas. Citarei, por exem- 
plo, o Marquez de Bellas, tenente de cavallaria, e o alferes de 
engenharia, D. José Gastelío Branco, que foram disfarçados e a 
pé até á Povoa, porque se fossem a cavallo ou de automóvel não 
consfguiriam passar». 

Não se conseguiu pois descobrir na Povoa o rasto das forças 
santarenas, mercê talvez d'essa absoluta ignorância dos míni- 
mos successos e que levou até o quartel general, — á mercê 
de boatos, sempre falsos, a enviar um troço da guarda á Portella 
para esperar os revoltosos, os reforços que se deram como acam- 
pados já no Beato. 

E* certo que o seu avanço foi esperado a ponto de em 
Sacavém, n'uns improvisados rcductos se haver mantido um 
grosso núcleo de civis, armados de carabina, punhaes, lanças, 
picaretas e pás, e de haver sido collocada uma peça no largo do 
Freixo, (**) visando a ponte do rio Trincao. 

Nada hcuve todavia de anormal. 

Os dois regimentos acamparam entre Villa Franca e o Car- 
regado, e os respectivos commandantes soilicitando instrucçoes 
do então já constituido governo provisório, recebiam de officiaes 
ali enviados, a ordem de regresso a Santarém (5 de outubro). 

O erro, comtudo, foi tão longe, que o jornalismo lisboeta 
chegou a af firmar: (•••) 

«Pouco depois das 1 1 horas chegava de Santarém o regi- 
mento de artilharia 3, que, ignorando ainda o que se havia pas- 
sado, foi tomar posições no pateo do Thorel, ao Campo de 
Sant'Anna, e em S. Pedro de Alcântara. Travou logo tiroteio 
com artilharia i, mas suspendeuo assim que soube que a Re- 
publica fora proclamada, adherindo logo ao movimento.» 

Quanto ás declarações do general Joaquim Augusto Tei 



(#) Diário dos Uencidos — Pagina 109. 

(**) Passou depois a Praça da Republica e no local onde esteve a peça 
foi, depois em commemoração, plantada uma tilia. 
(###) O Século de 6 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 327 

xeira de Sequeira, inspector do arsenal do exercito, eram verí- 
dicas : descuidara se em absoluto a manufactura de material de 
guerra, a despeito dos insistentes boatos de sublevação próxima. 
Teixeira de Sequeira, era nomeado, á victoria ganha, para 
dirigir os serviços de desobstrucção das linhas férreas da Cintu- 
ra, proseguindo no anterior cargo. 

A sahida de Paiva Couceiro se não fez terminar o conselho, 
serviu para que menos socegada fosse a apreciação do balanço 
teito pelo chefe do quartel general. 

Os coronéis José Joaquim de Castro e Jesuino Gregório Pessoa 
de Amorim, declararam a conveniência de se proseguir nocombate. 

O acto valeria a este ultimo, á republica proclamada, a de- 
tenção (*) á sahida do quartel general e a remessa para a Ro- 
tunda, d'onde sahia pelo esforço do tenente Mauro do Carmo» 
Veiu depois a transferencia para cavallaria 3, em Extremoz, 
sendo nomeado para o commando da 4 a brigada de cavallaria, 
o coronel d'aquelle regimento, J. X Ribeiro Júnior (17 de Ou- 
tubro de 191 o). Reformando-se quasi em seguida, no mesmo 
posto de coronel, falleceu com 59 annos, na villa de Extremoz 
(24 de Maio de 1912). Assentara praça em 7 de Agosto de 
1867, foi promovido a alferes em g de Dezembro de 1873, a 
tenente em 20 de Março de 1878, a capitão em g de Setem- 
bro de 1 885, a major em 1 de Outubro de 1895, a tenente- 
coronel em 19 de Outubro de 1900 e possuía a commenda da 
ordem da Coroa da Bélgica, e era official das ordens de S. Ben- 
to de Aviz e de S. Thiago 

O commandante de c«çadores 5, José Joaquim Peixoto, pro- 
curou affastar-se da discussão, comprehendendo tudo perdido e 
inútil gastar de tempo pela consummada obra. 

O commandante de lanceiros 2, coronel Alfredo de Albu- 
querque, perguntava pelas forças da província, obtendo como 
esclarecimento que se não podia contar com ellas, visto o corte 
da linha férrea. 



(#) Já citada. 



328 ARMANDO RIBEIRO 



Respondeu ainda: 

— Pois, meu general, a minha opinião é que se lucte até ao 
fim. Eu, com o meu regimento, estou prompto para tudo, como 
até aqui. Render-me, nunca! (*) 

O coronel Christovam Adolpho Ribeiro da Fonseca, era de- 
asffecto ao proseguir da lucta. 

Tudo isso provocou exaltações. 

Vejamos aqui o livro «Como cae un trono», (pagina 1 5 1 ) : 

íA estas palabras, Paiva Couceiro se pone en pie y sale ira- 
do de la estancia. Martins de Lima apostroía a los jeíes de in* 
íantaria 5 y cazadores 5, diciendoles que han jugado con dos 
barajas. Replican estos iracundos, y entre asordante griteria, 
concluye el risible acto.» 

De tacto, resolvida tora a rendição antes das resoluções do 
conselho de ofliciaes. 

Infantaria 5 e caçadores 5, enveredavam trancamente pelo 
auxilio á revolta, deixando o retrahimento que o commissario 
naval Machado Santos registou surprehendido n'uma entrevista 
publicada no jornal O Mando de 12 de Outubro de 191 o. 

Mas não havia razões para queixas do chete da Rotunda. 

A espectativa toi apenas um meio para melhor conciliar fic- 
ções e á hora da consummada entrega, o tenente José Valdez, rei- 
vindicaria para o seu regimento, não uma capitulação, mas 
uma adhesão; apresentando (#*) mesmo um entendimento entre 
os chefes do seu regimento e o de caçadores 5, para o suspender 
de hostilidades, com equivalência certa a inicial forma de um 
capitular : 

tSr. director do tSMundo* — No seu jornal de 12 do cor- 
rente, na excelente entrevista que um dos seus redactores teve 
com Machado Santos, o intrépido e valoroso heroe da Republi- 
ca, ha dois pontos que não são absolutamente exactos, e que é 
preciso esclarecer, para que a historia da revolta não assente 
sobre bases erróneas e se dê a César o que é de César. Na pri- 
meira local diz Machado Santos o seguinte: «na tarde do dia 



(#) Os Cem Dias Funestos, por Joaquim Leitão — Pagina 
(##) O Mundo de 13 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 329 

4. . . fomos forçados a fazer fogo nutrido. . . » e logo, a seguir: 
«em toda a noite não descansámos um momento. As forças do 
Rocio fizeram varias tentativas para assaltarem o acampamento, 
mas conseguimos repelil-as sem dificuldade». Ora isto não é 
exacto. As forças de infantaria 5, postadas no Rocio, ocupando 
as ruas que dão ingresso a essa praça pelos lados norte e leste, 
não saíram das suas posições, conservando-se sempre nos seus 
locaes debaixo do fogo da Rotunda sem poderem responder para 
ali. Embora quizessem atirar sobre os revoltosos da Rotunda, o 
que não se fez, porque o espirito do regimento era revolucioná- 
rio, não o podiam fazer, porque aquelles não eram vistos, nem 
eram conhecidas as suas posições. Fizeram se tiros, é certo, não 
ordenados pelos oficiaes mas sim devido ao pânico que lavrava 
entre os soldados quando rebentava alguma bomba lançada de 
alguma janela ou quando as metralhadoras faziam fogo. O se- 
gundo ponto referese á proclamação da Republica e adesão do 
5 de infantaria. Como declarei numa entrevista que tive com 
um dos mais ilustrados redactores do seu jornal, eu e vários 
oficiaes, durante a noite conversámos sobre a situação e delibe- 
rámos influir no espirito do comandante a fim de o levar a ade- 
rir á causa republicana Devo aqui notar, que n'esta altura, e 
mesmo no final da luta, não tinha havido no nosso regimento 
nenhuma morte, sendo os feridos uns três a quatro e mesmo 
esses ligeiramente, sendo por isso por adesão e não por capitu- 
lação que procurávamos juntar os nossos esforços aos que lá em 
cima tão valentemente combatiam. Foi assim que o alferes Fran- 
co mandou avisar o comandante de caçadores 5, que estava no 
sul do Rocio, dizendo-lhe que nós não faziamos fogo sobre nin- 
guém, resultando d'ahi esse oficial ir procurar o nosso coman- 
dante e perguntar lhe : «quaes eram as cartas com que se jo- 
gava 1, tendo eu então falado e mostrado a conveniência da 
adesão por ser uma barbaridade o que se estava cometendo, 
tendo sido secundado pelos oficiaes que ali se encontravam. Os 
dois comandantes entraram após isto no quartel general e ali 
deliberaram não a adesão, mas uma suspensão de hostilidades, 
mas, quando d'esse quartel sahiram a cavallo o capitão Martins 
de Lima, uma praça com uma bandeira branca e um clarim, 

VOL. IV— FL. 42 



330 ARMANDO RIBEIRO 



os ofi:iaes do 5 de infantaria reuniram os seus homens, e con- 
fraternizaram cem o povo, aderindo desde logo á causa republi- 
cana, transformando assim o armistício em adesão plena e abso- 
luta ao grande ideal: Republica. Pouco depois destes factos, 
chegara até mim o tenente Jaime Garcia que me perguntou 
admirado o que havia e, como eu lhe dissesse que se tinha ade- 
rido, elle correu a avisar as forças da Rotunda que depois en- 
traram no Rocio, sendo recebidas por nós e pelo povo que ali 
se encontrava com palmas e vivas á Republica. E* esta a verda- 
de e por isso a venho defender, declarando mais uma vez que 
no espirito do exercito campeava de ha muito a ideia revolucio- 
naria e foi essa ideia que contribuiu poderosamente para o re- 
sultado final. Agradecendo a publicação desta carta, subscrevo- 
me de v. etc, Tenente Valde^.* 

Verberando a attitude, Martins de Lima, não esqueceu a 
afirmativa feita pelos comandantes de infantaria 5 e caçadores 
5, antes da revolução, de que se responsabilisavam pela intran- 
sigência anti democrática dos seus regimentos. 

Tudo contrariava, é certo, essa segurança e se anteriores 
suecessos o tinham evidenciado, á causa ganha, ainda mais alto 
isso se proclamou: (*) 

«Dizemnos algumas praças de caçadores 5 que é menos 
verdadeira a noticia relativa ao arremesso de uma granada de 
uma das janellas do hotel Francfort per um tal Braz da Silva, 
e que todas as granadas que no mesmo e immediatos pontos 
cairem vinham do acampamento, com pontaria para o quartel 
da guarda municipal, não sendo, portanto, qualquer interven- 
ção estranha que levou caçadores 5 a desertar do seu posto. Este 
regimento ha muito que era republicano, e, se não fora a pre- 
venção regimental ordenada por causa dos motins resultantes do 
assassinio do dr. Bombarda, teria acompanhado os revoltosos. 

aTanto era a sua concordância com & revolução, que, antes 
da batalha, tentou ir até á Rotunda, tal não conseguindo por 
esbarrar com infantaria 5; e, durante ella, ainda muitas praças 
quizeram unir se aos revoltosos, mas sempre sem êxito. A com- 



(#) O Século — Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 33 í 



missão que isto nos d.sse era composta dos srs. Amândio Au- 
gusto Durão Fialho, Valentim Quaresma, João de Deus Men- 
donça Jacques, Humberto da Silva Ramos, José Nunes e Jusé 
Ferreira Mendes Nazareth.» 

Ainda por parte de caçadores 5, os sargentos, vieram alfír- 
mar em logar de rendição a adhesão. (*) 

Não foram pois descabidas as arguições enérgicas do capi- 
tão Martins de Lima, quebrando a disciplina, inútil aliaz n'esse 
ambiente de desordens e de revoltas, para algumas verdades pro- 
clamar. 

Para a justificar ainda, entrou n'essa altura o tenente de 
artilharia, Raul Pinheiro de Andrade Pissarra, que comanda- 
va o serviço da peça collocada á embocadura da rua do Ouro. 

Cumpridor do seu mandato, tentara debellar a contra cor- 
rente evidenciada na soldadesca, querendo deixar livre passagem 
á maruja. 

N'um desespero pelas iruteis tentativas, para que a disci- 
plina se mantivesse, foi no galope do seu cavallo, ao quartel ge- 
neral, cahindo em pleno conselho de officiaes, onde bradava ao 
cheie de estado maior, coronel José Joaquim de Castro, a re- 
bellião da sua força: 

— Meu coronel. Os marinheiros estão a desembarcar no 
Terreiro do Paço! Dei oídem á guarnição da minha peça para 
que os metralhassem. Infantaria 5 não consente. Quaes as or- 
dens de V. Ex.a? 

Nem tudo sabia o tenente, fazendo se até transmissor d'uma 
nova falsa, de conveniência dos adversários: o desembarque da 
maruja, que só se etfectuou depois de proclamada a republica, 
das janellas da camará municipal. 

Ignorava ainda que, emquanto corria ao edifício do largo de 
S. Domingos, o tenente coronel José Joaquim de Sande Menezes 
e Vasconcellos, de infantaria 5, farto de uma espectativ*, deci- 
dira effectuar a entrega e avançar para o povo que fugira, re* 
ceando uma descarga. 

O otficial, porém, tirando esses terrores, arrancou a bando- 



(#) O Século de 15 de Outubro de 1910. 



332 ARMANDO RLBEIKO 



leira que atirou para o chão, com a espada e de novo abriu os 
braços. 

Só então a massa popular comprehendeu e acclamou o com- 
mandante. 

Esse acto de entrega, teve base effectiva e confirma-o o de- 
poimento do i.° cabo Zepherino José Franco: 

aNa manha do dia 5, quando a força de caçadores 5 se ren- 
deu, o nosso tenente coronel Sande avançou para o povo, que se 
agglomerava a uma pequena distancia, debandando este, re- 
ceando uma iuzilaria da força militar. Então aquelle official, 
arrancando a bandoleira e atirando a para o chão, juntamente 
com a espada, avançou, desarmado e de braços abertos, para o 
povo, que n'esse momento, irrompeu n'uma fuzilaria de palmas 
e de vivas ao nosso regimento. Quando, contentes como trium- 
pho dos revoltosos, mas tristíssimos por não termos podido con- 
tribuir para a proclamação da Republica, chegámos ao quartel, 
encontrámol-o saqueado. O povo, que havia entrado no quartel 
para arvorar a bandeira republicana, arrombara as portas das 
prisões, libertando os presos e levando comsigo todooarmamento.» 

E* certo que pelos revoltosos se quiz attenuar a adhesão, at- 
tribuindo-a como tendo base em actos de violência, os quaes 
teriam consistido ainda n'um ardil do chefe carbonário Manuel 
Braz Simões. Este pedindo aos hospedes do 4. andar do Ho- 
tel Francfort, para que abandunassem esses aposentos, teria 
feito d'ali explodir uma granada, cujos destroços, ainda que não 
passassem do telhado, iriam levar mais sobresalto ás tropas que 
se reconheciam vencidas. 

Já registámos todavia o desmentido. 

Ignorando, pois, esses successos, o tenente Pissarra, esperou 
do commando supremo a ordem firme que fizessem derrubar 
todos os planos machiavelicos. 

Veiu, mas não a tempo de ser cumprida. 

— Faça fogo. Não deixe desembarcar ninguém. Quem man- 
da é o quartel general ! foi a resposta do coronel Castro á ex- 
posição de Raul Pissarra. 

Dispunha-se o official a cumprir a determinação, quando a 
revolta se decidiu a desempenhar ali, abertamente, o seu papel. 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 333 

Representava a o coronel de infantaria 5, Christovam Adol- 
pho Ribeiro da Fonseca. 

A um signal subtil do general Carvalhal, collocou se em 
frente do tenente, e disse, dirigindo se a Raphael Gorjão ; (*) 

— Não, senhor, eu não só o não consinto, como tenho a 
declarar a V. Ex. a , que nem infantaria 5 nem as forças que 
guarnecem o Rocio fazem fogo sobre os marinheiros; não nos 
opporemos por caso algum ao seu desembarque. 

A esse acto de indisciplina, pelos sectários da Revolução, 
correspondeu a indisciplina pelos devotados ao dever de bem 
cumprir a sua missão. 

O capitão Martins de Lima, travava-se em conflicto com o 
coronel Ribeiro da Fonseca. 

Ao pasmo do coronel Castro e do general Gorjão, retor- 
quiu elle esboçando um gesto de desagrado contra o comandante 
de infantaria e bradando : 

— Tenho toda a consideração por aquelles que vêem para 
a rua expor a vida e a carreira, mas não tenho sombra de 
consideração por aquelles que jogavam com um pau de dois 
bicos, que tinham estado a ver até ao fim para que lado se ha- 
viam de voltar e á frente d'esses estão o commandante de in- 
fantaria 5 e o coronel commandante de caçadores 5. 

Ergueu se o primeiro protestando e evocando a disciplina. 

Mas diírlcil era a exigência e inútil. 

Ao capitão Martins de Lima pouco lhe importavam pendên- 
cias : em 1908, durante Maio e Junho, logo á chegada, de re- 
gresso da campanha do Cuamato, onde se batera, audacioso, farto 
numero de duellos teve. 

Replicando que ali não era um capitão, mas um vogal do con- 
selho, e disposto a tudo, proseguiu no esmiuçar de aceusações. 

Depois exigiu para a acta o registo das suas palavras, de 
contrario não a assignaria. 

O conselho dissolvia-se ? em tumulto grande, onde em es- 



(#) Cita o caso, o coronel Alfredo Albuquerque, a pagina 2il do livro 
de Joaquim Leitão, Os Cem CD/as Funestos. 



33i ARMANDO RIBEIRO 



pecial se analyzava a orientação assumida pelos dois chefes dos 
corpos de infamaria. 

A attitude do coronel Ribeiro da Fonseca, teve ainda cri- 
tica na imprensa e polemica em livro, (*) frisando-se que se in- 
fantaria 5, se houvesse mantido, a Revolução fracassaria. 

Isso deu origem ás seguintes declarações (**) do official, a 
quem á republica feita, era entregue o cargo de confiança, de 
commandante do regimento de infantaria 16: 

«Achava-me em casa, que tem communicação com o 
quartel do 5, declarou-nos o commandante de infantaria i6 f 
quando, pelas 8 horas da noite do dia 3, o official de inspecção 
me procurou para me participar que viera ordem do quartel 
general da divisão para prevenção geral, o que eu já esperava 
em vista dos distúrbios que algum tempo antes presenceara no 
Rocio e que me deixaram a impressão de que graves aconteci- 
mentos se iam desenrolar em Lisboa. Mandei dar rápida execu- 
ção á ordem recebida, conservando me depois sempre em con- 
tacto com o regimento. Passava da meia noite quando o chefe 
do estado maior me telephonou que marchasse com o regimento 
para o Rocio. Immediatamente os officiaes correram ás compa- 
nhias, fizeram armar as praças^ que seguidamente convergiram 
sobre a entrada do quartel, onde foram devidamente municia- 
das, achando-me eu sempre entre ellas. Quando o regimenta es- 
tava prompto a marchar havia populares na frente do quartel 
dando diversos gritos, pelo que ordenei que uma força com- 
mandada por um official subisse ao terraço e os fizesse afastar, 
o que conseguiu sem empregar o fogo. Depois d'isto, e tendo 
já conhecimento dos graves acontecimentos occorridos em infan- 
taria 16 e artilharia i, exhortei, em breves palavras, o regi- 
mento ao cumprimento dos seus deveres, nomeei a torça que 
devia constituir a guarda avançada e mandei marchar sobre o 
quartel general, seguindo pelo Caracol da Graça, o que tudo se 
executou, observando se sempre a mais rigorosa disciplina. Loga 
que cheguei ao quartel general recebi ordem de o delender, to- 



(*) Os Cem Dias Funestos, por Joaquim Leitão — Pagina 29L 
(**) O Século de 20 de Dezembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO POR1UGUEZ l 335 

mando as posiç5es que quizesse e devendo destacar um batalhão 
para a entrada da Avenida, o que rapidamente se executou. Du- 
rante mais de trinta horas, o regimento conservou-se na simples 
defensiva e sujeito ao fogo dirigido do Alto do Avenida e dos 
cruzadores que, no Tejo, se achavam revoltados, e ainda a algu- 
mas bombas lançadas dos prédios, isto é, n'uma situação consi- 
derada sempre desmoralisadora e que era aggravada pela cir- 
cumstancia de haver no batalhão, que estava na Avenida, alguns 
elementos revolucionários, como depois soube, não devendo, por- 
tanto ser muito para admirar que não suppcrtassem com firme- 
za e resignação as granadas que, por vezes, lhes cahiam em cima. 
Accentuando a situação que foi creada ao regimento, não tenho 
por fim fazer quaesquer reparos ás ordens recebidas^ pois é fora 
dos meus hábitos criticar os actos das estações superiores ou os 
dos meus camaradas, além do que, depois dos factos occorridos, 
não é ditficil ser se perspicaz e estratégico. O meu fim, portanto, 
é outro; frisar bem os factos que mostram que o regimento, no 
seu conjuncto, observou sempre os preceitos da disciplina, em- 
bova ) fora da minha presença, alguns elementos revolucionários 
que possuía tentassem, por vezes, o contrario, segundo mais 
tarde vi affirmado na imprensa, 

«Na noite de 4 para 5 começaram a correr noticias muito 
inquietadoras, verificando se depois serem quasi todas verdadei- 
ras. Na manhã de 5, seriam talvez umas oito horas, o cançaço 
e o desalento das praças eram manifestos, sendo do meu conhe- 
cimento e dos meus camaradas factos da maior gravidade, taes 
como: estarem as linhas férreas e telegraphicas em poder dos 
revoltosos, que evitavam assim a vinda de quaesquer forças de 
fora, o que de facto succedeu mesmo relativamente áquellas 
que se achavam aquarteladas mais perto da capital; estarem 
todos os marinheiros revoltados; ter o cruzador D. Carlos 
adherido aos outros dois cruzador ;s que no Tejo se achavam 
revoltados desde a noite de 3; estar a bateria de artilharia de 
Queluz, única artilharia de que dispunha o quartel general, 
quasi sem munições, não podendo fornecelas Braço de Prata 
por se achar cercado pelo povo; estar cavallana 4 reduzida a 
menos de 40 cavalleiros em virtude das perdas que sofírera em 



336 ARMANDO KIBE1RO 



Alcântara; declarar a i.a brigada de infantaria que não podia 
marchar sobre o Rocio, ficando, portanto, inactiva; a attitude 
da população abertamente ao lado dos revoltosos, etc. 

« — Esses factos influíram profundamente no seu espirito? 
— interrompemos nós. 

<í — Pezei es maduramente e, em presença, pois, d'elles, for- 
çoso foi concluir que a monarchia estava fenda de morte, sendo 
certo que combalida vinha ella de ha muito, pela desorientação 
governativa e condemnaveis processos de administração, que 
iam revoltando cada vez mais a consciência publica. O que se 
passou de norte a sul do paiz prosou depois, exuberantemente, 
que não me tinha enganado. Entendendo unanimemente que o 
nosso dever era, como servidores da nação, respeitar a sua von- 
tade, como eu também a tinha respeitado emquanto julguei que 
ella queria a monarchia, e, vendose claramente que persistir na 
lucta era, além de contrariar aquella sua vontade, por tantos 
factos manifestada, contribuir para uma verdadeira chacina, que 
não alteraria o resultado final da lucta, servindo apenas para 
immolar centenas de vidas, sacrificadas, assim, ingloriamente 
em holocausto ás faltas e aos erros de muitos que se achavam 
em segurança, não coirendo as suas pessoas o menor risco, dei, 
por isso, as mais terminantes e rápidas ordens para não se fazer 
fogo contra os marinheiros ou quaesquer outros revoltosos que 
se dirigissem para o Rorio, o que a cada momento se esperava: 
estavam assim cumpridos também os meus deveres para com a 
nação e ainda para com a Humanidade. Da resolução tomada, 
entendi do meu dever dar conhecimento ao chefe do estado 
maior, apparecendo-me, na occasião em que me ia a dirigir para 
o quartel general, o commandante de caçadores 5, a quem um 
oflicial do seu batalhão fizera sciente d'essa resolução, por lhe ter 
sido communicada por um oflicial superior de infantaria 5, 
quando aquelle official, havia pouco, fora á rua do Amparo di- 
zer para não se hostilisar caçadores 5, caso se visse este batalhão 
marchar sobre a referida rua, pois teria isso tão somente por 
fim retirar sobre o quartel general. Confirmando ao meu col- 
lega de caçadores 5 o que lhe fora participado, fil o ao mesmo 
tempo sciente dos factos sobre que eu e os meus camaradas ti- 



A KEVOLUÇAO PORTUGUEZA 337 

nhamos baseado a nossa resolução, a qual o rderido comman- 
dante resolveu também adoptar, seguindo commigo par* o quar- 
tel general, a fim de secundar as minhas declarações. Estas fo- 
ram feitas perante o chefe do estado maior e seguidamente só 
por mim perante o gtneral de divisão, e tanto a um como a 
outro eu expuz os factos sobre que tinhamos baseado a resolução 
de não fazer fogo sobre os marinheiros ou quaesquer outros re- 
voltosos, evitando se assim uma lucta inglória e uma chacina. 
Na occasião em que falava ou ia para falar ao general, já não 
me recordo bem, appareceu o cônsul allemão pedindo um armis- 
tício de uma hora, a fim dos seus compatriotas poderem embar- 
car. Esse armistício, que foi concedido, contribuiu desde logo 
para os soldados e populares confraternisarem. Seguidamente, 
realisou se um conselho de officiaes, por ordem do commandante 
da divisão, a fim de resolver se depois do armistício devia con- 
tinuar a lucta, embora eu nunca soubesse com que tropas, pois 
n'aquella occasião havia apenas no Rocio, que eu me lembre, a 
bateria de artilharia de Queluz, quasi sem munições, e o meu 
regimento, que, certamente, o conselho não poderia suppôr que 
praticasse actos contrários á resolução tomada pelos seus officiaes 
€ de que, como já disse, eu dera immediato conhecimento ao ge- 
neral da divisão. N'esse conselho expoz este general, com a maior 
nitidez, a situação das tropas, vendo eu confirmados todos os 
factos sobre quaes infantaria 5 baseara a sua attitude, que no 
mesmo conselho tive occasião de defender, protestando além 
d'isso perante o referido general centra os desmandos de lingua- 
gem do seu ajudante de campo, capitão de cavallaria, quando 
usou da palavra, e que replicou pretendendo sustentar a estra- 
nha doutrina de que não havia ali coronéis nem capitães, que 
lhe era licito falar como quizesse e que nem o próprio general 
o podia mandar calar. Este, de facto, não o chamou á ordem, 
talvez por julgar que as suas palavras não tivessem intenção of- 
fensiva e apenas filhas da grande exaltação com que falava. E', 
porém, fora de duvida que o conselho tinha apenas de se pro- 
nunciar sobre o procedimento a seguir, sem qualquer dos seus 
membros ter o direito, mesmo que aquelle funecionasse como 
tribunal, de dirigir censuras a ninguém. Depois do capitão a 

VOL. IV— FL. 43 



338 ARMANDO RIBEIRO 



que me refiro talaram outros officiaes, acabando o conselho 
quando alguém, entrando na sala, participou ao commandante 
da divisão que tinha sido içada a bandeira republicana no mas- 
tro do quartel general, o que o dispensou mais de rhetorica e 
qualquer acta. Pouco depois de terminar o conselho, o general 
de divisão ordenou me que retirasse com o regimento para o 
quartel, onde entrei á sua frente, unido e disciplinado da mes- 
mo maneira que tinha saido, e com a consciência tranquilla de 
ter cumprido os meus deveres para com a disciplina e para com 
a nação. E não terminarei sem declarar, a propósito d'uma no- 
ticia menos exacta, publicada n'um jornal, que nunca fui ao 
quartel general falar, em assumpto de serviço, com o comman- 
dante da divisão sem este o ordenar; não ha official algum que r 
ao tempo, ali servisse que deva ignorar tal facto, como creio que 
também sabem que, quando interrogado pelo mesmo comman- 
dante sebre a confiança que me merecia o regimento, respondia 
sempre que tinha confiança nos meus camaradas e que estava 
convencido de que o regimento me obedeceria em quaesquer 
circumstancias de serviço. Não citarei os factos em que baseava 
a minha convicção, porque o que suecedeu dispensa isso com- 
pletamente. 

<t — Accusaram V. Ex. a , acerescentamos nós, não só de ter 
cedido demasiado cedo ás circumstancias, como também de ter 
oceupado o seu posto com ideias reservadas. 

« — A minha resolução chegou, como lhe disse e provei, 
na hora própria e necessária. Emquanto ao tal «pau de dois bi- 
cos» com que joguei, segundo afirmaram n'um jornal, íar-me- 
hia rir se me não revoltassem sempre aceusaçoes tão injustas e 
infundadas como essas.» 

O conselho dissolveu-se, pois, tumultuariamente. 
O commandante da divisão, desnorteado, debalde quiz im- 
por o seu prestigio. 
Era tarde. 

Os vivas da populaça levaram aos deflensores da realeza o 
desespero. 

Correram para fora, quando sobre o edifício se fez uma des- 
carga que attingiu ainda os guardas fiscaes n.° s 82, Augus- 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 339 

to Marques, n'uma perna e 1 38, Francisco Correia, na ca- 
beça. 

Estava porém assegurada a queda da monarchia. 

O general Carvalhal, assumiu desde logo a chefia da acção 
no quartel general. 

Emquanto o commandante da divisão contemplava extático 
a desordem e o tumulto que ia a dentro e íóra do ediâcio, Car- 
valhal, levando até á janella um corneteiro, fazia-o tocar a cessar 
fogo. Telephonava-se egualmente para as Necessidades, ao coro- 
nel Brito e Abreu, participando a consummada obra. 

Por ordem sua, ainda, subia no mastro uma bandeira bran- 
ca, e o povo prestou- se para invadir o quartel, proclamando a 
victoria da Republica. 





líTiriíi 




Hl 



A attitude dos dirigentes da revolta — O jornal «A Lu- 
cta» ante os successos — Posse do Governo Civil e 
do Juízo de Instrucção Criminal — O novo gover- 
nador civil — Primeiras providencias — Perseguição 
á policia e sua reforma — Proclamações — A posse 
do quartel general — Machado Santos eo novo com- 
mandante da divisão — Chegada dos delegados do 
Directório — Prémios de apoz victoria — A bandeira 
da revolta no Castello de S. Jorge — De jubilo em 
jubilo. 




grita enthusiastica dos civis, acclamando a re- 
publica, e bemdizendo o armistício que dera 
ensejo á sua proclamação, chegou até aos diri- 
gentes da revolta. 

Vindo á rua, o revolucionário Celestino 
Steffanina, presenceou a ccntraternisação da sol- 
dadesca e do povo. 
Correndo ao Hotel Europa, onde em refugio deixara José 
Relvas e os drs. Eusébio Leão e José Barbf sa, á porta os acha- 
va, para os primeiros sorrisos da gloria apoz essas desoladas e 
inquietantes horas de tempestade. 

Descendo a rua do Carmo, Celestino Steflanina e José Bar- 
bosa, foram ao Rocio, onde verificaram a exactidão das boas 
novas, aífirmadas ainda no edifício do quartel general. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 341 

Rapidamente, decidiram ir á redacção da Lucta, commu- 
nicar ao dr. Manuel de Brito Camacho o alcançado êxito, apoz 
tantas indecisões. 

Já ali chegara a novidade jubilosa e o director da Lucta, 
preparando novas mensage-ns ao povo incitava ao appressar do 
acto definitivo, o da proclamação. 

De automóvel se dirigiu em seguida com o visconde da Ri- 
beira Brava para a Praça do iVtunicipio, mas a celeridade da 
carreira íez com que o vehiculo esbarrasse, na volta da Rua do 
Alecrim para a Praça de Sá da Bandeira, ficando feridos ambos 
os passageiros, forçados a retroceder, para tratamento. 

Mas já traçado estava o encómio á situação nova. 

Contrapondo á simulada surpreza da véspera, a Lúcia, 
sahindo pouco depois, espalhava o rejubilo nas seguintes linhas 
do maior normando dos seus caixotins typographicos: 

«Viva a Republica Portugueza! Ao Povo Portuguez: 

«Lisboa, a cidade republicana por excellencia, a mais repu- 
blicana de todas as cidades do Mundo, ao cabo d'uma lucta por- 
fiada em que se empenharam, numa sublime conjugação de 
esforços o Povo, o Exercito e a Marinha, proclamou a Republica 
como Governo da Nação. Tinha de ser assim, não podia ser de 
outra maneira. A capital, que é o próprio cérebro da população 
que pensa, e é o próprio coração da população que sente, tinha 
que dar a realidade e a prova ao maior sonho, ao supremo an- 
ceio nacional — a proclamação da Republica como a indispen- 
sável condição do resurgimento nacional. A hora não é para vãs 
declamações, embora seja para a livre expressão de immensa 
alegria, de incommensuravel enthusiasmo que enche e alenta o 
peito de todos os bons patriotas, O Paiz inteiro vae sanccionar 
o procedimento da Capital, dando a mais prompta e c?bal ádhe- 
são ao novo Regimen, sclemnemente e definitivamente adopta- 
do. A dynastia de Bragança deixou de viver em Portugal : o 
throno portuguez está para sempre vago; a Republica é, desde 
hoje, o Governo da Nação. Viva a Pátria! Viva a Republica!» 

Ao dr. Manuel de Brito Camacho, vinha depois, (+) como 



(#) Legislação Tortugueza de 1910— II volume — Pagina 123. 



342 ARMANDO RIBEIRO 



premio aos cuidados havidos nos dias inquietantes do movimen- 
to, a reintegração, com promoção, no quadro dos médicos milita- 
res, contido tudo no seguinte relatório e decreto, onde a habi- 
tual sêcca feição legislativa apparece attenuada sob o aspecto de 
uma biographia politica; 

«Entre o grupo distincto dos mais ardentes servidores da 
Republica Portuguesa, que, como irrisória compensação, ainda 
hoje estão soffrendo as consequências da sua patriótica iniciativa, 
devotada insenção e inquebrantável amor pela causa publica, fi- 
gura em vantajoso destaque o ex cirurgião ajudante do regimen- 
to de artilharia n.° 2, Manuel de Brito Camacho. Ha cerca de 
vinte annos que este benemérito cidadão tem dedicado, com ex- 
clusivo e perseverante ardor, ao serviço e publica propaganda do 
ideal republicano, as melhores energias do seu caracter e os maio- 
res fulgores do seu talento. Desde os seus artigos no extincto jornal 
Nove de Julho até aos seus trabalhos brilhantes como conferen- 
cista, orador e organisador de núcleos de resistência contra 
o decahido regimen monarchico, e ainda ultimamente a diffusao 
esclarecida e methodica dos principios democráticos feita entre 
as classes mais illustradas da socielade portugueza pelo seu apos- 
tolado admirável no jornal A Lacta, Manuel de Brito Camacho 
tem se revelado sempre como um dos mais arrojados, confiantes 
e leaes cooperadores n f essa obra grandiosa de saneamento a jus- 
tiça que acaba de emancipar a pátria portugueza. A collabora- 
çao de Manuel de Brito Camacho no jornal Nove de Julho, e a 
apresentação da sua candidatura como deputado republicano, 
valeram lhe a imposição de uma grave pena disciplinar, que o 
levou, depois, com justificado desgosto, a demittir-se do exercito. 
E* agora um dever elementar de equidade reparar a injustiça 
íeita e reintegrar o ex cirurgião ajudante, Manuel de Brito Cama- 
cho, no cargo que antigamente exercia no exercito, com a sua 
tolha de serviços limpa e occupando o posto que na escala de 
promoções hoje lhe pertenceria se não tivesse deixado o exercito. 
E* como expressão d'este levantado principio de justiça que se 
publica o seguinte decreto: 

«O Governo Provisório da Republica Portugueza decreta, 
para valer como lei, o seguinte: Artigo i.° E* annullado o cas- 



A REVOLUÇÃO POIiTUGUEZA 34£- 

tigo imposto em 9 de abril de 1894, a Manuel de Brito Cama- 
cho, sendo riscada a nota na respectiva folha. Art. 2. E* reinte- 
grado nos quadros do exercito o ex-cirurgião ajudante Manuel 
de Brito Camacho, no posto de capitão medico, por ser esta a 
sua altura na escala de promoção, com a antiguidade d'este posto 
contada de 19 de Julho de 190 1. Determina se portanto que todas 
as autoridades, a quem o conhecimento e a execução do presente 
decreto com torça de lei pertencer, o cumpram e façam cumprir 
e guardar tão inteiramente como n'elle se contém. — Os Minis- 
tros de todas as Repartições o façam imprimir, publicar t cor- 
rer. Dado nos Paços do Governo da Republica, em 21 de No- 
vembro de 1 9 1 o. — Joaquim Theophilo Braga — António José 
de Almeida — Affonso Costa — José Relvas — António Xavier 
Correia Barreto — Amaro de A\evedo Gomes — Bernardino 
Machado — António Lui\ Gomes.» 

Pouco depois (18 de Outubro de 191 1)0 dr. Brito Camacho 
passava á situação de licença illimitada, vindo ainda ao cargo de 
ministro do fomento. 

Querendo também exalçar se o jornal, e sem que evocada fosse 
a attitude retrahida, de falsa surpreza, apresentada na manha 
de 4, a Rua Duque de Saldanha, seria transformada em rua da 
Lncta, por proposta leita em sessão de 27 de Outubro de 191 0, 
da camará municipal de Lisboa, pelo vereador Augusto José 
Vieira. 

Deu-se ainda o episodio curioso de se allegar preferida a rua 
Duque de Saldanha, em vez da de Anchieta, onde era a sede do 
periódico, pelo facto de esta ter um nome d'um homem que 
muito honrou a pátria portugueza. 

Assim se começou por apear o marechal da homenagem a 
que de direito tinha egualmente jus. 

Não sanecionava o director da Lncta, o depreciar do vuita 
histórico, e declinava a honraria em officio de 29 d'esse mez. 

Ficou todavia de pé a deliberação municipal. 

Ernquanto Celestino Steffanina e o dr. José Barbosa se dis- 
punham a ir á Lucta notificar o fim de todas as incertezas, o 
governo civil, sabida a situação de vencedora em que se envol- 



344 ARMANDO RIBEIRO 



vera a causa até essa hora considerada perdida, quiz se esquivar 
a represálias previstas. 

A acção combativa da policia estava coarctada, 

O cominando superior, confiado ao coronel Moraes Sarmen- 
to, ancioso da entrega. 

Comquanto a dentro do edifício do governo civil, se encon* 
irassem cerca de 1.000 agentes, bem armados, destacavamse 
emissários que sahindo ao encontro do dr. José Barbosa, lhe 
communicaram o voto de que o commandante queria liquidar 
a posse das suas attribuiçoes. 

Commissionado principal foi o cabo 61, Augusto da Rocha 
Coelho, apresentando se a dizer que a policia se entregava, e pe- 
dindo para que não houvesse mais sangue. 

A monarchia ia pactuando. 

Mal convencidos, presumindo ardis onde apenas havia submis- 
sões, a populaça manifestou se contrariamente á entrada dos chefes 
da revolta na denominada Parreirinha, sob temor de uma chacina. 

Os delegados da republica, eram porém recebidos com as 
acclamaçÕes enthusiasticas dos agentes. 

No seu gabinete, o coronel José António de Moraes Sar- 
mento, rodeado de toda a officialidade, formulou logo a sua 
acquiescencia ás ordens do regimen victorioso. 

O representante do Directório, declarava tomar posse do gover- 
no civil, em nome da Republica, cujos dogmas exalçou e para o 
confiar á direcção do dr. Euzebio Leão, novo chefe civil do districto. 

Proclamou em seguida a vontade da Revolução de se efifec- 
tuarem os primeiros actos de reparação de violências mon&rchi- 
cas contra os republicanos. 

O juiz de instrucção, dr. Almeida Azevedo, adivinhou logo 
as intenções do delegado, e este não o deixou proseguir em du- 
Vidas, ordenando lhe a immediata liberdade dos carbonários, 
João António Alves Borges, Manuel Pires Vaz Bravo Júnior e 
Manuel de Seixas Brito Bettencourt, (*) do caso das bombas da 
Rua dos Correeiros. 



(*) Envolvido também no caso da explosão de bombas na Rua de 
Santo António á Estrella. — Vide i.° volume desta obra, pagina 188- 



A REVOLUÇÃO P0R1UGUEZ\ 345 

O dr. Almeida Azevedo, altivo, limitou se a dizer que ia ef- 
tectuar a sua immediata remessa ao tribunal. 
José Barbosa, reiterou a ordem. 
O commandante da policia, era o mais appressado em pactuar* 

— V, Ex. a ordena, que sejam soltos os três bombistas? 

— Em nome da Revolução! 

Assim se cumpriu a primeira determinação sua. 

João Borges, esteve incluído na lista dos que lhe devia ser 
applicada a iei de i 3 de Fevereiro de 1896. Mais tarde, appare- 
cia um dos chetes da policia especial de vigilância denominada 
pelo povo, de formiga branca, cahindo então sob censuras jorna- 
lísticas nunca eflectuadas em tempos do regimen por elie tão 
combatido. A sua acção, as perseguições pelos casos do 2 1 de 
Outubro de 1 9 1 3, e levada até a aggressão ao general Jaymede 
Castro em 23 d'esse mez, trouxe lhe um sudário accusativo com 
exposição de biographicos dados que o arrastaram de um promet- 
tido logar de commissario de policia. (*) 

Manuel Bravo, que pouco depois apparecia como um dos 
proprietários e fundadores do diário republicano A Republica 
'Portugue-a, (**) e que teve como premio a anteriores trabalhos 
e a mal decorridas horas, uma cadeira de deputado á Assembleia 
Nacional Constituinte, manifestouse depois abertamente con- 
tra a proposta da amnistia a presos políticos, originando a se- 
guinte reedição (***) de passados factos: 

(cSeja dito em honra do Grupo Independente, que na vota- 
ção d'hontem na Camará dos Deputados, sobre a urgência re- 
querida para a discussão do projecto, só o sr. Manuel Bravo, desse 
grupo, é que regeitou a urgência. S. ex. a que regeitou, lá tinha 
as suas razoes — ainda se lhe não varreu do espirito aquella 
tétrica vizão de Timor que teve nos calabouços do governo ci- 
vil, depois de fracassados, numa casa de meretrizes duma rua 



(#) O Intransigente de 7 de Dezembro de 1912. 

(*#) Teve o 1° numero na quinta feira 13 de Outubro de 1910, e a 
sede redactorial na rua do Sacramento, ao Chiado, 4 4. Foram fundadores e 
proprietários, Manuel Bravo, Joaquim Ribeiro de Carvalho e Thomaz da 
Fonseca, e redactor gerente, Santiago Presado. 

(#*#) O Intransigente de 29 de Janeiro de 1913. 

TOl. rv — FI_. 44 



346 ARMANDO RIBEIRO 



da Baixa, os seus grandiosos projectos revolucionários. S. ex* 
ainda não teve tempo de se refazer das cólicas de que o liberta- 
ram os canhões da Rotunda. Assim como outrora imaginava 
poder arrostar sósinho com os sete séculos da monarchia, as- 
sim imagina hoje poder arrostar, também, com os lúgubres 
génios dos que chegam até nós do fundo das prizÕis, coados 
atravez dos ferros de todos os cárceres de Norte a Sul do pais.» 

Quanto ao seu forçado libertador, o juiz de instrucção Antó- 
nio Emilio de Almeida Azevedo, retirava apoz o acto. Seguiu- 
se-lhe (g de outubro) o arrolamento do existente no juizo crimi- 
nal, e a demissão do seu dirigente por decreto de 12 publicado 
a l3, data em que o dr. Almeida Azevedo, regressando de 
Aveiro a Lisboa, recebia um officio para effectuar a entrega do 
existente no cofre de sua guarda. Assim, depunha nas mãos do 
2.°- commandante da policia, Gamara Pestana, entre outros 
objectos, as armas dos regicidas e o processo do assassínio de 
Fevereiro de 1908, transitando tudo para o ministério da jus- 
tiça. 

Era desde K-go substituído pelos drs. Bernardo Meyrelles 
Leite e Alfredo Monteiro de Carvalho, como juizes de investi- 
gação junto dos quatro districtos criminais. 

Pouco depois, regressando de licença pedida, ao cargo de 
juiz da i. a vara eivei, era transferido para a comarca da Guarda, 
d'onde fazia subir ao Tribunal da Relação, um officio protes- 
tando contra o acto não solicitado e que considerava de lesa- 
diíeito 

Optava em seguida pelo exilio e partindo para Inglaterra, 
era, dois annos decorridos (19 de Dezembro de 1912) nomeado 
professor de litteratura na Universidade de Londres. A nostal- 
gia de pátria, tez com que a ella regressasse mais tarde, abrindo 
banca de advogado em Lisboa. 



Sahindo dos cárceres do governo civil João Borges e Ma- 
nuel Bravo, foram com o revolucionário Estevam Pimentel, 
oceupar a estação dos telegraphos, que depois confiaram á di- 
recção do dr. Ribeiro de Souza. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 347 

Estevain Pimentel, teve, á partilha, o logar de governador 
civil do districto de Évora, sendo o seu nome citado, mais tarde, 
a propósito de um desacato na egreja italiana do Loreto, em 
Lisboa. 

Estava feita a posse do governo civil, a qual se deu como 
assistente o dr. Euzebio Leão, dizendo: (*) 

«Chegou nos, finalmente, a noticia da victoria. Os revolu- 
cionários haviam tomado o quartel general e toda a tropa que 
estava no Rocio se havia rendido. Fomos ao Rocio verificar o 
íacto e subimos depois o Chiado para irmos ver o que se pas- 
sava no governo civil. Os populares procuravam demover-me do 
meu propósito de me approximar de lá, dizendo me que os po- 
licias estavam ainda em attitude aggressiva e que a revolução 
não queria perder nenhum dos seus dirigentes. Insisti, porém, 
e fomos até á porta do governo civil. Os policias que alli esta- 
vam mostraram-se submissos, implorando que lhes não fizessem 
mal, pois todos julgavam que iam ser massacrados » 

Não o cita todavia um documento, espécie de auto, onde se 
relata o acto: 

aEu abaixo assignado, declaro que peias oito horas e trinta 
e cinco minutos, no dia cinco de outubro do anno de mil no- 
vecentos e dez, isto de manhã, foi este edifício do Governo Ci- 
vil da cidade de Lisboa, tomado pelo Ex. mo Sr. Celestino Stetta- 
nina, juntamente com outro individuo de quem se fazia aconv 
panhar, soube depois ser o senhor José Barbosa, estando n'esta 
occasiao grande e avultado numero de guardas em frente do mes- 
mo edifício estando os mesmos armados de revolveres e traça- 
dos; declarando o mesmo senhor que não havia perigo que se 
rendessem assim o fizeram. Levantando n'ess* occasiao vivas ao 
novo regimen, sendo o mesmo senhor acompanhado pelo pes- 
soal da policia ao chamado (pateo dos Calaboiços) no interior do 
mesmo edifício, no meio de grandes manifestações, estando 
n*essa occasiao presos no calaboiço numero quatro os cidadãos 
João Borges e o professor Bettencourt e Manuel Bravo accusados 
pelo antigo regimen de conspiradores contra o mesmo regimen 



(*) O Século de 28 de Outubro de 1910. 



348 ARMANDO RIBEIRO 



e de anarchistas, os quaes presenciaram os factos passados no 
mesmo pateo onde estavam installados os calaboiços. — Lisboa, 
18 de Outubro de 191 — Augusto da Rocha Coelho, i.°cabo 
n.° 61 do Corpo de Policia Cívica » 

De lacto, a entrada do dr. Euzebio Lcao, efíectuou-se depois 
da posse do ediâcio, e sendo até aguardado pelo revolucionário 
Stetfanina, que ficou no Governo Civil dando ordens para a 
substituição da bandeira azul e branca pela da revolução. 

Já se etfectuara também a remoção, para o arsenal, de um 
sem numero de armas e do cartuchame existente no pateo dos 
calaboiços e na véspera trazido do quartel de engenharia. 

De volta da Camará Municipal e do quartel da guarda mu- 
nicipal, tomava pois, o dr. Euzebio Leão posse do logar de go- 
vernador civil de Lisboa. 

Conferia lh'a, sem exigência sequer de official documento de 
nomeação, o governador civil, do cahido regimen, Alfredo Men- 
des de Magalhães Ramalho, que em seguida abandonava a capital 

Como primeiros actos, teve as ordens : da prohibição do lan- 
çamento de foguetes, para que não houvesse alarme ; da aber- 
tura immediata de padarias e mercearias, afim de se efiectuar 
o abastecimento popular; do encerramento das lojas de bebidas, 
para se obstar a abusos e excessos; e impondo o abster de per- 
seguições, esta ultima medida exposta no edital seguinte : 

Republica Portugueza 

PÁTRIA E LIBERDADE 

Governo Civil de Lisboa 

AO POVO 

Ordem e trabalho é a divisa da Pátria libertada pela 
Republica. A todos os cidadãos de Lisboa se pede que se- 
jam os primeiros a manter a tranquilidade publica. Res- 
peito pelas pessoas e propriedades dos estrangeiros, res- 
peito pelas pessoas e propriedades dos portuguezes sejam 
quaes forem as suas classes, profissões e opiniões politicas 
ou religiosas. — O Governador Chil, Eusébio Leão». 

Julgou-se ainda útil chamar a attençao do povo para o edi- 
tal e o governador civil, incumbia d'essa missão de arauto, o 
revolucionário Victor Pompeu Rodrigues, que, de automóvel e 
de lança com a bandeira republicana, não só foi indicando ao 
povo a conveniência de ler e guardar as disposições do doeu- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 3i9 

mento affixado nas esquinas, como percorreu as sedes das com- 
missoes parochiaes, incumbindo-as, em nome do dr. Euzebio 
Leão de vigiar pela manutenção da ordem e exacto cumpri- 
mento do edital. 

As recommendaçoes e o tacto conhecido da transigência da 
sede do commando de policia não excluiram todavia o assalto 
não só aos quartéis da guarda municipal, como a esquadras, re- 
duzidas a ruinas. 

Soffreram-n'o as da rua do Calvário, largo do Rato, largo 
do Caminho Novo, Terremotos, rua da Boa Vista, calçada da 
Pampulha, rua do Loureiro, rua do Valle de Santo António. 
Contra esta se concitaram especiaes fúrias, com fundamento em 
haver retido João Alves, morador na rua do Diário de Noticias, 
84, e Manuel Vaz Rebordão, envolvidos no caso das bombas 
da rua Santo António á Estrella e Arthur Cunha, morador na 
rua do Valle, 94 e preso ali pela janeirada de 1908. 

Outra das mais attingidas, foi a esquadra da Travessa das 
Almas á Estrella, onde a turba apezar da resistência opposta, 
fazia damnos no valor de ioo$ooo reis, e furtava objectos na 
importância de 64^000 réis. As investigações judiciaes não dei- 
xaram passar em claro o lance, e aos tribunais conduziu, como 
principal instigador, o trabalh&dor Zepherino Dias, solteiro, de 
29 annos, natural de Lisboa, que, julgado, teve o crime pro- 
vado e inherente a condemnação (23 de abril de i9i3)a 3 
annos de prisão maior celiular ou na alternativa de 5 de de- 
gredo em Africa e 3o dias de multa a 100 réis por dia, apro- 
veitando-lhe o decreto de 4 de novembro de i9io, o que redu- 
ziu a pena a 2 annos de prisão maior celiular, na alternativa de 
3 annos, 4 mezes e 2 dias de degredo e IO dias de multa a 
IOO réis. 

Um troço enorme de civis, levando um d'elles um tambor 
onde rufava incessante, dirigiuse ao governo civil para effectuar 
o aprisionamento de toda a policia, e que tinha, por elles, logar 
destinado na Rotunda. 

Mas a policia já a salvo estava, e o grupo achou-se apenas 
a contas com forças de infantaria 5, assegurando um poder nem 
sujeito a excessos. 



350 ARMANDO KIBEIRO 



D'ahi a tomadia violenta dos agentes isolados, cahindo sob 
a alçada dos turbulentos. 

Muitos, eram procurados em casa e presos (*), fazendo isso 
com que á porta do antigo commandante, Moraes Sarmento, fos- 
sem collocados, de guarda, armados, dois populares e á entra- 
da, outro, com o estandarte republicano na mão, para se impor 
a investidas. Tomavase posse das fardas dos agentes, enverga- 
das para excessos, (**) 

Sob a alçada popular cahia ainda o cabo da esquadra da 
rua dos Gapellistas, condecorado pela morte de Manuel dos 
Reis e Silva Buiça. Embora negando o acto, de iras o salvaram 
mais cordatos. 

Os chefes Narciso, da esquadra do Rato e Silva, da dos Ter- 
ramotos, eram detidos, e levados ao governo civil, emquanto 
aggredidos, para ali se conduziam também, os agentes 217 
e4o8. 

Deu tudo isso origem ao seguinte documento: 

Recommendação ao povo 

O Directório do partido republicano recommenda a 
todos os cidadãos a maior urbanidade com as pessoas dos 
policias e guardas municipaes, visto que todos se rende- 
ram, não havendo portanto motivos alguns para aggres- 
sões; e pede a todos os cidadãos que mantenham como 
sempre a mais completa ordem. 

A. repartição trouxe ainda uma ordem, enérgica, do governo 
civil, assim exposta : 

Republica Portugueza 

PÁTRIA. E LIBERDADE 

Governo Civil de Lisboa 

Para garantir a liberdade individual, condição necessa- 
saria de segurança social e de honra do governo republi- 
cano, íaz-se saber a todos os cidadãos que é indispensável 
haver todo o respeito pelas pessoas dos policias, dos sol- 
dados municipaes e dos padres, assim como de indivíduos 
de qualquer outra condição, castigando-se rigorosamente 
qualquer desacato que se pratique. Lisboa, 6 de Outubro 
de 1910.— O Governador Civil, Eusébio Leão. 



(*) A Lu. ta, de 7 de Outubro de 1910. 
(**) O Século, de 7 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 351 



Sollicitada toi egualmente a intervenção do quartel general 
para o reprimir das violências, emquanto preventivamente se 
determinava aos officiaes da policia, a collocaçao no hombro, de 
laços com as cores verde e encarnada. 

Querendo-se entretanto aflastar os perseguidos, era licencea- 
<3a a policia, sahindo desarmada, e estabeleciase logo a substi- 
tuição de todo o corpo de officiaes, ficando dos antigos, os capi- 
tães Manuel Jacintho França Júnior e João Carlos Craveiro Lo- 
pes, que se reuniram aos modernos, o capitão de caçadores, 
Henrique Maria Cancio de Penha Coutinho, e tenentes de infan- 
taria, Virgiíio do Carvalhal Esmeraldo e Luiz Maria da Gama 
Ochoa. 

O coronel José António de Moraes Sarmento, comandante 
ha 17 annos, cedia o logar (9 de outubro) ao major de artilha- 
ria, Alberto Carlos da Silveira, sendo 2° comandante, o capitão 
de artilharia, Tristão da Camará Pestana, que mais tarde (20 
de Março de 1912) ordenava a queima no pateo do governo civil 
de todo o archivo da policia preventiva até 1906 e dos jornaes, 
livros e outros documentos apprehendidos no tempo da monar- 
chia. 

Sobre essas nomeações, appareceram mais tarde, com ro3l 
encobertas accusaçÕes sobre deficiências na repressão dos conspi- 
radores monarchicos, uns trechos (•) curiosos, aos quaes só faltou 
o nome da individualidade citada, embora acontecimentos de 
occasião se encarregassem de o desvendar: o major Alberto Car- 
los da Silveira. 

«Quando rebentou a revolução em Lisboa, eu tinha a di- 
recção da unidade que V- sabe. Os ecos do movimento revolu- 
cionário, na capital, chegavam á localidade onde eu tinha a mi- 
nha residência e vinham até mim, ora annunciandu-me a victo- 
tia das forças republicanas, ora o triunfo dos defensores da mo- 
narchia Passei aquellas longas horas n'uma agitação espantosa. 

Desconhecendo quasi completamente o desenrolar dos acon- 
tecimentos, recolhi a casa na noite de 4, deitei-me e adormeci. 
A madrugada de 5 surgiu alam. Quasi não tinha pregado olho 



{*) O Século de 21 de Novembro de 1913. 



352 ARMANDO RIBEIRO 



e dispunha-me a sahir da cama e tentei um esforço para averi- 
guar em que altura estavam as coisas, quando, no pateo da mi- 
nha habitação, senti o ruido confuso de baionetas e de coronhas 
de espingardas batendo no lagedo. Tive um sobresalto. Vi dean- 
te dos olhos todo o desenrolar de uma pavorosa perspectiva. 
Senti me preso, metido entre uma escolta, arrastado para uma 
prisão, enterrado n'um calabouço húmido e írio. Hesitava deante 
do caminho a seguir, visto que, se a casa estivesse cercada, como 
eu supunha, eu não podia fugir d*ali. Entretanto o núcleo au- 
mentava. Da rua chegavam até aos meus ouvidos, palavras des- 
conexas, gritos que eu teimava em supor que fossem de cani« 
baes, de bandidos sedentos de sangue e da minha liberdade. De 
repente, uma argolada estruge na porta da rua e uma voz, que 
parece um trovão, gritou : Abram, em nome da Republica ! Não 
imagina, meu amigo, o que foram para mim, estas palavras re- 
dentoras. Saltei do leito, lesto como um rapazito, vesti a farda 
e mandei abrir. Um grupo de homens, queimados de pólvora 
e com os fatos em desalinho, cairam-me nos braços e annuncia- 
ram-me que o governo provisório, já constituído, me mandava 
tomar conta da policia. . .» 

Certo é que o major Silveira, abandonava pouco depois o 
logar sob dolorosas impressões que a Lucta (25 de novembro de 
1 9 i3) procurou assim attenuar: 

«Da policia não levará saudades, mas também não levará 
remorsos, porque não foram os agentes ás suas ordens que pra- 
ticaram a serie de abusos, de violências e de crimes que são a 
pagina escura da Republica nos atormentados annos, três ape- 
nas, que ella conta de existência. d 

Dos antigos agentes poucos haviam ficado e a reorganisação 
das esquadras, começava em IO de Outubro de i9io. 

Era cedo ainda, por mal extincto o ódio aos agentes, e de- 
monstrouo, o assalto a i5 d'esse mez, á esquadra do Beato, por 
centenas de civis que proclamavam não querer ali a policia an- 
tiga nem outra com o mesmo fardamento. 

De nada valera a anterior retirada dos fardamentos e a su- 
bstituição das antigas braçadeiras azues e brancas, por outras 
encarnadas. 



A REVOLUÇÃO POKTUMJEZA 35a 

A esquadra fechava, vindo os guardas para o governo civil^ 
até que dois dias depois, um decreto (*) datado de 17, trans- 
formava a policia civil, em policia civica de Lisboa. 

Como não fossem seguros os resultados, ainda mais tarde 
era nomeada (Janeiro dr 1914) uma commissão composta dos 
tenente-coronel Gamara Pestana, comandante da policia de se- 
gurança; dr. Tavares Festas, chefe da policia administrativa; 
dr. João Eloy, chefe da policia de investigação, e major Amaral, 
ao serviço da policia de segurança, servindo de secretario, para 
apresentar ao então chefe do districto, general Júdice da Costa, 
as bases de uma remodelsçao da policia, de forma a dar a essa 
corporação o desenvolvimento necessário ás exigências da cidade. 

Por esse tempo já o dr. Euzebio Leão, transitara não só pe- 
las camarás, como deputado á Assembleia Nacional Constituin- 
te, como pelos altos cargos de presidente do Senado (1912), e de 
ministro de Portugal em Itália. 

Assim, successivos foram os premos pela serena posse do 
edifício do governo civil na manhã de 5 de outubro de 1910* 



Ao tempo em que se dava essa fácil tomadia, no Rocio rui- 
dosas acclamaçoes, assignalavam successo novo, 

E^a a chegada do commissario naval Machado Santos. 

Estava nas ultimas determinações para a marcha, quando o 
avanço de grande multidão sobre a Avenida lhe fez ver que se 
encontrava consummada a sua obra. 

Deixou a Rotunda guarnecida e caminhou ao encontro dos 
que para elle iam. 

Informado, tomava a chefia da columna de civis, acompa- 
nhado pelo revolucionário Américo de Oliveira. 

O enthusiasmo popular, galgou as barreiras da conveniên- 
cia e, a meio da Avenida, arrancando Machado Santos de sobre 
o cavallo, levava o ao collo, até o depor á porta do quartel gene- 



(*) Legislação de igio — Pagina 21. 

VOL. IV — FL. 45 



354 ARMANDO RIBEIRO 



ral, semi alquebrado pelas horas de fadiga e de insomnia, co- 
xeando, o rosto e as mãos quasi negtas de pólvora^ e a farda 
empoeirada e sem uma das dragonas, arrancada para recordação 
do vulto que a usava. 

O otficial, ignorando ainda a absoluta entrega do quartel, 
com a populaça convencionava que, se não apparecesse dentro 
de trinta minutos, invadisse o edifício. 

Perguntando pelo general Gorjão, era conduzido até a sala 
onde se encontrava ainda parte do estado maior. 

Ali, notificava lhe a victoria da republica. 

O comandante da divisão, no exaspero ainda da scena final 
do conselho, significou ao chefe da Rotunda a extranheza de 
um violar de armistício. 

Machado Santos, singelamente e sem assomos, mostrava lhe 
o relógio, pelo qual faltava até um minuto para o inicio da con- 
venção. Eram 8 horas e 44 minutos. 

O general Gorjão, submettendo se, dedicou ao sr. D. Manuel 
.algumas phrases sentidas, com o cuidado pelo seu fim. 

O commissario naval, )á solemne, reiterou que a revolta 
cumprido o seu dever e satisfeita com a victoria, nem de leve 
sequer tocaria no monarcha, e stí preciso fosse, Machado Santos 
pessoalmente iria acompanhal-o ao extremo do paiz. 

Era inútil. 

D. Manuel, sem auxilio dos rebeldes se collocara a distan* 
cia de não soflrer as contingências registadas na Historia em re- 
lação a Luiz XVI. 

Não pensou n'um cadafalso, mas entreviu uma detenção. 

O chele do quartel general, declarou-se rendido. 

Machado Santos, protestando, fez a alfirmativa de que clas- 
sificava o acto não de rendição mas de adherencia. 

A cortezia era n'esse ponto symbolo da verdade. 

Correctamente, pretendeu o commissario naval que o che- 
fe da divisão n'esse cargo continuasse. 

Elle recusou porém. 

Ante o esperado desenlace, e sabendo que o almirante Cân- 
dido dos Reis exprimira o voto de que o general Gorjão tivesse 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 355 

como substituto o general António Carvalhal da Silveira Telles 
de Carvalho, notificava lhe a escolha. 

O nomeado inclinou se n'uma vénia de retrahimento, em* 
quanto o commissario naval indicava em voz baixa ao revolu- 
cionário Ricardo Covões a conveniência da procura dos dirigen- 
tes da causa para lhes significar a urgência da proclamação. 

N'esse instante entravam, annunciando a, os delegados do 
Directório, Innocencio Camacho Rodrigues e dr. José Barbosa. 

Este, sanccionava a nomeação do general Carvalhal, que teve 
a phrase modesta : 

— Não sei se mereço a confiança do governo provisório. . „ 

Os emissários directoriaes, reiteraram lh'a em nome da Re- 
publica. 

Assumiu pois o elevado cargo, sendo n'elle investido ainda 
pelo ultimo ministro da guerra da deposta oionarchia, general 
José Nicolau Raposo Botelho. 

António Carvalhal, submetteu se apparentemente, pois ainda 
perante o governo provisório manifestou vontade de recusar o 
cargo 

A* insistência ficava porém, tendo logo medidas úteis. 

Semelhantemente ao ordenado pelo governo civil, promovia 
o immediato encerramento das tabernas e a reabertura de mer- 
cearias e padarias. 

Appareceu a determinação no seguinte edital logo aífixada 
ás esquinas das ruas: 

a António de Carvalhal da Silveira Telles de Carvalho, Ge- 
neral Commandante da i. a Divisão Militar e da Cidade de Lisboa. 

ccFaço saber que está proclamada a Republica t*nto na ca- 
pital como n'outras localidades do paiz e que reina a ordem 
mais completa. A nobre attitude do povo revolucionário tem pro- 
tegido tanto quanto é possível, n'estas occasiÕes, os haveres e a 
vida dos moradores de Lisboa. E' de esperar, portanto, que o 
commercio d'esta capital corresponda a esta attitude levantada 
do povo lisbonense, abrindo os seus estabelecimentos, principal- 
mente os de viveies, que tão indispensáveis são á população, e 
que terão de ser abertos pela torça militar se até ás 3 horas o 
não torem espontaneamente pelos respectivos proprietários, Os» 



356 ARMANDO RIBEIRO 



estabelecimentos de bebidas alcoólicas, cafés e casas de pasto fe- 
charão ás 8 horas da noite. O governo da cidade continua pro- 
visoriamente entregue á autoridade militar». 

Como sensatas e firmemente determinadas, tiveram imme- 
dÍ9to acatamento essas ordens do general Carvalhal. 

Pouco tempo todavia se conservou elle no cargo, retirando- 
se da politica (*) e passando á reserva por decreto publicado na 
ordem do exercito n.° i3 da 2 a serie (referida a 20 de Julho 
de 1912 — Diário do Governo de 14 de Agosto do mesmo) 
que eguaimente inseria a stguinte portaria de louvor; 

«Passando hoje á situação de reserva, por haver attingido o 
limite de idade, o general António do Carvalhal da Silveira Tel- 
les de Carvalho, manda o governo da Republica Portugueza, 
pelo ministro da guerra, louvar o mesmo general pela inexcedi- 
vel lealdade com que serviu a Pátria, desempenhando o impor- 
tante cargo de comandante da i. a divisão, desde a proclamação 
da Republica, com acrisolado patriotismo, acendrado zelo, pron- 
ta iniciativa e inteligente decisão, concorrendo para garantir em 
occasiões dióceis a segurança publica e desempenhando com bri- 
lho os diferentes serviços que lhe foram incumbidos, de maneira 
a contribuir para o prestigio da Republica, e para confirmar o 
lisongeiro conceito em que o paiz justamente tem o seu exercito, 
bem merecendo assim da Pátria e das instituições. Paços do Go- 
verno da Republica, em 6 de julho de i9i2. — António Xa- 
vier Correia Barreto. » 

Substituiu o, o director da I a direcção geral da secretaria 
de guerra, general Elias José Ribeiro, e assim Telles de Carva- 
lho, abandonou o cargo que au findar da revolução de outubro 
lhe íôra entregue por Machado Santos. 

Até essa cerimonia se lhe quiz contestar, sob dois argu- 
mentos. 

Um, expunha o o professor Innocencio Camacho Rodrigues, 
dizendo em plena sessão de 5 de Julho de 191 1 da Assembleia 
Nacional Constituinte (N.° 14, psgina 5): 

olA Camará sabe muito bem que eu sou das poucas pessoas 



(*) O Mundo de 3 de Julho de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ i 357 






que, em Portugal, conhecem todos os indivíduos, factos e por- 
menores que cooperaram para o triunfo da revolução de 5 de 
outubro. Eu sei os que estiveram, os que não estiveram, os que 
appareceram, os que desappareceram, os que voltaram e es que 
ficaram; sei, n'uma palavra, tudo, e não tenho duvida de dizer 
em voz alta tudo o que seja necessário para que a Historia não 
seja mentida e não fiquem registadas cousas que não correspon- 
dam á verdade dos factos Falava o sr. dr. Eduardo Abreu e fa- 
lava bem — elle servia se de um livro escrito por Machado San- 
tos, que não podU escrever outra cousa senão o que lá está. — 
Entretanto elle não sabia, então, o que se estava passando na 
margem do Tejo. Eu dou testemunho e commigo José Barbosa, 
de que ali, no quartel general, não se sabia e não havia obriga- 
ção de adivinhar o que estava feito; mas, o que é certo é que 
quando Machado Santos veio para baixo, já a marinha tinha 
desembarcado, já tinham mudado as cousas. Isto não destroe, 
não apaga o brilho do acto de Machado Santos.» 

A marinha desembarcou depois da republica proclamada 
na camará e só para infundir receio á soldadesca que pouco dis- 
posta estivesse a transigir, se deu o desembarque a effectuar-se 
antes da ceremonia municipal. 

Sendo certe que, segundo a allegação do revolucionário In- 
nocencio Camacho, Machado Santos não podia conhecer, estando 
na Avenida, o que se passava no Tejo, certo é egualmente que 
não podia o primeiro, distante do quartel general, conhecer os 
suecessos ali decorridos. 

E de facto, já vamos ver o testemunho do general António 
Carvalhal, citando a entrada ali do commissario naval pouco 
depois de arvorada a bandeira branca do armistício, acto que 
precedeu muito o da proclamação na camará e sendo apoz esta 
que a maruja enveredou para o Rocio. 

O tenente Parreira, (•) cita mesmo a convenção do desem- 
barque, apoz o premeditado bombardeio pela rua do Ouro e rua 
Augusta, no que se sobreestou até ao regresso do commissario 



(#) A Republica Portuguesa de 2 de Novembro de 1910 (Relatório). 



358 ARMANDO RIBEIRO 



naval Marianno Martins, íeito quando já negociado estava o ar- 
mistício e arvorada a bandeira branca. 

Diz ainda outra narrativa (*): 

«De junto do Adamastor saía também um vapor do Arsenal 
conduzindo uma torça de marinheiros, os quaes se dirigiram a 
bordo da fragata D. Fernando, cuja tripulação içou logo a ban- 
deira republicana, seguindo o vapor d*ali para o transporte 
Tero de Alemqner. Os otficiaes d'este navio quizeram oppor se, 
mas sendo presos, foram levados á presença do tenente Parrei- 
ra, ao passo que a tripulação içava a bandeira republicana e 
adheria em massa ao movimento. Findo isto, o mesmo vapor foi 
á escola dos torpedos em Valle do Zebro, deixando ali ficar va- 
rias praças, a fim de evitar qualquer movimento, tendo se pas- 
sado o que já o Século noticiou. A's 9 horas da manha apre- 
sentava-se no Terreiro do Paço um alferes de caçadores 5, a 
dizer para bordo que as forças acampadas no Rocio se haviam 
rendido e que só se entregariam aos revoltosos da armada. Fei- 
tos signaes para todos os navios, a fim de desembarcarem as 
suas guarnições, deixaram apenas ficar a gente da artilharia para 
a hypothese de um novo bombardeamento. A's 9 horas e meia 
desembarcavam no Arsenal todas essas forças, que, seguindo 
para o Rocio, evacuaram o quartel general, distraindo outras 
torças para varies pontos da cidade, especialmente para a Penha 
de França, visto dizer se que estava ali alojada artilharia 3, de 
Santarém » 

Disse se também, para eterna opposiçao aos mínimos passos 
notáveis de commissario naval, que o seu apparecimento no quar- 
tel general se deu quando o dr. José Barbosa já havia investido 
o general Carvalhal no commando da divisão: 

«Machado Santos, entretanto, avistando do acampamento da 
Rotunda uma grande mukidão que subia a Avenida, calculou 
que era tempo de avançar sobre o quartel general, deixando o 
entrincheiramento sutficientemente guarnecido. A' frente d'um 
batalhão de populares armados desceu até ao Rocio e entrou no 
quartel general Já lá estava José Barbosa que, em nome do Dt- 



(#) O Século de 11 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 359 

rectorio, apoiou a entrega do comando da divisão ao general 
Carvalhal.» (•) 

Comtudo, o contrario declarou Machado Santos no relató- 
rio, a pagina go, assignalando haver surgido no quartel general 
ás 8 horas e 44 minutos. 

Garantem-lhe outros depoimentos a fcutheriticidade. 

Assim, não só o capitão Martins de Lima, affirma (**) que 
o commissario naval surgiu ali antes da republica proclamada 
na camará, como o próprio nomeado o confirma em absoluto, 
n'uma entrevista (•**) onde o otficial expoz a sua situação! 

tt-Osr. general sabia do movimento revolucionário antes 
do dia 3 de outubro? 

« — Não, senhor, respondeu-nos s. ex. a . NSo sabia absoluta- 
mente nada do que se planeava. E até, tendo em tempos sido 
procurado por alguém que queria saber qual a minha altitude 
em face d'um movimento revolucionário, eu respondi, franca- 
mente, que cumpriria até o fim os deveres que me impunha o 
cargo de confiança que exercia. Lembro me mais que me recu- 
sei terminantemente avistar-me com pessoa de destaque no par- 
tido republicano, que manifestara desejos de conterenciar com- 
migo. 

« — V. ex. a foi prevenido do que se passava pelo quartel ge- 
neral ? 

« — Do quartel não recebi communicação alguma. Só na 
manha do dia 4 é que tive conhecimento de que algumas forças 
do exercito e populares se encontravam na Rotunda, e isto por 
uma pessoa de minha família que ali não poude passar quando 
se dirigia para Alge's. Como era meu dever, fui apresentar-me 
ao sr. general Gorjão, que me disse ser seu desejo que eu não 
me afastasse, para o poder substituir em qualquer impedimento 
que porventura lhe sobreviesse. 

« — Das ordens dadas no quartel general alguma foi da ini- 
ciativa de v. ex. a ? 



(*) O Cinco de Outubro por J. de Abreu, pagina 200 
(##) Da Monarchia á Republica— Pagina 142. 
{###) O Século de 22 de Novembro de 1910. 



360 ARMANDO RIBEIRO 



« — Eu não tinha que dar ordens, visto que estiveram sem- 
pre presentes o general Gorjão e o chefe do seu estado maior, 
sr. coronel Castro. Nem dei ordens de minha iniciativa, nem 
tão pouco as transmitti. Comprehende que n'aquelles dias, no 
quartel general, o meu papel era necessariamente muito apa- 
gado. 

a — Mas foi v. ex. a o encarregado de commandar as forças 
que deviam envolver os revoltosos da Rotunda, não é verdade? 

« — E' certo que recebi do general Gorjão essa ordem, mas 
depois dos ministros, e sobretudo o dos estrangeiros, muito ins- 
tarem para que elle o fizesse, visto aquelle general entender que 
eu não devia sahir do quartel. O movimento envolvente, tendo 
sido determinado para as 9 horss da manhã, ainda á uma hora 
da tarde não estava realisado. Só a essa hora é que montei a 
cavallo, exigindo que me acompanhasse, como chefe d'estado 
maior, o tenente coronel Garcia Guerreiro, official ás ordens de 
D. Manuel. Lembrome até de que fui eu que emprestei a esse 
official um revólver, visto elle estar á paizana e desarmado. 

a — Eram importantes as forças que v. ex.a ia comandar? 

« — Levei commigo unicamente o regimento de cavallaria 
4, que estava reduzido a umas 40 praças, e mais adeante deviam 
juntar se-me os regimentes de cavallaria 2 e infantaria 2. Segui- 
mos sempre a galope, par* Sete Rios, onde encontrámos o regi- 
mento de cavallaria 2, commandado pelo coronel Albuquerque e 
já muito reduzido. Este regimento fora já mandado apear para 
reforçar a bateria, mas uma granada fizera-o dispersar e a relu- 
ctancia dos soldados em ir prestar aquelle serviço era manifesta. 
Infantaria 2 estava também dispersa, vendo se aqui e além ho- 
mens sentados, alguns com a cabeça envolta em lenços e em 
attitude pouco guerreira e disciplinada. Em taes circunstancias 
eu entendi dever reunir conselho de officiaes, no qual tomaram 
parte o coronel Albuquerque, o tenente-coronel Garcia Guer- 
reiro e o capitão Martins de Lima que também me acompanhara 
desde o quartel general. N'esse conselho foram todos de opi- 
nião que por ser muito tarde, escassearem as munições e não 
haver apoio possivel para a bateria de Queluz, esta devia re- 
tirar. 



A REVOLUÇÃO POUTUUUEZA 361 



<r — Então v. ex.a não deu ordem para a bateria retirar uni- 
camente guiado pelo seu critério? 

« — Não o podia nem o d^via fazer n*aquellas circumstan 
cias e só dei essa ordem porque assim tinha sido resolvido, una- 
nimemente, pelos officiaes que me rodeavam. 

« — O quartel general teve conhecimento d'essa resolução? 

« — Foi-lne communicada pelo tenente-corcnel sr. Garcia 
guerreiro, quando vínhamos próximo do Jardim Zoológico. O 
general sr. Gorjão concordou com essa resolução e recommendou 
que fizéssemos todos os esforços para entrar em Lisboa, o que 
rizemos sem ser hostilisados, chegando ao largo de S. Domingos 
ás 6 horas e meia da tarde. 

« — V. ex. a tornou a sair do quartel general? 

a — Aqui estive até ao armisticio do dia seguinte. 

<c — Gomo toi v. ex a investido no commando da divisão? 

<c — Pouco depois de içada a bandeira branca do armisticio, 
entrou no quartel general o sr. Machado Santos, que, declarando 
que a Republica estava proclamada, disse que todos tinham 
combatido pela Pátria e, segundo o que suppunham, o seu de- 
ver. Depois o commandante dos revolucionários da Rotunda abra- 
çou e felicitou o sr. general Gorjão, convidando o para continuar 
no commaado da divisão. Gomo s ex,a se recusasse a acceitar o 
convite do sr. Machado Santos, este senhor pediu lhe que lhe in- 
dicasse o otficial que ali era o seu immediato Indicou me então 
o sr. general Gorjão. Eu, porém, egualmente me recusei, alie- 
nando que não podia inspirar confiança ao governo da Piepubli- 
ca, visto que durante a revolução sempre estivera ao lado dos 
oíficiaes do quartel general. Machado Santos insistiu e appellou 
para o meu patriotismo, lembrando o alto serviço que eu pres- 
taria ao paiz acceitando o commando da divisão, precisamente no 
momento em que elle era mais necessário e imprescindivel. Por 
fim, o próprio sr. general Gorjão e os officiaes presentes instaram 
também commigo para que acceitasse aquelle cargo. Mais tarde, 
apresentei ao governo provisório as mesmas razões que allegara 
perante o sr. Machado Santos, razoes que não foram attendidas, 
entendendo o governo dever conservar-me no commando da divi- 
são qut, felizmente, tenho exercido sem ditficuldades n=m attri- 

VOL. IV— FL. 46 



362 ARMANDO RIBEIRO 



ctos, devido sobretudo á leal e etficaz coadjuvação do meu chefe 
d*estado maior, sr. capitão Pereira Bastos, e de todos os officiaes 
que formam o estado maior da divisão. 

« — V. ex. a diz nos quem são esses ofliciaes? 

« — Além do capitão Pereira Bastos, os tenentes do estado 
maior Cabrita, Lobato Guerra, Maia de Magalhães e Victorino 
Godinho, todos distinctos e auxiliares como não pode haver me- 
lhores. Conservei o meu antigo ajudante na 4.* brigada de ca- 
vallaria, capitão Vasconcelios, e convidei o capitão Carvalhaes, 
que já era ajudante do general Gorjão e não estava em Lisboa 
na occasião da revolta.» 

O depoimento, insuspeito, assignala pois devidamente que 
Machado Santos, recebeu em serena posse o quartel general^ 
antes da chegada dos delegados directoriaes. 

Estes, no febril enthusiasmo das primeiras horas de reconhe- 
cimento áquelle que, de facto, conteve a completa derrocada dos 
planos revolucionários, abraçavamno, perante os adherentes, 
tratando-o por almirante: 

«José Barbosa e lnnocencio Camacho íelicitam-me calorosa- 
mente e dizem me que hei de ser almirante e tratam-me como 
tal. Eu respondo-lhes com uma gargalhada e digo lhes que nada 
pretendo.» 

De tacto, o premio era apenas dos instantes primeiros de 
jubilo e começava a conhecei o. 

De aviso lôra já a escolha do governo provisório, afirmando 
o esquecimento do seu sabido extorço, pela exclusão do seu 
nome. 

Esse pensamento nasceu egualmente no cérebro do enviado 
especial do Matin, Jules Sauerweins, ao reproduzir no seu jor- 
nal, os resultados do seu inquérito d vida portuguesa (•). 

«A. revolução de outubro foi levada a efeito pelos «Carbo- 
nários». Esta associação secreta poude esquivar-se ás persegui- 
ções dos governos monarchicos, graças á sua forte organisação 
dentro da capital e cercanias, e ao segredo absoluto prescripto 
peles seus estatutos. 



(#) Matin, Janeiro de 1911 — G^5 Novidades de 17 do mesmo mez. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA âC5 



«Lentamente, durante dez annos, conquistou a marinha, de- 
pois o exercito, armando em seguida, pacientemente, os elemen- 
tos populares de Lisboa. Quando, após dois dias de combate, 
sob o commando de Machado Santos, as tropas revolucionarias 
desceram a Avenida da Liberdade, dirigindose par» o coração 
da cidade, era, pois, de prever, pela lógica brutal das coisas, um 
governo «carbonário». Porém, ao chegarem ao ministério, as 
tropas conjuradas encontraram um gabinete já organisado. Ne- 
nhuai dos seus membros pertencia á famosa associação. 

«O presidente do Governo Provisório, sr. Braga, toi ao encon- 
tro do sr. Machado Santos. «Vós íostes — dizlhe — o «bon sa- 
vatier» da Republica. Ella deve-vos a sua existência». 

O «bon savatier», sonhara, talvez, calçar a bota que aca- 
bava de fabricar, mas convenceu-se de que os homens que ha- 
viam tomado as rédeas do governo, estavam nos seus logares: 
que o prestigio dos seus nomes, a sua popularidade, adquirida 
ao preço de vinte annos de propaganda admirável, valiam de 
certa maneira algumas campanhas bellicas. Era indubitável que 
esses homens não haviam assestado os canhões, mas tinham sido, 
por outro lado, apóstolos incansáveis. E, depois^ o sr. Machado 
Santos estava fatigado, bem como a sua gente. Inclinou se, e 
partiu. Para resumirmos em uma phrase este acontecimento 
único na historia, diremos que foi um pronunciamento mili- 
tar, que rematou por collocar no poder grandes oradores, presi- 
didos por um philosopho. 

«E ahi temos a chave que nos permitte penetrar e compre- 
hender a situação de Portugal.» 

No sorriso accentuado, expressou comtudo Machado Santos, 
a critica á situação que se desenhava. 

Dos que o felicitavam, o futuro traçtdc estava. 

Ao dr. José Barbosa, ser-lhe hiam recompensados não só 
esses trabalhos, como a propaganda pelo ultimatum e a efectua- 
da no jornal A Pátria de que foi um dos fundadores. 

Em transito para ainda melhores cargos, era nomeado por 
decreto publicado em 10 de Outubro, para o logar de director 
geral da administração politica e civil e secretario geral do mi- 
aústerio do interior, pela collocação na disponibilidade do con- 



3G4 ARMANDO RIBE IRO 

selheiro Arthur Torres da Silva Fevereiro, (•) cargo de que to- 
mava logo posse, tendo como acto primeiro, a proposta ao res- 
pectivo ministro, para que tosse pedido á Procuradoria da Re- 
publica o inquérito ali existente desde 26 de Fevereiro sobre a 
policia sanitária, afim de contra esta se proceder. Em breve 
transitava para o cargo de presidente do Conselho Superior da 
Administração Financeira do Estado creado por decreto de 1 1 
de abril de 191 1, em substituição do Tribunal de Contas, jus- 
tificando a nova nomeação os seguintes commentarios do Dia 
(Fevereiro de 1 9 1 2) sobre o directório: 

aConcordemos que o directório republicano do 5 d' 'outubro r 
não está mal arrumado. O sr. José Barbosa é o presidente (vice- 
presidente em exercício) do Conselho Superior da Administração 
Financeira do Estado, logar que corresponde ao que era exerci- 
do pelo illustre homem publico sr Henrique da Gama Barros, 
O sr. .Malva do Valle está no bello commissariado do gover- 
no no Banco Ultramarino, succedendo ao sr. Eduardo Villaça 
e a Marianno de Carvalho. O sr. José Cupertino Ribeiro accu- 
mula, o que julgávamos inaccumulavel, a presidência do Con- 
selho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado, onde 
teve como antecessor o sr. Pereira de Miranda, e o logar de juiz 
ou vogal do Conselho da Administração Financeira, onde esta- 
vam, antes d'eile, no Tribunal de Contas, o sr. João Arroyo, o 
sr. Dias Costa, etc. O sr. José Relvas está na legação de Madrid, 
onde estiveram, entre outros, os condes de Casal Ribeiro e de 
Macedo, O sr. dr. Euzebio Leão vae ser ministro plenipoten- 
ciário de i. a classe em Roma, oceupando o logar vago desde a 
morte do saudoso conselheiro Mathias de Carvalho. Agora já 
nenhum mais talta para collocar. Estão todos 5.» 

Innocencio Camacho Rodrigues, ia ao logar de secretario 
geral e director geral da thesouraria do ministério das finanças 
pelo aftastamento do conselheiro Luiz Augusto Perestrello de 
Vasconcellos, e mais tarde, em 3i de Março de 1 9 1 1, a gover- 
nador do Banco de Portugal, pela sahida, voluntária, do conse- 
lheiro José Adolpho de Mello e Sousa. 



(#) Falleceu em 2 de abril de 1913. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 365 

Machado Santos, sublinhou pois a promoção com uma ri- 
sada. 

Instinctivamente, deixava o quartel general para se dirigir 
ao Carmo. 

Antes, já o delegado do Directório, Innocencio Camacho sus- 
citava ao coronel José Joaquim de Castro, a conveniência de as 
tropas se unirem na Avenida aos núcleos republicanos. 

O coronel Albuquerque, ccmmandante de lanceiros, redar- 
guiu : 

— Não sujeito o meu regimento a tal vexame! Eu retiro já 
mas é para o quartel, a entregar o meu commando! 

O general Gorjão, abraçou o e disse: 

— Tem razão! Eu também não me sujeito a isso. Pode re* 
tirar-se! 

A galope se dirigiu o coronel Alfredo Albuquerque ao quar- 
tel do Carmo, d'onde retirava para o seu, em Belém, sem hosti- 
lisações e ante as acclamaçõ.s da populaça satisfeita. 

Era a inevitabilidade dos factos. 

Entretanto e como que para pôr termo á embamçante situa- 
ção, entrava no quartel general, o emissário Santos Tavares, pe- 
dindo em nome da Rotunda, e para ser lido no acampamento^ 
um documento affirmando a Republica proclamada. 

Vejamos a attitude do demittido commandante de divisão, 
general Manuel Raphael Gorjão, n'essa hora de victoria do povo, 
e descripta pelo delegado da Rotunda: 

«Por fim, entrei no velho casarão militar. Declinado ao co- 
mandante da divisão o fim que ali me levava, e ordenado que 
toi que a informação oficialmente partisse para apaziguar in- 
quietações e levar ao coração dos que estavam no alto do sagra* 
do reducto da Avenida a certeza de que a causa por que com- 
bateram, e combateriam ainda, era triunfante na terra da Pátria, 
o general Carvalhaes disse-me: 

« — Tem carruagem? 

a — Tenho. A do dr. Eusébio Leão. 

« — Pois bem, vai-me fa^er um favor: acompanhar a casa 
o sr. general Gorjão e o seu antigo ajudante de campo, capitãa 
Martins Lima. 



ARMANDO RIBEIRO 



«O general Gorjao foi na monarchia o seu ultimo coman- 
dante de divisão em Lisboa. Havia instantes que entregara nas 
mãos do seu sub chefe todas as seducções de um pcder até en- 
tão colérico. Era um vencido. Mas urgia restitui-lo, para honra 
da Republica, honra nunca maculada, á tranquilidade e á calma 
do seu lar. 

« — General, em que rua mora? 

«Gorjao declinou, com hesitações de amnésico, o nome da 
rua, mas impossivei lhe era, lembro-me bem, encontrar o nu- 
mero da porta. Foi Martins Lima que lhe auxiliou a memoria 
quasi apagada e inerte. O ex comandante, antigo governador 
ultramarino, ex-ministro, ajudante do rei e par do reine, vestia 
á paisana. A sua pele trigueira de rosto ganhava tons pálidos, 
livôres que eram o prenuncio da sua exaustão física. Martins 
Lima vestia a sua farda de combatente, uma desbotada farda 
de linho. Era ainda n'aquelle momento um vencido também. 
Ambos, porém, aceitaram a Republica. E a minha carruagem 
novamente a custo rompeu a massa compacta, a massa ingente 
— a multidão que proseguia vitoriosamente aclamando. Por 
dez, por quinze, por mil vezes a carruagem teve de estacar, e 
dez, quinze, mil vezes, de pé e de cabeça descoberta, o general 
Gorjao e Martins Lima correspondiam aos estridentes vivas á 
Republica. Em múltiplos, repetidos pontos da cidade, grupos 
armados, combatentes em cujo olhar ardente e moço havia um 
fulgor crepitante de ideal, ordenavam que a carruagem parasse. 
Mas uma vez declinada a missão em que ia investido, militares 
g civis faziam a continência a Gorjao e gritavam para o cocheiro: 
a — Pôde seguir. 

aO general Gorjao esse tinha apenas exclamações de admi- 
ração. A sua voz um tanto velada pelo cansaço, das noites não 
dormidas repetia incessantemente, sempre que se lhe deparava 
a multidão em festa: 

a — Nesta revolução houve muita sinceridade e fé. 
tO general apeou se á porta da sua casa — numa áa^ ave- 
nidas novas, lá para os lados de Santa Martha, se bem me re- 
cordo — e Martins Lima e eu seguimos para o Campo de San- 
t'Anna, onde elle morava. Ali, um outro grupo civil de comba- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 36? 

tentes manda, de novo, parar a carruagem. De um delles, lem- 
bro ainda hoje, nitidamente, o seu peral. Era um estudante do 
meu tempo, do Curso Superior cie Letras, pálido e desgrenhado^ 
empunhando um como que tridente neptuniano. Dirigindose- 
ao meu companheiro, ptrguntou lhe: 

c — O capitão onde mora ? 

<l — Ali, responde Martins Lima, apontando um prédio qua- 
si fronteiriço. 

« — Pois bem, volveu o estudante, o melhor é apear se er 
seguir a pé E tu — disse, dirigindo-se-me — é melhor não re- 
gressares pela rua Gomes Freire, visto que íomos avisados que 
uma guerrilha da Guarda Municipal, perdida na cidade, para 
aqui se dirige e vamos dar lhe combate. . . 

«O sol era então já mais ardente, mais claro e imortal e 
eu, no meu regresso ao Governo Civil, de eDtre tantos expres- 
sivos episódios e extremes incidentes da Revolução, fixava para 
sempre na retina impressionada o quadro maravilhoso de aquel- 
le grupo de estudantes que n'um afastado recanto da cidade, já 
a algumas horas de proclamada decisivamente a Republica, e já 
perdidos na fuga os vagos elementos com que o regime deposto 
supôz poder contar para efemeramente resistir, eu fixava para 
sempre a altivez heróica de aquella gente de vinte annos apres- 
tando se para bem morrer. E ao meu espirito ocorria a insis- 
tente frase do ultimo comandante general da divisão de Lisboa 
na monarchia; 

cc — Nesta revolução houve muita sinceridade e te. 

aEra o reconhecimento da sua belleza moral, reconhecimen- 
to feito por um dos ajudantes de campo do rei que, áquella 
mesma hora, embarcava na praia deserta e sombria da Ericeira 
a caminho do exilio. ..»(*) 

Santos Tavares, antigo secretario da redacção do jornal dis- 
sidente O ^Dia, ( Iç}o5) era mais tarde nomeado secretario para 
a legação de Portugal no Rio de Janeiro. 

Já estava no quartel general a bandeira verde-rubra, feita 



(*) O Mundo — Outubro de 1911. 



368 ARMANDO RIBEIRO 



içar pelo tenente José Valdez, que, desde já indicado estava para 
commandante de infantaria. 

O i.° artilheiro, em serviço no cruzador S. 1{aphael, José 
<le Almeida Machado, subindo a uma escada de incêndio, exe- 
cutara a determinação, á qual Machado Santos se refere assim; 
(O Intransigente de 17 de Novembro de 1 9 1 3) : 

«Também não é exacto que o conselho de oíiciaes da divisão 
não tivesse terminado por já estar içada no quartel general a 
bandeira republicana. A bandeira verde rubra só foi içada de- 
pois da nossa entrada em S. Domingos á frente de quasi toda a 
população valida de Lisboa. Foi o tenente Valdez do 5 de in- 
fantaria quem cumpriu essa ordem nossa, d 

Pouco depois, apparecia lentamente a bandeira verde e en- 
carnada, a sobrepujar o edifício do castello de S Jorge. 

Já o quartel general tinha a sua frente tomada pela mari- 
nhagem, assistindo enthusiastica ao acto que o tenente José 
Mendes Cabeçadas Júnior assignala erradamente no seu relató- 
rio, como tendo sido feita pouco depois das 8 heras. 

Olhando o castello, a multidão ainda mais prerompeu em 
clamores de alegria. 

Era a proclamação, definitiva, no commando superior do 
exercito e n*um ponto dominador da cidade de Lisboa, como 
complemento á proclamação realisada no edifício da camará 
municipal. 

Entretanto, não longe, um velho, de barbas brancas, excla- 
mava, chorando e abraçando quantos perto d'elle passavam: 

— Ha trinta annos que esperava por este dia! 

A esse tempo, no largo de S. Domingos, junto do quartel 
general e, para que evidente se mostrasse a victoria republicana 
e que de vencida e levada tora a monarchia, alguns populares, 
cingindo embora as armas de combatentes, entretinhamse a 
raspar com as pontas das navalhas ou cannivetes, as coroas reaes 
de um automóvel que, ex-pertença realista, fazia o serviço da 
Revolução. . . 




IV 



posse do Arsenal do Exercito e do Arsenal de Mari- 
nha. — No quartel de Alcântara. — Visões de terror. 

— A attitude da brigada das Necessidades e de in- 
fantaria 2.— Falsos boatos de revindicta monarchica. 

— Os prémios á marinha. — O reflexo da desillusão. 




ntes de assistirmos aos actos solemnes da pro- 
clamação da Republica, da varanda dos paços 
do concelho e depois na sua sala nobre, impen- 
de o relato da acção final da marinha e do 
chamado drama de Valle do Zebro, factos que 
por assim dizer, se origem tiveram na primei- 
ra d'aquellas cerimonias, completadas foram 
com a execução da segunda, pelas 1 1 horas da 
manha. 

O regresso ao 5. Raphael do commissario naval Marian- 
no Martins, informando haver sido hasteada a bandeira da re- 
volução no quartel general, trouxe júbilos. 

A maruja subiu ás vergas, mas, antes de dar vivas á Repu- 
blica, acciamou os vencedores Só se fez comtudo fé absoluta,, 

▼OL. IV— FL. 47 



370 ARMANDO RIBEIRO 



quando conhecida foi a proclamação na Camará Municipal, e a . 
populaça, do cães das Columnas se ergueu a acclamar a mari- 
nhagem e Machado Santos. 

Mas não estava ainda concluida a obra de proclamação e 
de submissão. 

Assim, determinado foi o desembarque de torças. 

Emquanto umas seguiam para o Rocio, e outras marchavam 
para o Arsenal de Marinha, o S. Raphael ia postar se em 
frente do do Exercito, onde do lado de traz se encontrava ainda 
a guarda fiscal e a companhia de caçadores 5, do capitão Car- 
valhal Correia Henriques. 

Para terra vieram muitos dos civis, com o chete revolu- 
cionário Júlio Victorino dos Santos. 

Havendo aviso, aliás falso, de uma emboscada da munici- 
pal, foram destacados vinte paisanos, sob a chefia do revolu- 
cionário José Frederico Silveira da Costa, para a embocadura 
da rua da Alfandega e dos Bacalhoeiros. 

Em observação, prendia o grupo alguns militares, logo junc 
cionados ao maior numero, aguardando, a esse tcrrpo, a chegada 
de mais civis, formando 200. 

Divididos em dois grupos, dirigidos, respectivamente, por 
Victorino dos Santos e pelo 1 ° cabo de caçadores 2, Carlos 
Alberto Nyni, um dos recem-detidos, aprestaram st par* exercer 
a sonhada tomadia. 

A propaganda junto da íorça de guarda ao Mosco, apenas 
logrou, da parte dos sargentos e praças, a promessa de entrega, 
mas a um official. 

A approximação dos rebeldes não logrou maior convenci- 
mento e Victorino dos Santos para bordo ammumcava a neces- 
sidade da comparência d'um agaloaúo. 

Debalde esperado, decidia proceder c< mo se o fosse, mtrcê 
da lembrança do commandante rigoroso da ordem, tratando o 
por tenente. 

A columna, a que se tinham já reunido os vinte vedetas, 
foi alojada num becco próximo do arsenal. Compunham na entre 
outros, António Faria, Adolpho Rodrigues, José Frederico Sil 
veira da Costa, Miguel da Silva, Jeionymo Pereira, Joaquim 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 371 

José Panninho, João Domingos da Silva, Carlos Augusto, Joa- 
quim Viegas Monteiro, António Go t es, Arthur Lopes, Raul 
Maria de Oliveira, Manuel Moreira, Benjamin da Costa Alves, 
António Luiz Pranchas, Malaquias Manuel de Jesus Meyrelles, 
António da Silva, Álvaro António Ferreira, António José da 
Cunha, Francisco de Assumpção Reis, Francisco da Silva, Fran- 
cisco Maria Gonçalves, Joaquim António dos Santos, Álvaro 
dos Santos, José Bernardo Morgado, António Paes Gaspar, José 
de Sousa, Manuel Arthur Rosa, Jayme Gonçalves, Alberto 
Caetano, Carlos Ferreira, João Soares, António Gonçalves, Luiz 
de Almeida, Alfredo Gomes, António de Oliveira e Silva, Je- 
onymo da Costa Motta, João Rosa Júnior, Henrique dos San- 
r os Silva, Manuel dos Reis Mendes Chanoca, Albano Fernan- 
des, Ezequiel Augusto de Moraes, João Ferreira da Silva, José 
Ramos Lima, Alberto António da Silva, Domingos da Silva, 
Justino de Almeida Marques, Miguel Salvador Gonçalves, Júlio 
da Fonseca, João Pedro Pallido Júnior, Eduardo Costa, João 
Gonçalves Gaio, José Joaquim Figueiredo, Custodio de Almei- 
da, João Maria Gonçalves, António Maria, José Augusto Pereira 
Bento, Raul Rodrigues Salvado, Belmiro Pedro Taborda, José 
Augusto Tavares, Júlio Ferreira dos Santos e Manuel Luiz 
Sant'Anna, estivador. 

Este ultimo, natural de Alcochete, notibilisar-se-hia mais 
tarde, por um crime, que egualmente de novo em foco collocou 
um dos interferentes na revolução: o commàndante em chefe 
dos vapores da Empreza Nacional de Navegação, Augusto Dias 
Cura, de 54 annos, natural da Anadia, que nos dias 4 e 5 de 
Outubro puzera ao serviço dos revoltosos, para vigilância e com- 
municação, os rebocadores da sua chefia. 

Manuel Sant'Anna, despedido como principal instigador das 
greves de Outubro de 191 2 e Janeiro do anno seguinte, desta 
que trouxe até o assassinio, pelos grevistas, do engenheiro me- 
chanico do Bolama, António José Baptista, — tentou debalde a 
readmissão, junto de Dias Cura. A' insistente recusa, esperou o 
junto do Arco da Rua Augusta e matavao (20 de. maio de 
19 14) a tiros d'uma pistola automática trazida em 5 de Outu- 
bro de 19 10 do deposito do Arsenal do Exercito. O Aicochetanu 



372 ARMANDO RIBEIRO 



foi ainda acusado de fazer parte d'um núcleo destinado a assas- 
sinar o commandante Cura. 

O chefe do grupo, Júlio Victorino dos Santos, resolvia efíe- 
ctivar o avanço com um reduzido numero de revolucionários. 

A vozearia atroante dos outros fez ver à guarda fiscal e ao 
troço de engenheria do commando do alferes Moreira sérias 
probabilidades de acção a qualquer violência exercida. 

Não querendo fazer uma contra corrente, por conhecedores 
da orientação das praças ou porque os conhecidos successos de 
represálias pelos revoltosos sobre os contrários á sua ideia, lhes 
perturbassem os espíritos, o tenente Joaquim Arthur dos San- 
tos Duarte e o capitão Vasconcellos, a quem D. Manuel II agra- 
ciara a 4 de Julho de i9o8 com o titulo de visconde, — distan- 
ciaram-se, procurando refugio no posto aduaneiro do Jar- 
dim do Tabaco, onde a populaça os iria colher e aprisio- 
nar. 

Apenas ficou o alferes Moreira, não impedindo porém que 
as praças, indo ao encontro dos revoltcscs, lhes dessem com as 
acclamações á republica, a garantia da sua adhesao. 

Caçadores 5 já effectuara o mesmo, ante a surpreza do ca- 
pitão revolucionário Caetano do Carvalhal Correia Henriques. 

O exemplo partiu, de facto, da guarda fiscal, abrindo ca- 
minho tranco aos sediciosos. 

Assignala o facto certa descripçao de uma praÇa de mari- 
nha : 

«O S. Rafael foi depois ao cães em frente do Museu de 
Artilharia, quando se viu no Castello de S. Jorge içar a bandei- 
ra da Republica, ouvindo se também tocar a marcha de conti- 
nência. N'esta altura, desembarcava de bordo do S. Rafael e 
do Adamastor uma força de 200 paizanos e os guarda? fiscais,, 
postados no cães, davam vivas á Republica, sendo os seus offi- 
ciaes presos pelos paizanos armados e levados a bordo á pre- 
sença do tenente Parreira.» (*) 

Içado no Museu o distinctivo de adherencia, seguiuse a mar- 



(*) O Século de 11 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 



cha sobre o Arsenal do Exercito, A entrega era logo íeiía per 
engenharia e para que nem houvesse retrocesso nas intenções 
pacificas, determinada fei a formatura dos submettidos. 

O encerramento dos portões do Arsenal é que se constituiu 
entrave ao armamento dos civis e d'ahi a tomadia, á viva força, 
das armas necessárias. 

D'e)las, se muitas eram restituídas reentrando no arsenal em 
galeras do governo civil, outras ficavam retidas, originando rus- 
gas e apprehensÕes por civis, marinheiros e guarda fiscal, esta 
sob o a mmando do capitão Júlio Mardel e militares. Um grupo 
dt 40 populares percorria (7 de outubro) as ruas sob a chefia 
do revolucionário João Florêncio, emquanto a policia judiciaria 
procedia a buscas e prevenia as cesss de penhores para a de- 
tenção dos que se apresentassem a empenhar armas (28 de ou- 
tubro). 

Deram-se entretanto (21 de outubro) como faltas apenas 14, 
mas certo toi que por largo tempo se mantiveram as apprehen- 
sÕes e em numero superior ás espingardas antes 'enumeradas 
como desapparecidas. 

Ao lance da invasão do arsenal do exercito e do museu, não 
houve, pois, hostilidade por parte das forças ali collocadas pela 
monarchia. 

Não perfilha esse evidente desprendimento Machado Santos, 
e a paginas 128 do seu relatório, expressa censuras não só ao 
núcleo destacado de caçadores 5 como ás forças aduaneiras: 

«A retirada d'esta força deuse porque o cruzador 5. Ra- 
phael se apresentou á sua frente, mandando para terra um nu- 
meroso grupo de civis armados, sob a direcção de Júlio Victo- 
rino dos Santos. A primeira a ser menos cortez com os recém- 
chegados foi a guarda fiscal, seguindo-lhe o exemplo a força de 
caçadores 5. Os recemchegados não tiveram quem lhes abrisse 
a porta do arsenal e lhes prestasse as devidas honras, não cons* 
tando até hoje que se tivessem melindrado com isso». 

Não expõe (*) todavia tantas descortezias, o chefe d'essa expe- 



(#) Notas Vendidas — (apontamentos para a historia da Revolução, por 
Júlio Victorino dos Santos — Pagina 19. 



374 ARMANDO RIBEIRO 



dição, Júlio Victorino dos Santos, que teria interesse em des- 
crever lances de arrojo e nunca em diminuilos: 

«Não durou muito a minha espectativa. Ao nosso encontro 
vieram algumas praças da guarda fiscal, dando vivas á repu- 
blica, e aos voluntários. Mandei avançar o resto dos civis. Uma 
vez em frente do museu toi inçado primeiro um distinctivo en- 
carnado, e depois uma bandeira que foram buscar. Em seguida 
dirigimonos ao Arsenal do Exercito. Apresentou se-me um ofi- 
cial de engenharia, entregando se com toda a sua gente, mas 
pedindo que o deixassem ir para casa, não comia havia três dias 
e o seu estado de fraqueza impedia-o de nos ser útil Não tive 
duvida em acceder ao pedido Mandei chamar os sargentos da 
Guarda Fiscal e Engenharia e disse lhes para formarem toda a 
sua gente o que elles fizeram. A esse tempo tinham se juntado 
numerosos populares pedindo para lhes íornecer armamento, e 
uma vez aberta a porta principal, trataram de á viva força o 
irem buscar». 

De lacto, nenhuma necessidade de ataque houve ao Museu 
e ao Arsenal, íranqueados á massa revoltosa e que d'ali levou 
alguns centenares de carabinas e de pistolas Parabell. 

Affirmou-o (*) o commandante do destacamento da guarda 
fiscal, o capitão Raul de Almeida Loureiro e Vasconcellos, vis- 
conde de Almeida e Vasconcellos. 

Tanto mais credito se pode dar a esse testemunho, quanto 
o official, considerado adverso á causa democrática, não hesita- 
ria am assignalar um difficil passo se elle tivesse havido. 

Parece evidente que o tentou contrariar ainda assim e es» 
pelnao uma carta, (**) que, ao mesmo tempo combate as argui- 
ções formuladas pelo chele da Rotunda contra a guarda fiscal: 

aGonstandome que alguns sargentos e cabos da g. a com- 
panhia da guarda fiscal, circumscripção do sul, andam anga- 
riando assignaturas para uma representação que deverá ser en- 
tregue ao sr. ministro da guerra, pedindo lhe a conservação no 
seu posto do capitão sr. visconde de Almeida e Vasconcellos, 



(#) Qsís Novidades de 6 de Novembro de 1012. 
(##) O Século de 20 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 375 

commandante da referida companhia, veiu o caso suggerir me 
varias recordações, que levam a pasmar de semelhante attitude. 
O referido official teve sempre um prazer especial em opprimir 
e subjugar as praças do seu commando, quando se encontravam 
de guarda ao Museu de Artilharia. O seu despotismo ia até ao 
ponto de lhes não permittir a leitura dos jornaes liberaes e re- 
publicanos, chegando no dia 4 a rasgar um d'estes periódicos 
raivosamente, só porque viu uma praça a lêl o Monarchico dos 
mais esturrados e intransigentes, o sr. visconde de Almeida 
Vasconcellos levou as praças do seu commando a estarem pres- 
tes a ser bombardeadas pelo cruzador 5. Rafaely ficando extre- 
mamente irritado quando das referidas praças expontaneamente 
adheriram á Republica, evitando por isso o projectado bombar- 
deamento e satisfazendo a sua antiga e generosa aspiração^ 
abrindo o museu e entregando o armamento aos revolucionários 
da classe civil. Pois n'esta altura, cidadão redactor, o referido 
sr. capitão fugiu vergonhosamente, em companhia do tenente 
sl Joaquim Arthur dos Santos Duarte, indo refugiarse no quar- 
tel do Jardim do Tabaco, onde os populares os foram prender, 
levando os para bordo de um dos navios insurreccionados. Ali, 
por medo ou por calculo, ambos adheriram á Republica, dizen- 
do ficar commandando a mesma companhia, quem sabe se com 
a intenção de poderem saciar os seus ódios e vinganças nas 
praças que mais se distinguiram n'aquella gloriosa jornada. E s 
bom, portanto, que se recommende este heroe ao sr. ministro 
da guerra, não para ser destituído do seu cargo, mas tão so- 
mente para que lhe seja dado outro destino, visto que a sua per- 
manência na g a companhia vae, naturalmente, causar entre as 
praças uma justificada irritação». 

N'essa hora de perturbação, creou-se porém tal animosida- 
de contra a guarda aduaneira, coadjuvando, porém, em grande 
maioria, a causa rebelde que, numerosos grupos de populares 
assaltavam, pouco depois de proclamada a republica, as secções 
e postos da área occidental da cidade, destruindo e apoderando» 
se do que ah encontrou. (*) 



(#) O Século de i 



-376 ARMANDO RIBEIRO 



Não lhes fructificou todavia a proeza, pois alguns dos assal- 
tantes detidos foram, ás reclamações das praças, registando tal 
paga de tal esforço pela sedição. 

Esse auxilio seria bem reivindicado pelos próprios, fazendo 
coro com quantos, ao tance ganho,, ergueram bem alto a voz no 
proclamar de absoluta transigência com a marcha do ideal novo: 

«Convindo esclarecer a attitude da guarda fiscal perante o 
movimento revolucionário, permitta-me v. que lhe diga que se 
este corpo não adheriu immediatamente á Republica não foi por 
não terem as praças o mais ardente desejo de o fazer, mas sim 
por falta de um official que á sua frente se collocasse para as 
comoiandar para o acampamento. Como se sabe, a guarda fis- 
cal desempenhou um importante papel na revolta do Porto, 
onde se distinguiu. Apezar de não ter tomado parte no movi- 
mento revoltoso que implantou a Republica em Portugal, foi a 
guarda fiscal o único corpo que não fez fogo, com excepção de 
uma dúzia de praças, que, na manhã de 5 do corrente, depois 
de ha verem adherido e contribuido para a adhesão da guarda de ca- 
çadores 5, que se encontrava no Muzeu de Artilharia, quando se 
dirigiam para o mesmo fim ao quartel de infantaria 5 tiveram 
de usar das armas, visto serem recebidas a tiro por este regi- 
mento. Foram ellas forçadas a retirar, e n'esta cccasião já as 
demais praças, concentradas no largo do Muzeu de Artilharia, 
haviam içado a bandeira republicana, no meio de grande enthu- 
siasmo, depois do que se dirigiram para o quartel, onde se de- 
sarmaram. Chegaram, porém, pouco depois a este quartel os 
srs. Brito Camacho e Raposo e Brito, que novamente mandaram 
as praças armarem se para se dirigirem á Rotunda, o que ellas 
fizeram, dando vivas á Republica. Appareceu então no quartel 
o sargento ajudante Garcia, que lhes incutiu coragem para que 
defendessem a Pátria e, assumindo o seu commando, se dirigiu 
ao quartel de cavallaria. Organisou st então uma columna com- 
pacta de cavallaria e infantaria, que se encaminhou para a 
Graça, sendo durante o trajecto as praças delirantemente ap- 
plaudidas, não só pelo povo que se encontrava nas ruas do tra- 
jecto, mas pelas próprias senhoras, que, das janellas, lhes lan- 
çavam flores. Ao chegarem ao quartel de infantaria 5, já as 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ \ 377 

praças cTeste regimento se encontravam também revoltadas, 
saindo d'ali a respectiva banda, que as acompanhou tocando a 
Portuguesa, sendo as praças muito ovacionadas e distribuindo- 
lhes o povo pão, vinho e tabaco. Pouco depois o sargento aju- 
dante Garcia entregou o commando da guarda fiscal a um te- 
nente d'intantaria 5, que o conduziu ao acampamento ptlas ruas 
da Infância, calçadas de S. Vicente e dos Cavalleiros, onde o 
povo acclamava a força dando vivas á Republica, á guarda fis- 
cal, ao exercito e á armada, muitas senhoras lançavam flores 
sobre a força, e os populares a seguiam com bilhas cheias d*agua 
para dar aos soldados. 

«Chegados á rua da Palma, appareceu um official de arti- 
lharia que queria tomar o commando da torça para a levar para 
o quartel general, mas as praças, tendo receio de que elle lhes 
armasse alguma cilada, não o quizeram seguir, obrigando o 
mesmo official a ir com elles e dirigindo se pela rua de S. La- 
zaro, onde o enthusiasmo era indescnptivel. Chegando ao Mata- 
douro tiveram que fazer alto, a fim de mandarem um parlamen- 
tar ao acampamento dar parte de que se encontrava ali a guarda 
fiscal para se entregar, esperando as praças debaixo á'um sol 
ardentissimo. Depois de reconhecidas tropas amigas e fieis, por- 
que na memoria d esses valentes ainda não estãc apagados os 
nobres feitos da guarda fiscal na revolta de 3l de janeiro de 
í8gi, foram mandadas avançar para o acampamento, sendo 
ali, na occasião da entrega do armamento, ferido com uma bala 
de revólver, involuntariamente, o 2.° sargento, da i. a compa- 
nhia, Belmiro. As praças no acampamento foram bem tratadas, 
pelo que se encontram muito gratas para com o novo governo. 
Foi a guarda fiscal a única força que saiu armada dos quartéis 
para voluntariamente se ir apresentar, o que é mais uma prova 
da confiança que inspirava aos poderes republicanos. A. guarda 
fiscal é digna de louvor pelo modo como se portou, e ainda pela 
maneira como uma parte d'ella conservou durante os dias tragi 
cos, e conserva ainda, a guarda da Manutenção Militar, auxi- 
liando o serviço de policiamento no Beato e apprehendendo o 
armamento, serviço que é dirigido pelo capitão Mardel, o qual 
bem merece elogio pelo bom serviço prestado e dedicação coíii 

VOL. IV— FL. 48 



378 ARMANDO RIBEIRO 



que tem tratado o pessoal sob as suas ordens. As praças da 
guarda fiscal acham se deveras reconhecidíssimas para com o 
povo, pela maneira como as tratou durante o trajecto que fize- 
ram até á Rotunda. Sou com todo o respeito e gratidão, de v., 
«te. — Um revolucionário que acompanhou todo o movimento» (*) 
Não evitou isso todavia, o assalto aos postos fiscaes, durante 
essa marcha de enthusiasmo. 

Emquanto uns se torneciam de armas existentes no Muzeu, 
outros civis se oceupavam da policia, assaltando a esquadra da 
Fundição e desarmando os agentes, logo collocados entre as 
forças da guarda fiscal, como dupla medida preventiva : a re- 
sistência e o evitar da chacina pela turba exaltada. 

Appareceu então, o official que tora sollicitado ao S. 1(aphael. 

Apresentando se, o capitão de administração militar, Agnello 
Gomes do Nascimento, tomava a chefia da columna, que se 
dispoz a marchar para a Rotunda. Lembrada a captagem de in- 
fantaria 5, tez se caminho para a Graça. 

Deu se, no trajecto, o assalto á esquadra das Monicas, com 
a resistência da policia mas, submettida ante o numero. 

O capitão Nascimento, um dos prisioneiros de Alcântara 
em 4, aproveitou o lance para se desligar dos rebeldes. 

Por seu turno estes, desistindo de ir ao quartel da Graça, 
onde outro grupo era mal recebido, como já vimos, desciam 
para a Rotunda, satisfeitos pelo lance de fácil posse do Arsenal 
do Exercito, e do Museu de artilharia. 

Uma parte da marinhagem desembarcada, sob o cominan- 
do do i.° tenente Ladislau Parreira, guarnecia-os entretanto. 

Pouco antes subira ali a bandeira do Centro Republicano 
Botto Machado. 



Por seu turno, o cruzador D. Carlos, intermado da sub- 
missão, intimava a majoria general e o arsenal de marinha a 
renderse sob pena de bombardeamento. 



(#) O Século de 23 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 37$ 

As circumstancias, eram desfavoráveis. A resistência, tardia, 
já não dava executores. 

Demais bem descripto foi o quadro da ganha aventura, 
apresentada não como principal producto de escassa defeza, mas 
como imposta derrota. 

A majoria estava isolada. 

O major general da armada, José Cesário da Silva, telepho- 
nára para o commando da divisão naval, ás 5 horas e meia da 
manhã, communicando lhe que todos os navios de guerra esta» 
vam em poder dcs revoltosos. 

Julgando tudo perdido, abandonara a majoria. 

Antes, ao cahir da noite de 4, já suscitara á oficialidade a 
conveniência de trajar á paisana para possiveis contingências de 
afíastamento. (*) 

Ainda não clareara bem o dia e já, interprete de más no- 
vas, rasgava á revolução mais um caminho: o da majoria ge- 
neral, que geria dei de agosto de 1909. (**) 

Também, á proclamada virtoria, foi, de todos, o único que 
no cargo se manteve, com elogio republicano (•**) e denegando- 
lhe, aftavel, o pedido de demissão. 

A direcção geral da marinha, estava a cargo do vice-almi- 
rante Luiz António de Moraes e Souza, de quem se não assig- 
nalavam detalhes antirevolucionarios. Todavia, era exonerado 
por decreto publicado em 13 de Outubro, com a indicação de 
qu? servira com zelo e competência e, reformado por outro com 
data de 21 de novembro. 

No cargo era substituído pelo vice-almirante, do quadro da 
reserva, Domingos Tasso de Figueiredo, como o contra almi- 
rante Júlio Alves de Sousa Vaz, director da Cordoaria Nacio- 
nal, entrava para chefe do estado maior da maioria, pela exone- 
ração concedida ao vice-almirante Manuel Lourenço Vasco de 
Carvalho. 

Estava, para com este satisfeita a má vontade, vinda de 



(#) Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão— Pagina 144. 
(#*) Vide a nossa obra A Caminho da Republica — Pagina 72. 
(###) Vide o 3.° volume o'esta obra— Pagina 520, 



380 ARMANDO RIBEIRO 



longe e que até se deu como origem da sedição de 9 de abril 
de 1906, a bordo do cruzador <Z>. Carlos, (*) 

No arsenal havia, de ha muito, o convencimento de que não 
valia a pena oppôr uma resistência á sedição. 

A* intimação dos cruzadores, arvorava-se desde logo a ban- 
deira branca. 

Era a transigência. 

Abondonava o edifício a oficialidade, que, depois, voltaria a 
assignar o nome n'um caderno de papel, collocado na majoria, 
para inscripção de oôiciaes adhertntes e encimado com a seguin- 
te formula de juramento : 

«Declaramos, sob palavra de honra que não obstante não 
termos tomado parte no movimento nacional revolucionário, de 
que resultou a implantação da Republica em Portugal, no dia 
cinco de outubro de mil novecentos e dez, nos submettemos in- 
teiramente ao novo Regimen e que lhe seremos sempre absolu- 
tamente leaes e fieis. — Lisboa, Arsenal da Marinha, sete de 
Outubro de mil novecentos e dez.» 

Ao affastamento, correspondeu o assumir da gerência inte- 
rina do serviço do Arsenal — até ser nomeado por decreto pu- 
blicado em 11 de outubro director dos serviços technicos, — 
pelo engenheiro Vaz de Carvalho, 

Não mais ali voltaria, o almirante Carlos Augusto de Ma- 
galhães e Silva. 

Detido na madrugada de 4 no quartel de Alcântara, íôra 
posto em liberdade, pouco depois por um dos officiaes a quem 
entravara carreira, justificando o seguinte commentario do jor- 
nalismo republicano. (**) 

aO vice-almirante Magalhães e Silva, que foi preso no dia 
da revolução, foi mandado em paz no dia seguinte pelo nosso 
velho amigo e colaborador, o capitão tenente João Carvalho. 
Coisa curiosa: o sr. Magalhães e Silva opôs-se, ha cerca de um 
anno, a que João Carvalho fosse para uma comissãc que lhe 
pertencia — com o fundamento de que o brioso oficial era repu- 



(#) Vide a nossa obra O Começo de um Reinado — Pagina 18. 
(#*) O Mundo de 8 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA. 38i 

blicano e escrevia no ÇMundo. Pois íoi João Carvalho quem 
agora lhe deu liberdade e íoi o mesmo oficial quem ainda na 
hora da revolução recebeu a declaração em que aquelle oficial 
afirmava que havia sido sempre republicano.» 

Inútil foi a declaração: Magalhães e Silva era exonerado de 
administrador, por decreto publicado a i3 d'aquellemez, esubsti 
tuido pelo contra-almirante José Joaquim Xavier de Brito. 

Pouco sobreviveu todavia áquelles actos, o de submissão, o 
de affastamento do cargo, e o da sua reforma em 21 de Novem- 
bro seguinte. 

Três annos depois (23 de abril de Io,i3J faílecia ainda no 
seu posto de vicealmirante, tendo entrado para a armada em 
26 de julho de 1867. Nasceu em 3o de janeiro de i852, na 
viíla de Mirandella, e era condecorado com os graus de otficial 
da ordem militar de S. Bento de Aviz, commendador e caval- 
leiro da ordem de Torre e Espada e com as medalhas de prata 
de serviços no ultramar e de comportamento exemplar. 

A* cessão, sem lucta, do edificio do arsenal de marinha, cor- 
respondeu, em breve, o desembarque da marinha, sahida do cru- 
zador S. Raphael, — e que Machado Santos regista começado 
ás 10 horas, — indo em parte occupar a majoria general, sendo 
depois tudo reforç ido com a maruja vinda do D. Carlos, sob 
o commando do i«° sargento João Duarte Gilberto. 

Entretanto, mostrando-se, a despeito da pacifica posse, um 
constante desassocego, á maruja de guarda ao arsenal, chegou 
o boato de que ia defrontar se com artilharia 3 e caçadores 6, 
prestes a chegar para, de oeste atacar aquelle posto. 
Já annotáaios a nenhuma veracidade dos boatos. 
Não o sabendo, comtudo, houve desde logo sobresaltos, con- 
jugados demais com os insistentes pedidos de retorço feitos de 
Alcântara pelo capitao-tenente Álvaro de Oliveira Soares An- 
dreia. 

Ao alvorecer, o quartel soôreu ligeiro tiroteio, que, a pro- 
longar se, equivaleria e uma derrocada dos rebeldes, visionan- 
doa sempre, como conhecedores da sua situação. 

Quiz-se attribuir o ataque a caçadores 2, o que negado foi. 
E* certo porém que não só o revolucionário José Nogueira 



ARMANDO RIBEIRO 



affirma (*) haverse dado esse caso, e até nascido do facto de 
ter sido lobrigado no telhado onde se encontrara munido de 
bombas, como Soares Andrea, o especialisa nas linhas seguin- 
tes: (**) 

«Ao alvorecer, rompeu a saraivada de tiros que promettia ir 
por deante, respondendo nós o melhor que podíamos, sendo at- 
tingido por essa occasião na mão esquerda um voluntário e apa- 
nhando eu um ligeiro recochete na perna direita, próximo da coxa. 
Em meia hora cessou o fogo do inimigo e o nosso também.» 
Em doloroso transe decorreram horas, pela certeza de que a 
uma investida geral, inútil seria a resistência, mercê da detfi- 
ciência de armas e de gente. 

Um incidente, trazendo, de inicio, alarme, produziu uma re- 
viravolta nos tétricos pensamentos. 

Grande vozearia assignalava acontecimento de vulto. 
Accorrendo, o revolucionário José Nogueira, deparava com 
o tenente Raul de Menezes commandando um pelotão do 3.° es- 
quadrão da guarda. 

Houve o receio de uma ierrota, logo desfeito á attitude, 
sem hostilidade, da municipal. 

O official communicava haver sido proclamada a republica. 
O capitão Soares Andrea, descrente, exigia, com o acto de 
adherencia, a entrega das armas, ao que a força obedeceu, des- 
pojando se das espadas e dos revólveres. 

Era certa a victoria, e chegando quando menos n^lia se 
pensava. 

Assim a boa surpreza ia correndo os vários pontos de com- 
bate e de desesperança. 

Restavam as duas companhias da guarda com sede em Al- 
cântara, que, embora secundassem a adhesão da força do tenente 
Raul de Menezes, se conservaram com o armamento. Nasceu a 
suspeita e o povo reunido em frente do quartel da municipal, 
obrigou a que alguns olficiaes fossem junto de Soares Andrea 
expor os perigos de um assalto popular. 



(#) O Mundo de 10 de Dezembro de 1910. 
(#*) O Pai? de 2 de Novembro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 383 



Como delegado ia ao quartel da guarda, o escriptor Cesar 
da Silva, que, convencendo a populaça a só proceder quando 
necessário tosse, exigia da soldadesca a entrega do armamento. 

Sem reluctancia accederam os de infantaria, mas os de ca- 
vallaria só o fizeram ante a ameaça. 

Depunham então as espadas e pistolas, mas com evidente 
desagrado do tenente Amado, o único insubmisso. 

Às carabinas é que não appareceram, embora no deposito 
houvesse grande numero de cargas. 

Sanado por esse ponto, o incidente, ergueram-se duvidas 
sobre as forças de serviço nas Necessidades. 

Eram injustificadas. 

Pelas 8 horas e meia, já o coronel Brito e Abreu, allegava 
haver recebido communicação do armistício. 

Chegara ella mais breve do que se comprehendera a ordem 
de marcha para S. Pedro de Alcântara. 

Pedido um lençol para fazer de bandeira de paz, o tenente 
da armada, Victor Sepúlveda, não querendo que do Paço sahisse 
um symbolo de transigência, ia dar a própria camisa, quando 
viu inútil o sacrifício. 

A soldadesca já efíectuara o junccionamento com o povo. 

Desligado do acto, apenas o commandante de infantaria i, 
coronel José Joaquim de Sousa Marques, que logo recolheu ao 
quartel, sem se associar ao voto de submissão. 

A sua attitude não inspirou confiança e sendo mandado con- 
servar na sede do regimento, dava no dia seguinte parte de 
doente, passando á reserva pela ordem do exercito publicada a 
27 de outubro, a mesma que nomeava commandante da 3. a bri- 
gada de infantaria, o cheíe da brigada que se manteve quasi 
inútil nas Necessidades, coronel Bernardo António de Brito e 
Abreu. 

Já a esse lempo se haviam bordado apprehensoes sobre a 
orientação do regimento n.° 1, e assim expostas mais tarde: (*) 

«Com o titulo «A Revolução de 5 de Outubro» e sub titulo 
«Resposta ao ex-coronel Alfredo de Albuquerque», tem vindo o 



(*) O SMundo de 22 de Dezembro de 1912. 



S84 ARMANDO RIBEIRO 



meu prezado amigo sr. Tomás de Sousa Rosa, major de cava- 
laria, em sucessivos artigos, demonstrando a sua acção antes e 
depois do glorioso movimento que implantou a Republica em 
Portugal. Na exposição, cuja responsabilidade directamente lhe 
pertence, e me diz respeito, aparte umas ligeiríssimas coisas, 
nada mais tenho do que confirmar, absolutamente, a verdade 
das suas afirmações. Outro tanto, porém, não sucede com 
as que são da responsabilidade do meu camarada e amigo Mar- 
tins de Jesus, certamente por se não recordar, com exactidão, 
de como os factos se passaram. Assim, e porque as suas decla- 
rações coincidem com documentos oficiaes, por mim firmados 
ccmr presidente da comissão parochial, seja-me licito, meu pre- 
zado correligionário, pedir lhe a publicação desta carta para 
restabelecer a verdade dos íactos, que em nada altera a conclu- 
são verdadeira a que chegou o meu amigo Sousa Rosa «de que 
não foi preciso chamar oradores de prestigio para conter os sol- 
dados adversos. . . ao regime nos seus respectivos quartéis». 
Diz o meu amigo e nosso correligionário Martins de Jesus, na 
declaração publicada no «Mundo» de 17 que não houve o me- 
nor receio de que o regimento (infantaria 1) se revoltasse contra 
as novas instituições. Bem ao contrario. Houve fundado receio. 
Eu me explico. A oficialidade superior e inferior do regimento, 
aparte alguns elementos de valor, poucos, não nos merecia a 
minima confiança, opinião que mantivemos depois do seu re- 
gresso de Alcântara. Acontece que na noite de 5 de outubro, 
seriam 10 horas, apareceram me no Centro Republicano um 
cabo e três ou quatro soldados, que na presença de vários cor- 
religionários afirmaram andar alguns oficiaes, pelas casernas, 
tentandoum levantamento. Isto conjugado cem o facto de, nessa 
tarde, um oficial do regimento fora preso como conspirador, ter 
afirmado que as balas do seu revólver seriam empregadas nos. .. 
corpos dos republicanos da Ajuda, e, ainda, por a bandeira re- 
publicana ter sido içada com relutância, depois de ter ha /ido 
quem chorasse quando foi arriada a dos «adiantamentos», mais 
nos convenceu da sua realidade. Como depois da forçada inac- 
ção dos elementos da Ajuda, que ocasionou a saida dos três re- 
gimentos, que devia ser impedida, tivéssemos readquirido in» 






A REVOLUÇÃO POR1UGUEZ V 385 



-^-----^----'. 



teira liberdade de acção, desíigando-nos de compromissos com 
outros grupes revolucionários, imediatamente organisámos uma 
deíeza enérgica; depois de cercarmos o quartel, e comunicarmos 
o propósito dos oficiaes de infantaria i, ao comandante do quar- 
tel de marinheiros e ao governador civil provisório, encarregá- 
mos o nosso camarada Martins de Jesus de fazer constar aocoroneí 
comandante de iníantaria i que qualquer força que tentasse sair 
do quartel seria tida como inimiga, e, portanto, dinamitada, sendo 
nessa ocasião apresentadas pelo comandante desculpas que não 
foram aceitas. Como quer que aos soldados que nos comunica- 
ram o facto eu houvesse dito que se acautelassem com os ofi- 
ciais, e ainda, porque elles assistiram aos preparativos da defesa, 
por elles me foi dito que já não recolhiam ao quartel, saindo so- 
mente um, que pouco depois voltou acompanhado de muitos 
outros. A vinda do dr. António José de Almeida, foi devida ás 
comunicações por mim feitas, em que afirmava que, fosse qual 
fosse o resultado, a força não sairia. E não saiu. No dia 6, em 
virtude do que se passara na véspera á noite, o comandante or- 
ganizou uma manifestação em que tomaram parte a banda e 
quasi todas as praças do regimento que foram cumprimentar o 
Centro Republicano. Aproveitando o ensejo, falei lhes da janela, 
indispondo os, não só com o comandante, como com alguns ofi- 
ciais, os mais perigosos, e afirmei-lhes que se, por generosidade, 
as suas vidas tinham sido poupadas á saida do quartel na ma- 
drugada de 3, pois nelles vimos uma massa de autómatos que 
não sabiam para onde iam, o mesmo não sucederia naquelle 
momento tm que seriam olhados como traidores e como tal 
morreriam. Foi desde então que os soldados, sem confiança nos 
oficiais exigiam ser acompanhados por civis para onde quer que 
fosse que o dever os chamasse. Por esta exposição se depreende 
que eram alguns oficiais e não os soldados os elementos adver- 
sos ao novo regime, não sendo, porém, necessário para conter 
aquelles a vinda de quaisquer oradores de prestigio. Bastou lhes 
a certeza de que nlo tinham soldados que os acompanhassem, 
sendo tal o susto de alguns oficiais, que um delles, obrigado a 
comparecer no quartel general para prestar a sua declaração de 
fidelidade, também pediu para ser acompanhado por elementos 

VOL. IV— FL. 49 



3S6 ARMANDO RIBEIRO 

republicanos. E foi Desculpe, meu caro amigo e correligionário, 
esta tardia declaração a que fui forçado pela doença que me re- 
tém em casa ha aproximadamente três semanas e disponha do 
orreligionario e amigo certo, Silvério Júnior*. 

Intenções houve, realmente de um assalto, mas na altura 
em que já constituía um erro, pela completa e manifesta sub- 
missão dos outros regimentos. Demais, a soldadesca, tendo an- 
notado a paciência até então havida para com os rebeldes, mos- 
trou* se nada disposta a seguir a orientação recente de superio- 
res e, abandonando o edifício de Belém, vinha até Alcântara 
apresentar-se ao capitão tenente Soares Andrea, expressando-lhe 
a adherencia. 

Foi notória a acção nulla da brigada do Paço, e infantaria 
I, se bem que subordinada ao ccmmando superior do briga- 
deiro Brito e Abreu, tinha amplo campo para seguir a doutrina 
repressiva da revolução, caso isso estivesse no espirito do res- 
pectivo coronel Jayme Marques. 

Este, allegaria depois a subordinação ao commando da bri- 
gada, mas certo é que não houve assignalado embaraço aos ma- 
nejos da marinha quando o regimento, isoladamente, oceupou 
Alcântara, orientação annotada até pelos próprios elementos re- 
volucionários. (*) 

Isso não evitou, porém, as suspeitas democráticas, apoz o 
ganho lance. 

Más vistas se lançaram também sobre caçadores 2. 

InjustiScadas eram e até pelo facto de se apresentar quasi 
abertamente solidário com a rebeldia, o tenente coronel André 
Bastos. 

Certo é porém que essas duvidas se reproduziram na Ro- 
tunda, á apresentação ali, do regimento, na noite de 5. 

Mauro do Carmo regista no seu relatório (•*) ^ociwientos 
para a Historia, que esses reforços aso serviram para preoceu- 
paçoes, cuidados e desintelligencias entre quem estava no acam- 
pamento por todos desconfiarem das mesmas forças, desconfian- 



(#) Vide o 3 o volume d'esta obra—Pagina 551. 
(#*) O Intransigente de 7 de Outubro de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 387 



ças estas que ainda mais se comprovaram com o procedimento 
do capitão que as commandava». 

D'ahi o tenente Mauro incumbir o ex 2. sargento de arti- 
lharia Manuel Marques de Oliveira de vigiar a oficialidade, a 
pretexto de que não devia ser mandada para a Rotunda «uma 
facção que não havia ainda muitos momentos o estava a com- 
bater e que á íorça se rendeu». (*) 

Mercê da attitude de contrariedade do official da Rotunda, 
concitou se contra caçadores 2, uma certa tensidade de animo, 
indo não só a vigilância, mas a ameaças. 

Duvidando dos menores gestos dos agaloados do batalhão, 
e especialmente do capitão Arthur Julião Maciel Alves, deu isso 
logar a actos videntes. 

Phantasiando n'elle um contrario, abertamente o provocou, 
apertandolhe o braço. 

Maciel Alves, repellindo o, e vendo no procedimento uma 
indlsciplinação, aliás não extranhavel no meio, teve logo por 
parte do tenente o aponnr de uma pistola á cara, exemplo se- 
guido por um sargento cadete fixando outra no peito do supe- 
rior, emquanto os civis faziam circulo ameaçador. 

A serenidade do capitão, não atemorisado ante o inaudito 
lance hostil, e ordenando nãc só ao cadete a guarda da arma, 
como a Mauro que o acompanhasse junto de Machado Santos, 
desarmou os exaltados. 

Perante o commissario naval se trocaram impressões, termi- 
nando Maciel por accentuar que o proseguir da contenda e da 
espionagem poderia ter como consequência um conflicto onde 
tomassem parte os soldados do batalhão. 

De facto prejudicial era a attitude e para que ella não con- 
tinuasse, ao tenente se fez ver a necessidade de melhor encarar 
de circumstancias. 

O exaspero de Mauro do Carmo, accentuou-se todavia, ao 
ponto de ser acommettido de súbita perda das (acuidades mentaes^ 
forçando a internamento hospitalar por dias. («*) 



(*) O Intransigente de 8 de Outubro de 1912. 
(##) Idem de 22 de outubro de 1912. 



3S8 ARMANDO RIBEIRO 



Mais tarde, o tenente, cuja notável attitude de animosida- 
de a Machado Santos, a seu tempo assignalaremos, publicava 
no seu relatório, a reedição d'essas accusaçoes immerecidas, a 
caçadores 2, irisando (*) que a ida do regimento para a Ro- 
tunda «tora uma ideia que poderia ter dado logar a perdição 
de portuguezes e de Portugal». 

N'esse relatório ainda, se apresentou principal alvo de ar- 
guições, o capitão Maciel, que em carta ao director do Intransi- 
gente, (•*) rebateu não só a parte onde era pessoalmente at- 
tingido como a relativa á desconfiança sobre os que sob seu 
commando estiveram. 

E* certo que a 10 de outubro se fallou da uma tentativa 
criminosa no quartel de caçadores 2, nascendo o boato de que 
alguém tinha feito fogo sobre o paio! no intuito de fazer voar o 
edifício. 

De positivo houve a tentativa, tendo sido disparado de lon- 
ge um revólver, que em vez de attingir o deposito da pólvora, 
victimou o cavallo do capitão Barros. 

Debalde se procurou investigar quem tora o auctor do at- 
tentado logo atirado á responsabilidade, segundo uns, de mo- 
narchicos intransigentes e, segundo outros, de desejosos de at- 
trahir sobre o regimento as animosidades populares, para repre- 
sália a uma evidente má vontade do tenente Mauro contra o 
capitão Maciel, com base em questões de commando. 

A soldadesca nada logrou descobrir de suspeito, como cousa 
alguma se logrou quanto ao concitar do ódio da populaça. 

Esta, acclamou caçadores 2 na rua, e durante a formatura 
preventiva no Rocio (9 de outubro) como vendo n*ella uns adhe- 
rentes, desde principio. Sobre o capitão Maciel e tenente Con- 
ceição chegaram a ser lançadas flores das janellas, entre o festivo 
das saudações do povo enthusiasmado. (*•*) 

O tenente-coronel André Joaquim Bastos, reassumia, por 
seu turno, o commando do batalhão, (12 de outubro) como de 



(#) O Intransigente de 15 de Outubro de 1912. 
(*#) Idem de 22 de Outubro de 1912. 
(*#*) O Século da 10 de outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZV 389 

inteira confiança da Republica, e sendo o único dos comman- 
dantes dos regimentos de Lisboa que se conservou á frente do 
seu antigo corpo de exercito. 

Pensaram ainda alguns dos revolucionários, n'uma acção 
conjuncta da brigada das Necessidades com infantaria 2. 

Era sem base a hypothese. 

Já vimos a sua attitude ao ataque nos altos da Penitenciaria, 
na tarde de 4. 

A* proclamação, infantaria 2, prestava homenagem, na 
Rotunda, ao regimen novo e regressava ao quartel, nas Janel- 
las Verdes, entre os vivas do povo e os abraços aos otficiaes. (*) 
Deuse o coronel António Augusto de Sousa Bessa como muito 
felicitado^ não obstando isso, porem, a que passado á reserva 
íosse. (27 de outubro de igio). 

Eram pois injustos os receios dos deôensores de Alcântara 
não só quanto a caçadores 2, mas a infantaria 2. 

Todavia, todos esses vários rumores de intenções contrarias 
da quasi inactiva brigada das Necessidades, nascidas aos primei- 
ros instantes da Republica, e conjugados ainda, com os das 
pretensas marchas dos regimentos de Santarém, desasocegos le 
varam aos revoltosos de marinha, acolhidos no quartel da Pra- 
ça das Armas. 

Era desde logo dada ordem ao Adamastor •, afim de seguir 
para Alcântara a defíender o aquartelamento da armada. 

Mal fundeara, d*ali lhe sollicitaram i5o homens e uma me- 
tralhadora. 

Não podia o tenente José Mendes Cabeçadas satisfazer a exi- 
gência, motivo porque ao capitão Soares Andrea fez saber que, 
a impossibilidades de resistir, procurassem refugio a bordo, 
pois a retirada lhes seria protegida com o togo das peças. 

Insistindo se, voltava ao Terreiro do Paço a participar as 
presumidas más contingências, para de novo suspender ferro e 
vir para Alcântara. 

Essas peripécias interessantes, apparecem descriptas assim 
no relatório official do tenente Mendes Cabeçadas: 



(#) Século de 6 de Outubro de 1910. 



390 AEMAKEO RIBEIRO 

«Recebi ordem para voltar ao quadro mas mal fundeei em 
frente do Terreiro do Paço, recebo uma nova ordem para sus- 
pender e voltar para Alcântara. Do quartel continuaram a exi- 
gir forças, porque esperavam ser atacados pelas baterias de Que- 
luz. Julguei infundados esses receios; comtudo mandei á tarde 
um cabo com muita competência estudar o terreno para com 
uma força de desembarque proteger a retirada do quartel, Con- 
tinuaram com recados, ao que respondi que se tinham medo 
fossem para suas casas. Pediram-me por escripto auctorisação 
para abandonarem o quartel, que eu sabia estar occupado por 
populares que acolheram ali sem quaesquer ordens. Para me 
deixarem dei essa auctorisação se fossem atacados, o que julgava 
impòssivel. Passou-.se a noite sem novidade, trabalhando os pro- 
jectores». 

A despeito do conseguido resultado e talvez pela compre- 
hensão de que facilmente se obtivera, imperava a visão, aterro- 
risa; te, duma embuscada eterna, prestes a subverter os crentes 
na absoluta entrega monarchica. 

Esse pesadello, alargou assim a sua esphera, communican- 
do se a todos os centros onde a rebeldia erguera o grito, que 
depois tanto a perturbou, e sem conhecer que elle ao encontro 
fora da ambição da alma de quantos viam na causa democrática 
a garantia d'um futuro promissivo. 

Os boatos levados ao arsenal de marinha, ligados pois com 
os alarmes vindos do quartel de Alcântara, trouxe áquelle a 
perspectiva de um ataque serio e quiçá a visão de perdida cau- 
sa após o logrado êxito. 

Fizeram todavia os preparativos para a resistência. 
N'essa altura se dava a apresentação do capitão-tenente João 
Manuel de Carvalho, entendido com os revoltosos e já envolvido 
na janeirada de 19o8. 

Era-lhe entregue o commando interino das forças, logar que 
depois exerceu, na effectividade, sendo antes (i i de outubro de 
igio) nomeado commandante do çddamastor. 

Entretanto, uma granada, transviada da Rotunda, maiores 
nuvens de receio condensou. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 391 



Guarneceram se as janellas da Rua do Arsenal, incluindo 
as que pertenciam á Escola Naval. 

Debalde esperaram, pois se não deu o annunciado ataque. 

O lance estava ganho e bem ganho e finda a missão da ma- 
rinha, em matéria avassaladora. 

Estava finda a acção da armada. 

Ao fechar do seu relatório, datado de 20 de outubro de 
igio, e entregue em 2 5 ao ministro da marinha, Amaro Go- 
mes, o i.° tenente António Ladislau Parreira, formulava o voto 
de premio aos interferentes na sedição, não só no quartel de 
marinheiros, como dos três cruzadores. Promoviase, para a 
guarda nacional republicana, e por uma apontada conveniência 
de se não manterem na marinha os impulsionadores da revolta 
contra superiores, a tenente, o i.° sargento Arthur Victorino 
Gonçalves dos Santos, a alferes, seis i. os e dois 2 os sargentos; a 
sargentos ajudantes, cinco sargentos ; a i. os sargentos, vinte sar- 
gentos e cabos; a 2. 0S sargentos, trinta e oito cabos e marinhei- 
ros; a cabos, oitenta marinheiros e grumetes. 

D'elles, á levantada questão de promoções, e até com base 
na transferencia, não quizeram alguns o premio arbitrado, mo- 
tivo porque um outro decreto, (*) datado de 3i de Dezembro 
de 1910, declarando não desejar o governo provisório aque por 
iorma alguma esses valentes servidores da Pátria e da Republi- 
ca ficassem sem o merecido galardão pelos seus feitos heróicos», 
outros lhes concedia. 

Aos conductores de machinas, Joaquim Ferreira da Gama 
e Onofre Zepherino, ia a pensão annual de 72S000 réis, *té se- 
rem promovidos a guarda-marinhas; a pensão de 36$ooo réis 
ao i.° sargento Manuel Fastio até ser guarda-marinha-auxi- 
liar; ao 2. contramestre António Correia da Silva, até ser i.°; 
aos cabos Alberto Soares Mendes e José Lopes de Assis, até se- 
rem primeiros sargentos; sendo louvados apenas os i.° sargento 
João Duarte, 2 os sargentos, Francisco Matheus da Cruz e Antó- 
nio Maria de Carvalho; 2. contramestre Luiz da Silva, cabo 



(#) Legislação de 1910 — Volume II — Pagina 214. 



392 ARMANDO RIBEIRO 



Francisco Marques, i. 08 artilheiros José Maria da Silva, Luiz 
António Pereira, Zepherino Gonçalves Portelinha, e Joaquim 
dos Santos Cabral, 2. 0S artilheiros, António dos Santos, Alberto 
Thoma*, Jacintho Gonçalves Roby e António Virgílio, i.° ma- 
rinheiro, Eduardo Domingos da Fonseca, 2.° marinheiro Fran- 
cisco de Sousa, 2.° íogueiro J osé António, 2.° torpedeiro José 
Augusto Rodrigues át Almeida, chegadores, José Damião, Jcao 
Gonçalves, António Luiz e Manuel Augusto. 

Por esse decreto eram ainda promovidos a l.° sargento para 
a guarda republicana, o cabo de marinheiros, Francisco Salguei- 
ro da Silva e a a. 06 sargentos, os i.° artilheiro Marcolino Au- 
gusto Gouveia e 2.° íogueiro Avelino da Costa e Silva. 

Quanto a superiores, o tenente Ladislau Parreira, dividia 
em dois grupos, para recompensa, os oíâciaes que com elle par- 
ticiparam dos lances d'essas horas de revolta. 

No primeiro collocou os 2. 0S tenentes Annibal de Sousa Dias, 
José Carlos da Maia, Tito Augusto de Moraes e João Mendes 
Cabeçadas Júnior, o medico naval, dr. Alexandre José Botelho 
de Vasconcellos e Sá e o commissario naval, Henrique da Costa 
Gomes, e no 2.° grupo, o i ° tenente João Fiel Stockler, o com- 
misario naval, Marianno Martins, e o 2.° tenente João Joaquim 
Marques da Silva Araújo; deixando ac arbítrio ministerial as 
recompensas a conceder lhes. 

Alterou todavia o governo essa disposição e fez publicar o 
seguinte decreto, (*) norteado pelas indicações do chefe da Ro- 
tunda, reconhecido assim como o supremo dirigente da revolta ; 

«O Governo Provisório da Republica Portugueza, tendo na 
mais alta consideração o feito heróico dos officiaes da armada 
que, nos dias 4 e 5 de outubro rindo, deram as mais exhube- 
rantes provas de valentia, coragem e amor pátrio, concorrendo 
com o seu procedimento digno e alevantado para a disciplina e 
êxito feliz do movimento revolucionário, de que resultou a pro- 
clamação da Republica, desejando galardoai os por uma forma 
condigna, e perfeitamente de accordo com a opinião publica, e 



(#) Diário do Governo, n.° 39, de 19 de Novembro de 1910. — Legisla- 
ção Portuguesa de 1910 — II volume — Pagina 112. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 395 

ferido em attenção as declarações publicas e particulares expos- 
tas pelo cornaiissario naval de 2. a classe António Mtria de Aze- 
vedo Machado Santos, e relegando por isso para as Constituin- 
tes a devida recompensa pelos relevantes serviços que prestou á 
causa da Republica, faz saber que, em nome da Republica, se 
decretou para valer como lei, o seguinte: 

«Artigo i.° E' promovido a capitão de mar e guerra o pri- 
meiro tenente António Ladislau Parreira. Art. 2. São promovi- 
dos a capitães tenentes o primeiro tenente João Fiel Stockler, e 
os segundos tenentes Annibal de Sousa Dias, José Carlos da 
Maia, Tito Augusto de Moraes e José Mendes Cabeçadas Júnior. 
Art. 3.° E* promovido a primeiro tenente o segundo tenente José 
Joaquim Marques da Silva Araújo. Art. 4. E' promovido a me- 
dico naval chefe o medico de i. a classe Alexandre José Botelho 
de Vasconceilos e Sá. Art. 5.° E' promovido a commissario ins- 
pector o commissario de 2. a classe Henrique da Costa Gomes. 
Art 6 o E* promovido a commissario de i. a classe o commissa- 
tío de 3. a Marianno Martins. Art. 7. Os offiches a que se refe- 
rem os artigos 1 ° a 6° d'este decreto ficam perpetuamente col« 
locados fora do quadro das respectivas classes, devendo ser pro- 
movidos segundo a lei geral; só são obrigados ao pagamento 
da patente do posto a que ascendem e não ficam sujeitos ás dis- 
posições do n.° 2. do artigo 46 o da carta de lei de 9 de setem- 
bro de 1908. Art. 8.° E* agraciado com o grau de official da 
Ordem da Torre e Espada com a pensão vitalícia de 3oo$000 
réis annuaes, o segundo tenente Jayme dos Santos Pato. Arf 
9. E' reintegrado no quadro dos officiaes da armada e reforma" 
do no posto de capitão de mar e guerra, com o vencimento an" 
nuaí de çjôofooo réis, o ex oflicial da armada Álvaro de OH" 
veira Soares Andreia. Art io.° São louvados o capitão de fra" 
gata reformado João José Lúcio Serejo Júnior, a quem se con- 
cede a revisão do seu processo o qual foi reformado, e o com- 
missario naval reformado Arthur Marinha de Campos, nomeado 
governador de Cabo Verde. Determina-se portanto que todas as 
autoridades, a quem o conhecimento e a execução do presente 
decreto pertencer, o cumpram e façam cumprir e guardar tão 
inteiramente como n'elle se contém. Os Ministros de todas as 

TOL. PT — FL. 50 



39i ARMANDO RIBEIRO 



Repartições o façam imprimir, publicar e correr. Dado nos Pa- 
ços do Governo da Republica, em 28 de novembro de igio. 
— Joaquim Teophilo Braga — António José de oAlmeida — Af- 
fonso Costa — José c J{elvas — António Xavier Correia 'Barre- 
to — Amaro de A\evedo Gomes — Bernardino cMachado — ■ An- 
tónio Lui\ Gomes». 

Não teve boa acceitaçao perante a antiga orficialidade, o pro- 
mulgar de promoções que, constituindo um evidente premio á 
indisciplina, ia ainda ferir antiguidades. 

Deu isso origem a novo decreto, datado de 22, (*) pelo qual, 
para esclarecimento «de duvidas suscitadas na interpretação do 
artigo 7. » se tazia saber, e se decretava, valendo como lei, que 
os oíficiaes promovidos seriam «collocados tora dos respectivos 
quadros immediatamente a seguir ao oíôcial mais moderno do 
posto a que toram promovidos», que a sua antiguidade se re- 
gularia pelas situações cecupadas na sua escala e as promoções 
se realisariam sob a torma por que o eram os oíficiaes na situa- 
ção de commissão especial. 

Mais tarde, sendo ministro da marinha o capitão tenente 
Freitas Ribeiro formularia elie n'uma entrevista jornalística (**) 
commentarios desfavoráveis áquellas promoçõts, por di«tincção, 
originando o incidente parlamentar (***) ruidoso, onde assigna- 
lada toi uma quasi imposta exoneração de commando de navies, 
aos capitão de mar e guerra, Ladislau Parreira e capitão tenente, 
José Carlos da Maia, e ainda certo mal estar entre a outra otfi- 
cialidade por essa espécie de premio, dispensados de tirocínio. 

Outros prémios ainda se lhes quiz conceder, apresentando o 
deputado Innocencio Camacho Rodrigues, á Assembléa Nacio- 
nal Constituinte (sessão n.° 16 de 7 de julho de igi \) uma pro- 
posta confirmando as promoções feitas pelo governo provisório 
e concedendo a Gran Cruz da Torre e Espada, com a pensão 
annual e vitalícia de i:200$000 réis, aos seguintes oíficiaes: 
António Ladislau Parreira, José Carlos da Maia, Alexandre José 



(#) Legislação Portugueza de 1910 — II volume — Pagina 124. 
(*#) O Século de 1 de Novembro de 1913. 

(♦##) Camaia dos deputados — 7 a sessão ordinária em 10 de Dezem- 
bro de 1913. 



A REVOLUÇA O PORTUGUESA 393 

"Botelho de Vasconcellos e Sá, Annibal de Sousa Dias, Tito Au- 
gusto de Moraes, João Mendes Cabeçadas Júnior, Henrique da 
Costa Gomes, e Marianno Martins; o Grande Oíficialato da 
mesma Ordem, com a pensão annual e vitalícia de goo$ooo 
réis, aos seguintes; João Fiel Stockler, Silva Araújo, António 
Pires Pereira Júnior, Camacho Brandão; o 0'ficialato da mes- 
ma ordem, com a pensão annual e vitalícia de 200$000 réis, 
a todos o? sargentos promovidos a otficiaes pela revolução; e o 
grau de cavalleiro da mesma Ordem, com a pensão annual e 
vitalícia de i5o$000 réis, ao aspirante Adolpho Trindade. 

Era todavia regeitada a admissão, e a reclamação de alguns 
deputados, admittido o projecto, (sessão n.° 18, de i i de julhoy 
para o effeito simples de ser enviado á commissao de finanças, 
onde ficou. 

Dos abrangidos pelo decreto de 18 de Novembro ao capitão 
de mar e guerra, António Ladislau Parreira, que, como José 
Carlos da Maia e João Mendes Cabeçadas Júnior, fez parte da 
Assembléa Nacional Constituinte, era lhe entregue o commando 
do corpo de marinheiros, pelo capitão-tenente Barbosa Bacellar, 
que mandava publicar na ordem da armada, o seguinte louvor 
ás praças : 

«Tendo recebido ordem para lazer entrega do commando 
do corpo de marinheiros ao 1.° tenente António Ladislau Par- 
reira, é com a maior satisfação que, em ordem d'este corpo, 
venho significar quanto é digna de exemplo a maneira como, 
durante o curto, mas agitado período, em que tive a honra de 
exercer este commando, as praças cumpriram o seu serviço; 
quanto sacrifício tem havido em supportar successivas vigílias; 
quanto tacto em saber auxiliar e promover a segurança e a 
manutenção da ordem publica, e quanta amoravel disciplina e 
ponderada alegria no transparecer d'esta calma e nobre abne- 
gação para o bem da nossa querida pátria. Cumprindo-me com- 
municar estes factos ás estancias superiores, acho me, entretanto, 
acanhado em usar da competência, que os regulamentos me 
conferem, dando forma de louvor, que, em todo o caso, louvor 
«é, a este meu modo de sentir perante a magnitude dos heróicos 



396 ARMANDO RIBEIRO 



acontecimentos que trouxeram o advento da Republica Portu- 
gueza.D 

Mais tarde (Dezembro de 1913) era ainda agraciado com- 
a medalha de prata de comportamento exemplar, tendo antes 
exercido o cargo de commandante do cruzador Vasco da Gama, 
em que o substituiu o capitão de mar e guerra Barbosa Leal. 

O capitão tenente Annibal de Sousa Dias, nomeado l. c 
commandante do quartel de marinheiros, era depois comman- 
dante do Adamastor, cruzador encalhado e tendo que ser aberto 
(abril da 1914) no ministério das finanças a favor do da ma- 
rinha, um credito especial para pagamento das indemnisações 
causadas pelo desastre. (*) 

O capitão tenente José Carlos da Maia, era nomeado com- 
mandante da 2 a divisãc do corpo de marinheiros, e depois, do 
cruzador 5. Gabriel, de que foi exonerado (Dezembro de 1913) 
e substituido pelo capitão de fragata Fonseca Rodrigues, par- 
tindo .m breve para Macau, como governador, sob o seguinte 
elogio do chefe da Rotunda : 

djosc Carlos da Maia é um nome já lendário, que pertence 
á Historia; nas não é como um «antepassado», um ser de an- 
tigas eras, que o heroe do «5 de outubro» vae governar a terra 
onde Camões escreveu os seus aLusiadas», e a que o tuíão 
açoita de quando em quando s como que a varrel-a do estro do 
poeta para que outro mortal se não atreva a plagiar o épico. O 
capitão tenente Maia, que ainda ha pouco tempo provou ser, no 
commando do «S. Gabriel», um marinheiro tão distincto e um 
militar disciplinador, como foi revolucionário e combatente au- 
daz, é um dos mais illustrados oficiaes superiores da nessa ma- 
rinha de guerra, que conhece como poucos o Oriente e a coló- 
nia que toi chamado a administrar. Leva, portanto, o nesso 
querido amigo na sua bagagem de governador, além do vasto 
tirocinio de quarenta e três meses de pratica dos homens e das 
coisas politicas, os especiaes conhecimentos que tem do nesse 
ultramar e em particular das regiões «celestes», a par d'um es- 
pirito culto e progressivo, materiaes que são de sobejo para ainda 



(#) Citado já a paginas 593 do 3.° volume d'esta obra. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 39? 



mais engrandecer o seu nome, com proveito para a colónia e 
para a metrópole, De lamentar é que seja tão restricto o campa 
onde o nosso querido e illustre amigo vae exercer a sua activi- 
dade — José Carlos da Maia, que podia, se tivesse aceitado, so- 
braçar hoje a pasta da marinha, vae governar uma província 
onde a viação acelerada despreza o vapor e a electricidade, por 
lhe bastar a energia humana — mas a sua modéstia, tão grande 
como o seu valor, arrastão para a cidade dos cnhôns» e das 
anhônhas», apesar de ter a certeza que n'ella terá de viver con- 
trafeito, porque é demasiado pequena a terra para o conter 
a elle. Macau vae ter um governador á altura; agora o governa- 
dor é que não encontra em Macau a largura bastante para evi- 
denciar os seus méritos. O nosso querido e pessoal amigo, conta 
pcder embarcar por estes dias para o mar da China, a tomar 
conta do seu novo cargo. Que tenha tbom vento ou per a sua», 
como dizem aa damas macaistas quando nos desejam uma íeliz 
viagem, são os votos que tazemos ao dizer lhe tadeus». (*) 

Espalhando impressões, já dissera Carlos da Maia, a um 
anno preciso do lance outubrino: (**) referindo se á abordagem 
do 1>. Carlos: 

aO Parreira dera me ordem de o tomar. Tomei o. V. con- 
vençase de que só cumpri ordens de serviço, nsturalmente,sem 
phrases, sem gestos de Artagnan. Mas cumpri-as, e, por muitos 
annos que viva, parece me que não viverei os precisos para ex- 
piar o neíando crime de, por as ter cumprido o melhor que sa- 
bia, ter concorrido para se lazer uma Republica como essa que 
no Terreiro do Paço tão mal amanharam. Por muito que viva, 
a não ser que se comece a pensar em fazer outra. Porque não 
era nada d'isto. . . Mas, se se fizer outra, como já ?e tem a ex- 
periência, deve fic?r boa, deve ficar limpa. . . E parece-ire que 
será preciso fazela para assim expiarmos o nefando crime de 
termos ajudado a fazer esta ...» 

Ao 1.° tenente José Joaquim Marques da Silva Araújo, so 
ria ainda mais tarde (***) proposta á Assembleia Nacional Cons- 



{*) O Intransigente de 6 de Maio de 1912. 
(##) O Intransigente de 5 de Outubro de 1911. 
(#*#) Sessão n.° 16, de 7 de Julho de 1911. 



398 AKMANDO RIBEIRO 



tituinte, pelo delegado Innocencio Camacho Rodrigues, o grau 
de official de Torre e Espada, com a pensão annual de 
QOO:ooo réis, não tendo seguimento o projecto de lei respectivo. 

O medico naval chefe, Vasconcellos e Sá, com a graduação 
de capitão de fragata, tomava ainda logar na camará dos depu- 
tados, como um dos representantes do partido evolucionista, da 
chefia do dr. António José de Almeida. 

A um anno, exacto, (*) do logrado êxito, já espelhava as- 
sim as suas opiniões: 

aE agora, sobre a Republica? Não é nada d'isto. . . Na- 
da!. . . A um anno da sua proclamação nunca imaginei que 
podesse existir um partido que pondo na fachada a taboleta de 
democrático, monopolisasse o radicalismo, chamando thalassas 
vermelhos aos sinceros republicanos radicaes, aos verdadeiros 
revolucionários de 4 de outubro. . . » 

Mais tarJe, seria elle quem, n'um violento discurso parla- 
mentar, ergueria as arguições feitas a officiaes revolucionários 
peio então ministro da marinha, José de Freitas Ribeiro, no 
aRelatorio do Ministério da Marinha» apresentado ao parla- 
mento (Dezembro de 1913) e ainda n'uma entrevista jorna- 
listica. (**) 

Esse relatório celebre, ensejo largo deu para questões po- 
liticas, por visar a armada sob o ponto de vista do indisciplina- 
mento e de actcs praticados em manobras e a propósito ainda do 
mallogrado movimento de 21 de outubro de 1913. 

O capitãotenente da administração naval, Henrique da 
Costa Gomes, pouco sobreviveu á obtida destincçao, vindo a fal- 
lecer a 26 de outubro do 1911, no logar de Santo António 
dos Olivaes, próximo a Coimbra e sendo enterrado, em Lisboa, 
a 29 do mesmo mez, no cemitério do Alto de S. João. entre 
os túmulos de Cândido Reis, Miguel Bombarda e Elias Garcia, 
na rua n.° 1. 

Mais tarde, sob proposta de José Afíonso Palia, Victor Hugo 
de Azevedo Coutinho, José da Silva Ramos, João Luiz Ricardo, e 



(#) O Intransigente de ." de Outubro de 1911. 
(#*) O Século de 1 de Novembro de 1913. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 39$ 

António Caetano Celorico Gil, e parecer favorável da commis- 
são de finanças, era approvado na Assembleia Nacional Cons- 
tituinte (Sessão n.° 140, de 10 de Julho de 1912) um projecta 
de lei concedendo á viuva de Costa Gomes, Maneta Hoja da 
Costa Gomes, a pensão annual de 36o$coo réis. Teve apenas, 
o contrario voto do dr. João de Freitas. 

Costa Gomes era natur l de Coimbra, onde nascera a 21 
de agosto de 1867, sendo filho do antigo secretario geral d*a- 
quelle governo civil, dr. José da Costa Gomes. Guarda marinha 
em 4 de setembro de 1889, lei promovido a 2.° tenente em 
3o de setembro de 1893. As campanhas de Moçambique em 
1894 1895, trouxeram lhe, pelo porte em combate, a medalha 
de pratt commemorativa d'essa expedição. 

Exercera ainda os cargos de chefe de contabilidade de ma- 
rinha a bordo das canhoneiras Zaire e Quanta e do trans- 
porte índia; encarregado da fazenda do corpo de alumnos da 
armada, adjunto do corpo de marinheiros e thesoureiro da pro 
vincia e da alfandega da Guiné. 

Sem abertamente se evidenciar republicano, por elles foi 
todavia apercebido, a ponto do commissario naval Machado 
Santos o attrahir aos serviços da revolução. 

Esta o achou na hora difficil, e á retirada dos otficiaes re- 
volucionários do quartel de Alcântara na noite de 4, Costa 
Gomes fora o ultimo que abandonou o posto, e só depois do 
bom recato, a bordo, da maioria >cs oificiaes e civis. 

O i.° tenente dd administração naval, Marianno Martins, era 
nomeado depois, governador civil do districto de Villa Real. 

Restava o commandante do quartel de marinheiros, desde 
o aftastamento dos outros olficiaes orientadores da sedição na 
armada. 

Soares Andrea, entregava no dia 6 o edifício onde mano- 
brara na phase de perigo. 

Fora elle o único que sustentara na mão o cahido estan- 
darte da revolta, em Alcantaia. 

O quartel de marinheiros em poder dos fieis á monarchia, 
era a queda da Rotunda, como a d'esta significaria a derrocada 
de Alcântara. 



400 ARMANDO RIBEIRO 



Esses dois postos constituíram a força suprema da sedição 
<{uq lograra reivindicar o seu ideal. 

Todavia, ao deixar o quartel, Soares Andrea, iria sentir de 
novo todo o peso do anathema que sobre elle rompeu prestes. 

Perseguido da monarchia, por sectário de opposto ideal e 
querendo pagar-lhe os ódios pela intransigência, seria um per- 
seguido da democracia, a quem o seu esforço dera. 

O oficial, de principio proclamado heroe, breve, em ques- 
tão de horas, viu entravada a roda que n'um louvor girara ver- 
tiginosa. 

Desde logo se lhe assacaram factos excepcionaes, entrecho- 
cando se de forma tal que nitidamente definiam uma falta de 
veracidade. Gomo primeira phase, surgiu a negativa de que o 
capitãotenente houvesse estado em combativo pcsto. 

Appareceu pois o nome do 2 ° tenente Costa Gomes, citado 
nos boatos como o authentico chefe do acampamento de Alcân- 
tara desde a noite de 4. 

O contrario estava demonstrado todavia no relatório do 1.® 
tenente Ladislau Parreira e ainda nos dos coadjuvantes de An- 
drea apoz o seu apparecimento no quartel de marinheiros. 

Expondo esse corrente boato, n'um encontro na Rotunda, a 
7 de outubro, com Machado Santos, teve d'el!e a resposta se- 
guinte: 

— O commandante não fez nada, foi uma graça. Se não 
aguenta lá a brigada do Paço, havia de ser bonito aqui na Ro- 
tunda; se ella nos ataca de noite ou de manhã, estava tudo per- 
dido! (*) 

Isso não obstou porém a que a apreciação nas primeiras ho- 
ras feita pelo ainda commissario naval olvidada fosse pelo de- 
pois capitão da mar e guerrs, não as reproduzindo no seu rela 
tório, e cahindo assim sob as justificadas censuras do esque- 
cido. 

Contrapondo comtudo, á inhabil campanha, outra emergira, 
derrubando a da não assistência em Alcântara. 

Assim, teve Soares Andrea, a accusação de durante o exer- 



(*) A Alvorada n° 12 — Anno I, de 30 de Abril de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 401 

cicio do commando do quartel de marinheiros haver assignado 
vales na importância de contos de réis e referentes a géneros 
indevidamente apprehendidos ou requisitados, e que pelo facto 
recebera sommas dos pseudos fornecedores beneficiados. 

Derrubada foi todavia a accusação, mercê d'um opúsculo (*) 
onde se descreveu, nítida e documentadamente, a precária vida 
do otficial. 

Mas entretanto se cuidava de galardões e a Soares Andrea, 
se dedicou uma larga promessa de benesses, desde a reintegração 
e promoção a capitão de mar e guerra, até ao reembolso de 
atrazados vencimentos e elevado grau da Ordem de Torre e Es- 
pada. 

Pedia se-lhe, todavia, para ceder a imposições de almiran- 
tes, que requeresse a reforma. 

No próprio gabinete do ministro Amaro Gomes, o offícial 
bradou que antes quebraria a espada no joelho do que se sujei- 
taria a taes condições, retirando d*ali em seguida. 

Apoz, na residência do grão mestre da Maçonaria, o dr. Ma- 
galhães Lima, Machado Santos propunha a Soares Andrea, o 
posto de capitão de mar e guerra, com o cargo de chefe do de- 
partamento marítimo dos Açores. 

Querendo todavia apresentar nitida a situação, Soares An- 
drea obteve, por meio de circular dirigida aos officiaes revolu- 
cionários da marinha, uma reunião, efíectuada no respectivo 
ministério t onde a sua attitude como combatente e propagan- 
dista era exalçada, garantindo se lhe a nomeação breve para ser- 
viço activo. 

Acceitando, assim, a anterior promettida compensação, aos 
prémios lhe coube de facto e por decreto de 18 de Novembro 
de 1910, a reintegração no quadro dos ofâciaes da armada, 
mas com o golpe evidente da reforma, no posto de capitão de 
mar e guerra, tendo annexo o vencimento annual de 96c|ooo 
réis. 

Era o reeditar dos sonhos maus que julgara desfeitos ao cla- 
rear do ambicionado dia de reivindicação democrática. 



(#) Gomes de Carvalho — Verdade e Justiça — II — Paginas 6-7. 

VOL. IV— FL. 51 



402 ARMANDO RIBEIRO 

Ia reproduzirse a scena que se dera com o capitão de fra- 
gata Lúcio Serejo. 

A reforma, por assim dizer imposta ao official de marinha^ 
ao próprio a fundamentou o ministro Amaro de Azevedo Go- 
mes, em boatos de que, apoz a lucta contra a monarchia, Soares 
Andrea «não podia ter a cabeça em bom estado», (*) sendo 
conveniente conservar-se por seis mezes n'aquella situação: 

«Que se dizia não poder a minha cabeça estar em bom es- 
tado (!) após os últimos 3 annos de lucta com a monarchia, e 
então era conveniente, estar ahi mais uns seis mezes ainda fora 
do serviço, e por isso é que me reformara. A esta espantosa de- 
claração, de que me agravavam os soffrimentos para eu aquietar 
o meu espirito indignado respondi — Então, sr. ministro, em 
que regimen estamos nós, na Monarchia absoluta ou na Repu- 
blica?» 

De nada valeu ao official, a calorosa defeza que lhe íez em 
dois opúsculos, sob o titulo Verdade e Justiça! o revolucionário 
Francisco José Gomes de Carvalho, que, talvez pelo facto, conhe- 
ceu também o cárcere, sob accusação de envolvido na tentativa 
revolucionaria de 27 de abril de igi 3. 

Isso justificou que ao esmiuçar da extensa teia formada em 
seu redor, para tentar derruir o valor da sua acção, sustendo a 
derrocada do quartel de marinheiros na noite de 4 de outubro, 
Soares Andrea tivesse a seguinte phrase flagrante: (**) 

«Pode-se lá acreditar que isto é a Republica que o grande 
almirante Reis sonhava? Não, não é!» 

Já então fora exonerado (4 de maio de 19:2) do cargo de 
presidente do tribunal de marinha. 

O movimento, mallogrado, de 27 de abril, levouo á reclu- 
são, por sete mezes, no castello de S. Jorge e d'ahi a Angra, (& 
de maio de I()l3), no chamado castello maldito e depois á clau- 
sura no forte da Trataria (22 de dezembro de 191 3) ? d'onde o 
livrava uma amnistia promulgada (22 de fevereiro de 1914) 
durante o governo da presidência do dr. Bernardino Machado* 



(#) A Alvorada de 28 de maio de 1912. 

(##) A alvorada — Ano I — Numero 16 de 28 de Maio de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZÀ 403 

Para que bastas semelhanças tivesse a Rotunda com Alcân- 
tara, se n'aquella houve sargentos contrários a Machado Santos, 
esta apresentou como adversário de Soares Andrea o seu mais 
desvellado companheiro das horas de amargas situações, José 
Nogueira, accusado pelo otõcial de marinha de interferente nas 
suspeitas que aos cárceres o levaram. (*) 

Isso faria com que o oíâcial, rematasse assim uma carta (**) 
dirigida em 29 de abril d'aquelle anno, ao então presidente do 
ministério dr. Aftonso Costa: 

aEstranha aberração esta: sacrificado pelo ideal da Repu- 
blica no tempo da monarchia, agora ainda sou dos que mais 
soffrem na Republica!» 

A phrase ficou. 

Era a odyssea dos que mais haviam combatido o regimen 
moharchico e attenuando quasi os erros do passado no contraba- 
lanço com os da epocha nova. 

Do louvado capitão tenente Lúcio Serejo já vimos os seus, 
por egual, accidentados passos de apoz victoria. 

O commissario naval, Marinha de Campos, ia ao cargo de 
governador de Cabo Verde, pela exoneração dada ao i.° tenente 
Macedo Ortr^ão, a despeito do seu telegramma ao governo pro- 
visório (7 de outubro) felicitando-o e ao paiz pela proclamação 
da republica. 

Foi em [terras d'Africa que o commissario naval, farto de 
subalternidades, das janellas do palácio do governo quiz revol- 
tar o gentio, para que elle lhe conferisse o supremo poder de seu 
governante, tora das dominações continentaes fabril de 1911). 

Não soube a negragem comprehender-lhe as intenções, e 
não o seguindo, motivou a sua detenção até á metrópole, que, 
mercê das antigas propagandas democráticas, lhe esqueceu esse 
vôo de ambição. 

Em troca teria commissão alta, egualmente em Africa, mas 
que deu origem ao seguinte : (***) 



(#) O Intransigente de 30 de dezembro de 1913. 
(*#) Idem de 7 de janeiro de 1914. 
(**#) O Século de 29 de abril de 1914. 



404 ARMANDO RIBEIRO 



«Consta que foi dada por anda a commissão para que fora 
nomeado em Moçambique o sr. Marinha de Campos, porquanto 
devendo ser essa comissão exercida na Zambezia, aquele oficial 
se achava ha tempo em Lourenço Marques, d'onde nunca saiu»» 

Disse se a commissão como sendo de Moçambique, para 
syndicancia á inspecção de fazenda em Lourenço Marques, (*) 
mas breve de novo se frisou (**) o tacto de ser dada por finda 
a missão de que fora incumbido, ou fosse o estudo das mo- 
dificações a introduzir no regimen dos prasos na Zambezia. 

O facto dera entretanto discussões parlamentares. 

Dos abrangidos pelo decreto galardoador de 18 de novem- 
bro, ainda outro conheceu vicissitudes: o antigo subdirector 
da Cordoaria Nacional, capitão de fragata João Augusto de 
Fontes Pereira de Mello, exonerado por decreto de i3 de outu- 
bro de 1910. 

Tendo feito parte da commissão militar revolucionaria, dos 
trabalhos deu conta em livro intitulado Subsídios para a his- 
toria. 

Nomeado foi ainda cm 1 1 de outubro de 1910, para com- 
mandante do cruzador S. Raphael, que logo no dia seguinte ia 
descarregar a artilharia em frente do areal da Trafaria. 

Mais tarde, (17 de abril de 191 1), apparecia envolvido no 
celebre caso do arsenal, visando á demissão, forçada, do mi- 
nistro da marinha, Amaro de Azevedo Gomes, a substituir por 
Fontes Pereira de Mello, indo este por isso ao cárcere (20 de 
junho de 191 1). 

Pouco depois, era presente á Assemble'a Nacional Consti- 
tuinte (sessão n.° 16 de 7 de Julho de 191 1) pelo deputado 
Machado Santos, um projecto de amnistia a todos os implicados 
em taes acontecimentos. 

Aos suecessos de 27 de abril de 191 3, ainda o seu nome 
foi lembrado, contribuindo isso talvez, para clle requerer a re- 
iorma, sob fundamento de se encontrar impossibilitado para o 
serviço (Setembro de I Q 1 3). Era lhe concedida, no posto de capi- 
tão de mar e guerra, em que o substituiu o espitão de fragata. 



(*) O Intransigente de 2 de maio de 1914. 

(##) O Diário de Noticias de 27 de agosto de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ V 405 



Jayme Pereira de Sampaio Forjaz de Serpa Pimentel (janeiro 
de 1914). 

Ainda da oíficialidade de mar, ao 2. tenente Francisco 
de Aragão e Mello, que ao Cães do Gaz fora levar junto do al- 
mirante Cândido dos Reis, o espelho de uma derrocada doa 
projectos, iria o cargo de governador de Tete (17 de outubro 
de 191 o), pela exoneração dada ao capitão de infantaria Jorge 
Camacho e com escala anterior pelo de ajudante do ministra 
da marinha, Azevedo Gomes. 

Já começara na armada, havia muito, a reconstituição da 
disciplina, necessária. 

Um despacho ministerial de 2 de novembro de 1910, de- 
terminava o licenceamento de praças do corpo de marinheiros* 
Veio depois o decreto seguinte, não menos explicito: 

«Artigo i.° Fica provisoriamente autorisado o comando do 
Quartel de Marinheiros a passar imediatamente á reserva todos 
os grumetes e segundos marinheiros, ou equiparados, cujo pro- 
cedimento seja perturbador da disciplina que deve sempre man- 
terse em todos os estabelecimentos militares. | único. Quando 
o mesmo comando julgar necessária a aplicação do disposto 
neste artigo, aos primeiros marinheiros e cabo, ou equiparados, 
propôl o-ha á Majoria General da Armada, a quem competirá 
decidir imediatamente. Art. 2. Este decreto entra em execução 
imediata.» 

A intensidade de uma propaganda de desobediência, não 
conseguiu todavia arrancar se ás palavras em contrario nascidas 
do rim conseguido e o exercito ou a marinha, traduziam nos 
actos insurreccionados de 27 de abril e de 20 de julho de 1 gi 3, 
e outros, o referver intimo da semente lançada e da qual surgiu 
o lance de 191 contra o constituido poder monarchico. 

Essa magua, espelharia, a três annos de distancia d'essa 
convulsão, o ministro da marinha, José de Freitas Ribeiro, nas 
seguintes palavras dum discurso (*) pronunciado em cerimonia 
solemne do raificar de juramento dos novos alumnos do corpo 
de m4rinheiros; 



(#) Diário de Noticias de li de agosto de 1913 



406 ARMANDO RIBEIRO 



«De hoje em deante já não sois rapazes, tendes o direito 
de ser considerados como homens, como soldados a quem in- 
cumbe a nobilíssima missão de defender a Pátria, como mari- 
nheiros, os mais decididos defensores da Republica e que sabe- 
rão manter durante a sua permanência nas fileiras da armada, 
a tradição de bravura, de arrojo e de patriotismo que sempre 
íoi a mais distinta caracteristica do marinheiro português. Pela 
bandeira que vereis galhardamente tremulando a bordo dos na- 
vios de guerra onde ireis embarcar, a qual será sempre para 
vós o simbolo sagrado da nossa estremecida Pátria, sabereis 
manter-vos disciplinados com a maior dedicação pelo serviço em 
tempo de paz, e, se porventura cair sobre nós o flagelo da guer- 
ra, sereis valorosos até ao heroísmo, combatendo donodadamente 
e sem temor da morte, contanto que jamais perigue a honra da 
bandeira, a tradição da marinha e a fama de Portugal. 

«Nos tempos que vão correndo, ainda tão próximos da re- 
volução de outubro, a sociedade portugueza não está em plena 
quietação e de vez em quando praticam-se actos de indisciplina 
desordenada e perigosa. A nossa maruja não soube esquivar- 
se ao mesmo desvario e quasi se ia partindo a intima ligação 
entre marinheiros e oficiaes, sem a qual nunca poderá existir 
uma corporação militar que seja digna desse nome. Os novos 
marinheiros que todos os annos vêem alistar-se na armada, de- 
vem tugir a tão desastradas influencias, jamais consentirão que 
com elles se misturem elementos estranhos, as mais das vezes 
tresloucados e inconscientes, não sabendo medir o perigo da sua 
intervenção na vida militar, que só os sãos principios de ordem, 
de disciplina e de abnegação devem nortear, e que deixarão de 
existir quando as paixões, a indisciplina e o espirito de facção 
começar a invadir os quartéis e os navios. Felizmente este pe- 
rigo vai passado, que d'ora avante quem dentro da sua camisola 
de aleaxa não sentir pulsar um coração de português, de repu- 
blicano e de patriota, será sem exitação expulso das fileiras da 
armada. E* nos seus jovens marinheiros, que a Repuhlica depo- 
sita as suas melhores esperanças e na sua indómita coragem, 
inexcedivel lealdade, ella confia para poder entregar a todos nós, 
-oficiaes e maiinheiros, os modernos e complicados navios de 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA kOJ 

guerra, que muito breve deverão constituir a esquadía da Re- 
publica. No mar alto e em combate, oíiciaes e marinheiros não 
são mais que irmãos de armas, mas em tempo de paz e de pre- 
paração pêra a guerra, os oficiaes são os vossos mestres e educa- 
dores. As aptidões e conhecimentos que ides adquirir, a elles se- 
rão devidos. Merecem elles só por isso, o vosso respeito, obediên- 
cia e reconhecimento. Estes laços de estima, entre nós, serão o 
condão da victoria, e sem a sua existência, repito, não ha famí- 
lia militar. Gravae, marinheiros! na vossa memoria a lembrança 
d'esta minha declaração. Marinheiros! sede em toda a vossa vi- 
da, tão disciplinados como valentes, tão hábeis como generosos, 
tão republicanos como patriotas! E a Marinha será um corpo 
de ctelite» e a sua divisa — Pátria e Republica.» 

A' imprensa veio, por essa epocha, o queixume de attribu- 
ladas situações, exposta como brado de censura sihido dos cár- 
ceres horriveis de Angra: (») 

A?igra, 2g-j-gi3. — Justiça ! Justiça, senhor dr. Afíonso 
Gosta! Pedimos humildemente rápidas providencias para a nos- 
sa cruel e iniqua situação. Somos victimas duma infâmia; da 
oppressão de tirânica lei d^xcepçao. Que fizemos nós marinheiros,, 
para tão desdenhosamente sermos tratados? De que nos acusam 
esses senhores que ião cobardemente nos martirisam? Se até 
hoje ainda não encontraram cumplicidade nos depoimentos já 
feitos porque não é abolida então a rigorosa incommunicabilidade 
de que somos vitimas ha 90 dias n'estes cárceres immundos ? Por- 
que não nos dão pelo menos o suficiente para as nossas indis- 
pensáveis necessidades? taes como cigarros, cartas, selos, etc? 
Seremos obrigados perante tão misera situação a estendermos a 
mão á caridade dos transeuntes, alguns americanos, etc., que de 
passagem nos visitam fora da prisão e bem afastados. E que im- 
pressão levarão esses estrangeiros dos presos políticos que enver- 
gam uma farda tão honrada e que tão humilhantemente implo- 
ram uma esmola ? E f vergonhoso; é escandaloso vermo-nes nessa 
suprema necessidade! E para isto não haverá ninguém que olheF 
Ha de evitar-se o escândalo prestes a dar-se; talvez mesmo se 



(#) O Intransigente de 21 de agosto de 1913. 



408 ARMANDO RIBEIRO 



adoptem os meios extremos para que não se pratique tão baixa 
acção motivada pelo orgulho d'esses, só d'esses que tão cinica- 
mente esquecem os mais elementares rudimentos do humanita- 
rismo. Onde está a lei que permite, que consente a violação da 
correspondência? Será também lei d'excepção? E' esta a recom- 
pensa que nos dão apoz tantos sacriBcios, pelo seu triunpho — rou- 
barem nos o ordenado, arrastando -nos simultaneamente com 
nossas famílias para o desespero, para a revolta, para a necessi- 
dade extrema? Repito, com dolorosa magua, as perguntas que 
de principio sempre tenho teito se bem que baidadamente. Gomo 
havemos de manter por mais tempo uma honesta subsistência, 
a nossas mães, a nossas esposas, a nossas rilhas, se a alguns o 
cruel destino os impossibilitou de angariar os necessários re- 
cursos de subsistência como sucede a uma pessoa de minha fa- 
mília ha muito tempo ás expensas do meu magro e mesquinho 
«pret»? Que será feito desse ente querido quando se acabar a 
solicitude da generosa visinhança? Morrerá de fome á mercê 
das vicissitudes de todo o tempo e da cruel e iniqua sociedade? 
Ah ! ccmo é doloroso, como é revoltante que a dentro d'um re- 
gime democrático outr'ora tão aureolado das mais fagueiras es- 
peranças e dos mais nobres prometimentos, se pratiquem tão 
baixas normas de repressão! Nem no tempo de João Franco 
existiu tanta tirania. E talvez o senhor Afíonso Costa não tenha 
um arranco de dó e piedade de nós humildes marinheiros que 
tanto o auxiliámos na sua propaganda revolucionaria e a poder 
de sacrifícios extremos construimos o pedestal onde elle hoje 01- 
gulhosamente nos opprime. Providencias, senhor presidente do 
ministério! Justiça, sr. Afíonso Costa! — Pelos marinheiros ca- 
tivos, o telegrafista naval. n.° 4144*. 

Era o espelho afílictivo, a três annos apenas dVssas embria- 
gantes horas de acclamações. 

E, de instante, talvez pairasse por ali, por esses corredores 
sinistros do castello onde D. Afíonso VI jazeu, a alma, em pena, 
de um que preadvinhou esse esbater de enthusiasmos. 

Cahira alem, no ermo de Valle do Z;bro, ao grito da victoria 
de um ideal que não era o seu. 




A entrega da Escola de Torpedos, 
do Zebro. 



— O drama de Valle 




amos de novo encontrar a figura épica de Fre- 
derico Pinheiro Chagas. 

Voltemos á mesma solidão de Valle do Ze- 
bro, para assistir a uma victoria fácil, e a uma 
tragedia que á Historia compete fazer resalrar 
como lance magestoso. 

A manhã de 5 colheu a Escola de Torpedos 
no mesmo apathico aspecto da véspera. 

O 2.° tenente Frederico Chagas, era substituído no quarto 
de vigilância pelo tenente Almeida Henriques. 

Verificada uma escassez de viveres, era destacado para c> 
Barreiro um escaler, que não volveu tão rápido. 

Debalde esperado e assestados para longe os binóculos, vi- 
ram subir no arsenal a bandeira republicana. 

Todavia foi julgado o facto apenas uma nova adherencia. 
Iam de instante tomar-se providencias, para perspectivas de 
avassalamento, quando um vapor approximando-se, procurou 
effectuar um reconhecimento, retrocedendo logo. 

Determinaram-se aprestos para combate, mas o cruzador 
*Z). Carlos, antepondo-se e como se os adivinhasse, intimou pela 



VOL. IV— FL 



-FL.52 



410 ARMANDO RIBEIRO 



telegraphia sem fios a rendição e a proclamação da Repu- 
blica. 

A crença na disciplina firmou-se e pensamentos houve de 
recusa. 

Começou porém a actuar o receio como primeiro passo para 
a revolta. 

O escaler que tinha ido ao Barreiro buscar mantimentos, 
voltou e o patrão, estabeleceu o alarme, dizendo alto qus o va- 
por antes visto, levava a bordo officiaes, praças e civis, que por 
terra iam assaltar a escola. 

Era certo o avanço e próximo a conhecer-se. 

Entretanto, o tenente João Fiel Stockler trocava na parada 
signaes com a maruja e ao ser notado ali volvia ao seu quarto. 

A tarefa estava comtudo finda. 

O corneta, sem ordem superior, apenas a do 3.° artífice tor- 
pedeiro Carlos de Freitas, tocou a unir, e os marinheiros corre- 
ram a armarse, impulsionados já então pelo contra-mestre de 
torpedeiros Alfredo Cabrita Netto. (*) 

O capitão de mar e guerra, António de Almeida Lima, 
longe de tentar com energia reprimir o movimento, indicava 
uma submissão, fallando ás praças para lhes significar ter xpena 
que não esperassem mais e evitassem assim o acto de indisci- 
plina que acabavam de praticar». 

Accrescentava ainda que tendo na escola um official prisio- 
neiro, «se considerava desde esse memento seu prisioneiro com 
a officialidade». (**) 

Chagas, alto proclamava ser cedo para a officialidade se 
render, presumindo até que, da maruja, muitos se conservariam 
fieis. 

Almeida Lima, oppunha-se á tentativa de resistência, rela- 
tada assim por Machado Santos, a pagina i ig do seu relatório: 

«O tenente Pinheiro Chagas tentou dividir a torça, mas o 
capitão de mar e guerra Almeida Lima, director da escola, disse 
que não queria que se matassem uns aos outros e que se alguém 



(#) Falleceu em 22 de Abril de 1912. 

(##) 'Diário dos Vencidos por Joaquim Leitão — Pagina 243. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 41! 



tinha que morrer que fosse elle o sacrificado. Em seguida o 
nobre velho considerou-se prisioneiro do tenente Stockler». 

Os officiaes deliberaram considerar-se prisioneiros, sob a 
formula desculpante de não haver resistência contra a força. 

O tenente Pinheiro Chagas, passeando febril, accentuou: 

— Pois sim, mas eu não me rendo! Eu não me rendo! 
B;enderme não! 

Estabelecia-se a desorientação, accirrada com o ousado pe- 
dido do tenente Fiel Stockler, para que o desligassem da pala- 
vra de honra em como não tentaria sublevações. 

N'essa altura interveio o tenente Jayme dos Santos Pato, ao 
lado do qual se haviam coilocado, presumido fiel £> realeza, 40 
praças do <Pero de Alemquer. 

Respondendo a uma phrase de Frederico Pinheiro Chagas, 
rejubilando pelo facto de esse grupo não adherir á democracia, 
bradou, ingressando com elle no grupo de sublevados: 

— Esta gente vae também! 

Os ofliciaes fieis não puderam solver esse incidente de sur- 
preza. 

Com pasmo seguiram essas forças, caminhando alegres ao 
encontro dos sediciosos de fora. 

Pensou-se nos torpedeiros. 

O lance seria tentado pelo tenente Pinheiro Chagas. 

Não havia comtudo quem os tripulasse. 

A adherencia era então já absoluta. 

O official ficou nervoso, irritado, torcendo nas mãos o bonet. 

Desvairado e incendido o olhar, lábios trémulos, relanceou 
a vista do commandante silencioso, para a columna de subleva- 
dos que gritavam os seus enthusiasticos vivas á republica. 

Os camaradas attrahiramno a si, para que a sua attitude de 
assombro não o conduzisse a extremos graves. 

Sentado n'uma pedra, Frederico Chagas reviveu todo esse 
espelho de inércia, de tacita coadjuvação á revolta, sem que em- 
pregados fossem os torpedeiros. 

Entretanto, o capitão de mar e guerra, António de Almeida 
Lima, abandonava a parada, como demonstração evidente de 
que se rendera e sem que n'esse passo contrariado fosse por 



412 ARMANDO RIBEIRO 



quantos ali se encontravam, o capitão de fragata Emilio Alberto 
de Macedo e Couto, tenentes Almeida Henriques, Santos Pato, 
Abranches da Silva, Vieira de Mattos, Pereira da Silva, Elisio 
Leitão Vieira dos Santos e dr. Abel Barreto de Cdrvalho. 

Dos assistentes a esse acto, diversas orientações assumiriam 
alguns de futuro. 

Dos auxiliares do movimento, o 2.° tenente Jayme dos 
Santos Pato, seria agraciado com o grau de official de Torre e 
Espada, tendo i-nherente a pensão de 3oo$ooo réis. O 2.° te- 
nente João Fiel Stockler, iria a capitão-tenente, sendo nomeado 
ainda commandante do antigo hiate real D. Amélia {^Diário 
do Governo de 17 de outubro de 1910), e tendo depois uma 
proposta, apresentada á Assembléa Nacional Constituinte (Ses- 
são de 7 de Julho de 1911), para lhe ser concedido o grande 
otfkialato da Torre e Espada com a pensão annual de réis 
9oo$ooo, 

Foi elle ainda, quem na tarde de 5 de outubro, veio fazer en- 
trega dos torpedeiros que fundearam entre os cruzadores S. Ra- 
phael e Adamastor^ desembarcando no arsenal a marinhagem, 
á qual ali foi oôerecido lanche. De regresso a Faro, (20 de ou- 
tubro) Stockler, era ali recebido com um cortejo imponente que 
percorreu as ruas da cidade algarvia, emquanto as senhoras dei- 
tavam flores sobre o official revolucionário. 

Dos outros, o capitão de mar e guerra, Almeida Lima, exo- 
nerado do i.° commando da escola pratica de torpedos e electri- 
cidade, que era assumido pelo capitão tenente Alfredo Guilher- 
me Howtll, recebia dias depois, o do cruzador <Z). Carlos, cargo 
de confiança e que lhe era entregue (10 de outubro) pelo tenente 
José Joaquim da Silva Araújo; apoz a exoneração dada ao fe- 
rido da revolta, capitão de mar e guerra, Álvaro Ferreira. O 
C D. Carlos, como se necessário fosse apagar de todo a lembran- 
ça do crime do Terreiro do Paço, passava a Almirante Reis, 
sendo a respectiva chapa inaugurada solemnemente a 3o de ou- 
tubro, com a previa retirada, a 22, da grinalda que havia á popa, 
encimada pela coroa. 

Chegou a haver boatos de uma opposiçao ingleza á trans- 
formação, mas é facto que esta se eflectuou sem incidente. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 413 

Não obstou todavia a que, mais tarde, e a propósito da coo- 
peração portugueza a favor da Inglaterra na guerra europeia de 
1914, o Morning Post, (29 de outubro de 1914) avaliando o 
nosso poder naval, dissesse : 

«Embora a Liga Naval Portugueza se orgulhe da sua im- 
ponente sede em Lisboa e tenha por divisa: «O futuro de Por- 
tugal está no mar» a esquadra portugueza a pouco monta, O 
muito desejado grande couraçado que devia enaltecer a digni- 
dade nacional nos portos estrangeiros ainda não foi construído 
c o navio que foi chrismado com o nome do pobre Almirante 
Reis não excede 4:000 tonelladas.» 

O capitão de fragata, Macedo e Couto, era exonerado de 
2.° commandante, por decreto publicado em i3 de outubro. 

O tenente Vieira de Mattos, requeria e obtinha á passagem 
para o Gongo portuguez em commissão especial (Novembro de 
1910). 

O 2. tenente machinista José Abranches da Silva, appare- 
ceria mais tarde como indicador de nomes de camaradas por 
elle declarados como envolvidos na tentativa monarchica de 21 
de outubro de 1913, sendo por seu turno detido e depois exo- 
nerado do serviço da armada. 

No momento em que o capitão de mar e guerra Almeida 
Lima se submettia, como os outros, sem combate, o tenente 
Frederico Pinheiro Chagas, sentiu subir-lhe ás faces o rubor 
da vergonha. 

Teve elle a noção exacta do dever, mas excedeuo. 

Tentar a lucta, seria uma loucura. 

Quebrar a espada, o mesmo era que entregai a e entregar-se. 

Os companheiros, que se haviam aflastado, trocavam quasi 
serenos commentarios. 

Recordou-se de que tinha no bolso o Smith entregue pelo 
irmão, Mário da Silva Pinheiro Chagas. 

Cravando na bandeira vencedora um olhar deinsubmettido, 
cravou no coração a primeira bala, e no frontal direito mais 
duas. 



(#) O Mundo de 7 de Outubro de 1910. 



414 ARMANDO RIBEIRO 



O lance trágico appareceu assim descripto: (*) 

«Em Valle de Zebro o primeiro tenente da armada, João 
Fiel Stockler esteve na escola de torpedeiros fazendo a calorosa 
deteza da Republica, tentando mata lo o olâcial ali de serviço 
Bordallo Pinheiro. O tenente Stockler esteve preso durante algu- 
mas horas, mas a sua fé ardente de revolucionário levou-o intre- 
pidamente a todas as proclamações da liberdade. Horas depois, 
a marinhagem adheria corajosamente e força armada e o tenente 
Stockler partiam para Lisboa em defeza heróica da causa hoje 
triumphante. O segundo tenente Frederico Pinheiro Chagas 
suicidouse por ter reconhecido, quando commisionado pelas 
auctoridades do Arsenal de Marinha, que suppunham possivel 
suffocar a revolta, a sua impotência perante a marcha luminosa^ 
victoriosa da Republica.» 

Isso justificou a seguinte justa carta de acclaração: (**) 

aSr. — Tendo lido no seu muito conceituado jornal de hoje 
uma noticia do que se passou em Valle do Zebro, eu peço a v. 
o grande favor de esclarecer a mesma noticia, visto que, se fala 
num oíficial Bordallo Pinheiro, o qual, segundo me consta, não 
tem esse nome, mas sim Pinheiro Chagas. Peço a v. o especial 
favor de no próximo numero do seu honrado periódico estabele- 
cer a identidade do verdadeiro otâcial. Sou de v. com a maior 
consideração e respeito, mt.° at.° e ven. criado mt.° obg.°. Mário 
Bordallo Pinheiro, tenente de cavalaria.» 

O acto não dera para exemplos. 

O destino apenas o levara a Valle do Zebro, para que o seu 
nome resaltasse como o de martyr, d'esse martyrio de que de- 
balde havia sido attastado, pelos rogos fraternos. 

Correram para elle os outros. 

O 1.° tenente Almeida Henriques, ajoelhando, notava que 
o coração batia ainda. 

A despeito de soccorrido, extinguiu-se doze minutos depois 
do acto trágico, ás 11 horas e 5 minutos, na sala do i. c de- 
posito da escola e á hora em que a artilharia dava a salva de 



(*) O Mundo de 7 de Outubro de 1910. 
(##) Idem, de 8 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 415 



honra á bandeira verderubra e que para elle era a salva fú- 
nebre, do passamento nobre. 

De regresso vinham então os sediciosos, com a nova da re- 
publica proclamada, e a intenção de assalto. 

Havia se junccionado aos auxiliares que vinham do Barreiro, 
sob a indicação do dr. Gameiro Franco, dirigente de todo o 
movimento na margem esquerda do Tejo. 

Como premio immediato e de transito para outros teve o 
cargo de administrador do 2 o bairro de Lisboa, de que tomava 
posse a 12 de outubro 

A's 3 horas da manhã de 5, reunira o conselho de oíficiaes 
da marinha revolucionaria, e approvara se o plano da investida 
a Valle de Zebro para a posse dos torpedeiros, do núcleo de 
artilharia e fabrica de armas. 

Duas horas decorridas, os grupos estavam organisados e um 
vapor os levou até local não distante da escola. Commandava-os 
o 2 o sargento ajudante de infantaria 17, Jordão Gregório Can- 
sado Conde e o cabo torpedeiro Carlos dos Reis Cadete, acom- 
panhando os a junta revolucionaria do Barreiro, e que, apoz 
a sahida da maruja, para o arsenal, tomou posse da escola. 

A grita ensurdecedora da multidão assaltante, já nao per- 
turbou em vida, o que baqueara em holocausto ao regimen 
derrubado. 

A revolta de Portugal não foi todavia o rubro sanguinaris- 
mo da revolução da França. 

Os sublevados, tiveram o choque na sua alegria e as cabe- 
ças descobriramse ante o morto que para si idealisou como mor- 
talha a bandeira azul e branca das velhas glorias lusas. 

Uma embarcação levou de Valle de Zebro a Lisboa, o corpo 
de Frederico Pinheiro Chagas, emquanto subia triumphante no 
deposito de torpedos o estandarte da Republica 

Quatro catraeiros trouxeram até á residência d'onde sahira 
para combater, o corpo exânime d'esse insubmisso. 

Vejam em trechos de notável burilado o descrever (*) d'essa 
chegadae e d'esse final: 



(#) Diário dos Vencidos, por Joaquim Leitão, pagina 248. 



416 ARMANDO RIBEIRO 



«Toda essa multidão perpassou por deante do corpo de Fre- 
derico Pinheiro Chagas, já composto carinhosamente, e de todas 
as boccas sahiam expressões de respeito, de admiração por 
aquelle homem de honra. 

— «Este, sim, que toi um bravo! 

— «Este soube cumprir o seu dever! 

— «Este tinha brio! — diziam os próprios revolucionário s* 
«Foi a ultima continência e a primeira acclamação de victo- 

ria. Hora de revolução, primeiro trataram da revolução. E o 
tenente Almeida Henriques e dr. Abel de Carvalho tiveram de 
esperar ao sol que os revoltosos transportassem as munições da 
Escola. Por fim, atracou uma vedeta e nessa luxuosa embarca- 
ção foi pousado o corpo de Frederico Pinheiro Chagas, que to- 
dos os ofliciaes e o commandante acompanharam até ali, se- 
guindo no vapor o medico da armada dr. Abel Barreto de Carva- 
lho e Almeida Henriques que só se desabraçou do seu camarada 
quando o entregou á angustia d'outros braços que ficaram para 
sempre abraçados a essa sombra de epopea, como elle para sem- 
pre ficará abraçado á querida bandeira azul e branca. O corpo 
chegou já írio. Nem se pôde desvestir para o amortalhar com 
as dragonas de grande uniforme. Com uma simplicidade egual 
á que elle pôz na morte, apenas por sobre a farda de serviço se 
lhe deitou o colar da Torre e Espada, que com tanta honra ga- 
nhou e com tanta honra levou para o tumulo. Foi assim que se 
matou esse lindo moço, feliz, cheio de talento, de vida, de bon- 
dade, de instrucção, de amoraveis recursos de dedicação, sem 
um viva de allegoria, sem um gesto estudado, apenas o ruído 
necessário para a bala d'um revolver pôr um ponto final no 
seu grande coração. Não copiou nenhuma estampa heróica do 
século XVIII, não procurou attitudes, não chamou espectadores. 
Teve a grandeza da simplicidade e a simplicidade do seu grande 
temperamento. Chamar lhe heroe era vexarlhe a memoria e 
deturpar lhe o gesto. Morte honrada é o epitaphio que lhe cabe. 
Cahiu em sangue, mas no seu sangue, sem sacrificar ninguém. 
E quem sabe a dôr e o sacrifício que esse lindo, essa flor de 
rapaz teve de fazer para não desistir de morrer com honra ao 
lembrar-se — porque se lembrou com certeza — da grande dor 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 417 

que ia levar ao coração do Alvwro, do Mário, de todos elles, 
«cMas quem sabe também se o Frederico não recordou n*essa 
hora, a melancholica phrase do Pae, proferida já á beira do 
tumulo, com a mão cansada de experiência pousada sobre a ca- 
beça d*esse filho. 

— «Que pena eu tenho, meu filho, de que não morras por- 
tuguez!. . . 

«E por muito que nos faça chorar a morte de Frederico 
Pinheiro Chagas, 2. tenente da Armada Real Portugueza, é 
ainda com enlevação e com orgulho que lhe agradecemos o ter- 
se matado, e que confessamos: 

— «Morreu tão bem! Tão honradamente, tão singela- 
mente!. . . » 

Por seu turno, o chefe da Rotunda dedicava-lhe as seguin- 
tes linhas a paginas 119 do seu Relatório: 

«Pinheiro Gh3gas suicidou-se! Frederico da Silva Pinheiro 
Chagas, 2.° tenente da Armada, tinha um caracter bondoso e 
até 4 de Outubro dera sempre provas de ser um bom camarada 
e amigo dedicado. Nenhum acto da sua vida nos auctorisava a 
prever a maneira trágica como entendeu dever liquidar a exis- 
tência! Pinheiro Chagas era um espirito liberal e culto. Nunca 
lhe percebi convicções monarchicas. Era apenas um fanático de 
João Franco. Infelizmente para o paiz, não foi esta a única exis- 
tência nobre que este homem victimou!» 

A afirmativa deu origem a uma carta do dr. Mário Pinheiro 
Chagas: 

«Ex. m0 Sr, Machado Santos — No «Intransigente» de 26 
do corrente, acabo de ler a passagem do Relatório de V. que se 
refere a meu irmão Frederico Pinheiro Chagas em que V. posto 
dedique á sua memoria palavras que reputo merecidas masque 
por isso não deixo de agradecer, affirma que «elle não tinha 
convicções monarchicas e que era apenas um fanático de João 
Franco.» 

«V. Ex. a não tinha nem tem o direito de fazer estas affirma- 
coes, absolutamente erradas. O meu querido e nobilíssimo irmão, 
espirito rasgadamente liberal, era sincera e convictamente mo- 
narchico. Ninguém o pôde saber e affirmar melhor do que eu 

VOL. IV— Ft. 53 



418 ARMANDO RIBEIRO 



E, se elle admirava, como eu admiro, o sr. João Franco, essa< 
admiração não assumiu nunca o caracter de fanatismo, pela mais 
simples das razoes: a de que na minha família só ha o fanatismo 
pela honra do nome que herdamos, com as suas naturaes res- 
ponsabilidades. Foi esse fanatismo que conduziu meu irmão á 
morte e melhor do que eu o affirmará a V. Ex. a se fôr, ccmo 
não supponho, necessário, o 1.° tenente da armada Almeida 
Henriques, que n'uma «interview» publicada no «Correio da 
Manha» fez a narrativa minuciosa do desgraçado acontecimento 
que para sempre enlutou a minha vida. Esperando da lealdade 
e da cortezia de V. Ex. a a publicação d'esta carta no seu jornal, 
sou. De V. Ex. a — cMario Tinheiro Chagas.— 27 2.1911». 

Frederico Pinheiro Chagas notabilisarase nas campanhas de 
Africa, por elle descriptas n'um livro primoroso Na Guiné. 

Nasceu em I882 e era filho do grande historiador, Manuel 
Pinheiro Chagas e neto d'esse outro vulto notável de liberal, 
Joaquim Pinheiro Chagas, poeta, a que não deixaram de sorrir 
as aventuras revolucionarias de I828, e que depois das luctas 
contra o absolutismo, vinha a secretario do rei santo, D. Pe- 
dro V. 

A' morte do escriptor saudoso, quiz D. Carlos I, assumir a 
direcção educativa de Frederico Pinheiro Chagas. O irmão, o 
dr. Mário, recusava, allegando haver o pae sollicitado, na extrema 
hora, que fosse elle o educador. 

E a missão foi bem desempenhada, embora a morte se encar- 
regasse de ceifar todo esse trabalho aproveitado. 

Também essa perda e a sua origem arremessou para a cons- 
piração os irmãos. Mário e Álvaro Pinheiro Chagas, iam depois 
engrossar as fileiras dos conspiradores pela causa monarchica 
e éditos eram publicados (agosto de 1913,) pelo tribunal de 
Braga, citandoos a apresentar-se a julgamento sob pena de re- 
velia. Aproveitava-lhes a amnistia do anno seguinte e sóentao re- 
gressava á pátria, de longo exilio, quasi toda a família do suici- 
dado de Valle de Zebro. 

Merecia comtudo uma elegia, esse acto de nobre desespero. 
O lance de desvario tem a engrandecelo o sagrado da in- 
tenção. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 41» 

Não foi um luctador que quiz arremessar outros á lucta e 
se alijou das responsabilidades na hora grave do compromisso. 

Foi o idealista que cahiu, quando cahido viu o seu ideal. 

Foi o soldado que se isolou do mundo, quando, em redor 
de si, notou o vácuo, o abysmo cavado entre a bandeira que ju- 
rara e a que seria íorçado a jurar. 

Foi mais uma gotta de sangue a enrubrecer o pavilhão da 
revolta. 

Merecia uma elegia grande essa alma de dedicado. 

A Historia porém, ao reivindicar para si, como muito sua, 
a figura gigantesca de Frederico Pinheiro Chagas, firma-lhe 
o nome nas suas paginas indestructiveis, como a vulto que bem 
o merece. » 






VI 



A proclamação na Camará Municipal de Lisboa— O Go- 
verno provisório— O trabalho do passado e a desil- 
lusão do futuro— Primeiras proclamações— A. sessão 
solemne nos paços do concelho— Questão de priori- 
dades—Os autos da ceremonia— O Museu da Revolu- 
ção—A sancção pelas Constituintes — Prophecias e 
coincidências. 




ahindo do edifício do governo civil, e sabendo já as- 
segurada a posse do quartel general, o dr. José 
Barbosa, José Relvas, e o professor Brito Betten- 
court, dirigiram-se, com o povo, para a camará 
municipal onde se lhes juntava o professor José 
António Simões Raposo, que, com o segundo ha- 
via desembarcado do 5. Raphael, ao conheci- 
mento das boas novas. 

Simões Raposo, teve, depois, o cargo de curador dos servi- 
çaes em S. Thomé. 

Já ali se encontravam o jornalista José Maria de Moura Ba- 
rata Feio Terenas, futuro senador e director geral da secretaria 
do Congresso da Republica, e o dr. Francisco Eusébio Lourenço 
Leão, secretario do Directório, o primeiro que chegou aos paços 
do concelho. 

Reuniram se-lhes ainda o lente da Escola Polytechnica, Inno- 
cencio Camacho e o dr. Malva de Valle, recem-desembarcados^ 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 424 

dos navios, onde haviam notificado o pedido do desembarque., 

Reunidos trocaram as impressões occasionaes. 

Relida toi a lista do governo provisório. 

Não houve, de instante, um pensamento analytico sobre a 
sua organisação. 

Fora elaborada nas horas em que nem de leve se sonhavam 
probabilidades de victoria. 

Pensou se mais em recompensar velhos trabalhos e antigos 
sacrifícios pela causa do que em medir preparações para oa 
cargos primários de uma nação em revolta. 

Alguns haviam sido lembrados, extra-consulta e d'ahi sem 
prevenção legislativa para accudir ao excrcicio das tuncções 
altas. A obra reformadora ou ia postergar- se ou surgir num, 
golpe rápido. 

Ou a demora ou a submissão ao erro. 

Pela ultima tentativa se optaria, á mercê de boas vontades. 

Estas teem um limite, e o trabalho, enfermou, não da in- 
competência dos homens mas da rapidez das circunstancias^ 
impondo producções de leis a impreparados pelo convencimento 
da fallibilidade da revolução ou pelo desconhecimento absoluto 
de que atirados seriam de junto das suas cadeiras de litteratos 
para o turbilhão d'um gabinete ministerial. 

Esse pensar manifestado mais tarde seria, até pelos próprios 
que não ignoravam a feita escolha, tão impensada que jungiu 
no elo de um ministério dois inimigos de sempre, os drs. An- 
tónio José de Almeida e Affonso Costa. 

Já officialmente sabida a morte do almirante Carlos Cân- 
dido dos Reis, apenas se tratou de lhe arranjar substituto. 

De momento lembrado foi o capitão de mar e guerra, Amaro 
Justiniano de Azevedo Gomes. 

Acceite, urgia dar execução ao acto que ia afnrmar a victo- 
ria republicana e solemnisada desde logo pela offerta, a primeira^ 
do exfomecedor de carnes á cidade de Lisboa, Manuel Martins 
Gomes Júnior (*) pondo á disposição da Republica, para os primei- 
ros encargos, todos os seus rendimentos ao juro de 5 °/ e 1 conto 



{*) Falleceu em outubro de 1914. 



422 ARMANDO RIBEIRO 



de réis sem encargos, para os revolucionários feridos e auxilio 
para a erecção d'um monumento dedicado á memoria dos li- 
beraes mortos no campo da lucta. A segund* verba era entre- 
gue no dia immediato, ao dr. Aífonso Costa n'um cheque, pelo 
representante de Manuel Martins, Lopes Nogueira. 

A ofterta teve depois o seguinte apregoado profícuo resulta- 
do:(*) 

«Afinal não se chegou a averiguar em quem votou o illus- 
tre sr. Martins das Carnes — que segundo a Lucta em quatro 
anos arranjou mil contos com o monopólio das ditas. Que pe- 
na ... » 

Seguirlhe-hia o exemplo, embora não effectivado, ocommer- 
ciante Francisco de Almeida Grandella, fazendo saber (8 de ou- 
tubro) ao governo provisório por intermédio do ministro dos 
estrangeiros, que punha ao seu dispor as suas propriedades, 
absolutamente livres de encargos, no valor de seiscentos contos 
e a sua casa commercial, avaliada em cinco mil contos, para o 
governo poder levantar, sobre estes bens, quaesquer empréstimos 
de que carecesse. 

Impunha-se pois a necessidade de fazer saber officialmente, 
ao povo em baixo accumullado, que Portugal havia mudado de 
regimen. 

A postos tudo, para a varanda larga se dirigiram os repre- 
sentantes do Directório, rodeados de revolucionários civis. 

Ia proclamarse a republica. 

Não se conseguiu fixar devidamente a hora do acto celebrado. 

Se uns o deram ás 8 1 / 2 da manhã (**), outros, o affirmaram 
suecedido ás 9 horas (*+*), e ainda outros ás 1 1 (•***), estes com 
base até nos documentos officiais. 

Esta foi porem a de leitura na sala nobre dos paços do con- 
celho e que seguiu a da declaração das janellas da camará. 



(*) O Rebate de 22 de Novembro de 1913. 

(##) 4 ■ edição do Diário de Noticias, de o de outubro d 1 ? 1910. 

(###) Da Monarchia á Republica— P agiria 90. 

.(####) O Século de o de outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 423 



Assomando ao parapeito, ante um breve silencio íeito, o se- 
cretario do Directório, dr. Eusébio Leão, declarava que a repu- 
blica substituirá a monarchia no governo da nação portugueza, 
rematando com as seguintes palavras, mal percebidas já, no meio*> 
das aclamações populares : 

— Ao povo portuguez, sendo um povo respeitador da li- 
berdade, desnecessário é recommendar a maior prudência e o 
maior socego. A ordem está restabelecida, e no regimen repu- 
blicano cabem todas as aspirações, todas as vontades generosas. 
A Republica é um regimen de perfeita liberdade. Comportem se, 
pois, todos dentro da máxima tranquillidade. 

Seguiuse-lhe o lente da Escola Polyjechnica, Innocencio Ca- 
macho Rodrigues, dando a constituição do governo provisório: 

Presidente, dr. Joaquim Theophilo Braga; interior, o dr. An- 
tónio José de Almeida; justiça, o dr. Aftonso Costa; tazenda, o 
dr. Bazilio Telles; guerra, o coronel António Xavier Correia 
Barreto; marinha, Amaro Justiniano de Azevedo Gomes; es- 
trangeiros, o dr. Bernardino Luiz Machado Guimarães, e obras 
publicas, o dr. António Luiz Gomes. 

Compunham-no, na maioria, vultos sahidos da propaganda 
democrática junto das camadas populares. 

O dr. Joaquim Fernandes Theophilo Braga, chefe do gover- 
no, era a maior mentalidade portugueza. 

A sua vida, traçou a elle em auto-biographia concedida aa 
jornalista francez René Comtois para o Matin, que a reprodu- 
ziu zincographicamente (*). 

Braga. (Theophilo;, nascido em 24 de fevereiro de 1843^ 
na ilha de S. Miguel (archipelago dos Açoresj. Na edade de três 
annos ficou orphão de mãe, D, Maria José da Camará Albu- 
querque. Atormentado por uma terrível madrasta até 1861,. 
abandonou a casa paterna e partiu para Coimbra com o pouco 
dinheiro de um volume de versos, Folhas Verdes, que publi- 
cou em Ponta Delgada em 1859, como estreia litteraria. Em 
Coimbra a sua vida foi uma lucta obscura, por falta de todos. 



(*) Le Matin, 7 de Outubro. 



£24 ARMANDO RIBEIRO 



os meios de existência. Elle supportou essa lucta com um indo- 
mável orgulho. Frequentou a Universidade de 1862 a 1868, 
anno em que se íormou em direito. Em 1868 concorreu a uma 
cadeira de economia politica na Academia Poiytechnicado Pono. 
A sua these de concurso era intitulada: Característica dos actos 
commerciaes. Os seus professores preteriram-lhe um bacharel 
imbecil que tinha parentes na Escola. Pouco depois, em 1871, 
apresentou se a concurso da faculdade de direito; a sua these 
intitula se: Espirito de direito civil moderno. Mas a faculdade, 
levada por intrigantes, adoptou a preferencia da »ntiguidade de 
grau e preteriu-lhe duas mediocridades anonymas. Fechavam- 
lhe assim o accesso ao magistério, o único meio que tinha para 
seguir a sua vocação. Foi em 1872 que elle se apresentou ao 
concurso da cadeira de litteratura moderna da Europa, no curso 
superior de lettras em Lisboa. A sua these de concurso intitu- 
lava-se: Theorias da historia e da litteratura portuguesas. Que 
terrível batalha! Todos os elementos conservadores, catholicos, 
monarchicos, metaphysicos, ultra-romanticos, os jornalistas as- 
salariados do governo, conspiraram para lhe vedar a entrada 
no magistério. O publico acclamou o e impôl o ao ministro, que 
consultou o conselho de instrucçao. E* somente pelos seus hono- 
rários cie protessor que Theophilo Braga subsiste, consagrando 
inteiramente a sua vida ao trabalho intellectual. Todos os livros, 
que tem publicado, da-os gratuitamente ás livrarias para ven- 
cer a greve qua faliam em volta d'elle. Seguia com prazer o 
seu ideai, A Academia das Sciencias não o admitciu senão de- 
pois de dez snnos (1880-1890) de consideração sobre esse pe- 
rigo. Foi na Academia que elle publicou a sua Historia sobre 
a Universidade de Coimbra, em quatro volumes. Theophilo 
Braga é considerado como um inimigo pelas classes conserva- 
doras porque é republicano, livre pensador, e, em philosophia, 
é o introductor da philosophia positiva em Portugal. Isto basta 
para o fazer detestar, (a) Theophilo Braga.-» 

Professor de historia e de litteratura no Curso Superior 
de Lettras e sócio ettectivo da Academia Real das Sciencias e 
do Instituto de Coimbra, pelos archivos d'essas aggremiaçÕes es- 
palhou o seu trabalho de intrinseco valor. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 425 



Mas fora de facto uma existência de lucta a de Theophilo 
Braga. 

As pugnas da phalange dos escriptores de 1873, encontra- 
ram no victima dos ataques agrestes de Anthero do Quental, 
aggravando-o moral e litterariamente, talvez para o attemiar 
dos combates de 1866, em que Júlio de Castilho, visconde de 
Castilho e Manuel Roussado, barão de Roussado, cruelmente 
dissecaram, em folhetos celebres, a individualidade de Quentai. 

A Historia de Camões, trouxe lhe também a critica mordaz, 
cortante, de Camillo Casteilo Branco, nas Noites de Insomnia, (•) 
desfazendo erros da obra sobre o cantor dos Lusíadas. Breve 
teve novo ataque, sob o titulo Os 2 Joaquim (**) e iniciado assim: 

aUm é o arranjador de Músicos e de outras maravalhas. Ou- 
tro é Theophilo que também é Joaquim. E também é Fernan- 
des. Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em 
letras. Joaquim Fernandes era a parte chata do sujeito. Desfez- 
se disto, pôz se á cavalleira do Génio e assignou-se Theophilo 
Braga. (**+) Aviso á posteridade: Elle era Joaquim! A fatalidade 
dera 2 a Portugal, no mesmo século. Gémeos, hemogeneos, ho- 
monymicos, productos de gravidez longa, parto feito a urros fe- 
rozes no nascedouro, ringindo com dedos anavalhados, ao tempo 
que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos seus 
cachorros. E que cachorros!» 

Passariam comtudo essas desavenças e Camillo, levado pela 
amargura que advinhou no dr. Theophilo Braga á morte dos 
filhos estremecidos, encarregava-se de destruir as aceradas criticas 
do passado, tornando se o seu melhor amigo. 

Ambos estavam ja no campo da notoriedade. 

Sendo já collossal a obra de Theophilo, avolumando se ao 
ponto de em 1902, n'm periodo de 40 annos, já abranger 1 12 
rolumes, em prosa e verso, e descriminados com analyse, no 



(#) N.° 3, de Março de 1874, pagina 14. 

(##) Idem, pagina 58. 

(###) No Diccionario bibliographico de J. Francisco da Silva, é conhe- 
cido por Joaquim Theophilo Fernandes Braga. (Nota das Noites de insom- 
jiia). 

VOL. IV— FL. 54 



426 ARMANDO RIBEIRO 



prefacio (*) ao poemeto de Theophilo Braga Mais Mundos, edi- 
tando no Rio de Janeiro pelo escriptor Fran Pacheco, trabalho 
que apresentou ampliações aos elementos contidos no livro de 
Teixeira Bastos, Theophilo Braga e a sua obra. 

Não abrandou desde essa epocha a actividade do erudito e 
como maior monumento do seu atfinco se evidenciou a Histo- 
ria da Litteratura Portuguesa e Renascença Portuguesa no 
caminho ininterrupto, do perscrutar da vida dos grandes e ex- 
tinctos cultores das lettras pátrias. 

O dia 24 de Fevereiro de 1908, constituiu para elle uma 
data celebre: completando 65 annos de edade e 5o de vida lit- 
teraria, teve em sua casa uma manifestação (**) de ruído, 
pelos escriptores portuguezes, terminando com a entrega de um 
livro, «Cincoenta annos de actividade mental de Theophilo 
Braga, julgada pela critica comtemporanea de três gerações lit- 
terarias.» 

O todo prolixo, extenso, dos trabalhas de Theophilo Braga, 
tornava-o, é facto, um compulsado exclusivo dos anciosos de 
saber muito, quasi raros na sociedade portugueza, indiflerente á 
necessária descripção basilar dos factos. 

A incomprehensibilidade para muitos, não aítastava com- 
tudo o preito gerai por todos ao publicista, erudito e pesquisador 
infatigável, evidenciando que cada anno a mais na sua existên- 
cia significava uma nova affirmativa de actividade scientifica, 
philosophica e esthetica. 

Poeta, professor, sociólogo, philosopho, historiador, d'elle 
tomou posse a celebridade, levandolhe o nome até ás mais no- 
táveis academias estrangeiras, ao ponto de, ao realisar-se a 24 
de Fevereiro de 1906, uma festa de homenagem a Theophilo, 
promovida pelos ex-alumnos do Curso Superior de Lettras, 
n'essa mesma hora se efíectuar uma sessão de honra ao eru- 
dito litterato no amphitheatro de Sorbonne, em Paris, como 
mais tarde (Julho de 1914) a Sociedade Real de Litteratura de 
Londres o elevava a sócio honorário. 



(#) Reedita-o a paginas 49, o Novo Qdlmanzch de Lembranças Luso* 
lirafileiro, para 1902. 

(##) Referida a paginas 76 da nossa obra O Começo de um Reinado^ 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 427 

Trabalhando em ambos os campos da politica republicana, 
appareceu em 1900 na lista dos collaboradores do Mundo, da 
feição do dr. Aflonso Gosta, como em Fevereiro de 1910, sur- 
giu collaborador, desde o 2.° numero do pamphleto A Alma 
Nacional, do dr. António José de Almeida. 

E' íacto que não leria ali a nota partidária, a esse tempo 
mal esboçada e só effectivada em 1910, á republica feita, mas 
isso constituia já um quasi statu-qno entre dois litigantes alar- 
mados. 

Mas nem só escrevendo, o dr. Theophilo Braga em destaque 
poz a sua mentalidade pujante. 

Celebres ficaram, entre muitas outras, as múltiplas confe- 
rencias do anno de 1906, e especialmente a de 2 de abril no 
Atheneu Commercial de Lisboa, á inauguração do Circulo de 
Estudos Sociaes Theophilo Braga; 21 de junho, sobre os poetas 
lyricos Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; 12 de julho, 
sobre a vida do padre Joaquim Silvestre Serrão, e a de 14 de 
dezembro, no Grande Club de Lisboa, sobre liberdade de im- 
prensa. 

O povo, vendo n'elle um apostolo da sua causa, promovia 
lhe a manifestação de 16 de Dezembro 1'esse anno, na Avenida, 
o que deu origem a collisões entre a multidão e a policia, sendo 
esta apedrejada. 

Ainda como de saliência se assignalaram as conferencias de 
31 de Março e 30 de Maio de 1908, no Atheneu Commercia^ 
sobre D. Leonor Pimentel e sobre Voltaire. 

N'esse intervallo, 22 de Abril de 1908, se realisou a inau- 
guração na Camará Municipal de Lisboa, da Academia de Scien- 
cias de Portugal, sendo eleito presidente perpectuo e á qual deu 
todo o valor do seu cérebro predestinado. 

A propaganda democrática, deu origem a que se desse com 
Theophilo Braga em 1909 e quando da visita a Lisboa, o 
escriptor Anatole France, o seguinte episodio, narrado pelo 
Matin (Outubro de 1910): 

«De trem, tendo ao lado Theophilo Braga, o mestre dava a 
volta ao palácio das Necessidades, pobre construcção sem graça, 
pinturilada de cor de rosa. Pela praça soldados fazendo serviço» 



ARMANDO RIBEIRO 



Uma musica fungava o hymno real porque a guarda que subia 
vinha em substituição da guarda que descia. E quando o ofticial 
que dirigia a guarda á porta do rei reconheceu Theophilo, o 
chete dos republicanos, e Anatole France, saudosos com a es- 
pada largamente. E f um dos nossos, disse Theophilo ao escriptor. 

— «Vejo que a colheita está madura», disse Anatole France, 
Dentro d'uma semana teem a Republica. 

— «Sem a Inglaterra e a França já a teríamos ha mais 
tempo». 

Mais erudito, mais cultor das lettras, do que predestinado 
para a vida deletéria da politica, nem de leve sonhou a escolha 
para chete de estado, em Portugal. 

A revolta colhia-o de surpreza no remanso da residência da 
Boa Viagem, onde colligia elementos para a sua Historia de 
Portugal, como de improviso o achou nas ruas citadinas, a elei- 
ção para a suprema magistratura lusitana. 

Essa supreza elle a descreveu nas phrases curiosas de uma 
entrevista, (*) onde o cáustico da linguagem marcou bem os 
lances da situação nova e suas consequências; 

— «Diga-nos, doutor. Como se achou envolvido no complot 
da revolução de outubro? Quem o convidou para a presidência 
e quem o foi chamar na celebre manha de 5? 

«O illustre homem de sciencia sorriu e exclamou: 

— «Isso é muito curioso! 

— «Como, porem, ainda, de então até hoje, ninguém se 
lembrou de esclarecer esse importante ponto da proclamação da 
Republica, comprehende que a curiosidade leva nos hoje a. . . 

— «Muito bem, e oiça porque, repito, é um ponto curioso, 
e, além de curioso, nada trivial e até. . . sobrenatural. Abor- 
recido em Lisboa, e com minha mulher já bastante adoentada, 
resolvi procurar qualquer vivenda ou quinta com moradia aqui 
perto, onde pudesse passar a temporada das lerias. Em maio, ap- 
pareceu me uma casa cm termos ao pé da CruzQuebrada, a quinta 
da Boa Viagem, elá deliberei installar-me, depois de uns necessá- 
rios cuidados nas dependências da minha nova habitação. Du- 



(#) As Novidades de 4 de Dezembro de 1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 429 

* 1 ^. 

rante os exames, vinha a Lisboa, mas, terminados elles, fui 
íicando de todo na Boa Viagem, tanto mais que tinha, dia 
a dia, de rever as provas do livro Camões que me appareciam 
ás centenas, vindas do Porto, onde a edição era teita. Mas va- 
mos ao caso. Deu-se a morte de Miguel Bombarda e eu presenti 
logo que aquillo não podia ficar assim. Além d'isso por duas 
vezes os cruzadores tinham sido afastados preventivamente e, 
com franqueza, meu amigo, a terceira era demais, 

— «Perdão — atalhámos o sr. Theophilo Braga — V. Ex. a 
diz que presentia que a Revolução se faria após o assassínio. 
Não estava, então sciente de que eila estalaria n'esses dias pró- 
ximos, mesmo que não se desse esse funesto caso?» 

— «Não, senhor. E* bom que se saiba que eu não estava 
nem de longe, absolutamente a par quer do plano do movimento 
quer do mais simples detalhe estratégico, quer, inclusivamente, 
das reuniões que se efíectuavam. Sabia, somente, que se prepa- 
rava o golpe mas não era procurada a minha opinião para na- 
da, nem nas assembléas do complot me encontrei. . . 

<l Adeante. Deitei-me na noite de três, acordei na manhã de 
quatro, e só então, quando almoçava, me foram dizer muito 
vagamente, que andava a Revolução em Lisboa e que estavam 
cortadas as communicaçÕes. Calcule como fiquei. Vencer se hia? 
Não se venceria? — eram as minhas perguntas mentaes n'a- 
quelle quasi ermo da Boa Viagem. Não sahi de casa, a rever 
provas, e, por volta das duas horas, senti o rumor de tiros de 
artilheria do lado de terra. Calculo que era o combate entre a 
Rotunda e a gente de Queluz. Passado tempo, novos tiros mas 
do lado do Tejo. Egualmente tudo me leva a crer que era o 
bombardeamento das Necessidades. Depois mais nada. Chegou 
a noite e deitei-me n'um estado de espirito fácil de avaliar. Ti- 
nha acabado de o fazer, quando oiço novos tiros, ainda no Tejo. 
Continuava, pois, travada a coisa! — exclama o sr. Theophilo 
Braga, proseguindo: — Puz-me então, ás escuras, de olhos cer- 
rados, a assistir mentalmente ao drama. O que eu via nas ruas 
de Lisboa! A dynamite em acção, o povo metralhado pela mu* 
nicipal, uma lucta terrivel entre a reacção e a liberdade!. . . De 
súbito, um silencio aterrador, silencio que durou minutos sobre 



430 ARMANDO RIBEIRO 



minutos. . . meia hora. . . mais. . . ainda mais. . . O que a 
minha imaginação anteviu então de horroroso! Tudo escanga- 
lhado. . . as prisões de Monsanto e do Alto Duque abertas, os 
cárceres da Penitenciaria escancarados. . . os navios mettidos 
no fundo porque os marinheiros, vendo se perdidos, estavam re- 
solvidos a fazei o, etc, meu amigo. E — accentua o nosso iilus- 
tre entrevistado — olhe que, de facto, a coisa esteve quasi es- 
cangalhada. . . Continuaram, porém, alta noite os tiros. Nova 
esperança! E fui contando. . . um, dois, três até vinte e um. . . 
Mais nenhum. Ora vinte e um tiros é uma salva. Será um aviso 
de triumpho? perguntei aos meus lençóes. Ora, sendo de trium- 
pho, certamente era a victoria da Republica, porque caso ven- 
cesse a causa dos Braganças o tempo não chegaria para a guar- 
da e a policia correr a prender ou quiçá chacinar republicanos, 
quanto mais para dar salvas . . . Rompeu a manha; a visinhança 
só sabia dizer que a Revolução estava feita, que o rei tinha fu- 
gido e mais nada. Almocei e metti-me então n'um comboio, 
porque me asseguraram que se transitava já até ao Aterro. Aqui 
apeei-me no meio de correrias da multidão aos vivas, com ban- 
deiras e estralejando foguetes a todos os cantos. E ia, caro amigo, 
a atravessar a praça Duque da Terceira quando me vi envolvido 
pelo povo, que me reconhecera e soltava vivas ao presidente^ 
agitando os chapéus n'uma loucura belia e grandiosa. 

«O presidente ! — exclamei eu commigo próprio. E os vivas 
proseguiam sem interrupção. Levado não sei bem como, na 
onda, até á Camará, ahi acerca se de mim um, não me recordo 
se António José de Almeida, se Affonso Costa, e diz-me, apre- 
sentando me um papel: Aqui está a lista. . . Você é presidente! 

«Agora, finalmente, resta-me, neste episodio, contar lhe um 
caso curioso: havia, não sei se sabe, duas correntes: a dos revo- 
lucionários e radicaes e a do directório. Esta apanhou o movi- 
mento Só soube d'isso depois; ignorei tudo por algum tempo; 
o primeiro a proclamar a Republica da varanda da Camará foi 
José Relvas; depois — e, então já na minha presença — é que, 
surgindo nova onda de povo, Eusébio Leão tornou. . . a pro- 
clamai-a ! Ora, concluindo, tudo isto devo eu esclarecer e, sobre- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ l 431 



-j-j~.-j-j-* 



tudo, desenvolver no meu próximo livro sobre a Historia da Re- 
volução, onde heide demonstrar com basta copia de materiaes 
que, n'essas horas de angustia e de suprema resolução para o 
bem da Pátria, todos, todos note bem, faltaram ao seu compro- 
misso. . . ou então não se entenderam. d 

A critica era severa, mas justa. 

Todavia, mais e melhor appareceu na imprensa e no livro. 

O volume 'Discursos sobre a Constituição politica da Re- 
publica Portuguesa, tormula nas suas notas, accusações varias, 
desde actos desconsiderativos íeitcs em pleno parlamento até ás 
singulares peripécias que precederam a eleição presidencial. 

Recapitulava (*) até um incidenteexcepcional e caracterisa- 
dor da lorma como por parte de muitos toi encarada a transfor- 
mação do regimen; 

a Depois de ter observado como uma parceria empolgou a 
Mesa da Assembleia Constituinte, encheu as commissÕes parla- 
mentares e depois de desmascarar os seus intentos, se apoderou 
da Presidência da Republica, avivou se nos no espirito a im- 
pressão de uma phrase tremenda, proferida entre a multidão 
que enchia uma das salas do Ministério da Guerra: 

— «Isto agora é nosso! Nós também queremos comer 7» 

«Que synthese! Ainda confio em uma geração capaz de ci- 
vismo e de sacrifício pela Pátria.» 

A campanha contra o dr. Theophilo Braga, recomeçava, 
abertamente, mercê de desvendados segredos dos seus Discursos 
e dando origem aos seguintes commentarios do Mundo: (•*) 

aFoi preciso que se fizesse a Republica para que indivíduos 
que republicanos se dizem se referissem a Theophilo Braga 
como nunca monarchicos se referiram, O nome de Theophilc 
Braga não se macula nem se deprime por isso. Apenas se defi- 
nem melhor os que levam tão longe os seus ódios e a sua mi- 
séria moral que nem poupam o nome glorioso d'aquella grande 



{*) «Discursos sobre a Constituição Politica da Republica Portugueza, 
pro f eri dos na discussão da generalidade e especialidade nas sessões de 18 de 
Julho e 2 de Agosto de 1911, na Assembleia Nacional Constituinte» por 
Theophilo Braga.— Lisboa, 1911— Pagina 100. 

(##) O oMundo de 23 de Dezembro de 1911. 



432 ARMANDO RIBEIRO 



figura intellectual e moral que bastaria para tornar gloriosa uma 
raça. Chega a ser honroso para Theophilo que taes ódios o 
atinjam, porque, se o aplaudissem os que pretendem ataca lo, 
poderia supôr-se que Theophilo deixara de ser o austero demo- 
crata e a prodigiosa cerebração que sempre fora — visto que de 
taes boccas e de taes penas só sahem louvores aos que, por in- 
capacidade ou demência, se curvam aos seus caprichos.» 

Por seu turno, um hebdomadario humorístico Os Ridículos 
apresentava sob c dístico pancada em todos^ o erudito desembai- 
nhando um estoque do seu inseparável guardachuva e como 
elucidação, a phrase : «Ai... que a malva do Mestre tinha es- 
toque...» 

Por ahi não ficaram as extrar.has descobertas e ellas surgi- 
ram nos seguintes curiosíssimos trechos de uma entrevista jor- 
nalística: (#) 

«Ia a bater á porta de Theophilo, mas no pateo de entrada 
percutiu o relógio dez horas de uma dureza metallica. Deixai 8s 
bater primeiro. . . 

— «O sr. dr. está? 

— «Não está, sahiu, dizem, em palavras prestas. 

— tMas escute: o sr. Dr. mesmo me tinha marcado esta 
noite. 

— «Ah, é o senhor? Mas taz íavor então de entrar. 

«N'esse pateo de entrada onde um relógio antigo batia ho- 
ras, apenas uma cadeira e sobre elle um pequeno candieiro com 
um resplendor modesto de lata. O mesmo ar de segredo, de 
conspiração, atravez os corredores que vou passando, guiado 
até á casa de jantar. Uma voz vem para mim, alegre e cari- 
nhosa, acolhedora, no seu sotaque ilhéu. «Ora o meu amigo! es- 
perei o toda a noite, já julgava que se ia sem vir cá um boca- 
dinho para conversarmos.» Reparo então n'elle. Está mais velho, 
muito magro, e possue uma bella cabeça toda de branco pardo, 
leonina, de cabelíos laceis e longos que ora se lhe compõem em 
mellenas ora pousam tranquillamente n'um penteado ao meio» 
Está muito magro, o collete não o aperta, envolve-o apenas. 



(*) As Novidades, de 3 de Abril de 1912. 






A KEVOLUÇAO POftTUGUEZA 433 

— «Estava agora a trabalhar para o meu volume da Renas- 
cença Portuguesa, de que já tenho immensos materiaes, e 
quero completar muito brevemente. Agora, fico sempre aqui a 
escrever, sósinho, ao lado d este candieiro, que me allumia até 
4 uma da manhã 

— «E não se sente cançadissimo, esgotado? 

— «Não, não. Estes serões tranquillos, isolados, dão-me o 
verdadeiro repouso de que careço, e serenidade nos meus juizos 
e nos meus raciocínios. Comsigo assim a perfeita calmaria cá 
em mim, e deixo os outros, á porta da rua, em conflicto. Já sou 
velho, mas ser velho não é ser decadente. Só o tempo me toge 
n'uma vertigem, ando dentro d*elle como n'um comboio a toda 
a velocidade: sem o poder deter Olhe, estava agora a reler o 
Sá de Miranda Pois não quer ver? E Theophilo repuxa o co- 
bertor sobre as pernas magntas, approxima o candieiro, bate 
com o aparo repetidamente nos rebordos do tinteiro e aponta, 
cheio de interesse curioso, passagens e passagens das éclogas. 
Ora vê? Portanto, pode se concluir o que eu concluo, mas só 
depois de tomados todos estes dados. Pois não é assim, meu 
caro ami<o? E este amigo começa por um à muito fechado, 
muito quente, com um lindo sotaque ílhtu, os olhinhos lumi- 
noso*, a carita de velhinho sorridente. E vae enfunando os ca- 
bellos corredios, agora revoltos, agora tapetados com mansa 
doçura. 

— «Tem algum trabalho sobre politica entre mãos, meu 
Theophilo? 

— «Tenho sim, quero lavar as minhas mãos em muita 
agua. Dizem que eu sou duro e mau. Não sou. Tenho o meu 
ideal e defendo o então, com fúria, quando me cospem n elle. 
Se o meu amigo aie convidar amanhã para jantar e tiver á sua 
meza um seu creado antigo que estime, eu não vou escarnecer 
d'elle, nem dizer lhe: aOlhem que typo ordinário, de taman- 
cos!» Náo sennor, respeito-o, não por elle que não conheço, mas 
por si, porque o tenho em consideração Ora ahi está. Por isso 
respeito as crenças dos outros, quando vejo n'ellas uma since- 
ridade. E então, se me cospem nos meus ideaes, eu defendome, 
não é verdade? Ora ahi está. Teem-mecalumniadoe intrigado. 

vol. iv— n.. 55 



434 ARMANDO RIBEIRO 



Que devo fazer? Dar varadas grossas para aclarar o meu caminho* 
Fizeram me guerras ferozes e ainda ha pouco quizeram-me en- 
lamear, num artigo muito grande, para fazer escândalo. Voa 
agora responder- lhe n'este folheto que estou a preparar. Tem 
ires peças fundamentaes e cada uma os seus ccmmenurios. Deve 
dar um folheto como o outro, talvez umas 120 paginas. Hei de 
dizer tudo que me fizeram, porque todas as malhas das intrigas 
as tenho já aqui nas pontas dos dedos. Levantaramme inimi- 
zades por todas as formas. Mas como ia dizendo, tem três docu- 
mentos fundamentaes: a proclamação, tal qual a fiz, para ser 
iida pelo Braamcamp Freire, a mensagem que elaborei como 
Presidente do Governo Provisório, e o relatório da bandeira. 
Truncaram tudo, julgaram que era o mesmo que um artigo de 
lucta para qualquer jornal. As más vontades contra mim come- 
çaram logo de principio, queriam affastar-me, provocaram- 
me o descontentamento. Mas a analyse litteraria ajudou-me para 
o conhecimento das psychologias e não deixei levar-me assim 
embrulhado. Logo a principio houve um equivoco entre os re- 
volucionários e o governo, por aquelles julgarem que deviam 
ter nomes indicados por elles no ministério. Ficaram surpre- 
hendídos quando viram uma lista já feita. Mas que nomes que- 
riam elles? Depois, houve a manifestação que elles fizeram com 
archotes, ali no largo de S. Carlos, de appoio ao Directório, 
significando assim desagrado ao governo. Era preciso temperar 
as coisas e ahi desempenhei eu um passo ditficil. Pois, por ser 
presidente do Governo Provisório, eu não havia de continuar a 
ser membro do Directório? Passei a reunir com o Directório e 
o conflicto felizmente sanouse. Com o estrangeiro estávamos 
bem. Quando foi da Revolução, a Revolução precisava de um 
nome lá para fora — dizia-o o próprio Bazilio Telles n'um ar 
tigo em fevereiro de 1910 — e o meu pobre nome de honrado 
e amigo da minha Pátria serviu como garantia. Se visse. . . E f 
9 meu pedido instante, Theophilo mostra me jornaes de Paris 
e da Pensylvannia, de Londres e do Cabo em que a revolução 
de outubro apparece garantida, chancellada honrosamente pelo 
nome de Theophilo, como penhor d'esse movimento e da pro- 
messa auspiciosa do futuro feliz talvez, ainda, de uma pátria 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ k 435 

tão abatida por desmandos. Ha dezesete mezes, quantas illu- 
soes I . . . 

«Theophilo apparecia como o fiador de toda a bella obra a 
realisar. Estranhava se uma revolução sem sangueiras ferozes. 
E todos esses jornaes que me mostrou accorriam, n'uma des- 
culpa, a lembrar que tora assim certamente visto que era o 
sr. "Braga, o sábio portuguez de universal nomeada, quem arro- 
jara o seu nome, — como o quintanista de Coimbra estendia a 
pasta sobre o caloiro — n'uma protecção sobre os destinos de 
um povo bom. . . 

«E como eu dei sempre ao poder a simplicidade civil, diz 
Theophilo, sem alterar os meus hábitos, logo me começou a 
campanha Cá por fora havia quem^estivesse já tazendo mal á 
Republica, crivando de insultos os que adheriam, e prejudican- 
do nos. Foi preciso fazel-o entrar no ministério, para lhe limar 
as unhas e tornai o responsável. A obra começada cá fora con- 
tinuou dentro do gabinete. Quizeram inutilisar-me, compro- 
mettendo-me com o C^nalejas, e incitando o ministro dos Es- 
trangeiros a que m'o fizesse sentir. Mas o Bernardino andou 
muito bem, n'isso. . . Um jornal republicano da noite chegou 
a dizer que eu ia passar uns mezes íórar com minha mulher — 
coitada ! — para ver se assim me affastavam. Mas eu lembrava- 
Shes que era o presidente, que não estávamos ali para gosar a 
situação, e que fora o povo quem nos pozera lá. Calavam-se en- 
íão. Mas o complot para essa insidia do blócc continuava. De 
vez em quando, cada um d'elles vinha perguntarme por que 
não me propunha eu para presidente, E eu respondia-lhes 
sempre: O presidente deve ser o cidadão mais honesto, o de 
mais serviços, e o que mais bella intelligencia possa usar, re- 
presentando a sua pátria. Qualquer que diga: sou eu, não passa 
de um parvo. E como me não tenho na conta de parvo, não me 
proponho. Depois vinha outro e perguntava-me o mesmo para 
depois, se eu respondesse que sim, irem rir-se juntos. E' como 
se a um sujeito sentado n'uma cadeira lhe anssem os pés com 
um cordel e um lhe dissesse: «Tu ahi não estás bem, levanta- 
le, passeia . . . » que era para o sujeitinho se sentir preso. Ora 
cu preferia dizer: «Não, estou bem, não me quero levantar, acho 



436 ARMANDO RIBEIRO 



que estou bem. . . », e assim os ia logrando Com os nossos pro~ 
prios embaixadores lá fora tinham ligações para apoquentar c* 
ministro dos Estrangeiros. Depois, desorientados. Um dos mi- 
nistros queria lazer uma infinidade de piomoções e trazia já- 
preparada uma lista enorme. Eu vi que aquillo era um pavor» 
Começou pelos officiaes generaes e toi até aos últimos Mas para 
onde se havia de mandar tanta gente, a ganharem todos bons 
ordenados? Um almirante, para onde? Para a Sociedade de 
Geographia, lembrei eu. E um contra almirante? Para o Club 
Naval, tornei a dizer. E dois capitães de mar e guerra? Para o 
Senhor dos Passos, lembrei ainda, Por fim guardou-se a lista, 
sem nada se resolver. Pois era lá possível arrumar aquella gente 
toda! Vê? Eraai assim. . . Depois, com a mensagem ao Parla- 
mento, ainda me quizeram indispor. N'essa occasião disse: Eu 
devo ler ao parlamento uma mensagem em que se dê conta de 
toda a obra do governo provisório. E* preciso demonstrar que 
fizemos tudo quanto podemos e que á Nação afirmemos que: 
agora lhe entregamos os poderes que ella nos conferiu. E* pre- 
ciso dizer á Nação que ella readquiriu a sua soberania, que por 
tantos annos lhe toi negada fraudulentamente pelos reis, a par- 
tir de D. João IV. 

«As constituintes de 1641 fixaram que a soberania provêm 
da Nação. D. João IV fez ou fidos de mercador e foi se sempre 
ass gnando Rei, por graça de Deus. . . Portanto, o primeiro- 
acto a fazer é declarar á Nação que ella recupera a sua sobera- 
nia. Depois daríamos conta das nossas acções, lalaríamos do 
applauso das potencias, e commemoravamos os heroes t os nos- 
sos mortos. Mas brocaram-me tudo: diziam que isto tudo ficava 
una trapalhada, que não servia para nada. Não servia para nada, 
vê o meu amigo, como elles pensam ? Brocaram-me tudo, qui- 
zeram desgostar-me, pretendiam fazer d'aquillo um artigo de 
jcrnal, como lhe disse. Sempre para me aôastarem. Eu com- 
prehendo os patilts — mas os patifes de cara direita. E os ho- 
mens assim são uns segundos Homem Christo, hein? 

— «E que presente ainda dos eslorços dos novos, meu bom 
Theophilo? 

— t Ah, creio n'elles e immenso, pois com certeza. E' precisa 



A REVOLUÇÃO PORTTJGTJEZA 437 

uma geração nova, e eu tenho a certeza de que ella ve"i, uma 
geração cheia de vida e de enthusiasmo. Abre se egora um fu- 
turo novo. Nós estamos a renascer. Tornamo nos cada vez mais 
ricos. A abertura do canal de Panamá é uma coisa inco^men- 
suravel! Desvia tudo para o Atlântico e nós somos uns reis no 
Atlântico! Temos Lisboa e Lagos, que são inegualavcis, temos 
os Açores e a Madeira, Cabo Verde e tudo por ahi abaixo, A 
Inglaterra não pode absorver tudo: nós somos um povo cheia 
de energias. Precisamos de gente nova, cheia de íé no futuro,, 
com um bocado de amor por tudo isto e isso bastará para nos 
salvarmos. A abertura do canal de Panamá vem tornar outra 
vez a Eurcpa a chave do mundo e nós estamos n'uma situação 
admirável. Temos tudo nas mãos, como lhe disse. Eu sou cheio 
de íé, não sou um Cincinatto, arredado de tudo. E* precisa uma 
nova geração mas que não pense em chegar ao poder por causa 
dos dinheiros. Que não sejam tubarões .. , Mas da bandeira 
queria eu dizer-lhe. . . 

«No pateo de entrada percutiram doze horas, as creaditas 
romronavam perdidas de somno. E da bandeira lembreime, 
que desejada seria aquella hora uma bandeira branca — a al- 
mofada do leito em que á meia noite todos os moradores da 
Estrella pousavam deliciados. Meia noite, a luz da travessa 
quasi apagada, e á porta, Theophilo surgiu me monumental, os 
cabellos mais avultados, uma juba fsrta, como a de Mousinho, 
uma preciosa cabeça escarnecida. A meio da rua voltei-me: a 
luz do candieiro desorientava se numa baila louca, causando ta- 
rântulas de sombras nos muros altos. Ao longe senti o tinir de 
chaves. Pareceu-me o guard?. nocturno que reverenciava Theo- 
philo a recolher-se: e afinal era Diógenes encontrando — um 
homem. » 

Se ao livro correspondera um artigo de reprimenda do dr. 
António José de Almeida, ao desenrolar das peripécias descrip- 
tas em entrevista, veio, por parte do dr. Manuel de Brito Ca- 
macho, um suelto na Lucta, onde o entrevistado soílria o epitheto 
de hemorroida de Comte, 

Outra resposta, viria ainda n*uma conferencia celebrada* 
no Porto (6 de Julho de 19 1 3) : 



433 ARMANDO RIBEIRO 



«Fez-se a revolução, c o Governo Provisório sentiu imme- 
diatamente a necessidade de ser rápido nas suas deliberações, 
por modo a entrar-se o mais depressa possivel n'uma phase de 
reconstrucçao. Houve a infelicidade d'esse governo ser acephalo, 
presidido por um homem que se affirmára sempre como um es- 
tudioso, um erudito, um infatigável trabalhador, mas desprovido 
do sentimento das realidades politicas e sociaes, uma verdadeira 
incapacidade, considerado no ponto de vista da governação pu- 
blica. Lastima foi que assim succedesse, porque então a obra 
do Governo Provisório teria a unidade que lhe faltou e, podendo 
ser que resultasse menos exuberante, havia de ser, com certeza, 
mais fecunda. A revolução fizera se em nome de princípios e de 
interesses; a obra do Governo Provisório, uma obra de dicta- 
dura revolucionaria, tinha de ser a justificação moral d'esse mo- 
vimento e a base juridica da nova sociedade. Ao mesmo tempo 
devia lançar os fundamentos da nossa regeneração económica, 
para fazer a qual é factor indispensável o tempo. Mais uma vez 
dirá que a revolução se fez pelo directo estorço de alguns com 
a cumplicidade de todos; e não vale a pena averiguar, por agora, 
até que ponto essa cumplicidade seria interesseira. Certo é que 
ninguém se empenhou na lucta, a valer, para aguentar o throno 
que desabou, e ninguém procurou cohonestar a derrota quando 
já se via que ella era inevitável. Não houve noticia de monar- 
chicos nos dias da revolução, emquanto durou a lucta, e ella 
durou o tempo bastante para se offenderem os brios dynasticos». 

A questão eternizou se mercê ainda de entrevistas (Século 
e O Dia de 3o de Março de 1913) onde a alta diplomacia 
portugueza soffria graves e duros golpes, originando as celebres 
polemicas jornalísticas e parlamentares (abril de I()l3) que 
deram ensejo a perseguições ao entrevistante. 

Viu se assim que longe iam já as horas em que na cidade 
de Ponta Delgada era inaugurada (5 de Março de 1911) uma la- 
pide na casa onde nascera Tneophilo Braga e até as de um 
hymno celebre publicado quasi a seguir á proclamação repu- 
blicana, (Sines — Novembro de 1910): 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 439 



Coro 

A's armas, ás armas, 
Sempre promptos a luctar, 
A's armas, ás armas, 
Para a guerra marchar ! 

Voz 
Povo portuguez 
Tão heroes vos tornaes 
Coro 
Libertando vossa pátria 
Dos tyrannos desleaes. 

Coro 

Eis avante, portuguezes, avante, 
Conservae-vos sempre leae§. 

Voz 
Pátria bemdita, 
A monarchia acabou. 

Coro 
Um governo justiceiro, 
Todo o cidadão reclamou. 

Coro 
Eis avante, portuguezes, avante, 
A pátria nova se conquistou. 

Voz 
Humilde plebeu, 
Acabou a escravidão. 

Coro 
As algemas que te prendiam, 
Partiram para outra nação. 

Coro 
Eis avante, portuguezes, avante, 
Acabou a inquisição. 

Voz 
O misero na choupana, 
Sempre errante e desgraçado, 
Esqueceu a fome que então teria, 
Combatendo como soldado. 

Coro 
Para a frente, meu heroe, para a frente, 
O teu valor é recompensado. 

Voz 
Foi-se a noite escura, 
Veio o brilhante luar, 
Saudamos Theophtlo Braga, 
Tanto em terra como no mar. 

Coro 
Damos um viva á Republica Portugueza! 
Ohl sempre viva, sem cessar. 

Era o verdadeiro sic transit gloria mundi..* 



4iO ARMANDO RIBEIRO 



O dr. António José d'Almeida, ministro do interior, tinha, 
n'essas alturas um lugar de destaque no núcleo de combatentes 
pela democracia portugueza. 

Proclamado um apostolo da liberdade, arrebatando a popu- 
lação com as palavras acarinhadoras, de um sonhadore de um con* 
victo, citado desde os bancos da escola como um republicano, 
Ac animo combativo, cheio de ímpetos e de promessas, breve teve 
assignalado, para de tuturo, um condigno premio da sua obra 
de incitamento democrático. 

Nascido em Valle de Vinha, concelho de Penacova em ju- 
lho de 1866, formava se ém medicina, com um curso brilhante. 

A politica tentava o e de espirito revolto, manteve a lucta 
contra prolessores ávidos de mental repressão, o que deu origem 
ao livro celebre desafronta. Altivo, ao surgir da attronta in- 
gleza de 1890, ettectuava, n*um jornal coimbrão O Ullimatnm 
uma prophecia em artigo intitulado Bragança, o ultimo. Esse 
brado,valeu lhe três mezes de prisão, afora o desespero de ver 
a passagem dos annos sem que cumprida tosse a predição. 

O erro não se manteve, e mercê do tempo, veria D. Carlos 
baquear ás balas assassinas de Buiça e Costa, e a derra- 
deira phase de outubro de 1910, radicando a prophecia de 
1890. 

Foi elle ainda um dos 122 estudantes signatários do cele- 
bre manifesto publicado a io de Novembro de 1890, onde se 
proclamava a necessidade de arrastamento dos velhos homens 
do pa r tido republicano, afim de serem substituídos pelos novos, 
sob a base de que para fazer a revolução eia preciso gente 
revolucionaria. 

Vibrante de enthusiasmo, o manifesto que correu livre- 
mente, rematava ; 

«Do rei e das instituições não ha nada a esperar? Pois bem: 
derrubemos o rei, derrubemos as instituições. E' para isto que o 
partido Republicano deve trabalhar. Já que a monarchia levanta 
sobre nós a espada das perseguições, levantemos nós sobre a 
monarchia a espada da revolução.» 

A victoria d'esta seria porém o inicio de dissabores. 

N'essa hora, todavia, sorriam a esperança e a juventude. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 441 



Conheceu assim a estima popular e académica nas horas de 
detenção em que todo o estudante foi ao seu cárcere, até ao ins- 
tante libertador em que a Universidade em peso accotreu a ac- 
clamai-o, embora depois softresse as cutiladas da policia, anciosa 
de dispersar os manifestantes. 

A revolta de 3i de janeiro de 1891, achou o no seu posto 
cooperante. A' questão académica de 1892, de novo salien- 
tou a sua intransigência, redigindo mesmo o sabido maniiesto 
de repudio ás resoluções do gabinete José Dias Ferreira sobre 
a attttude dos académicos, e que os íorçava a requerer o abcno 
das faltas. 

Concluindo o curso, farto de dissabores, tentou o a Africa 
e de longada foi até S. Thomé, onde deixou como padrão de 
humanitária obra, não só a intensa campanha a favor dos ser- 
viçaes negros, porelie tratados, pela sua sciencia e pelo seu bolso, 
como a lundação, em março de 1902, do sanatório Pró Pátria, 
destinado á assistência medica e hospitalar dos colonos europeus 
e á sua repatriação. 

Appareceu entretanto com o dr. Affonso Costa, e outros, na 
lista doscollaboradoresdo jornal republicano O oMundo, dirigido 
por António França Borges e que encetou publicação no domingo 
16 de setembro de 1900, sendo então a sua sede na Rua da& 
Gáveas, 91, 1.° 

Deixando S. Tnomé em 1903, seguiu para Paris para fre- 
quência nas clinicas hospitalares, voltando á pátria no anno 
seguinte. 

A politica attrahiuo de novo. O povo queriao nas camarás, 
mas perdia as eleições de 1905 e 1906. N'este anno ainda, 
subiu á camará dos deputados e memorável foi a sessão, du- 
rante o periodo franquista, em que provocou a entrada da tropa 
para o fazer sahir, entre baionetas. 

Filiado na Carbonária, entrou em todos os segredos de cons- 
piração desde o 28 de janeiro de 1908 e as tentativas posteriores, 
mallogradas, até ao rebentar da revolta de 1910. 

O parlamento, e o comicio foram para elle um campo de 
acção brilhante e enthusiastica e, como se não bastasse ainda, á 
publicidade arremessou um opúsculo de combate, cerrado e vio- 

tOL. IV — FL. 56 



412 ARMANDO RIBEIRO 



lento, mas cortez, intitulado Alma Na ional, cuja publicação 
começou em 10 de Fevereiro de (910, tendo a sede redacto- 
rial na rua da Emenda, 36. N'esses pamphletos reproduzia, 
evocativamente, a phrase de Danton na Convenção Nacional 
«Depois do pio a educação é a primeira necessidade do povo» 
e a de José Estevão ao tazer a profissão de fé politica na camará 
dos deputados em 5 de abril de 1 837 «Quando uma convicção 
sincera e profunda se apodera do homem, e a sua lingua se não 
presta a manitestal a, ou essa lingua não é d'esse homem, ou 
elle é dotado duma prudência cem vezes mais perigosa, que a 
mais illimit da franqueza.» 

Foram seus collaboradores os drs. Guerra Junquero, Bazi- 
lio Telles, Theophilo Braga, Miguel Bombarda, João de Freitas, 
Leão Azedo e Teixeira de Queiroz, Agostinho de Lemos, A. de 
Mattos Silveira, Fernã » Monteiro e outros. 

Era de pouca violência a orientação combptiva dos opúscu- 
los, mas não deixara • de influir no animo popular. 

Não longe d'essas horas de jubilo, a desillusão traduzia se 
em phrases causti:as que o Mundo reproduziu (2 de Novembro 
de 191 3) como da Libre Parole: 

a Mas o que é a Republica? Pôde haver nada de commum 
entre esta íorma ideal de governo e o regime que faz n'este mo- 
mento pesar sobre Portugal a peor das tyranias, a da violência 
e do arbitrio, da intolerância e da desordem, o regime emfim 
da mais abominável das dictaduras: a dictadura demagógica? 
Depois de ter, confesso, muito tempo hesitado em me separar 
dos meus antigos companheiros de lueta, d'aquelles com os 
quais fundei a Republica, acabei por comprehender, em pre- 
sença do espectáculo de anarchia a que foi entregue o meu des- 
graçado paiz, que eram horas, e muito horas, de tomar a ofifen- 
siva contra aquelles que o conduzem ao abysmo. 

«Repito, este regime, que não tem nada de republicano, que 
é a própria negação da Republica, não pôde durar. Não du« 
rara. Eu empregarei toda a minha energia para fazel-o cessar. . . 

«No estado de anarquia em qu? nos debatemos, um golpe de 
mão pode vencer. Mas estou persuadido que os realistas não se 
manterão oito dias.» 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 4 \3 

Traduzido em successivos incidentes tumultuosos, assigna- 
lou-se o baquear d*esse idolo das multidões. 

Estas, mercê de dissensões politicas, transformariam oemhu- 
siasmo acclamativo do passado, em apupos frequentes, que o 
alvejado pessoalmente descreveu assim : (*) 

«As blasphemias e as injurias ca h iram me em cima da ca- 
beça como uma saraivada brutal. Um dia mesmo uma sucia de 
díscolos, comandada por alguns miseráveis de maior relevo, 
apuparam-me ali no Rocio, e, no Porto, um bando de maltra- 
pilhos, instigados por especuladores de grosso tomo, atira- 
ram se a mim como canibaes, não me matando porque não po- 
deram. A turba que assim me hostilisava era a eterna vadia- 
gem sem eira nem beira, difficil de determinar na sua catego- 
ria social e impossível de aprehender no seu rumo politico. No 
entretanto essa multidão ululante, que me chamava traidor e 
renegado, alçava uma bandeira a que chamava de radicalismo , 
e, entre os nomes que ella victoriava no seu grito sanguinário, 
âguravam alguns que se diziam os detentores da pureza repu- 
blicana. Encolhi os hombros e deixei passar o enxurro que, no 
torvelinho das suas ondas de lama, mais enxovalhava os herces 
que acclamava do que as victimas que erarr arrastadas no seu 
revolutear nauseabundo. Na tribuna e no jornal castiguei sem- 
pre a mísera turba, não por qualquer intento de desforço que 
ella despresivel em si não merecia, mas por necessidade de de- 
teza nacional. Por virtude desse castigo inflexível e permanente, 
mais de uma vez ella rugiu contra mim a sua fúria impotente 
mas atrevida. Um dia, mesmo, na camará dos deputados, ella 
associando se aos debates, increpou me furiosamente, chamando- 
me bandido. Foi n'aquella sessão em que eu disse que a canalha 
que havia espancado os presos políticos era uma fauna misera 
vel, que não podia nem devia confundir se com o verdadeiro e 
autentico povo. Foi naquella sessão em que um deputado, já 
a estas horas victima dos seus ultrajes, increpando me, exclamou 
que, em todo o mundo civilisado, o povo intervinha nas discus- 



(*) A Republica de 9 de Março de 19 13. 



444 ARMANDO RIBEIRO 



soes parlamentares, para formular o seu juizo soberano. Foi 
n'aquella sessão. . . » 

E outros eguaes incidentes se lhe seguiram e onde o sangue 
correu. (*) 

Chefe d'um partido denominado evolucionista, abriu scisao 
com outro, o democrático, da chefia do dr. Aflonso Costa. 

O armistício, formado para o periodo de plena revolução e 
a custo mantido, forçando por vezes a alheias intervenções, ras- 
gava se a quatro annos de distancia da proclamada republica e 
a publico vinha ao romper de hostilidades, nascido da questão 
das aguas de Rhodam. 

Um primeiro artigo da ^publica (junho de \Q\4) O par- 
tido dos escândalos, originou a remessa, por Affonso Costa, de 
testemunhas a António José de Almeida. Recusou este, com fun- 
damento em ter firmado a lei republicana dos tribunaes de 
honra, afirmando se todavia disposto a pendência em qualquer 
outro campo. 

De lance em lance, mais dois artigos vieram: um, (17 de Junho 
de 19 14) *Por minha honra, em desaggravo, e outro, dedicado 
á historia, Afonso Costa, de aggravoe de violência, amenisadas 
embora sob litteraria forma. 

Continha todavia trechos formidáveis de accusação, assim 
começados : 

t Affonso Costa, vou acrusal o O desqualificado vai fallar. 
Não o mando sentar no banco dos réus, porque para criminosos 
como o senhor, o banco dos réus está em toda a parte, no leito 
em que dormem, nos festins em que se regalam, nas solem- 
nidades apparatosas em que se exhibem. 

«Sendo assim mau e sendo assim manhoso, a sua acção 
politica redundou n'uma cousa inqualificável que envergonha 
a nação e rebaixa o regime. Nunca teve escrúpulos, por natu- 
reza, e, como era uma necessidade para si, não usar d'eMes, 
para encobrir a falta de qualidades que são indispensáveis p ra 
o triumpho no género de vida que escolheu, o senhor lançou se 



(#) No Porto, a 12 de Julho de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 44o 

no cumulo da loucura frenética, que ficará como exemplo único 
nos annaes da pathologia politica.» 

E terminara assim: 

«Medite sobre a .sua obra malfazeja. Reflicta na sua missão 
nefasta de perturbador consciente de uma sociedade a caminho 
do seu resgate. Ambicioso meça agora os abysmos da sua am- 
bição. Homem de coração duro, avalie agora da ruindade dos 
seus processos. Homem sem delicadeza de sentimentos, aquilate 
agora da protervia da sua alma. Meça, avalie, aquilate e pense 
na immensidade dos seus crimes. Não espero que se arrependa, 
mas poderá ao menos, enleado nas^ espiras de Espanto e de 
Terror, redimir uma parte das suas culpas. Uma parte somente. 
As que restam ainda serão suficientes para fornecer á Historia 
um libelo tremendo. A que pena o condemnará ella? Ha meio 
de sabel-o. Assim como ptlos raios de luz que vêem nas azas 
d'aquella aurora é fácil avaliar da intensidade das chamas so- 
lares que logo hão de cahir sobre a terra, assim pelos pronuncios 
da fama maldita que a sua obra provocou, possivel é calcular a 
sentença que o ha-de fulminar: — Reu de crimes sem nome, 
será condemnado para todo o sempre, a trabalhos forçados nas 
galés da Historia!» 

Foi comtudoa estes dois homens irreconciliáveis, que a revo- 
lução cingiu no mesmo ministério, para operar, em commum, 
o apregoado resurgimento da vida social portugueza e fazer o 
socego apoz tantos sobresaltos. . . 

O dr. Affonso Augusto da Gosta, ministro da justiça, era 
outro dos bemfadados pela aura da popularidade. 

Notável como advogado e como propagandista do ideal re- 
publicano, deu a este toda a sua eloquência de orador aceusa- 
tivo e derrubador da monarchia. Estudante distincto e egual- 
mente um dos que sanecionou o manifesto académico de 10 de 
Novembro de 1890, formou se em direito na Universidade de 
Coimbra, da qual depois foi lente. 

Apoz a peste, Affonso Costa, entrava nas camarás a l3 de 
Março de 1900, eleito pelo Porto, com Xavier Esteves e o dr. 
Paulo José Falcão. 



446 ARMANDO RIBEIRO 



Temido, por ser um dos académicos que mais intransigen- 
temente se manifestara em 1890, pelo ultimatum ioglez de 31 
de Janeiro, a sua entrada teve logo reflexo popular. 

De facto, o governo progressista, assignalou lhe immediata- 
mente o vigor da doutrina de combate. Vieram as lutas politi- 
cas de 1906-1908, e a acção formidável contra a dictadura de 
João Franco, no parlamento e no comício e nas próprias ruas» 
fez com que entrasse no esboçado movimento de 28 de Janeiro 
de 1908. 

Como consequência, ao mallogro, conheceu a prisão, mercê 
da celebre scena do elevador da Bibliotheca. (*) 

Mais tarde, republica feita, o dr. Aftonso Costa, teve quasi 
directas accussções de ordens violentas sobre o chefe do governo, 
á hora da sua detenção. 

Descrevendo o plano revolucionário que teve fim com o re- 
gicídio, dizia o revolucionário Américo de Oliveira, n'um pam- 
phleto (•*) de sua propriedade e auctoria: 

«Ordenou se a prisão das principaes figuras do partido re- 
publicano, e é n'esse momento que um advogado muito conhe- 
cido, um dos primeiros tribunos e um dos chefes do «comité» 
revolucionário, a quem a policia ainda não tinha detido, planeia 
a morte d'esse homem, (João Franco). Para conseguir esse acto 
violento, manda três emissários a casa de um conhecido e au- 
dacioso revolucionário, convida-o a perpetrar a sua resolução, 
mas como este não era um assassino de nada serviu o seu con- 
vite». 

Erguida discussão, o jornal democrático O Povo, da di- 
recção de outro revoltoso, Ricardo Covões, formulava a pergunta 
tendente a conhecer quem era o visado. Ao mesmo tempo que 
dava o interrogante como inspirado pelo dr. Bernardino Macha- 
do, a Republica insistia em que ao Povo não era desconhecido o 
nome. 



(#) Relatados já todos os successos nas nossas anteriores obras O Co' 
meço de um Reinado, z4 Caminho da 'Republica e 1.° volume da Revolução 
'Portuguesa. 

(#*) A Caveira— lunho de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 4'i7 

D*ahi o seguir de polemica, com ultimatum (*) até que 
«o constante anceio de a envolver em trevas, houve o remate 
pelo jornal dirigido pelo chefe da Rotunda, sob o titulo de uma 
questão . . . porca : (**) 

«Da Republica: «O Povo veiu preguntar qual era o chefe 
republicano que no tempo da monarchia incitara as associações 
secretas ao assassinato de João Franco. Claro está que, sendo 
O Povo um jornal democrático e, demais a mais, dirigido por 
um deputado da maioria, tal pergunta não visav* seguramente 
ao sr. Bernardino Machado, presidente do ministério, com quem 
esse deputado tem as melhores relações, nem tão pouco ao sr. 
Afonso Gosta de quem elle se tem mostrado um respeitoso ser- 
ventuário. Em vista d'isso intimámol o por duas vezes a declarar 
categoricamente e sem subterfúgios quem era a pessoa a quem 
elle se dirigia, e de quem insinuava a autoria da infâmia que 
elle apontava. Pois, por duas vezes seguidas, O Povo, usando de 
toios os subterfúgios expressos n'uma forma bem representativa 
da sua inconsciência moral, foge de responder á pregunta con- 
creta que lhe fizemos, recusando se a dizer o nome da pessoa 
que d'uma íórma inqualiãcavel elle procurava envolver na sua 
baixa perfídia. A meia coluna de prosa que elle hontem dedicava 
a disfarçar a sua atrapalhação, mostrou bem que O Povo, ou lá 
quem quer que o dirige ou inspira, não se preoccupa com os 
mais rudimentares preceitos da honorabilidade própria ou alheia, 
para assim fazer de calunia a base da sua açao jornalística. Nós 
não estranhamos, e sendo assim só temos que dar por mal em- 
pregado o tempo que gastámos com este adventício da imprensa 
que em taes actos é useiro e veseiro». 

«Como nos vae cheirando mal tanta perfídia, tanta ousadia, 
tanta insensatez, somos forçados a intervir n'esta troca de expli- 
cações entre A Republica e O Povo, dizendo da nossa justiça. 
«Podemos garantir, sob palavra d'honra que, tendo alguém pre* 
meditado a morte do sr. João Franco, — como a O Povo» o afir- 
ma, e então não podemos duvidar — quando foi do 28 de ja- 



(#) A Republica de 20 de junho de 1914. 
(##) O Intransigente de i de junho de 1914. 



44S ARMANDO RIBEIRO 



neiro — alguém com categoria de chefe — esse alguém não era 
portador do nome de António José d\Almeida, do nome de Ma- 
nuel de Brito Camacho, ou do nome de Machado Santos,-.-^- «S.» 

Vinha novamente ás camarás em eleições successivas, onde 
o seu ataque (*) á monarchia proseguiu sempre violento e in- 
citador de revolta. Taes as questões, dos adiantamentos, Credito 
Predial, Hinton, dos chocolateiros inglezes, o caso do Bispa 
de Bejae o caso do contrabando do arsenal, factos a que Affon- 
so Costa se referiria eip relatório próprio presente ao congresso 
ordinário do partido republicano reunido em Lisboa (27, 28 
e 29 de outubro de 1 9 1 1 . (**) 

Para a revolução, approvara o alto corpo dirigente a pedida 
missão de prender e guardar o rei D. Manuel, acto não consumma* 
do, mercê do desenrolar de peripécias não previsus pelos rebeldes, 

O dr. Affonso Costa nascera a 6 de março de 1871, em 
Ceia, districto da Guarda, sendo filho do dr. Sebastião Fernan- 
des da Cofta e de D. Anna Augusta Marques A campanha po- 
litica, até esses factos visou, apparecendo mais tarde (•**) uma 
certidão de baptismo que se quiz dizer respeitante a Affonso 
Costa : 

«Aos sete dias do mez de março do anno de mil oitocentos 
e setenta e um n'esta Egreja parochial de S. Thiago, concelho 
de Ceia, diocese de Coimbra, baptisei solemnemente e puz os 
Santos Óleos a um individuo do sexo masculino, a quem dei o 
nome de Affonso Maria de Ligorio, exposto, o qual foi encon- 
trado por Maria d'Assumpção, solteira, fazendeira, natural e 
moradora n'esie logar de S. Thiago, á porta de sua casa, ás 9 
horas da noite do dia 6 do mez e anno supra, tendo os signaes 
seguintes: cara redonda, cabello louro, e por enxoval, cinco ca- 
misas, cinco lenços, cinco pannos de linho, cinco naguas guar- 
necidas, um vestido, dois casacos, cingedouros em todos estes 
objectos se achavam relacionados n'um bilhete que o acom» 



(#) Descripto tudo nas nossas anteriores obras O começo de um reinado t A 
Caminho da Republica e A Revolução Portuguesa, i.° 2.° e 3 • volumes dis- 
pensa larga referencia. 

(**) O éMundo de 30 de Outubro de 19! i. 
(*#*) A Alvorada n ° 46-1 anno, de 29 de Dezembro de 1912 — Dirigia-a 
o dr. Mário Monteiro. 






A REVOLUÇÃO PORTUGUESA 419 

canhou para a administração. Foram padrinhos ? José d\Almeida 
Mello, solteiro, proprietário, e Maria d'Assumpção, solteira, fa- 
zendeira, naturaes e moradores n'este logar e íreguezia de S. Thia- 
go, os quaes sei serem os próprios. E para constar lavrei cm du- 
plicado este assento, que depois de ser lido e conferido perante 
os padrinhos, assignei juntamente com o padrinho, não assignan- 
xio a madrinha por não saber. Era nt supra. O padrinho José 
d'Almeida Mello. — O parucho, António Lopes da Cunha.» 

A esse tempo já o dr. Aftonso Costa como tantos outros, via 
semi-abalado o julgado firme throno de supremacia, e o povo, 
norteado por outros partidos, a quatro annos da data em que o 
reclamou como primeiro ministro da Justiça da Republica, der- 
rubava o em grande manifestação e sangrenta, como chefe de 
um governo do seu partido. 

Mais firme, mais appoiado todavia no elemento popular, 
abandonando o para em breve o cercar, não teve queda total, 
se bem que intensa e violenta fosse a íueta contra elle, desenhada 
em differentes suecessos políticos e tendo como mais notável 
exemplo a eterna divergência com o dr. António José d'Al- 
meida, (*) e mais ateada á questão celebre das Aguas de Ro- 
dam, sequencia de outras não menos salientes. 

O acto inicial do governo do dr. Affonso Costa, foi a liber- 
tação (7 de outubro) por simples ordem, dos presos das socieda- 
des secretas, confirmada depois pelo seguinte decreto, o primeiro 
por elle lavrado e que aproveitou aos detidos, Arthur Carlos 
Gomes, Alfredo Monte Pegado Ferreira, Francisco José dos Reis, 
Alfredo Tavares d^Dliveira, Carlos Dias Borges, António José 
Figueiredo, Manuel Joaquim Paulo Freire, José Duarte Santos 
Júnior, João Carvalho, Francisco Gomes Nobregas, Seraphim 
Lopes Jesus e Carlos Pedro Marques Alves: 

«Em nome do governo provisório da Republica Portugueza, 
ordeno que sejam soltos immediatamente todos os presos que se 
encontram nas cadeias civis de Lisboa, sob pretexto de have- 
rem pertencido a associações secretas, quer esses presos estejam 
já cumprindo pena que n'este caso fica extincta, quer ainda não 



(#) Já citada a propósito d'este« 

VOt. IV— FL. 57 



450 ARMANDO RIBEIRO 



tenham sido julgados. Todos os indivíduos a que aproveite est& 
ordem, são incluidos no decreto de amnistia resolvido no conselho 
de ministros de 6 do corrente. N'esta mesma ordem serão escriptos 
os nomes, profissões e moradas, causa da prisão, tempo de prisão sof- 
írida de cada um dos individuos que cem ella vão beneficiar, deven- 
do entender-se que se alguns d'esses individuos tiver de cumprir 
pena de prisão por outro motivo alem do referente ás associações 
secretas, a prisão sotfrida contar se ha em primeiro logar como ex- 
piatória d'esse outro motivo. — Pelo Governo Provisório da Repu- 
blica Poitugueza — Affonso Costa, ministro da justiça.» 

A sua figura seria a> sim descripta (*) por Joseph Galtier 
e em confronto com o dr. Bernardino Machado: 

«Quão ditterente é o sr. Aífonso Costa, que representou cer» 
tamente um papel preponderante na preparação dos aconteci- 
mentos e que foi chamado a desempenhar um não menos im- 
portante na Republica. Também professur na Universidade de 
Coimbra — regeu ali uma cadeira de direito — é um dos me- 
lhores advogados de Lisboa, ardente, activo, eloquente, repre- 
senta o tributo popular sobre que incidem os applausos da mul- 
tidão. Tem gesto e palavra arrebatadoras. Nada lhe falta para 
exercer auetoridade sobre o povo; figura sympathica, poder ora- 
tório, exaltação contagiosa, impulso comunicativo, energia in- 
quebrantável. A propósito do movimento republicano dizia me 
elle em Alpiarça; aSei que no estrangeiro e até em França, 
ninguém acredita n'essa preparação. Suppõe se que o povo, in- 
capaz de comprehender qualquer cousa de politica, rica inerte 
nas trevas da sua ignorância. Pois, ver-seha ! Ha, decerto, entre 
nós, infelizmente, numero espantoso de analphabetos^ mas esses 
illetrados, teem a necessária educação civica. Nós, os republica- 
nos, fomos os seus educadores. Sim, atrevo-me a aífirmar que a 
sua consciência politica sahiu do nada; teem aspirações, espe- 
ranças, que, no momento preciso, procurarão realisar. Lembre se 
das minhas palavras : a Republica está próxima ! E o sr. Ber- 
nardino Machado, acerescentou a sorrir: Graças ao sr. Loubet 
tivemos em Portugal dois dias de Republica. Dentro em pouco,. 



(#) Le Temps já citado. 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 451 

já náo teremos necessidade d'uma Republica de importação, por 
muito agradável que ella seja.» 

A' intensa lucta dos políticos, o dr. Affonso Costa, teve até a 
accusação (*) por Machado Santcs, de ser conhecedor do movi- 
mento revolucionário conhecido pelo caso do arsenal (1911) e 
tendente a alijar do governo o ministro da marinha Azevedo 
Gomes. 

Bazilio Telles, indicado ministro das finanças, embora me- 
nos conhecido do povo, era intransigente missionário da ideia 
democrática e ao tempo presidente do Centro Escolar Republi- 
cano da Foz do Douro. 

Tendo nascido no Porto, a 14 de Fevereiro de 1856, como 
que se eivou da atmosphera de revolta, então apanágio da cidade 
que deu o primeiro passo para o reivindicar d'um regimen novo. 

Estudante ainda, rebellionava se contra um professor da Escola 
Medica do Porto, e abandonando-a, incompleto deixou o seu 
curso de medicina. 

Era o destino a rasgarlhe caminho diverso d'aquelle por 
que enveredara. Aos estudos clínicos suecederam, profiquamente, 
os económicos e financeiros e breve os seus livros assignalavam 
o produetivo da nova carreira seguida, a de escriptor, commu- 
iativa com a de professor. 

Publicou assim O problema agrícola. Estudos históricos e 
económicos, A carestia da vida nos campos^ Introdução ao pro- 
blema do trabalho nacional. 

Como mais notável trabalho, sob o ponto de vista histórico 
e analytico da vida politica e social do povo portuguez, se cita- 
va todavia o livro Do ultimatum ao 3i de Janeiro. 

Foi esse mallogrado movimento, o que mais á Republica e 
á revolta o cingiu, e sabendo descrevel-o e critical-o, na alma 
lhe lançou o anceio de uma represália, levado ao ponto de ap- 
parecer assim mencionado em volume: (**) 

«Miguel Augusto Alves Ferreira. — Tomou parte activa em 
todos os movimentos revolucionários tentados no Porto, fazendo 



(#) O Intransigente de 19 de Setembro de 1913.1 
(##) As Constituintes de ign e os seus deputados. 



452 ARMANDO RIBEIRO 



egualmente parte da Carbonária de Bazilio Telles. N'um arma- 
zém em Villa Nova de Gaya, Miguel Alves Ferreira, com ami- 
gos seus, hoje também deputados, Pires Pereira e João Luiz 
Damas, tabricou um considerável numero de bombas destinadas 
a fins revolucionários. . . 

«João José Luiz Damas. — Até á sua formatura em medicina: 
conspirou sempre como carbonário, e em 1893 e 1894 fabri- 
cava bombas na cidade do Porto para operar a révanche de 
1891, tendo como chefes Bazilio Telles, Amândio Gonçalves e 
Alfredo de Magalhães.* 

De facto, vestígios se encontram de entendimentos da loja 
Perseverança, fundada em Coimbra em 1896, por republicanos 
de garantia, com elementos carbonários á sua sombra creados. 
A Alta Venda^ presidida pelo revolucionário Abilio Roque de 
Sá Barreto, conjugava então exforços com Bazilio Telles, a esse 
tempo dirigente dos trabalhos conspiradores. 

O pamphleto Alma Nacional^ dirigido pelo dr. António 
José de Almeida, registou-o como seu collaborador desde o pri- 
meiro numero. 

Tudo isso contribuiu para que, julgandose longe a victoria 
democrática, se lhe afirmasse a certa posse da presidência do> 
primeiro governo, com a pasta do interior. 

Ao intentar do lance revolucionário de 1910, os partida* 
ristas do dr. António José d'Almeida para este propunham a 
gerência do ministério do interior e, evocados os vastos conhe^ 
cimentos de Bazilio Telles, a entrega a este do das finanças. 

A troca só lhe foi dada a saber, depois de proclamada da& 
varandas da Camará Municipal. 

Bazilio Telles, debalde sollicitado paras obraçar a pasta, não 
a quiz. A Lisboa veio exprobar a quebra de compromissos e 
apresentando (8 de outubro de 1910) o seu plano revolucioná- 
rio, regressava ao Porto semi abalado no seu evangelho, em* 
quanto o gabinete a braços se via com as difficuldades de uma 
recomposição. 

De embaraço em embaraço e já com a interinidade do dr. Ber* 
nardino Machado, a elle valia José Relvas, integrando-se como» 
successor de Bazilio Telles. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 4&- 



Com espanto pois, veio á Capital (11 de outubro) a seguinte 
nota cfficiosa: 

tComo decididamente o estado de saúde do nosso eminente 
correlegionario Bazilio Telles não permitte que elle acceite a 
pasta das finanças, consta que ella será confiada a José Relvas. i> 

De facto, no dia seguinte o conselho reunia para remediar 
o impedimento de Bazilio Telles, e no outro, o Diário do Go~ 
perno y publicava o seguinte decreto: 

«Tendo reconhecido o Governo Provisório da Republica 
Portugueza, que o sr. Bazilio Telles designado para ministro das 
finanças no momento da solemne proclamação da Republica^ 
não pode assumir o exercício das suas funcçÕes por motivo de 
doença, resolve encarregar do ministério das finanças o sr. José 
Relvas qui hoje mesmo entrou na effectividade.» 

Era o premio dos seus trabalhos na revolta e não ia, sem 
bagagem para o cargo novo, pois, pouco antes publicara um 
importante estudo sobre a questão económica portugueza. 

Não deixou porem de ser alvo de critica a nomeação, que 
se disse feita em conselho de ministros de 12 de outubro, n'umas 
circumstancias especiaes. 

Segundo boatos, depois confirmados, nenhuma ideia se li- 
gara ao nome de José Relvas, para substituto de Bazilio Telles» 
Comtudo, por extranha arte, -.0 placard do Século veio citado 
como tal. Mercê desse boato, e allegando que o nao confirmar 
poderia traduzir desprimor para a sua pessoa, obtinha a inclu- 
são no primeiro gabinete da republica. 

Prestou-se o lance a commentarios, encobertos, só mais tarde 
desvendados publicamente: (*) 

a O Mundo responde com quatro pedras na mão ao artigo 
de hontem da Lucta : 

«O sr. dr. Bernardino Machado não se manifestou pela 
dissolução do Partido nem contra o Directório como sua cabeça» 
O que mereceu protesfo ao nosso amigo foi a tutela que o Di- 
rectório de então, composto, na sua maioria, de substitutos, 
pretendeu exercer sobre o Governo provisório. O que s. ex. a sus*- 



(*) As Novidades de 11 de Ab íl de 1912. 



451 ARMANDO RIBEIRO 



tentou foi que o Directório devia ser constituido por meio de 
eleição, visto ser constituído por empregados públicos subordi- 
nados, portanto, dos ministros que queriam tutelar. Estava o 
illustre democrata dentro da bôa doutrina, O Directório estava 
illegalmente constituido. mas, legalmente que estivesse, não po- 
dia ser um tutor do Governo, com poderes até para nomear e 
demittir ministros. E' certo que, se tem vencido sempre a theo- 
ria do Directório, alguma cousa se teria lucrado: o segundo mi- 
nistro do Fomento não teria sido o sr. Brito Camacho, como 
quiz o Governo, mas o sr. Eusébio Leão, como desejava o Di- 
rectório que alias, antes, conseguira impor o sr. José Relvas». 

«Ralham as comadres, descobrem se as verdades. Sobre a 
imposição do sr. José Relvas para ministro das Finanças, é fa- 
cto averiguado e histórico. Podia, até, cantar-se, com musica de 
Offenbach. O sr. Relvas, em quem se não tinha encontrado 
nunca um milligramma de valor para occupar uma pasta, no- 
meou se a elle prorio. Admira-se o leitor? Pois é assim mesmo. 

<tA noticia de que o sr. José Relvas (ora escolhido para 
preencher a pasta das Finanças, que Bazilio Telles se recu- 
sara a acceitar, appareceu uma bella manha n'um jornal. 
N'essa mesma noite, estando reunido na antiga sala do Conse- 
lho de Estado o conselho de ministros do Governo provisório, 
entrou ali ottegante o sr. Relvas. Vira a noticia, lera a critica. 
Nunca tinha pensado em ser ministro, — era a voz da consciên- 
cia! — nem queria arcar com as responsabilidades do logar. Mas 
que fazer? O dilemma era terrível. Se o não nomeiassem, dir- 
se-hia que os seus correligionários o escorraçavam. Os ministros 
olharam uns para os outros, attonitos, e o sr. Relvas. . . ficou. 
No dia seguinte, o sr. Bernardino Machado já não foi ao minis- 
tério das Finanças, que occupára na interinidade, e o sr. Relvas 
tomava posse. Elle sempre ha jornaes muito compromettedo- 
rcs!» 

Assim foi José Relvas, o primeiro ministro das finanças da 
Republica exercendo a contento publico, a missão de responsa- 
bilidade embora portas a dentro alguns dissabores surgissem, 
originando um pedido de demissão (22 de Março de 1911) do 
qual desistia porem, para em breve seguir como ministro de 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 455: 

Portugal junto da corte de Madrid, onde o iam colher ainda 
aceradas criticas. (*) 

Quanto a Basílio Telles, deu se depois como sua intenção 
a candidatura á presidência da Republica. 

Se existiu, recuou porém, talvez ante o seguinte artigo da 
jornal republicano O Mundo: (17 de julho de 1911/ 

«Alguns jornaes faliam na candidatura do nosso prestigioso 
correligionário sr. Basílio Telles á presidência ia Republica* 
Como blague, parece-nos de mau gosto, viste que só como 
blague, a ideia se pode aceitar, dada a manifesta inviabilidade 
da candidatura d'aquelle illustre homem. O sr, Basílio Telles, 
desde 1898, tem, infelizmente, andado, arredado da vida activa 
do partido republicano. Depois da fase de desanimo que o par- 
tido atravessou sob aquella época, esteve muito tempo demorada 
a convocação do congresso e a reorganização partidária, á espera 
primeiro da comparência e depois dos trabalhos do sr. Basilio 
Telles. Annunciou se varias vezes o congresso, e varias vezes se 
adiou, sem que o sr. Basilio Telles precisasse a data em que 
aparecia ou mandasse trabalhos. Por fim, o congresso fez se, 
sem o sr. Basilio Telles, mas este foi eleito para junta do norte 
que era como que um directório do partido republicano regional. 
O sr. Basilio Telles nunca chegou a tomar posse, e a junta do 
norte mal chegou a ser uma realidade. O sr. Basilio Telles 
conservava-se no seu modesto gabinete de valioso estudo. Cor- 
reram annos, o partido fortificou-se, e o sr. Basilio Telles não 
apareceu. No congresso de Setúbal, o sr. Basilio Telles foi eleito 
para o Directório, e o seu nome foi apresentado mais que como 
uma esperança: — como uma garantia .Mas o sr. Basilio Telles nem 
chegou a tomar posse, veio a Lisboa, falou com vários homens,, 
e voltou para o Porto, a estudar. Veio a Revolução, e ainda se 
lembrou o nome aureolado do sr. Basilio Telles : a Revolução, 
proclamouo ministro das finanças. Esperou o governo três, 
quatro ou cinco dias pelo o sr. Basilio, mas o sr. Basilio não 
apareceu — razão por que foi chamado o sr. Relvas. O sr. Basi- 
lio não tomou conta da pasta, e mandou um plano que mais 



(#) Entrevista do di\ Theophilo Braga— O Dia de 30 de Março de 1913. 



456 ARMANDO RIBEIRO 



tarde publicou. Quizcram depois que o sr. Basílio fosse deputa- 
do e o sr. Basílio não quiz. E' claro que todos estes actos do 
sr. Basílio Telles não teem origem nem na falta de talento nem 
na falta de fé, nem na falta de solidariedade com os seus ami- 
gos. Todos quantos prestamos homenagem ao seu valor lamen- 
tamos não só o mal como a causa, que é a falta de saúde. Mas 
é evidente que, se a saúde não permitiu que o sr. Basílio Telles 
comparecesse no congresso de Coimbra, nem que cooperasse na 
organização do partido, nem que dirigisse os trabalhos do nor- 
te, nem que exercesse o seu Iogar no Directório, nem que ocu- 
passe a sua pasta no governo provisório — nem que honrasse e 
esclarecesse a Assembleia Constituinte — é evidente, dizíamos, 
que não pode exercer a mais alta magistratura da Republica. 
Para que, depois de tudo que se tem passado, alguém pudesse 
votar no sr. Basílio Telles — era mister que o estudioso repu- 
blicano declarasse perentoriamente que estava bom, que podia 
sair do retraimento em que, por desgraça, tem vivido, e que, 
finalmente, se tosse eleito aceitava o mandato. Antes d'isso, 
depois dos antecedentes expostos, falar na candidatura do sr. 
Basílio Telles parece-nos brincar com coisas serias». 

Basílio Telles, regeitou, todavia, toda e qualquer cooperação 
no governo, e até o mandato de deputado, e apenas mais tarde, 
teve proposto o logar de professor da cadeira de historia das 
religiões da Universidade de Lisboa (abril de 1914). Limitouse 
entretanto a analysar os trabalhos feitos em opúsculos criteriosos, 
como A dictadura, Regimen revolucionário, A constituição , 
Finanças e A questão religiosa, reivindicando n'este a sua antiga 
theoria de que ao governo provisório não convinha ir alem dos 
problemas congreganistas. Era isso a critica á lei de separação, 
do dr. Aflonso Costa. 

O coronel António Xavier Correia Barreto, embora official- 
mente não fosse citado como republicano, de ha muito tinha des- 
tinada a pasta de guerra, se bem que a nomeação despreocupa- 
damente o fosse colher na poética villa de Cintra. 

Nascera em 5 de fevereiro de 1853. 

Era auctor de um tratado de chimica, que attingiu 11 edições, 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ*. 457 

attrahindo sobre o seu nome as attençoes dos scientificos. Quasi 
em seguida notilisava-se pela descoberta da pólvora sem fumo ? 
de cuja tabrica veio a ser director, exercendo o cargo á data da 
revolução. 

O invento não foi desde logo bem recebido e Correia Bar- 
reto, capitão, teve um sem numero de attritos antes de lhe ser 
garantido o êxito. 

Valia lhe o conselheiro Luiz Augusto Pimentel Pinto, (•) 
quando ministro de guerra. Não se importando de ir contra a 
comissão encarregada de dar parecer sobre a adopção da pól- 
vora sem turno, e que a ella se manifestou dssfavoraveJ, fez 
modifkar a forma dos projecteis e executou com elies algumas 
experiências em Pedrouços. Ao resultado colhido, seguiu se a 
convocação da commissão de balistica para a fabrica de pólvora 
em Barcarena, afim de perante ella se realisirem outros exer- 
cidos. 

De facto não foram melhores os resultados, afirmando o pa- 
recer do grupo official incumbido de descrever os effeitos da 
pólvora Barreto. O conselheiro Pimentel Pinto, mandou então 
buscar á carruagem uma mala onde guardara os novos modelos 
de bala e com elles tez as experiências que deram boa nota. 

A comissão manteve os termos dô seu relatório, sob fun- 
damento de que os projecteis não obedeciam aos specimens ado- 
ptados para as Kropatchek, mas o ministro de guerra, efectuan- 
do contra corrente aos que mal viam Correia Barreto e talvez 
porque do paço gosava estima, olvidava a opinião dos serviços 
de balistica e mandava adoptar officialmente no exercito portu- 
guez a pólvora sem fumo do capitão Correia Barreto. 

O conselheiro Ferreira do Amaral, sendo presidente de mi- 
nistros, apresentou ás cortes um projecto concedendo lhe uma pen- 
são de 12 contos pelo êxito dos seus estudos sobre a pólvora. A 
queda do gabinete, originou o não seguimento da proposta. 

Não faltou quem dissesse que o olvido obedecera á necessi- 
dade de terminar o projectado favoritismo e mais tarde ainda se 
citou o nome do inventor como sendo «aquelle que não diz ao Povo 



(#) Falleceu a 7 de junho de 1913. 

VOL. IV— FL. 58 



458 ARMANDO RIBEIRO 



o resultado das experiências feitas em Berlim e em Pedrouços 
com a pólvora aliem! B e com a pólvora da sua invenção para 
que o mesmo Povo não venha a conhecer o logro de tal mani- 
gância em que a dispersão do tiro é considerável.» (*) 

Se o invento não teve em Portugal, o acolhimento previsto, 
a altos logares ascendeu quem o produziu. 

Por alvitre, do coronel Barreto, se operara a transferencia 
para Chellas dos serviços de fabrico de correame executado na 
tabnca de armas. 

A democracia já o retinha no numero dos seus adeptos, 
embora p/uma attitude que depois suscitou o commentario 
seguinte, (**) por parte do revolucionário dr. Mário Monteiro; 
«Quem foi que, como perito nomeado pela monarchia para 
analysar as bombas de dynamite, encontradas n'esse tempo, as 
deu como. . . perigosíssimas, enterrando assim em vida os ar- 
guidos entregues aos tribunaes por serem republicanos? O coro- 
nel Barreto. Quem tem sido ministro da guerra, quasi perma- 
nente, desde que foi implantada a Republica? O coronel Barreto. 
Chama-se a isto o cumulo da coherencia d'uns e d'outros!» 

Por seu turno, e como complemento a estes desabafos, outros 
se lhe seguiram (***) chocando, dura, mas merecidamente, 
as orientações do passado com as intransigências do presente; 
tudo subordinado ao titulo, suggestivo, de mudança com a edade: 
«Lia se hoje na Republica-. O sr. coronel Correia Barreto, 
actual presidente da commissão administrativa do municipio 
de Lisboa, e uma das figuras mais salientes do partido do 
sr. Affonso Costa, discursando ha dias no Centro Botto Machado, 
onde se tocou a Internacional^ disse enthusiasticamente que nao 
era por esta Republica que elle aspirava, mas sim por uma Re- 
publica Social, á qual ergueu um retumbante viva! Teremos 
na forja mais alguma aventura da Federação Republicana Ra- 
dical y de que s,ua ex. a era, ou ainda é, sócio?. . . » 

«Está na ordem das coisas esta mudança de opiniões, con- 



ta.) oA o4lvorada de 25 de Junho de 1912, 2.° suplemento ao n.° 20. 
(#*) A Alvorada de 12 de Janeiro de 1913. 
(###) As Novidades de 5 de Junho de 1913. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 459 



forme a edade que vamos tendo. O sr. Correia Barreto foi mo- 
narchico, e tão sincero que até tinha conseguido da casa real 
uma pensão para alguém da sua família. Depois passou a repu- 
blicano e tão dedicado, que foi o primeiro minisrto da guerra 
do novo regimen implantado e agora vae avançando, não sendo 
difficil encontralo mais tarde, se a vida nos acompanhar, como 
presidente de uma Republica Social. E* o progresso que cami- 
nha no espirito de sua ex. a com a evolução dos tempos. Não lhe 
queremos mal.» 

Correia Barreto, ministro da guerra, organisava, logo de en- 
trada um grupo secreto de officiaes destinados a promover a 
integração do exercito nas novas instituições e que, mercê de 
certas afinidades, se cognominou de Joven Turquia Portu- 
gue\a y por evocação da verdadeira, suprema força na politica 
ottomanae impulsionadora darevolta que derrubou AbdulHamid. 

Como quer que notada fosse a orientação dos jovens turcos 
lusitanos, o caso veio ás camarás e á imprensa, originando não 
só polemicas como duellos, que de novo em foco puzeram a 
Liga Militar de invenção Correia Barreto. O) 

O capitão de mar e guerra Amaro Justiniano de Azevedo 
Gomes, ministro da marinha, não era egualmente um conhe- 
cido das multidões. 

Não fora ás tribunas populares evidenciar o seu voto pela 
causa democrática, mas, como tantos outros, dera-lhe o encoberto 
auxilio, embora lhe constellassem o peito, como mercês honori- 
ficas da monarchia, as insígnias da commenda de Christo, e do 
officialato de S. Bento de Aviz e da Torre e Espada, ordens da 
presidência dos reis de Portugal. 

Nascendo a ig de janeiro de i853, e alistado na armada 
desde 1873, dera provas de mérito no decorrer da sua carreira 
e em combate evidenciara coragem, tendo, pelas luetas ultrama- 
rinas, a medalha de ouro. 



(*) A Capital de 12 e 17 de Novembro de 1912— Novidades de 21 do 
mesmo mez— Diário da Camará dos Deputados, sessão de 19 de Novembro 
de 1912. 



460 ARMANDO RIBEIRO 



Exercera \i o commando do cruzador S. c I{aphael y e dedi- 
cára-se a estudos coloniaes. 

Isso decerto influiu para a sua escolha, indo se buscar ao 
remanso do logar de presidente da i. a secção de estudos do con- 
selho general da armada, do qual era vogal. 

Ao ser conhecida a morte de Carlos Cândido dos Reis, pa- 
rece que evocado íoi o nome do capitão de mar e gutrra Aze- 
vedo Gomes. 

Voara o pensamento, disse se, para Manuel de Azevedo 
Gomes, uma das glorias da armada, e que, quando comman- 
dante do cruzador S. Gabriel^ obstou em Angoche ao traâco 
de escravos para Madagáscar. 

Foi este o ousado official, que nos mares da índia, a bordo 
da Diu 9 se dispoz a combater contra um cruzador estrangeiro 
que o perseguia; como, pelo ultimatum inglez de 1890, achan- 
do-se em Hong-Kong, reconhecendo as difliculdades de resistên- 
cia se atacado tosse, proclamou logo a intenção de fazer voar o 
navio, ao evidenciar d'uma rendição imposta. 

A* ultima hora quasi, se havia relembrado o facto do falle- 
cimento d'este, existindo todavia o irmão, Amaro de Azevedo 
Gomes, também perito em náutica e assumptos ultramarinos. 

Operou-se pois a substituição e assim se justifica o tacto de 
ao proclamar-se a republica se ter citado, como foi, o nome de 
Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. 

O equivoco á publicidade veio desde logo, e mais tarde (*) 
a imprensa o reproduziu: 

«Azevedo Gomes, aquelle oíficial que tendo um irmão me- 
dico e republicano toi chamado por engano ao governo provisó- 
rio em virtude de não ter participado ao Directório o talleci- 
mento de seu irmão.» ' 

A's primeiras questões politicas desde logo o escolheram 
para victima. 

Um esboço de revolta trouxe amargas horas, chegando não 
só a ser invectivado como a correr risco de morte durante os 



(#) A Alvorada, 2.° supplemento ao n.° i0, I anno, de 25 de Junho de 
1912. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 461 



auccessos conhecidos sob o nome de o caso do arsenal (j de 
março de igi i). 

Foi elle como que o inicio de movimentos sediciosos, fracas- 
sados, e que aos cárceres levou entre outros, os ofliciaes da ar- 
mada, Fontes Pereira de Mello e Lúcio Serejo, cioso o primeiro, 
dísse-se, de o substituir no cargo ministerial. 

O dr. Bernardino Luiz Machado Guimarães tendo transitado 
da monarchia para a Republica, aos trabalhos de propaganda 
dera todo o seu estorço. 

A aííabilidade grangeara-lhe á sympathia popular, vendo 
n'elle mais um apostolo do que um demolidor. 

De palavra fluente, mereceu do grande jornalista francez 
Jules Hedemann, o cognome de «O Mirabeau portuguez». 

Nascera no Rio de Janeiro a 28 de março de 1851, cidade 
que deixou sob monarchico regimen e onde 61 annos depois 
havia de voltar quando sob o regimen republicano e como mi- 
nistro representante da Republica Portugueza. 

Trocando o Brazil por Portugal, que tornou sua verdadeira 
pátria, ingressava na Universidade de Coimbra, formando se 
em 1876. Breve era despachado professor de anthropologia 
n'esse estabelecimento scientifico. 

Mostrando vastos conhecimentos, como director do Instituto 
Industrial e Gommercial de Lisboa, notabilisou-se também como 
vogal do conselho superior de instrucçao publica. 

Excellente pedagogo, propensa lhe teria corrido a carreira 
se a politica, sempre perniciosa, se não apossasse da sua perso- 
nalidade, trazendo o para as luctas parlamentares e ministeriaes, 

Notável no curso como no novo campo por onde enveredara, 
era eleito deputado em 1882 e 1886 e nomeado par do reino 
em 1890, sendo rei D. Carlos I. De confiança regia vinha como 
ministro das obras publicas (Fevereiro-Dezembro de 1893), 
num gabinete da presidência do conselheiro Hintze Ribeiro com 
os conselheiros, João Franco, ministro do reino, Augusto Fus- 
chini, fazenda, João António Brissac das Neves Ferreira, ma- 
rinha, António de Azevedo Castello Branco, justiça, entrando 
«m substituição do conselheiro Pedro Victor da Costa Sequeira 



462 ARMANDO RIBEIRO 



e sendo logo um dos signatários do decreto de 25 de Fevereiro 
de 1893, da amnistia aos presos do 31 de Janeirode 1891., 

Foi durante esse período de adhesão á coroa que assim ex- 
poz (*) o ser aflecto ás respectivos representantes : 

«Raras vezes tão preciosos dcns pessoaes esmaltarão a coroa 
como hoje em Portugal. O Rei dá o exemplo do estudo, do 
gosto pelos prazeres intellectuaes, naturalista e pintor apreciá- 
vel, e até o exemplo do enrijamento physico, que não nos é me- 
nos necessário. Quasi todos teem que apprender com elle a amar 
por egual os exercícios do espirito e do corpo, e a preparar-se 
assim cabalmente por meio d uns e d'outros a bem servir a na- 
ção. Modesta no trato intimo, a sua palavra tem vibração, mo- 
cidade e calor em meio das assembleias solemnes. Não fraque- 
jando nunca nas situações difficeis, a sua coragem é sympathica, 
ainda mesmo quando juvenilmente a desperdiça em aventuras 
de solidariedade dictatorial com ministros mais cautelosos do 
que elle. E a tempera honesta do seu caracter, tem-a provado 
bem, resistindo na sua vida particular, mais do que ao contagio 
da corrupção, ás tentações e armadilhas dos politicos com pre- 
tenção a validos. A Rainha é tão boa, que não ha miséria de 
que c seu coração generoso se não amercie e por onde ella passa, 
o seu doce sorriso reconforta as almas. E, para nada faltar ao 
throno portuguez, tem junto a si a Rainha-Mae, que o realça e 
doira artisticamente com todo o prestigio do seu grande talento 
decorativo.» 

Inversamente, a alguns annos d'esse elogio, em comicio te- 
ria a desculpa ao acto que eliminou D. Carlos do numero dos 
vivos e tornou viuva a arainha tão boa» que não havia mi- 
séria de que o seu coração generoso se não amerceasse: 

«O regicídio não foi um attentado, nem Buiça e Costa podem 
ser considerados assassinos: «N'uma sociedade em lucta, como 
povo oflegante sob a oppressão do poder, à la guerre comme à 
la guerre!* 

«E porque não seria ainda a romagem incriminada não a 



(*) O Instituto de Coimbra— Volume 48.°— Pagina 249. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 463 

glorificação do regicídio, do homicídio, mas um povo de 
grande e nobre historia como o nosso, que amanhã se baterá 
heroicamente com o estrangeiro, se íôr preciso, a glorificação 
do sacrifício, o culto mesmo do heroísmo militar? W isso que 
os incommoda e revolta? Porque levantámos nós ha poucos an- 
nos, um monumento aos conjurados de 1640? Porque mataram 
Miguel de Vasconcellos? Não! Porque foram heróicos. E a Eu- 
ropa condemnou os por isso? Como havia de condemnar, se uma 
grande parte d ella, não só a Suissa, também a Inglaterra, con- 
sagrou na lenda a figura épica de Tell? E já alguém ousou 
aventar que Schiller, no seu melhor drama, e Rossini, na sua 
melhor opera, glorificaram o homicídio, o assassino de Gessler, 
que Guilherme Tell matou também de emboscada armado de 
arco e settas, que eram a clavina e a bala d'esse tempo ? E' que 
os tempos mudaram e a moral d'hoje não é a da epocha de 
Tell? Evidentemente. Mas Schiller e Rossini são d'hontem, e 
todos os que accusam os admiradores do heroísmo de Buiça e 
de Costa não vão hoje mesmo ainda ao theatro applaudir e acla- 
mar o heroísmo de Tell? Ah! hypocritas!» (*) 

À esse tempo já havia renunciado a todas as prerogativas e 
encarando mal a theoria da realeza, enveredara abertamente 
pela da democracia. 

Deffendendo-a, foi elle uma das origens certas da queda do 
gabinete Hintze Ribeiro em 1906, e até da celebre carta de 
D. Carlos I, de 16 de maio d'aquelle anno ) verberando excessos. 

O dr. Bernardino Machado, enviara ao rei, então em Viila 
Viçosa, um telegrama onde o informava de preparativos minis- 
teriaes de violências contra republicanos. D. Carlos, remettendo 
o telegrama ao chefí do governo, expunha-lhe a necessidade de 
ser «tomado na consideração que lhe era devido.» 

Seguia se um manifesto desejo de entendimento com o cau- 
dilho democrata, para tregoas entre ambos os partidos. O dr. 
Bernardino Machado, exigia logo como prova do armistício, e 
sabendo alias que erguia um obstáculo, o castigo immediato dos 
interferentes nos successos do 4 de maio de 1906. 



(#) O Século de 29 de Março de 1908. 



464 ARMANDO RIBEIRO 



Seria o pactuar da realeza, seria o evidenciar da quebra de 
forças, levando ao povo a convicção de que a própria monar- 
chia enfiara o pescoço na golilha ofíerecida pelos democratas. 

Hintze Ribeiro, valendo se das controvérsias politicas, e das 
assignaladas preferencias de D. Carlos por João Franco, optava 
pela queda ministerial. 

A diplomacia do dr. Bernardino Machado quebrara a plata- 
forma a que se pensou attrahir os democratas, a dupla conven- 
ção, onde o menos arteiro se envolveria na rede do mais sagaz. 

Hintze Ribeiro não deixou realisar a experiência. 

A greve académica de 1907, de novo collocou em foco o 
a esse tempo indicado como futuro presidente da Republica. 

Era já o consulado de João Franco. A 28 de fevereiro, os 
lentes da Universidade reprovavam o estudante João Eugénio 
Ferreira. A academia ergueuse em peso, protestando em mani- 
festo, primeiro contra os examinadores, depois contra as pró- 
prias formulas universitárias. 

O governo, viu logo, a despeito dos desmentidos, a ideia re- 
publicana a atear movimentos académicos e reprimia-os. Apura- 
da pelo conselho de decanos a direcção de sete estudantes, entre 
elles, Alberto Xavier, Carlos Olavo, Carneiro Franco, Trindade 
Coelho (filho) e Júlio Dias da Costa, expulsava-os da Universidade. 

O dr. Bernardino Machado, surgiu então para o appoio aos 
attingidos, declarando que ao cerramento para qualquer acadé- 
mico, das portas do estabelecimento de ensino, corresponderia 
a sua sabida de lente. 

Ao gabinete franquista não fez mossa a ameaça e mantido 
o desideratum dos outros lentes, a promessa cumpria-se e pre- 
sente a 16 de abril o officio de demissão, a 27 publicava o 
Diário do Governo^ o respectivo decreto. 

O governo provisório da Republica, e por um movimento 
dos estudantes da greve de 1907, offerecia-lhe depois a reinte- 
gração. Recusou-a porém. 

O trama revolucionário de 28 de Janeiro de 1908, achou-o 
como seu collaborador e, perante o partido monarchíco,era de se- 
gura intuição que seria o cheíe do Estado ao ganhard a sua causa, 
embora isso contado fosse para epochas de impossível fixação. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 465 

Previu a elle, todavia, e a publico veio (*) o facto nas linhas 
seguintes: 

aEm julho de 1867, o sr. dr. Bernardino Machado, respon- 
dendo a uma pergunta do sr. Jules Hedeman, acerca da data 
possível da proclamação da Republica, marcou o advento das 
novas instituições para d'ahi a dois ou trez annos. Como se vê 
o sr. Bernardino Machado toi propheta na sua terra, o que não é 
vulgar, e isso mesmo lhe notou o sr. Hedeman, encontrando-se 
novamente com o illustre democrata, agora, trez annos depois 
e com a Republica proclamada em Portugal. — a Ah ! exclamou 
o sr. Bernardino Machado. Não imagina até que ponto me chás- 
quearam, como a imprensa monarchica me injuriou, tomando 
como pretexto essa minha phrase publicada no Matin. A Repu- 
blica, diziam-me em termos gt^osseiros, nem os bisnetos dos seus 
bisnetos a verão em Portugal ! Que gracejo, Republica em Por- 
tugal! Que tolice!» 

Todavia, ao avanço das manifestações populares, não tran- 
sigindo nunca, ateando, de continuo, conflictos na rua, houve 
a duvida e o regicídio relembrou possibilidades de um reivindi- 
car democrático. 

O convencimento serviu pois para que ao dr. Bernardino 
Machado se recorresse, 

Ao approximar-se a realisação, na Sé, das exéquias (**) por 
alma de D. Carlos I e D. Luiz Filippe, correram boatos de 
attentado. 

Ferreira do Amaral, recorria ao velho caudilho e sollicitava- 
lhe tosse conferenciar com elle á presidência do conselho. Ali 
lhe expunha os receios e lhe pedia o embaraço a qualquer plano 
sanguinário. 

O dr. Bernardino Machado, convidando a conversa o chefe 
intervencionista José do Valle, communicava-lhe os receios do 
chefe do governo e incitava-o, a despeito das suas negativas sob 
a veracidade dos boatos, a correr Lisboa afim de evitar mis in- 
tenções. 



(#) O Matin, Novembro de 1910. 

(##) Vide a nossa obra O Começo de um Reinado. 

VOL. IV— FL. 59 



466 ARMANDO R1BEIKO 



Foi cumprida a incumbência e ao gabinete do conselheiro 
Ferreira do Amaral, era levada uma carta de José do Valle, di- 
rigida ao dr. Bernardino Machado, onde se assegurava que as 
exéquias decorreriam em absoluto tranquillas. 

Bernardino Machado, toi também o entrave poderoso á con- 
summação de um projecto trágico contra o agente Abilio Magro, 
ao tempo perseguidor dos republicanos. 

A sua intluencia, coartou assim dois golpes aprestados, col- 
locando em cheque evidente, o prestigio dos governantes mo- 
narchicos que, longe de assegurar a ordem e de vigiar pela se- 
gurança real, iam antes sollicitar comtemplações dos próprios 
que implicitamente reconheciam como elucidados em machia- 
velismos sanguinolentos. . . 

As luctas politicas de 1908 191 o, viram no, afirmando o 
ideal republicano, em intensa propaganda. 

Proposto deputado nas eleições de 28 de agosto de 1910, 
era eleito, mas não se sentava no parlamento como delegado po- 
pular mas sim como o primeiro ministro dos negócios estran- 
geiros da Republica Portugueza. . 

A sua figura descrevia-a assim, Joseph Galtier, o já celebre 
entrevistante de D. Carlos I, no não menos celebre, Le Temps 
(7 de outubro de 1910); 

«Lembro me que um dia, indo n'um comboio em compa- 
nhia de homens que vão agora dirigir a politica portugueza, 
para a residência senhorial, em Alpiarça, do sr. José Relvas, em 
cada estação tomos acolhidos por petardos, foguetes, acciama- 
çÕes. «São os nossos amigos, disseram-me os nossos correligio- 
nários politicos, que, prevenidos da nossa passagem, correram 
ás ga?~es para nos saudar». E com eífeito, mal o sr. Bernardino 
Machado assomava á portinhola do comboio, elevavam-se estes 
gritos: Viva a Republica! Viva a França». O sr. Bernardino 
Machado passava então por ser o futuro presidente da Repu- 
blica Portugueza. Baixo, esbelto, desenvolto, trajando correcta- 
mente, o sr. Bernardino Machado, um quinquagenario muito 
vivo, tem uma cabeça expressiva a que a barba branca pontea- 
guda dá uma finura especial; o bigode, abundante e comprido, 
egualmente branco, não tem pontas provocadoras ou rebeldes: 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ v 467 



segue a curva natural e cahe placidamente. Os olhos são gran- 
des, d'um negro retinto que aviva toda essa cor branca da ca- 
beça. Não despedem scentelhas; sorriem. Raras vezas encontrei 
homem tão sereno, tão amável como o sr. Bernardino Machado. 
Occupava, antes de se fixar em Lisboa e de se consagrar á poli- 
tica, uma cadeira de sciencia na Universidade de Coimbra. Tem 
o culto da tamilia: tem mais de doze filhos, quatorze, creio eu. 
Graças a uma iortuna regular — calculase em 600 contos — 
creou e educou facilmente a sua brilhante progenitura. Ao tacho 
dos Machados não taltarão mãos vigorosas que lhe perpetueip 
a marcha.» 

A poucos passos da investidura no alto cargo, a attitude do 
dr. Bernardino Machado, era censurada e elle aceusado de ((reju- 
bilar mais com os applausos dos adversários do que com os re- 
paros leaes e justiceiros dos correligionários.» (*) 

Era auetor do livro Notas de um pae^ sempre alvejado pela 
critica irónica e prefaciador do livro de César Frazão Pela Ver- 
dade. 

Mais tarde (1 914) de regresso do Brazil, viria a presidente 
do ministério, sendo alvo de campanha rrordaz por parte do 
jornal de Machado Santos, o Intransigente^ (22, 24 de Julho de 
19 14) em artigos sob o titulo O sonho do Capanga, e sub titulo 
<De Guanabara a "Belém com escala pelo guano (As aventuras 
d'um ambicioso na sua terra adoptiva ou a historia a" um 
sonho em três artigos e um apêndice), 

N^sse posto o colheu, porem, impertubavel, a conflagração 
europeia de 1914. 

O dr. António Luiz Gomes, era conhecido da plêiade estu- 
diosa coimbrã, que deu brado pelo ultimatum de 1800. 

Cursando a Universidade e sendo presidente da Associação 
Académica, evidenciou logo o seu dogma republicano. 

Formando se e vendo escasso o recurso portuguez, foi ao 
Rio Grande do Sul, procurar independência económica, para 
bem alto poder exprimir o seu ideal politico. 



(#) A Republica Portuguesa de 11 de novembro de 1910. 



468 ARMANDO RIBEIRO 

Conseguindo a, regressava ao Porto, onde nascera e por ve- 
zes foi proposto a deputado. A cidade de Lisboa elegia-o nas 
eleiçSes de 28 de agosto de 1910. 

Pouco se demorou na pasta das obras publicas, mercê de 
engendrada teia e a 22 de novembro d'esse anno, velo hemos 
substituído pelo director da Lncta^ dr. Manuel de Brito Cama- 
cho, e dizendo mais tarde, (*) apoz ter já transitado pelo cargo 
de ministro de Portugal no Brazil (191 1): 

a Foi em nome dos princípios da liberdade, da tolerância, 
da justiça e da moral que vencemos; e a nossa fraqueza resulta, 
precisamente, de nos termos esquecido do cumprimento das pro- 
messas que azemos nos tempos brilhantes da nossa propaganda. 
E se alguma penada surge a protestar contra as misérias subsis- 
tentes, está sujeita ás injurias dos energúmenos, a quem incom- 
moda a intransigência dos que não estão dispostos a amoldar-se 
aos velhos processos da monarchia, embora lrTos queiram im- 
pingir mascarados e disfarçados com o rotulo de uma democra- 
cia, que não existe senão no nome. E o que mais revolta é que 
essas creaturas, de moralidade mais que duvidosa, são audacio- 
sas e teem a petulância de se inculcarem as salvadoras da causa 
publica, como se alguém pudesse dar aquillo que não tem. Isto 
chega a causar nojo e asco e dá vontade de deixar passar a ju- 
denga, como diria o nosso grande Alexandre Herculano; mas, 
por outro lado, a nossa consciência impõe nos o dever de defen- 
der esta linda terra onde nascemos, clamando sempre contra a 
continuação do regabofe». 

Foi este pois o primeiro governo da proclamada republica, 
e que se cantado foi em verso exótico, (**) phrases duras ouviu 
por parte de um jornal revolucionário A Rua (12 de outubro 
de 1912): 

«O poder, foi em 5 de outubro tomado de assalto, pois não 
foi o povo portuguez, esse soberano indiscutível, quem poz nas 
cadeiras aristocráticas do Terreiro do Paço, os homens do Go- 



(*) Diário do Porto, Julho de 1913. 

(##) O Diário de Noticias de 14 de Novembro de 1914. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 469 

verno Provisório. O parlamento, esse então . . . eguala-se a uma 
colleção de animaes de uma ganaderia, com ferro comprovado 
da beautée da sua raça e por isso, de forma alguma pode ser 
a verdadeira expressão da vontade nacional. Haja quem nos 
prove o contrario do que dizemos, isto é, que o Povo foi quem 
deu o seu voto aos Ministros de 5 de outubro e nós calar nos- 
hemos. Haja quem nos prove que foi a Rotunda, única e verda- 
deira expressão por direito da vontade da Revolução, quem 
acclamou o Governo Provisório e nós quebraremos os bicos da 
penna com que estamos escrevendo este artigo, pobre em rendi- 
lhados de prosa digna dos mestres, mas riquíssimo em verdade 
e justiça. d 

Proclamado que foi o governo provisório, cujos trabalhos 
a seu tempo serão explanados, José Relvas, lia a declaração de 
estar abolida a monarchia em Portugal. 

Confirmai o hia, dias depois, o seguinte decreto: (*) 
<lO governo provisório da Republica Portugueza faz saber 
que, em nome da Republica ss decretou, para valer como lei, 
o seguinte: — Artigo i.° E* declarada proscrita para sempre a 
iamilia de Bragança, que constitue a dynastia deposta pela re- 
volução de 5 de Outubro de 1910. — Art. 2.° Ficam in- 
cluídos expressamente na proscrição os ascendentes, descenden- 
tes e colateraes até ao quarto grau do ex-chefe do Estado. — 
Art. 3.° E* expressamente mantida a proscrição do ramo da mes- 
ma família banido pelo mesmo regime constitucional represen- 
tativo. (*) — Art. 4. No caso de contravenção do artigo i.°, in- 
correrão os membros da familia proscrita na pena de expulsão 
do território da Republica e, na hypotese de reincidência, serãc 
detidos e relegados aos tribunaes ordinários. — Art. 5.° O go- 
verno da Republica regulará opportunamente a situação mate- 
rial da familia real exilada, respeitando os seus direitos legíti- 
mos. Os ministros de todas as repartições o façam imprimir, 
publicar e correr. Dado nos Paços do Governo da Republica, 
em 15 de Outubro de 1910. — Joaquim Theophilo "Braga — 



(*) Legislação Portuguesa de 1910 -Volume II, Pagina 8. 



470 ARMANDO RIBEIRO 

António José d' Almeida — José Relvas — oAffonso Costa — An- 
tónio Xavier Correia Barreto — Amaro Justiniano de Azevedo 
Gomes — Bernardino Lui\ Machado Guimarães — António 
Lui{ Gomes.» 

Mais tarde, entrevistado pele jornalista Jules Sauetwein, en- 
viado especial do Matin^ (Janeiro de 1911) (+) de Paris, o chefe 
do governo provisório, diria, referindo-se a esse documento: 

«Quando eu tracei a minha assignatura no decreto que 
destituía dos seus direitos a dynastia de Bragança, tive a visão 
de que toda a nação respirava emfim, livremente, e que a gran- 
deza do passado ia renascer.» 

O povo, não soube conterse. 

Febril, semi-louco de enthusiasmo, batendo palmas e er- 
guendo vivas, de roldão galgou a escadaria dos paçcs munici» 
pães para envolver num amplexo gigantesco os de instante 
julgadas e ditos libertadores d'uma pátria morta. 

Já estavam reunidos os combatentes de todos os locaes da 
lueta, Avenida, Alcântara e navios. 

Mas ia ainda realisar se na sala nobre da Gamara, a instai- 
laçao governamental, embora não estivesse completo o ministério. 

Ia proclamar se alto a queda monarchica no próprio salão 
onde os régios retratos, haviam dado logar, annos antes, a pe- 
ripécia extranha, trazida a publico, á victeria ganha, pelo jorna- 
lismo francez e portuguez: (**) 

«Quando foi da sua viagem á America do Sul a 4 de maio 
de 1909, Anatole France fez escala por Lisboa, onde o partido 
republicano tinha organisado uma festa solemne em sua honra. 
Theophilo Braga foi quem a presidiu. Apoz alguns discursos de 
boas vindas, os republicanos portuguezes agruparamse em cor- 
tejo em volta do seu hospede e fizeram-lhe as honras da sua 
capital. Quando visitava a Camará Municipal, na sala do con- 
selho, três immensos retratos em corpo inteiro chamam a 
attenção de Anatole France. 

— «Isso nãf é rada, explicou-lhe com desdém um dos seus 



(#) As Novidades de 17 de Janeiro de 1911. 

(#*) Le Matin — O Tai^ de 10 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 471 

guias. E* o rei morto e o seu filho. Eram muito gordos. Foi por 
isso que nós os sangrámos. 

«Depois mostrando com um dedo negligente o retrato de 
D. Manuel II, sorridente embonecado entre as duas obesidades 
de seu pae e de seu irmão: 

— aOh! quanto a esse também por lá ha-de passar. Mas é 
ainda muito magro. Ainda lhe não chegou a vez.» 

Todavia, na hora do êxito não se esqueceu a família real e 
desde logo se fez espalhar a seguinte nota official : 

«O Governo Provisório da Republica Portugueza, logo que 
assumiu o exercício das suas funcções, tomou todas as medidas 
necessárias para poder garantir a segurança do rei deposto e de 
sua família, na hypothese de que ao Governo seja dado conhe- 
cimento do logar elles se encontram e da via, maritima ou ter- 
restre, que escolheram para sahir do território nacional » 

De facto, José Relvas ia, pouco depois, a bordo do cruzador 
braziieiro S. Paalo f sollicitar que se desse guarida a D. Ma- 
nuel II, caso ella pedida fosse. 

Assistiu pois, o povo, tumultuario pela alegria, á investidura 
solemne dos representantes do regimen novo, pelo vereador 
Carlos Victor Ferreira Alves. 

Eram 11 horas da maphã. 

Alem, troava a artilharia dos navios, salvando com 21 tiros 
a bandeira da Republica e ao momento exacto em que se la- 
vrava o documento histórico onde era registada a constituição 
ministerial: 

AO POVO PORTUGUEZ 

CONSTITUIÇÃO DO GOVERNO PROVISÓRIO DÂ REPUBLICA 

Hoje, 5 de Outubro de 1910, ás 11 horas da manhã, foi pro- 
clamada a Republica de Portugal na sala nobre dos paços do 
município de Lisboa, depois de terminado o movimento da Re- 
volução Nacional. 

Constituiu-se immediatamente o Governo Provisório: 
Presidência, Dr. Joaquim Theophilo Braga. Interior, Dr An- 
tónio José d'Almeida. Justiça, Dr Aífonso Costa. Fazenda, Ba- 
sílio Telles. Guerra, António Xavier Correia Barreto. Marinha, 
Amaro Justiniano de Azevedo Gomes. Estrangeiros, Dr. Ber- 
nardino Lms Machado Guimarães. Obras Publicas, Dr. António 
Luiz Gomes. 



472 ARMANDO RIBEIRO 

Esse documento era pouco depois affixado nas esquinas, e 
publicado ainda em supplemento ao Diário do Governo n .° 22fc 
de 5 de Outubro de 1910, passando depois á «Colleeção Offi- 
ciai de Legislação Portugueza do anno de 1910.» Pagina 1. 

Apoz, era lançada á publicidade a seguinte proclamação, 
que se disse cerceada obra do dr. Theophilo Braga: 

a Ao Povo Portuguez; Cidadãos! 

• O povo, o exercito e a armada, acabam de proclamar a 
Republica. A dynastia de Bragança, maléfica e perturbadora 
consciente da paz social, acaba de ser para sempre proscripta em 
Portugal. Este facto extranho e famoso, que representa o orgulho 
de uma raça indomável e a redempção de uma pátria que a 
bravura tornou legendaria, enche de enthusiastica alegria o co- 
ração dos patriotas. Eis que finalmente termina a escravidão da 
pátria e se ergue luminosa na sua essência virginal a aspiração 
benéfica de um regimen de liberdade. Cidadãos! O momento 
que decorre, redime e compensa de todas as luctas combatidas, 
de todos os transes dolorosos que se soflreram. E somente é pre- 
ciso, para elle ser o inicio de uma epocha de austera moralidade 
e impoluta justiça, que todos os portuguezes se unam n'uma 
harmoniosa communhão de princípios. Façamos do nosso sacri- 
fício pela Pátria a base do nosso programma politico e da gene- 
rosidade para com os vencidos a base do nosso programma mo- 
ral. Cidadãos! Que um só interesse, o interesse pela pátria, vos 
anime e uma só vontade, a vontade de ser grande, nos una! A 
Republica confia do Povo a manutenção da ordem social, o res- 
peito pela justiça, e a dedicação pela causa commum da liberdade. 
Consolidae com amor e sacrifício a obra que surge da Repu- 
blica Portugueza.» 

A multidão, de novo accumullada na Praça do Município, 
forçou o dr. Euzebio Leão, chamado pelo lente Innocencio Ca- 
macho, a fallar ao povo em nome do Directório, pedindo o res- 
peito de vidas e haveres dos adversários politicos e saudando o 
bem como ao exercito e marinha. 

De seguida, abandonavam os paços municipaes, para o ar- 
vorar da bandeira republicana no quartel da guarda municipal, 
com a presença do delegado do Directório. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 473 



Por seu turno, os camaristas, reunidos, approvavam uma 
proposta do vereador Carlos Alves, para ser collocada em sitio 
bem visivel dos Paços do Concelho uma lapide commcmorativa 
do solemne acto realisado e votavam a seguinte proclamação, 
desde logo distribuída: 

cA Cimara Municipal de Lisboa á cidade de Lisboa: 
Concidadãos: — A vereação republicana de Lisboa, reunida 
em sessão extraordinária, congratulase comvosco pela procla- 
mação da Republica Portugueza, prestando calorosa homenagem 
ao patriotismo, á bravura physica e á coragem moral dos mili- 
tares e civis que concorreram para * sua proclamação e deplo- 
rando commovidamente o sangue derramado durante as trági- 
cas jornadas de 3, 4 e 5 de outubro. Recordando todas as 
grandes revoluções da historia pátria e estranha, nenhuma ex- 
cede em civismo, em ordem pela própria vida e em generosidade 
a que os nossos olhos pasmos contemplavam, nenhuma cidade 
conhecemos que tão legitimamente, haja conquistado o direito 
de governarse por si e pelos seus eleitos. Não basta, porém, pro- 
clamar a Republica; é mister, agora consolidai a e acrcdital-a 
construindo sobre os escombros um futuro de paz e de ordem 
em que a sciencia e o trabalho, substituam o preconceito e o 
privilegio. Para isso carecemos, mais do que nunca, da vossa 
illimitada dedicação e da vossa intima e fraternal solidariedade. 
Irmãos na tarefa ingrata mas necessária da demolição, irmãos 
devemos continuar na tarefa menos penosa mas não menos dif- 
ficil da pacificação e reconstrucção, não esquecendo a máxima 
tolerância e piedade para com os vencidos Para isso contamos 
comvosco, como vós podeis contar comnosco, e unidos ambos, 
cidade e camará, em breves dias a vida normal, ordeira e labo- 
riosa apagará a memoria dos iníquos e tenebrosos tempos passa- 
dos. Para nós, cidadãos de Lisboa, será isso tanto mais fácil, 
quanto mudando de regimen, não mudais de administração. 
Tinheis já a administração republicana. Com ella continuaes. 
A única diáerença consiste em camará municipal e governo do 
Estado viverem, de ora em deante, cordeal e fraternalmente 
unidos para maior formosura e fortuna da cidade. Cidadãos de 
Lisboa, a vossa camará municipal saúda vos, saudando também: 

VOL.. lf — FL. 60 



474 ARMANDO RIBEIRO 



«A bravura indómita dos marinheiros e soldados da revo- 
lução! O heroismo dos voluntários civis! A perfeita honestidade 
e generosidade da população! A memoria dos mortos e a dor 
dos feridos! A amargura das familias dos martyres da Republica 
e dos que, resistindo lhe julgavam cumprir o seu dever! Viva a 
cidade de Lisboa! Viva a Republica Portugueza! — A. Braam- 
camp Freire, Manuel António Dias Ferreira, Afíonso de Lemos, 
José Mendes Nunes Loureiro, José Miranda do Valle, José Ve- 
ríssimo d'Alraeida, Manuel de Sá Pimentel Leão, Miguel Ven- 
tura Terra, António Alberto Marques, Carlos Victor Ferreira 
Alves, José Soares da Cunha e Costa.» 

A lapide ioi, efiecti vãmente collocada, mais tarde, ao fundo 
do primeiro lanço da escadaria nobre da Camará. 

E* em mármore, com as armas da cidade de Lisboa, e uma 
palma em ouro, tendo a seguinte legenda: 

«No dia 5 de outubro de igio, da varanda principal d'este 
edifício foi proclamada a Republica Portugueza. Esta lapide 
commemorativa do facto foi inaugurada no seu primeiro anni- 
versario.D 

A camará 6xava o dia seguinte, 6 de outubro de 1910^ 
para outra sessão, a do reconhecimento. 

N'ella, o presidente Anselmo Braamcamp Freire impetrava 
do povo revolucionário a maior piedade para com os vencidos e 
pesar pelos feridos e familias enlutadas. 

Precedendo o encerramento, em signal de jubilo, o vereador 
Cunha e Costa, produzia o discurso de saudação: 

«Se aos homens do século XX, com a sciencia e a mentali- 
dade do seu tempo, fosse licito admittir a intervenção do fatum f 
destino ou providencia nas cousas humanas, seria este o mo- 
mento de appelar para elles. Com efíeito, deante da enorme 
desproporção entre as forças revolucionarias que proclamaram 
a Republica e os elementos de resistência de que a monarchia 
ostensivamente dispunha, é evidente que um terceiro factor es- 
teve durante o combate, ao nosso lado, contrabalançando as armas 
que nos faltavam, o commando superior que nos abandonara 
ou sucumbira e a manifesta e espantosa inferioridade do numero. 
Esse quid, que n'esta lueta épica substituiu o velho Deus de Ou- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 475 



rique e de Valverde e fielmente se manteve ao nosso lado até á 
rendição final, loi essa Ideia, que tantos desdéns merecia aos 
adversários e que desde os primórdios da civilisação é o primeiro, 
o insubstituível propulsor do progresso humano. A Ideia que, 
na phrase do poeta, o peso não pesa, o metro não mede e o rea- 
gente não verifica, mas que no entanto existe como a mais im- 
pressivel de todas as realidades concretas, foi o grande alento 
das forças revolucionarias, occultando lhes o poder do inimigo e 
multiplicando, por um phenomeno de auto sugestão, o próprio 
valor. Cada um dos nossos combatentes, sentia dentro de si a 
íorça de um Anteu e aquilatava a alheia pela- bitola de um 
pigmeu. D'ahi essa victoria que ainda hoje nos enche de assom- 
bro e maravilha. Graças a esse auxiliar de natureza eminente- 
mente subjectiva, os nossos heróicos combatentes tiveram sempre 
nas almas das peças e nas carregadeiras das carabinas um ex- 
plosivo novo, cujos etfeitos excedem os mais espantosos in- 
ventos da pyroteçhnia militar, com a vantagem do seu municia- 
mento ser ccnstante e dispensar o recurso a fabricas e paioes. 
Graças, ainda, a esse auxiliar, companheiro inseparável do Di- 
reito, puderam simples soldados, marujos, populares e oficiaes 
de fazenda bater se e commandar cot.o soldados veteranos e 
generaes experimentados. 

«Consignada esta victoria e acentuado o seu caracter de 
quasi maravilha, força é confessar que jamais empreza humana 
foi tão digna de triumpho. Na verdade, toda essa gente, toda 
essa arraia miúda, todos esses anonymos que, durante três dias, 
jogaram temerariamente a vida, outra cousa não teem a es- 
perar da Republica além da sua quota parte no bem geral 
que ella deve trazer ao paiz. Assim o seu sacrifício é o próprio 
desinteresse. Batendose pela Republica, outro fim não tiveram 
senão o de prestar a todos nós um grande serviço altruista. 
Deante dos olhos não viram prémios nem recompensas mate- 
riaes; contaram, quando muito, com a lagrima de saudade ou 
com o clamor do applauso, isto é, com o galardão moral ; e é 
por isso que n'este momento a vereação não duvida inclinar se 
com o respeito mais profundo deante de tanto heroísmo asso- 
biado a tamanha abnegação. Marinheiros, soldados e populares 



476 ARMANDO RIBEIRO 



de Lisboa escreveram em três jornadas celebres uma das pagi- 
nas mais iormosas e mais justas da historia pátria. Para elles a 
enternecida e ardente homenagem da vereação, em nome da 
cidade. Mas houve mortos e houve feridos. Ora a dôr e a morte 
são egualitarias e têm direito ao mesmo tratamento, sejam quaes 
forem as opiniões politicas ou as crenças religiosas dos que a 
soffreram. Por isso, a vereação envia d'este logar e solemne- 
mente idênticas palavras de pezar aos pães, ás viuvas e aos 
orphãos dos que morreram por nós ou dos que morreram con- 
tra nós. E resta-nos a convicção profunda de que todos os revo- 
lucionários commungam n'este sentimento porque todo o sangue 
que derramaram lhes foi imposto pela cruel mas imperiosa ne- 
cessidade de defender as próprias vidas, embora os mais bellos 
poentes da litteratura e da arte não dispensem nunca, aqui ou 
acolá, uns ligeiros laivos rubros. Feita, porém, a Republica, é 
preciso que dentro em pouco, na sua luminosa trajectória, se 
diluam esses vestígios sangrentos e que das trágicas jornadas de 
3 a 5 de outubro perdurem apenas, como eterno padrão de 
gloria, a piedade, a tolerância dos vencedores. Viva a Pátria 
Portugueza! Viva a Republica!» 

O dr. Cunha e Costa, redigira egualmente, assignando por 
isso em derradeiro logar, o documento municipal, como fora o 
6.° signatário do manifesto coimbrão de io de novembro de 
1890, revolucionário, derrubador da monarchia, então repre- 
sentada por D. Carlos I. 

Não tardaram as desillusoes e mais tarde, não sabendo 
occultar o seu pensamento, traduzia o em formidáveis artigos 
dos jornaes monarchicos O c Dia e a Nação, 

Forçado ao exilio, evidenciava a três annos precisos dos en- 
thusiasmos da Camará Municipal de Lisboa, a sua fé nova: (») 

«Assim, na Suissa e demais a mais em Lucerne, cujo pavi- 
lhão é o meu sempre saudoso pavilhão azul e branco, não me 
loi indifferente o casamento de um principe que por deposto e 
proscripto nem por isso perdeu a qualidade de cidadão portu- 
guez, a cathegoria de representante de uma dynastia que alguns 



(#) O rDia de 4 de Outubro de 1913. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 477 



benefícios prestou á terra portugueza e de uma íamilia que vae r 
atra vez de um passado remotíssimo, entroncar em herces e 
em santos, E então o jacobino, não podendo por doença assistir 
á missa que na cathedral de Lucerne e em acção de graças cele- 
brou a colónia portugueza, mandou ao Senhor D. Manuel o se- 
guinte telegramma: «Cumprimentos respeitosos e commovidos 
aoexcellente portuguez que Vossa Magestade sempre toi.» E só 
depois de expedido esse telegramma a minha consciência e sen- 
sibilidade tiveram descanço. Foi como se me alliviassem de um 
grande peso. Porquê? Altos desígnios da Providencia!» 

Era ella, como suprema ironista, a apagar a chamma lebril 
de 1890 e a rasgar as affirmativas enrubrecidss de 1910, para 
reivindicação de um malsinado rei, reevocado de passo em passo* 
como symbolo de um erro e como expiante de penas de outros, 

Estava consummada a obra para que tanto se haviam empe- 
nhado monarchicos e republicanos, pois que, sem a coadjuvação 
d'aquelles, pela tolerância ou pelo auxilio ao combate violenta 
da imprensa e das camarás, estes nada teriam logrado. 

A ceremonia estava completa. 

Mais tarde se disse a Republica duplamente proclamada: 
por José Relvas e pelo dr. Euzebio Leão, ao qual se negou ainda 
a prioridade da acclamação. 

De facto, a el!e coube a primazia, — pelo próprio registada^ 
sem contradicta, logo de principio (*) — até á hora do acto rea» 
lisado. (**) 

Tardiamente se quiz reivindical-a para José Relvas, evo- 
cando-se mesmo reproducções photographicas que o apresentam, 
mas no reeditar da cerimonia acclamativa. 

Quanto a esse acto duplo, erguido e com justiça, íoi pelo 
dr. Theopnilo Braga, sob a verificação dos elementos na occasião 
publicados. 

Deu isso origem a uma entrevista (***) com o dr. Euzebia 
Leão, a esse tempo ministro de Portugal em Roma: 



'(*) O Século de 28 de Outubro de 1910, 
(#*) O Diário de Noticias de 6 de Outubro de 1910. 
(##*) As Novidades de 21 de Dezembro de 1912. 



178 ARMANDO RIBEIRO 



«As Novidades publicaram ha dias uma entrevista com o 
dr. Theophilo Braga, e tendose levantado duvidas, em virtude 
d'essa entrevista, se efectivamente o sr. Euzebio Leão tora quem 
primeiro proclamara a Republica da varanda da Camará Muni- 
cipal de Lisboa, resolvemos aclarar o caso interrogando sobre o 
assumpto o ministro da Republica Portugueza junto do Qui- 
Tinal. S. Ex. a amável, como sempre, dignou se responder-nos o 
seguinte, ao formularmos a pergunta: 

— «Ah! sim, já sabia. . . Agradeço-lhe, ate', o proporcio- 
nar-me a occasiao de desfazer duvidas que a esse propósito se 
levantaram em Portugal. Fui eííectitramente eu o primeiro mem- 
bro do Directório que chegou á Camará Municipal, acompanhado 
pelo sr. Feio Terenas. Pouco depois, chegaram os meus collegas 
do Directório srs. Innocencio Camacho, José Barbosa, Malva do 
Valle e José Relvas. Pouco depois, estando já todos reunidos, 
fiz a proclamação da Republica, tacto que os jornaes registaram 
e de que ha mesmo photographias. O sr. Innocencio Camacho, 
a seguir ltu es nomes dos membros do Governo Provisório e do 
governador civil de Lisboa, e então, tomou a palavra o sr. José 
Relvas saudando o Povo.» 

— «Então o dr. Theophilo Braga não estava presente no 
momento em que foi íeita a proclamação da Republica, por 
V. Ex. a ? 

— «Não. O dr. Theophilo Braga não esteve na Camará 
durante a proclamação. Pode atârmal-o cathegoricamente.» 

O povo, todavia só olhou ao fim, não ligando interesses ás 
peripécias por vezes singulares, que o envolveram. 

E, uma das mais notáveis foi a do auto da ceremonia só 
seis mezes depois (7 de abril de 1911) estar concluido e 
assignado, num trabalho calligraphico de Lourenço Correia Lo- 
bato Cortezão. 

Dizia o seguinte: 

«Auto da Proclamação da Republica Portugueza na Camará 
Municipal de Lisboa. 

«Aos cinco dias do mez de outubro do anno de mil nove- 
centos e dez da era christã, pelas oito horas e quarenta minutos 
da manhã, nesta cidade de Lisboa e edificio dos Paços do Con- 






A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 47$ 



celho, da varanda principal deles, o cidadão Doutor Francisco 
Eusébio Leão, secretario do Directório do Partido Republicano 
Português, em nome deste, como representante do povo repu- 
blicano e das forças revolucionarias de terra e mar, perante mi- 
lhares de cidadãos que se encontravam na Praça do Municipic* 
de Lisboa, declarou que estava abolida a Monarchia em Portu- 
gal e todos os seus domínios e proclamada a Republica Portu- 
guesa, Esta declaração foi recebida com delirantes e prolongadas 
ovações, acclamando o povo o novo regimen com calorosos e 
intensos vivas á Pátria e á Republica. Em seguida, o mesmo 
cidadão acrescentou que sendo o povo português de sua natu- 
reza bom e tolerante, desnecessário seria recommendarlhe a 
maior prudência e o roais absoluto respeito pela vida e haveres 
quer dos extràngeiros quer dos nacionaes, fossem quaes fossem 
as suas opiniões politicas ou religiosas. Continuando disse que 
a Republica Portugueza será um regimen de liberdade e de 
paz, dentro do qual caberão todas as aspirações e iniciativas ge- 
nerosas ; recommendava, portanto, a todos, que mostrassem a 
sua confiança nas novas instituições, sendo magnânimo para 
com os vencidos e voltando ás suas oceupaçoes habituaes, tendo 
em vista que a divisa do novo regimen é «Ordem e Trabalho». 
Prolongados e enthusiasticos applausos do povo acolheram as 
suas palavras Em seguida, o cidadão Innocencio Camacho Ro- 
drigues, membro do Directório, em nome do comité revolucio- 
nário, propôz ao povo os seguintes cidadãos para constituirem 
o «Governo Provisório da Republica Portuguesa:» 

«Presidente sem pasta, doutor Joaquim Theophilo Braga. 
— Interior, doutor António José d'Almeida — Justiça, doutor 
Affonso Costa — Finanças, Basílio Telles — Guerra, coronel An- 
tónio Xavier Correia Barreto — Marinha, Amaro Justiniano de 
Azevedo Gomes — Estrangeiros, doutor Bernardino Luiz Ma- 
chado Guimarães — Obras Publicas, doutor António Luiz 
Gomes. 

«Propôs também para Governador Civil de Lisboa, o dou- 
tor Francisco Eusébio Leão. Cada um destes nomes foi frene- 
ticamente festejado, sendo a proposta approvada por acclamação, 
continuando o povo a manifestar o mais caloroso e intenso en- 



4S0 ARMANDO RIBEIRO 



thusiasmo. Fallou também o cidadão José Relvas, membro do 
Directório, dizendo que o povo portuguez, num grande anceio 
de liberdade, de moralidade e de justiça, conseguira num ex- 
torço sublime redimir a Pátria Portuguesa, proclamando a Re- 
publica. Explicou ao povo a importância do acto realizado e in- 
citou a cooperar eficazmente na obra de reconstrucçao nacional. 
Saudou a heróica cidade de Lisboa, os revolucionários civis, do 
exercito e da armada, louvando os pela sua bravura e ardente 
patriotismo e pela magnanimidade com que trataram os venci- 
dos, num momento em que seriam legitimas todas as represá- 
lias, e terminou com phrases de sentida saudade pelos mortos. 
Calorosos applausos coroaram as suas palavras. Seguidamente 
foi arvorada no edifício dos Paços do Concelho a bandeira ver- 
melha e verde, cores da bandeira sob a qual combateram os re- 
volucionários. Este acto foi recebido pelo povo com grandes 
manifestações de regosijo, E para constar se lavrou este auto 
que, depois de assignado pelos membros do Directório presentes 
a este acto, por vereadores da Camará Municipal de Lisboa e 
cidadãos republicanos de representação, será archivado nesta 
Camará. — Francisco Eusébio Leão — José Relvas — Innocencio 
Camacho Rodrigues — José Barbosa — A. Braamcamp Freire 

— Carlos Victor Ferreira Alves — Ventura Terra —José Mi- 
randa do Valle — Afíonso de Lemes — José Maria Nunes Lou- 
reiro — Manuel António Dias Ferreira — António Alberto Mar- 
ques — Aflonso Costa — António José d'Almeida — Manuel de 
Brito Camacho — José Veríssimo d*Almeida — Ernesto Carneiro 
Franco — Emygdio Mendes — António Maria Malva do Valle 

— Ernesto da Encarnação Ribeiro — José M. de Moura B. Feio 
Terenas — Joaquim Theophilo Braga — António Aurélio da 
Costa Ferreira — Luiz Filippe da Matta — Lourenço Pessoa 
Lobato Cortezão, escreveu e desenhou.» 

Citado que tora o Directório como a entidade proclamadora 
da Republica, ao largo de S. Carlos, onde era a sede da aggre- 
miaçao, se substituiu o nome peio de Largo do Directório por 
proposta apresentada á Camará Municipal pelo vereador Rodri- 
gues Simões (28 de Agosto de 191 3). A ceremonia eflectuou se 
a 3 annos precisos da data do ganho lance, sendo ali affixada a 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 48 1 

placa onde se lia apoz o nome, a indicação: «Proclamou a Re- 
publica em 5 de Outubro de 1910.» 

A assignatura do auto da proclamação, era oficialmente 
communicada quando reunida a camará, citando o respectivo 
presidente a vantagem do documento rectificar a hora do acto, 
indicada pelo Diário do Governo, \ \ horas, quando eram 8 e 
40 minutos. 

Chocando-se, abrindo scisao com o documento elaborado 
em 5 de outubro de 191 o, estava errado, na hora e mencionava 
assignaturas de individualidades que ao acto não assistiram. 

Assim os drs, Afíonso Gosta, Artonio José dWlmeida e Ber- 
nardino Machado. Sobre o primeiro houve a seguinte cathego- 
rica affirmativa: (*) 

«Tem razão A Tatria, o director do Intransigente que fez 
parte desse Comité é o primeiro a certificar e a jurar até se 
for preciso, que o sr Afíonso Costa esteve em casa de José Cor- 
deiro Júnior, em Algés, que entrou em Lisboa ás 11 horas da 
manhã do dia 5 e tudo isso pelo grande receio que o Comité 
tinha de perder o dito sr. Afíonso Costa. Foi até por isso 
mesmo que nunca o pôz ao facto dos trabalhos revolucionários 
que se faziam.» 

O dr. António José d'Almeida, estava em idêntico poiso. (**) 

O dr. Bernardino Machado, de regresso do Minho era sur- 
prehendido, nas alturas de Alemquer, (***) pela pasta dos negó- 
cios estrangeiros com que os dirigentes da sedição o haviam 
brindado, chegando a Lisboa, de automóvel, ás 6 horas da tarde: 

«Quando a Republica se proclamou vinha o sr. dr. Bernar- 
dino Machado nas alturas de Alemquer. Ali está n'um muro a 
respectiva lapide commemorativa, inaugurada com musicas e 
loguetes, no passado dia 5 de outubro. Assignala o sitio onde o 
sr. dr. Bernardino Machado teve a grata nova do luminoso 
advento. Nunca mais o esquecerá a historia! Tal como aquella 
lapide, tantas vezes secular, que ali ao pé do Campo Pequeno^ 



(*) O Intransigente de 16 de junho de 1913. 
(**) O Dia de 27 de Julho de 1914. 

(###) O Dia de 1 de Maio de 1912. Cita egualmente o facto A Republica 
<io 15 de Novembro de 1911, e Diário de Noticias de 6 de Outubro de 1910. 

VOL. IV — FL. 61 



482 ARMANDO RIBEIRO 



no Arco do Cego, commemora as pazes entre D. Aífonso IV e 
seu alho D. Diniz, pela maternal intervenção da santa Rainha 
Izabel. São, n'este género, as duas lapides de muro de estrada 
que conhecemos no paiz! A de D. Affonso IV, o bravo, e a de 
Bernardino Machado, o cordeal! O que tem a vantagem de não 
poder escreverse mais tarde que o illustre filho do Rio de Ja- 
neiro se bateu pela Republica, ou esteve na Rotunda. , . Com 
este idolo, graças á lapide de Alemquer, a historia não terá 
grande trabalho. Com os outros o caso é mais complicado — mas 
já se vae esclarecendo!» 

Isso justificou o seguinte commentario leito pelo chefe da 
Rotunda no seu órgão jornalístico o Intransigente de 22 de 
abril de 1911: 

ccE* um documento deveras curioso pelas surprezas que en- 
cerra. Diz, por exemplo, qne a proclamação da republica foi ás 
8 horas e 40 da manhã. E* mentira ! . . . A's 8 e 44 é que os 
delegados das forças revolucionarias entraram no Quartel Gene- 
ral, e is 8 e 45 é que começou o armistício. Só a esta hora é 
que Ricardo Covões foi encarregado da missão de apressar a 
proclamação. Como, pois, foi proclamada a republica ás 8 e 40 ? 
Os dois ministros que assignam o auto da proclamação ás 8 e 40, 
só ás 10 1/2 da manhã é que transpunham as barreiras de Al- 
gés em direcção á cidade. Como poderiam, pois, ter assignado 
o auto, a não ser por meio da telegraphia sem fios?... Inno- 
cencio Camacho era membro substituto do Directório, e não fa- 
zia parte de nenhum acomité» revolucionário, apesar de ter tra- 
balhado na organisação do movimento. Vae sem commenta- 
rios ! . . . » 

Já assignalámos as divergências de horas, sendo fixadas por 
uns, as 9, (*) e por outros, as 11, (**) se bem que appareceu 
ao mesmo tempo, (***) o trecho affirmando que «os membros 
do Directório foram ás 8 e 40 para a Camará Municipal, onde 
proclamaram a republica, com as acclamaçÕes enthusiasticas 



(*) O Diário de Noticias de 6 de Outubro de 1910. 

(##) O Século de 6 de Outubro de 1910. 

(###) Idem de 5 de Outubro de 1910—3.' edição. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 483 



do povo», não sendo rasoavel a espera de 2 horas e vinte mi- 
nutos para o efíectuar da ceremonia. 

O documento official, devendo fornecer seguras bases, é 
que se encarregou todavia de mais augmentar dificuldades, se 
bem que, não desmanchasse os effeitos do primeiro rescripto. 

Segundo este, as 11 horas, firmaram a proclamação nc sa- 
lão nobre da Camará e, segundo o combatido por Machada 
Santos, radicavamse as 8 e 40 mas como sendo a da procla- 
mação da varanda do edifício. 

Não se assegurou comtudo o verdadeiro momento do acto 
que, em terras extranhas, se constituiria^ notável e rigorosan ente 
marcado. 

Para que melhores incidentes rodeassem o auto celebre, da 
qual se tirou uma copia em pergaminho, para o archivo nacio- 
nal da Torre do Tombo, deu se como desapparecido o original, 
aliás cedido provisoriamente a (*) um denominado Museu da Re- 
voluçãOj fundado pelo revolucionário Celestino Stetíanina. 

Para ali foi, com outros objectos dispensados pela munici- 
palidade, como uma bandeira da Carbonária, estilhaço de gra- 
nada que bateu no muro da Penitenciaria, dois cabos de arame 
que serviram para impedir a passagem da guarda municipal na 
noite de 3 para 4 de outubro de 1910; quatro estatuetas de 
figuras da Republica, sendo duas em barro e duas em gesso ; 
granadas; uma bomba de cholorato de potassa com serpentina, 
fabricada expressamente por João Borges, para a revolução de 
5 de outubro de 1910; fragmento de espada e cinturão de 
guarda municipal; um quadro com diversos artigos do movi- 
mento revolucionário; um sabre partido; balas e um lenço; 
bandeiras e estandartes que serviram na revolução; oito armas 
de fogo e uma granada; fragmento de coronha de espingarda 
do guarda municipal morto por uma bomba na rua do Mundo, 
na manhã de 5 de outubro de igio; uma bala de metralhadora 
e o chapéu armado do almirante Cândido dos Reis, os doiscan- 
dieircs da Avenida, e ainda, o varino e carabina de Manuel 
Buiça, o chapéu e o revolver de Alfredo Costa. 



(#) A Capital de 19 de Setambro de 1913. 



484 ARMANDO RIBEIRO 



O calligrapho Lobato Cortezão, querendo concorrer com 
elle á exposição de artes graphicas, sollicitou o á Camará Muni- 
cipal, por empréstimo. 

Não foi todavia encontrado o documento, por deslembrança 
de haver sido confiado ao Muzeu, o que levou o vereador Alves 
de Mattos a erguer o assumpto em sessão camarária (18 de Se- 
tembro de 1913). 

O facto extranho, teve desde logo alarme nos elementos re- 
publicanos e boatos até o deram como subtrahido pelos adversá- 
rios do regimen. 

A accusação, sublinhada com risadas irónicas, iria a ques- 
tiúnculas largas, se o antigo guarda do muzeu, Aureliano Duarte 
Júnior, se não apresentasse com elle, allegando que, ao desman- 
char do muzeu, e ao destino diverso dado aos objectos expostos, 
na ignorância da entidade a quem pertencia o auto, o levara 
para casa na sua moldura simples, meio encarquilhado, n'um 
semi-desprezo do histórico papel, assignalador d'um regimen 
proclamado. 

A's reclamações, fez a entrega ao vereador Manuel Pereira 
Dias, fechandose assim a extravagante odysseia do auto da pro- 
clamação da Republica em Portugal, que deu d'essa vez en- 
trada no archivo municipal, á epocha sob a guarda do archivista 
Gomes de Brito, e não sem que o revolucionário Celestino Stef- 
fanina expuzesse, friamente, o grau de valor do documento: 

«O celebre auto da proclamação da Republica — diz-nos o 
nosso entrevistado — e que o sr. Alves de Mattos declara ter sido 
lavrado e assignado pouco depois do dia 5 de outubro, sendo 
por esse facto um precioso documento histórico, merecedor do 
mais enternecido carinho, e que deveria estar guardado amoro 
sãmente nos archivos da Camará, não se extraviou, nem tão 
pouco o seu paradeiro era ignorado, porquanto durante seis me- 
zes noticiaram os jornaes a sua exposição no Muzeu da Revolu- 
ção e muitas copias foram vendidss a quem as quiz comprar. 

— aMas como foi o auto da proclamação da Republica para 
o muzeu? 

— «Quando se pensou na organisação do museu revolucio- 
nário combinei com o então vereador municipal sr. Miranda do 






A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ V 485 

Talle a cedência de tcdos os objectos na posse da Gamara e que, 
tendo relações com o acto revolucionário, pudessem âgurar no 
muzeu. Eram poucos esses objectos; apenas umas bandeiras da 
carbonária, e que o sr. Machado Santos havia entregue; o cha- 
péu armado do saudoso almirante Cândido dos Reis, os candieiros 
da Avenida, lurados pelas granadas, e o auto da proclamação. Não 
me recordo de mais objecto algum fornecido pda Camará. Assim, 
tudo quanto lá estava da Camará não foi para lá, como dizia a 
Capital, porque mãos pouco escrupulosas se tivessem apossado 
de objectos, levandoos não se sabendo para onde, e com intui* 
tos que se não pudessem desvendar. Tudo estava lá com conhe- 
cimento da Camará, e tanto que eu havia combinado devolver 
á Camará todos esses objectos e os meus, que figuravam no mu- 
zeu e quanto eu pudesse conseguir dos meus amigos, afim de a 
Gamara organisar com elles o Muzeu da Cidade. Tanto a Ca- 
mará não ignorava o local onde estes objectos estavam que 
ainda ha poucos dias me oficiou, pedindo me para entregar á 
Empreza Industrial Portugueza um dos candieiros, afim de ser- 
vir de modelo para os novos que lá encommendou. Mas ha 
ainda mais: o vereador sr. António Correia, tendo me procurado 
ha tempos, desejou informar-se do que eu tencionava fazer dos 
objectos expostos no Muzeu da Revolução, tendo-lhe respondido 
que os pertencentes á Camará podiam ser entregues logo que 
essa collectividade os quizesse. Aguardando resposta, esperei al- 
gum tempo e, como de novo nos tivéssemos encontrado, disse- 
me o sr. Correia que nada havia ainda sido resolvido. Fica, 
pois, demonstrado que a Camará não podia ignorar onde estava 
o auto. Vem a propósito dizer-Ihe que o tão celebrado auto que 
o sr. Pereira Dias classificou de precioso documento não tem, a 
meu vêr, o mini^o valor histórico. Muitos mezes depois de pro- 
clamada a Republica é que foi feito esse histórico documento e 
os nomes que o assignam, na sua maioria não assistiram ao 
movimento revolucionário. Uns estavam em Alemquer, outros 
em Algés e um d'elles, se não estou em erro, encontrava-se em 
Paris. Segundo a Capital, o precioso documento está assignado 
pelos srs. Eusébio Leão, José Relvas, José Barbosa, Brito Ca- 
macho, Ernesto Carneiro Franco, Malva do Valle, Encarnação 



486 ARMANDO RIBEIRO 



Ribeiro, Feio Tersnas, Anselmo Braamcamp, Carlos Alves, Ven- 
tura Terra, Miranda do Valle, Afíonso de Lemos, Nunes Lou- 
reiro, Dias Ferreira, Alberto Marques, Affonso Costa, António 
José d'Almeida, José Verissimo d'Almeida, Emygdio Mendes, 
Theophilo Braga, António Aurélio da Costa Ferreira e Luiz 
Filippe da Matta, e devo dizer lhe que apenas os oito primeiros 
poderiam, com justiça, assignar aquelle documento, porquanto 
assistiram á proclamação da Republica nos paços do concelho; 
os demais só mezes depois lá foram assignar e alguns mesmo 
assignaram em casa. Para que ligar, pois, tanto valor histérico 
a um documento que, em verdade, o não tem?! Falta apenas 
esclarecer, ou, por outra, rectificar um ponto que não está de 
accordo com a verdade: Não foi o sr. Aureliano Duarte Júnior 
que, de motu próprio, levou o auto á Camará, mas sim eu que 
tal ordenei, ao ter conhecimento do que se havia passado na 
ultima sessão camarária, como egualmente fui eu que lhe re- 
commendei que trouxesse um recibo, como se tem feito para to- 
dos os depositantes. Eis a verdade dos factos O auto estava onde 
a Camará havia auctorisado, e, quanto ao seu valor histórico. . . 
é nulo. & (*) 

Quanto ao Muzeu da Revolução, já encerrado, teve ainda a 
apprehensao de todos os objectos que continha, dando erigem 
ao seguinte officio do revolucionário seu organisador: (**) 

Cidadão Governador Civil de Lisboa — Diz Celestino Stef- 
fanina, solteiro, maior e vacinado, morador na Praça Luiz de Ca- 
mões, 6, o °, Esq. que: Para angariar receitas p^ra uma instituição 
de caridade já existente no tempo da monarchia, e que, talvez 
por isso mesmo tanto tem merecido as perseguições do cidadão 
e de outros tão históricos republicanos, offereceu á Direcção do 
Vintém Preventivo, organisar um Muzeu de Revolução — mu- 
zeu, cujo significado moral nem a todos é dado perceber — para, 
com o produeto das entradas, ajudar á educação de creanças 
nos sãos principios da Democracia, o que tanta falta faz, até 
mesmo aos que já hoje são grandes, muito grandes. Consegui- 



(*) O Século de 20 de Setembro de 1913. 
(#*) O Rebate de 4 de Novembro de 1913. 



A REVOLUÇÃO POHTUGUEZA 487 

ram os então directores do Vintém, obter do ministro da justiça, 
dr. Affonso da Costa, o empréstimo da casa onde, com muitos 
trabalhos e dedicações se conseguiu organisar uma exposição de 
recordações históricas do movimento revolucionário que, é bom 
repetir, nem a todos é dado apreciar e comprehender, e com elle 
se obteve uma receita que deve ter orçado por deis mil escudos 
ou sejam dois contos de réis, como se dizia nos tempos que o 
cidadão ainda deve recordar. E' conveniente frisar, que todas as 
despezas que eu fiz com carros, moços, etc., etc, o foram de mi- 
nha conta, que trabalhei e fiz trabalhar alguns amigos por amore 
ai arte, que obtive gratuitamente algumas madeiras, carreta- 
gens, etc, etc, que em todas as estancias oficiaes encontrei a 
mais dedicada cooperação (era ainda em outubro de igio e 
ainda cheirava a esturro). Por falta de concorrência e por já não 
dar o povo muito apreço ás recordações de um movimento que 
se está parecendo bastante com os dos carangueijos, resolveu a 
direcção do muzeu, fechai- o e fazer entrega dos objectos expos- 
tos aos seus respectivos donos. Não tem isso sido feito com a ra- 
pidez que era de esperar porque para isso não abundam os re- 
cursos para quem vive com pouca abastança, lacuna que não 
poude ainda preencher dada a fraternidade, democraticamente 
failando, é claro, que tão felizmente irmana os felicissimos por- 
tuguezes. E', porém, certo, que esse serviço se ia fazendo pouco 
a pouco e sem que tivesse havido a mais pequena reclamação, 
fundada^ mesmo biologicamente failando. Ora, conspicuo cida- 
dão governador civil, acabo de ser informado que por sua ordem, 
o administrador do 4 o bairro foi hoje, de surpreza, aprehender 
o Muzeu da Revolução!!! Depois das constitucionaes aprehen- 
sões do Intransigente e de outras da mesma força não me sur- 
prehendeu absolutamente nada esta insólita, inconsciente e pouco 
correcta maneira de proceder e por isso, curvando-me diante da 
prepotência, e do arbitrio, peço licença, a mim mesmo, para lhe 
dizer que acho que está certo visto que, já o dizia Gamões: 
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro palor mais 
alto se alevanta. — Lisboa, 1 de novembro de 1913— Saúde e 
Fraternidade, C. Steffanina.* 



488 ARMANDO RIBEIRO 



Destinou-se tudo para um denominado Mu: eu Histórico da 
cidade de Lisboa. 

Se o auto da proclamação camarária, só meio anno depois 
estava findo, pelo prolongamento do período dictatorial revolu- 
cionário, a proclamação parlamentar só oito mezes decorridos 
foi efíectuada. 

A 19 de Junho de 1911, realisava-se a i. a sessão da Assem- 
bleia Nacional Constituinte. 

Presidia Anselmo Braamcamp Freire, secretariado por José 
Miranda do Valle e Carlos António Callixto. 

Davase a assistência dos delegados á Assembleia, Abel Ac- 
cacio de Almeida Botelho, Abilio Baeta das Neves Barreto, 
Achilles Gonçalves Fernandes, Adriano Augusto Pimenta^ 
Adriano Gomes Ferreira Pimenta, Adriano Mendes de Vascon- 
cellos, Afíonso Augusto da Gosta, Aífonso Ferreira, Aftonso Hen- 
riques de Prado Castro e Lemos, Albano Coutinho, Alberto 
Carlos da Silveira, Alberto da Costa Souto, Alberto de Moura 
Pinto, Albino Pimenta de Aguiar, Alexandre Augusto de Bar- 
ros, Alexandre Braga, Alexandre José Botelho de Vasconcellos 
e Sá, Alfredo Balduíno de Seabra Júnior, Alfredo Botelho de 
Souza, Alfredo Djalme Martins de Azevedo, Alfredo José Durão, 
Alfredo Maria Ladeira, Álvaro Poppe, Álvaro Xavier de Castro, 
Amaro Justiniano de Azevedo Gomes, Américo Olavo de Aze- 
vedo, Amílcar da Silva Ramada Curto, Angelo Vaz, Annibal 
de Souza Dias, Anselmo Augusto da Costa Xavier, Antão Fer- 
nandes de Carvalho, António Aífonso Garcia da Costa, António 
Alberto Charula Pessanha, António Amorim de Carvalho, An- 
tónio Barroso Pereira Victorino, António Brandão de Vascon- 
cellos, António Caetano Celorico Gil, António Caetano Macieira 
Júnior, António Cândido de Almeida Leitão, António de Car- 
valho Mourão, António Joaquim Ferreira da Fonseca, António 
França Borges, António José d^imeida, António José Louri- 
nho, António Ladislau Parreira, António Ladislau Piçarra, An- 
tónio Maria de Azevedo Machado Santos, António Maria da 
Silva Barreto, António Maria da Cunha Marques da Costa, An- 
tónio Pádua Correia, António de Paiva Gomes, António Pires 
de Carvalho, António Pires Pereira Júnior, António Ribeiro 



A REVOLUÇÃO PORTUGTJEZA 489 

Seixas, António doi Santos Pousada, António da Silva e Cunha, 
António Joaquim Souza Júnior, António Xavier Correia Bar- 
reto, António Valente d*Almeida, Arthur Augusto da Costa, 
Arthur Augusto Duarte Luz de Almeida, Arthur Rovisco Gar- 
cia, Augusto Almeida Monjardino, Augusto José Vieira, Aure- 
liano da Maia Fernandes, Balthazar de Almeida Teixeira, Ber- 
nardino Luiz Machado Guimarães, Bernardo Paes de Almeida, 
Carlos Amaro de Miranda e Silva, Carlos Henrique Maia Pinto, 
Carlos Maria Pereira, Carlos Olavo Correia de Azevedo, Carlos 
Richter, Casimiro Rodrigues de Sá, Celestino Germano Paes de 
Almeida, Christovam Moniz, Domingos Leite Pereira, Domin- 
gos Tasso de Figueiredo, Eduardo de Almeida, Eduardo Pinto 
de Queiroz Montenegro, Elysio de Castro, Emygdio Guilherme 
Garcia Mendes, Ernesto Carneiro Franco, Evaristo Ferreira de 
Carvalho, Ezequiel de Campos, Faustino da Fonseca, Feinando 
Bissaia Barreto, Fernando da Cunha Macedo, Fernão Botto 
Machado, Fortunato da Fonseca, Francisco António Ochôa, 
Francisco Correia de Lemos, Francisco Cruz, Francisco José 
Pereira, Francisco Manuel Pereira Coelho, Francisco Luiz Ta- 
vares, Francisco de Salles Ramos da Costa, Francisco Teixeira 
de Queiroz, Francisco Xavier Esteves, Gastão Raphael Rodri- 
gues, Gaudêncio Pires de Campos, Germano Lopes Martins, 
Guilherme Neves Godinho, Henrique Cardoso, Henrique José 
Caldeira Queiroz, Henrique de Souza Monteiro, Ignacio Maga- 
lhães Basto, Innocencio Camacho Rodrigues, João Barreira, 
João Carlos Nunes da Palma, João Duarte de Menezes, João 
Fiel Stockler, João Gonçalves, João José de Freitas, João José 
Luiz Damas, João Luiz Ricardo, João Machado Ferreira Brandão, 
João Pereira Bastos, Joaquim António de Mello Castro Ribeiro, 
Joaquim Brandão, Joaquim José Cerqueira da Rocha, Joaquim 
José de Oliveira, Joaquim José de Sousa Fernandes, Joaquim 
Pedro Martins, Joaquim Ribeiro de Carvalho, Joaquim Theo- 
philo Braga, Jorge Frederico Vaidez Caroço, Jorge de Vascon- 
cellos Nunes, José Affonso Rolla, José Alfredo Mendes de Ma- 
galhães, José António Arantes Pedroso Júnior, José Barbosa, 
José Barros Mendes de Abreu, José Bernardo Lopes da Silva, 
José Bassa de Carvalho, José Botelho de Carvalho Araújo, 

VOL. IV — PX. 62 



490 ARMANDO RIBEIRO 



José Carlos da Maia, José de Castro, José Cordeiro Júnior, 
José Cupertino Ribeiro Júnior, José Dias da Silva, José Este- 
vam de Vasconcellos, José Forbes Bessa, José Francisco Coelho, 
José Jacintho Nunes, José Luiz dos Santos Moita, José Ma- 
chado de Sousa, José Maria Cardoso, José Maria de Moura 
Barata Feio Terenas, José Maria de Pádua, José Maria Pe- 
reira, José Maria Vilhena Barbosa de Magalhães, José Mendes 
Cabeçadas Júnior, José Montez, José Nunes da Matta, José 
Perdigão, José Pereira da Costa Basto, José Relvas, José da 
Silva Ramos, José Thomaz da Fonseca, José Tristão Paes de 
Figueiredo, José do Valle Mattos Cid, Júlio do Patrocínio Mar- 
tins, Leão Magoo Azedo, Luiz Augusto Pinto Mesquita Car- 
valho, Luiz Innocencio Ramos Pereira, Luiz Maria Rosette, 
Manuel Alegre, Mauuel de Arriaga, Manuel Bravo, Manuel de 
Brito Camacho, Manuel Goulart de Medeiros, Manuel José Fer- 
nandes Costa, Manuel José de Oliveira, Manuel Martins Car- 
doso, Manuel Rodrigues de Silva, Manuel de Sousa da Camará, 
Mariano Martins, Miguel Augusto Alves Ferreira, Narciso Alves 
da Cunha, Pedro do Amaral Botto Machado, Pedro Januário 
do Valle Sá Pereira, Pedro Moraes Rosa, Philemon da Silveira 
Duarte de Almeida, Porphirio Coelho Castro da Fonseca Ma- 
galhães, Ramiro Guedes, Ricardo Paes Gomes, Rodrigo Fer- 
nandes Fontinha, Sebastião de Magalhães Lima, Sebastião Peres 
Rodrigues, Sebastião de Sousa Dantas Baracho, Severiano João 
da Silva, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Paes, Thiago 
Moreira Salles, Tito Augusto de Moraes, Thomé José de 
Barros Queiroz, Victor José de Deus Macedo Pinto, Victorino 
Guimarães e Victorino Henriques Godinho. 

Foram estes os proclamadores da Republica na histórica 
sessão de 19 de Junho. 

Perante elles e com a sua sanção unanime, se fez leitura do 
decreto que abolindo a realeza, confirmava a sua substituição 
pelo regimen democrático; 

Republica Portuguesa— Decreto da Assembleia Nacional Constituinte 

«A Assembleia Nacional Constituinte, confirmando o acto 
de emancipação realizado pelo povo e pelas íorças militares de 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 491 

> I .- .1 ,..■■■-- . I.l I ■ l« I ■ ■■! I .1 

terra e mar, e reunida para definir c exercer a consciente sobe- 
rania, tendo em vista manter a integridade de Portugal, consoli- 
dar a paz e a confiança na justiça, e o bem estar e progresso do 
Povo Portuguez — proclama e decreta: 1,° Fica para sempre 
abolida a monarchia e banida a dynastia de Bragança. 2.° A 
forma de Governo de Portugal á a de Republica Democrática, 
3.° São declarados beneméritos da Pátria todos aquelles que para 
depor a monarchia heroicamente combateram até conquistar a 
victoria, ccnsagrando-se para todo o sempre, com piedoso reco- 
nhecimento, a memoria dos que morreram na mesma gloriosar 
empresa.» 

Approvado, por entre vivas á Republica, era esta procla- 
mada da varanda do Parlamento ás 12 horas e 36 minutos da 
tarde. 

As tropas desfilaram em continência por defronte dos mem- 
bros da Assembleia Constituinte, emquanto o povo nas ruas 
acclamava victoriosamenre o regimen nascido da revolução de 
5 de Outubro de 1910. 

Do acto e por proposta do deputado Arthur Costa, (sessão 
de 22 de Junho de lgi i) se lavrou auto, em duplicado, para 
os archivos da Torre do Tombo, Gamara dos Deputados e Ca- 
mará Municipal de Lisboa. 

Como sucedeu com o documento lavrado nos Paços do Con- 
celho, tarde se eflecti vou essa deliberação e d*ahi, a impossibilidade 
de n'elle se firmar algumas assignaturas, como a do dr. Eduardo 
de Abreu, fallecido antes de se concluir o documento histórico 
assignalador da proclamação ieita em 1910. 

Esta, veio confirmar as varias prophecias realisadas pelos 
politicos e pelas videntes. 

Representavam as ultimas, a cultora de sciencias occultas, 
madame r Broaillard^ a portugueza Virgínia Rosa Teixeira, de 
appelido Brouillard, pelo seu casamento com um francez d'esse 
nome, e a franceza, madame de Thebes, dizendo esta no seu 
antever de factos do anno de 1909 : 

«Algumas coroas cahirão, não sendo, a maior de todas a 
que fará mais ruido ao cahir, nem a sua queda será a que mais 
consequências traga para a paz do mundo.» 



492 ARMANDO RIBEIRO 



Appareceu ainda citada a previsão proclamadora, cm 1882j 
n*uma sessão espirita, cuja acta assim concebida, fazia parte de 
documentos encontrados no convento do Quelhas: 

«Sessão de magnetismo em 11 de Fevereiro de 1882. Pre- 
sidência do Ex. m0 Sr. D. António Pessanha, achando se presentes 
os seguintes cavalheiros: srs. Pinto Moutinho, António Joaquim 
Simões d'Almeida, Jeronymo Mourão. A's nove horas e vinte 
minutos da noite passavam estes quatro últimos cavalheiros a 
magnetisar a meza, a qual ficou prompta ás nove horas e vinte 
c três minutos; foi invocado em seguida o espirito de EIRei 
Don Sebastião de Portugal. Interrogado para dizer a razão por- 
que fez a guerra aos mouros, deu a seguinte resposta : «Galavos». 
Perguntado sobre este idioma disse — Árabe. — Não podendo 
responder mais nada sobre este assumpto, foi interrogado sobre 
outros pontos, dando as seguintes respostas : Foi prisioneiro 
por Philippe da Hespanha com o fim da «Ibéria;» morreu em 
Sevilha no anno de i58l, de morte natural; e disse mais, por 
lhe ser perguntado, que não pode haver união entre Portugal e 
Hespanha. Que a monarchia portugueza durará 21 annos, sendo 
o reinado de D. Luiz I seis annos, findos os quaes abdicará para 
D. Carlos; findo este tempo será a Republica Portugueza im- 
plantada pelas armas, sendo o seu presidente o dr. Manuel 
de Arriaga, advogado, tendo a ,nação prosperidades com o go- 
verno republicano.» 

Em relação aos prasos, todos em erro, melhores prophetas 
íoram os politicos, e assim o dr. Bernardino Machado, afirmando 
a Jules Hedeman em 1907, a proclamação da Republica para 
d'ahi a três annos. 

Cumprirase essa fé e talvez mais pelo voto enérgico e im- 
pulsivo, d'esse revolucionário plebeu, o caldeireiro António de 
Oliveira que, aocahir ferido pelas balas da guarda municipal, junto 
ás grades da egreja de S. Domingos, pelo 5 de abril de 1908, 
já no estertor, traçava, com o próprio sangue, uma cruz e um 
barrete phrigio. 

Apontava o fim da monarchia e o advento da Republica, 
no dia 5, como a 5 elle expirara, com 22 annos, pela causa de 
que era victima. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 



493 



Preadivinhou-a ainda a Santa Casa da Misericórdia de Lis- 
boa que alterando, a cada loteria, as côres dos respectivos bilhe- 
tes, destinou tempo antes, para a que devia andar a 5 de outu- 
bro, as côres verde e encarnada. 

Era a intima percepção d'uma victoria das côres que a Re- 
publica symbolisava. 

A proclamação, todavia, registaram na coincidências fatídi- 
cas: á hora em que ella se eftectuava, o relógio da Basílica da 
Estrella, deu quatro badaladas e não mais andou, e o da egreja 
de S. Roque, desde esse momento, seguia- lhe o exemplo de abs- 
tinência trabalhadora. . . 





1 



VII 



<A posse do quartel do Carmo — - A attitude da municipal 
— O coronel Malaquias de Lemos — Os incidentes 
com a 4. a companhia da guarda — Formação da 
guarda nacional republicana. 




estava, para a submissão, o quartel do Carmo. 

A* camará municipal fora levado o aviso de 

que o coronel Malaquias de Lemos, desejava a 

presença de um representante do Directório para 

o arvorar da bandeira republicana. 

De trem para ali se dirigiu o revolucioná- 
rio Innocencio Camacho. 
A sede da guarda municipal estava já conformada com a 
situação. 

A populaça accumulada no Rocio, procurara convencer os 
anunicipaes, agitando as bandeiras e os lenços. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 495 

Uma praça correspondeu, da varanda e a multidão solem» 
nisou o gesto com applauso prolongado. 

Perceberão todavia o coronel Malaquias de Lemos e inti* 
mava o soldado a guardar o lenço. 

Adivinhouse da Praça de D. Pedro, a scena alem passada 
e uma descarga foi íeita contra o Carmo. 

O commandante já avistara a bandeira branca tremulando 
no quartel general. 

De facto, n'essa altura a resistência nada significaria, demais 
com o espectáculo, frisante, da outra soldadesca trocando am- 
plexos com os civis enthusiasmados. 

Ficou, com o aspirante de lanceiros, Torres, assistindo 
impassível á fusilaria. 

Despertando o da surpreza e insinuando o que urgia fazeiy 
uma voz apontou a aggressão como resultante de não ter apps- 
recido indicio algum da submissão da municipal. 

Malaquias de Lemos, pedia então uma toalha ou um lençol. 

Suscitouse a ideia de apresentar uma coberta de cama, 
proposta regeitada pelo coronel sob fundamento de que, sendo 
encarnada, representaria um emblema democrático, indo alem 
da atíitude do commando superior. 

A* multidão se apresentou assim, seguro n'uma vara com- 
prida, um lençol arrancado ao leito de um sargento. 

O fogo cessava então, sendo substituído pelas palmas e vi- 
vas da peonagem que febril aguardava as deliberações do quar- 
tel da municipal. 

Em espectativa se passaram alguns minutos. 

lnterrompeu-a novo tiroteio. 

Já não era ataque, mas contentamento. 

A bandeira verde-rubra ostentava-se já no edifício do larga 
de S. Domingos. 

O lance attingia o fim culminante. A democracia ganhara 
a partida. Malaquias de Lemos decidia obstar ao recomeço de 
hostilidades, e fez substituir a improvisada bandeira de paz 
por um guião vermelho. 

Apresentavam se n'essa altura trez delegados do Centro 
Republicano Rodrigues Nogueira, o merceeiro José da Costa r 



|#6 ARMANDO RIBEIRO 



o photographo Júlio Novaes e o fabricante de saccos de papel 
Júlio Machado, que entregando ao commandante da munici- 
pal o estandarte da associação, lhe sollicitaram a collocaçao na 
varanda do lado do Rocio. 

A essa ceremonia procedia o otficial, emquanto da parte do 
largo do Carmo, a multidão que acompanhava os trez repre- 
sentantes do Centro, exigia a collocaçao ali de outro estandarte. 

A populaça ameaçava invadir o edifício, frenética, pelo 
que Malaquias de Lemos, determinava o encerramento das portas. 

O facto levantaria mais attrictos, se na falta de bandeira, 
o merceeiro José da Costa, não satisfaz o pedido, utilizandose 
do lençol com que se evidenciara a dispensa de combate, e onde 
traçava com tinta, as palavras Viva a Republica! 

Entretanto, fazia se aolemnemente annunciar, como emissá- 
rio do Directório Republicano, o lente da Escola Polytechnica, 
Innocencio Camacho. 

Recebido pelo coronel Malaquias de Lemos, notificava lhe 
-a proclamação da republica e convidava-o a deixar o cargo. 

O oflQcial, exigia explicações sobre a situação do cominando 
da divisão, e se o Directório se responsabilisava pela vida da 
iamilia real. 

O delegado revolucionário, respondeu que o general Antó- 
nio Carvalhal substituirá já o general Gorjão e quanto ao rei 
e as rainhas D. Amélia e D. Maria Pia, teve a phrase ao mesmo 
tempo enérgica e secca: 

— Bem pode crer que n'este momento o nosso maior em- 
penho é guardar religiosamente essas pessoas. 

Consummado o acto, e comprehendido que tudo findo estava, 
o commandante das guardas municipaes, declarou-se prompto 
a entregar o cargo, perguntando o que devia fazer. 

Dado foi o substituto como á porta do edifício. 

Era certo. 

Innocencio Camacho encontra junto á camará municipal, 
o general Encarnação Ribeiro, e convidou o a assumir o logar 
que ia ser retirado a Malaquias de Lemos. 

A surpreza do militar, aliás envolvido na sedição, deu a 
nota suggestiva na pergunta: 






A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 497 

■ ■ - - ■ .1 . . - . ■» 

— Mas quem é que me nomeia? 

— O Directório do Partido Republicano. 

Acatava a deliberação, acompanhando ao Carmo o delegado 
directorial. 

Convidado a subir, entrava no quartel, onde no gabinete 
do coronel da municipal, recebia a investidura no commando 
pela apresentação feita a todos os oflkiaes. 

Seguiu se, e ainda por mando do demittido chefe da 
guarda, a publicação de uma ordem onde se participava a en- 
trega do commando ao general de brigada Ernesto da Encar- 
nação Ribeiro, um dos organisadores^do plano revolucionário. 

Commandara* como tenente coronel, o batalhão de caçado- 
res 2. Gabendolhe o ascender ao posto iramediato, confiada lhe 
foi a chefia de infantaria io, com sede em Bragança. Mais 
affeiçoado aos regimentos de Lisboa, trabalhou para regressar 
á capital. 

A* não satisfação do desejo, por obstáculos que se deram 
até como tendo origem em suspeitas, certas, de professar o ideal 
republicano, requereu a passagem á reserva. 

A. sedição, achandoo como cooperador, trouxe-lhe ao ganho 
lance, a prebenda alta, depois confirmada no seguinte decreto 
publicado no «Diário do Governo» de 13 de outubro: 

«Hei por bem nomear commandante geral da guarda re- 
publicana, creada por decreto d'esta data, para velar provi- 
soriamente pela segurança e liberdades publicas, nas cidades de 
Lisboa e Porto, o general de brigada do quadro de reserva, 
Ernesto da Encarnação Ribeiro.» 

O povo, entretanto, afíluindo de victoriar, na Praça do Mu- 
nicípio, o governo provisório, vinha junto do quartel exigir 
fosse arvorada a bandeira republicana do lado do largo do 
Carmo. 

Innocencio Camacho, assomando á varanda, esclarecia, en- 
tre acclamações, que a bandeira do Directório se encontrava na 
janella da parte do Rocio, e que já abandonara o cargo o coro- 
nel Malaquias de Lemos. 

Isso não obstou a que vistos fossem de fora, os retratos da 
familia real, collocados na sala dos otficiaes. 

VOL. IV — Ft. 63 



493 ARMA.NDO RIBEIRO 



A populaça referveu em injurias e doestos. 

O coronel, fazia os d'ali retirar, emquanto o delegado do 
Directório aconselhava calma e o general Ribeiro, fazia desterrar 
as portas para que o povo visse bem que o quartel do Carmo 
perdera todo o temerário aspecto de um entrave á vencedora 
causa. 

As próprias armas começaram a ser enfeixadas, para remo- 
ção, o que se effectuou no dia seguinte, dando entrada nos de- 
pósitos de marinha, transportadas em 5 carroças escoltadas por 
praças da armada, sob o commando do medico naval Vascon- 
ceilos e Sá. 

De instante apparecia no Carmo, o commissario naval Ma- 
chado Santos. 

Deparava-se-lhe a obra consummada, ouvindo apenas da 
bocca de Malaquias de Lemos, o descrever da situação. 

Reuniram se lhe, n'esse momento, o velho republicano 
José Maria de Moura Barata Feio Terenas e o dr. Eusébio Leão, 
portadores da bandeira grande do Directório. 

O segundo, apresentava a ao commandante para que a fi- 
zesse arvorar, ficando pertença da futura guarda republicana. 

Tendo procedido já a acto idêntico, escusou se, allegando 
que devia ser dada ao seu suecessor. 

O dr. Eusébio Leão, insistia e Malaquias de Lemos, que- 
rendo terminar um incidente que ameaçava prolongar-se, pre- 
tendeu passala ao tenentecoronel, que disse: 

— Está em boas mãos, 

Entregava a então ao tenente Pessoa, seu portador até á 
varanda, onde o destituido chefe das guardas, recebendo a de 
novo, a confiava a dois soldados que por ella substituíram o 
guião. 

Malaquias de Lemos, ajudava a a collocar com a assistência 
da otficialidade e dos delegados da revolução. 

Disse-se que, n'essa altura, beijara a bandeira. 

Não teve base a aôirmativa e desmentia-a (*) o dr. Eusébio 
Leão: 



(#) O Século de 28 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 499 



aPouco tempo depois vieram dizer me que Malaquias de 
Lemos estava á espera de alguém do Directório para se arvorar 
a bandeira republicana no quartel do Carmo. Dirigi-me para 
lá com Feio Terenas e, no caminho já, mandei buscar a ban- 
deira do Directório. Quando cheguei já lá encontrei Innocencio 
Camacho. Peguei então na bandeira, convidando Malaquias de 
Lemos a arvorala. Elle, porém, pediu licença para a passar ao 
seu ajudante, dizendo que ficaria em muito boas mãos. 

— «E, n'essa occasiao, elle não beijou a bandeira repu- 
blicana, coníorme correu? 

— aNão senhor, isso é falso. Passou-se só isto que lhe acabo 
de dizer. Em seguida dirigimo nos todos para a varanda do 
quartel, e ahi, como fosse muito ditficil o collocar a bandeira, o 
mesmo Malaquias de Lemos ajudou a fazei o. t 

O facto teve idêntica reproducção no estrangeiro: 

«Luego vá (José Barbosa) ai cuartel dei Carmo, donde se 
halla el jefe de la Guardiã Municipal, Malaquias de Lemes, y 
le exige su palabra de honra de que aquella fuerza no hará 
armas contra los republicanos. Sobre hacerlo, Malaquias de Le- 
mos iza por su propia mano la bandera rojo y verde.» 

Entregue o quartel, o coronel Malaquias abandonava Lis- 
boa, pela tarde, seguindo para a vilU de Cascaes. 

Sobre a attitude de Malaquias de Lemos, se bordaram com- 
mentarios, levados ao ponto de se dar o commandante das guardas 
municipaes, como entendido com os republicanos, oppondo á 
sua acção um retrahimento, por parte da guarda, que aliás, se illi- 
bou, quasiem absoluto, das arguições feitas ao seu chefe supremo. 

Demais, os próprios democratas, insinuaram os especiaes cui- 
dados havidos durante as detenções pela janeirada, vindo até 
João Chagas frisar que ttinha bem presente ao espirito a in- 
tranquillidade do sr. Malaquias de Lemos quando antes do 28 
de Janeiro o trouxe encerrado no quartel dos Paulistas.» 

A orientação do official não divergiu porém da annunciada 
por tantos outros, e se não foi uma entrega, verdadeira, aos re- 
voltosos, constituiu uma submissão ás circumstancias. 

Echos d'esse assumido aspecto foram longe levados e a Cor- 
respondência de Espana, (outubro de 1910), reproduziu até 



300 ARMANDO RIBEIRO 



as seguintes declarações attribuidas ao marquez de Lavradio: 

Fui eu que participei aos reis a traição do coronel-com- 
mandante da guarda municipal, que, não só jurou obediência 
á Republica, mas chegou a beijar a bandeira republicana. Estas 
e outras detecções dos que tinham como fieis, produziram no 
monarcha taes sur prezas e dor que, ao conhecerem «nas, não 
poderam conter as lagrimas.» 

Fora veridico o acto de informação e relatou-se (*) até a 
scéna : 

«Em Gibraltar começaram a receber-se as primeiras noticias 
de Portugal e as noticias dos primeiros adherentes, e, então 
ElRei recordava textualmente: 

— «Nem este se salvou! E este também!. . . Ainda outro 
dia esteve coramigo no Paço, a conversar, muito bem, muito 
leal ! . . . » 

«Como lessem a noticia que não sabemos se está confirmada, 
de que c sr. coronel Malaquias de Lemos, commandante das 
guardas municipaes hasteara por suas mãos a bandeira republi- 
cana, El-Rei exclamou: 

— «Até o Malaquias? Quem havia de dizer que aquellc 
homem se portava assim!. . . 

«E alguém então recordou : 

— aQuando em meados de janeiro de 1908, vínhamos com 
El-Rei D. Carlos de Villa Viçosa, chegámos pelas 5 horas da 
manhã á estação do Birreiro. O Senhor D. Carlos ficou algum 
tempo ainda a dormir. E o coronel Malaquias, que acompa- 
nhava o augusto Pae de Vossa Magestade, lamentou se: «Ora 
esta! andar a gente n'estes assados por causa do João Franco!...» 

O tenente Estevam Wanzeller, historiando (*•) os successos 
do quartel do Carmo, não hesitou em salientar uma transigên- 
cia de Malaquias de Lemos, apontandoo mesmo como a lazer 
signaes com o lenço afim de que findasse o tiroteio pelos rebel- 
des do Rocio. 

Assignalava-lhe até o pedido incessante de um clarim para 



(#) Diário dos 'Vencidos, por Joaquim Leitão, pagina 315. 
(*#) Idem, pagina 20i. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZ V 501 

dar o toque de cessar fogo, na avidez de que vissem não haver 
ali resistência. 

O coronel, embora com o expressar de vontade de reforma, 
formulava no quartel general a 7 de outubro u juramento de 
adherencia; vindo a 14, o decreto que o exonerava do com- 
inando das guardas. 

Presente á junta, que na primeira reunião o deu por apto, 
vendo latente a malquerença com base nos successos do quartel 
do Carmo, obtinha a passagem á reserva, por despacho que a 
Ordem do Exercito publicou a 27 de outubro, seguindo-se-lhe 
a reforma em general de divisão. 

Desterrando se, voluntariamente, para Castello Branco, onde 
nascera a 19 de novembro de 1848, como se mantivesse a ani- 
mosidade a seu respeito, exilava-se, em junho de 1911, mercê 
não só da apreciação á attitude no 5 de outubro, mas de con- 
selhos de amigos que lhe percebiam o soffrimento moral. 

Perfeita sombra do que fora, tomou-se irreconhecível para 
os portuguezes que por elle passavam na cidade de Madrid, 
onde vinha a fallecer a 9 de Fevereiro de "1912, sob a preoc- 
cupação constante das arguições que lhe foram feitas e dadas 
como a causa da sua morte, embori a medicina, pelo seu medico 
assistente, dr. Siersa, madrileno, classificasse a doença de tumor 
maligno no estômago, com complicações de anemia perniciosa. 

Era filho do fallecido general Malaquias de Lemos, gover- 
nador da praça de Elvas, e commandanie de cavallaria 8 e da 
l. a e 3. a divisões militares. Alumno do Collegio Militar, sahia 
alteres para cavallaria 8 em 14 de janeiro de 1869 sendo pro- 
movido a tenente ajudante em 18 de agosto de I875, a capitão 
em 20 de dezembro de 1883; a major em 3 de abril de 1893, 
a tenente-coronel em 28 de fevereiro de 1895, e a coronel em 
29 de dezembro de 1898. Em 1884 era chefe da primeira sec- 
ção da inspecção gerai de cavallaria; em 1886 foi nomeado 
para servir na guarda fiscal; em 1887 ajudante de campo do 
commandante interino da terceira divisão militar, e do general 
inspector geral da arma de cavallaria; em 1888 ajudante ho- 
norário do infante D. Affonso; em 1890 official ás ordens de 
el-rei D. Carlos. Em i885 teve a nomeação de chefe da segunda 



502 ARMANDO RIBEIRO 



repartição da direcção geral da secretaria da guerra; em 1897 
a de chefe do estado maior do commando geral de cavallaria,, 
passando depois a chefe da primeira repartição da direcção ge- 
ral da secretaria de estado dos negócios da guerra. Em i885 
fora nomeado para coadjuvar o general encarregado de inspec- 
cionar o regimento de caçadores 10; em 1890 serviu como 
adido á repartição do gabinete do ministério da guerra empre- 
gado na elaboração de regulamentos especiaes; nomeado mem- 
bro do jury de exames de capitães de cavallaria candidatos ao 
posto de major, em 1899. Fora ajudante de cavallaria 8, quando o 
pae era commandante d'aquelle regimento, sendo em 1902 
nomeado commandante das guardas municipaes. Era comrnen- 
dador e cavalleiro da ordem de S Bento de Aviz, cavalleiro da 
de Nossa Senhora da Conceição, grancruz da ordem de mérito 
militar de Hespanha, e cavalleiro da Águia Vermelha da Prússia. 
A despeito de insistentes pedidos de amigos para que er- 
guesse a luva perpectuamente arremessada ao seu caminho, não 
o quiz fazer, em vida. 

Guardou, todavia, um documento, as suas memorias, en- 
cerradas em outubro de 1911, e apparecidas por sua ordem y 
como revelação posthuma dos acontecimentos em que tivera 
interferência. 

Intitulavam-se aGeneral Malaquias de Lemos. A sua acção 
durante a revolução de outubro de 1910» e dividiamse em 
trez capítulos: a Aclarações previas», «Antecedentes da Revo- 
luçãoi e «O que se diz contra mim». 

Malaquias de Lemes, que pedira aos Íntimos, a máxima 
publicidade, (*) «pois desejava que a todo o tempo se soubesse 
que não era um cobarde nem um traidor.» falia va assim no 
intróito, Aclarações previas: 

«Após os suecessos de 4 e 5 de outubro de 1910, procurei 
retugiarme n'um retiro em que me encontrasse a sós com a 
minha mágua e aonde não chegassem os echos das paixões tu- 
multuosamente desenfreadas em taes momentos de agitação. 



(#) Começou a publicação no Diário de Noticias de 25* de Fevereiro 
de 1912. terminando em 4 do mez seguinte. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 503 

«Etecti vãmente, com o espirito abatido pelo desgosto maior que 
poderia ferir-me, ao cabo da minha carreira militar de 44 an- 
nos, sem mácula, sem esquecimento do dever, sem destaleci- 
mento sequer, e ainda com a saúde do corpo gravemente aba- 
lada, após tantos e tão rudes golpes e emoções, o que mais 
necessitava eu era repouso e quietude. Mas estes desgostos e 
males tísicos vieram agravar-se com algumas noticias, embora 
vagas, de que contra mim se faziam severíssimos e injuriosos 
juízos, não faltando quem chegasse a falar da minha traição. 
<lK tacil retalhar honra de um homem, atribuindo lhe calunio- 
samente erros que não cometeu ou desvirtuando o que digna- 
mente praticou. A leviandade e o vulgo faz o resto. Durante 
longos mezes de doença moral e física de que estou longe de 
encontrar- me restabelecido, estive absolutamente impossibilitado 
•de coordenar factos e reunir ideias para explicar o meu proce- 
dimento, antes do movimento revolucionário e durante ele. Cor- 
reram entretanto os can-cans, forjaram se a meu respeito as 
mais odiosas lendas e creouse um estado de opinião que me é 
hostil, só porque a verdade foi falseada. Não duvido de que a 
Historia a todos fará justiça em seu dia repondo as coisas nos 
seus devidos legares; mas a justiça histórica é lenta e eu neces- 
sito esclarecer factos que andam deturpados, para satisfazer a 
pessoas que me teem pedido informações sobre o assunto e 
elucidar outras que eu entendo deverem conhecer taes factos. 
A esse esclarecimento venho sem subtilezas, sem subterfúgios, 
falar a linguagem da verdade, com a lealdade do soldado con- 
sciente de haver sabido honrar a sua farda e cumprir até ao 
fim o dever. E' a primeira vez que na minha longa carreira 
militar, recorro a este meio para justificar os m^us actos, de que 
nunca dei conta senão aos meus legítimos superiores. E será 
também a ultima, pois que essa carreira está finda. Dos factos 
que vou expor, com tanta lucidez quanta é possível no estado 
precário da minha saúde, existem numerosos testemunhos. Em 
muitos pontos terei que ser, talvez, um pouco prolixo, mas a 
minúcia é necessária, porque ha pormenores que derramam luz 
sobre os acontecimentos. A exposição que vou fazer é, pois, rigo- 
rosamente exacta. Unicamente, quando em absoluto não as 



S04 ARMANDO RIBEIRO 

omito, nao me detenho em referencias que poderiam ter o as- 
pecto de acusações, porque não é meu fim acusar ninguém,, 
mas tão somente referir a verdade sucinta sobre o meu com- 
portamento, durante aquelas horas de infinita tristeza. Nada 
mais.» 

A derradeira parte, era o contrachoque das accusaçoes que 
lhe foram feitas : 

«Entre as terríveis accusaçoes que se me fazem, por male- 
volencia de uns e ignorância de outros, figura em primeiro lo- 
gar a de que fui um traidor, que me vendi. Nada menos! Esta 
odicsa acusação, tão pérfida como iníqua, é vaga e não se 
apoia no mais pequeno facto concreto ou em um indicio, sequer. 
Não importa. A calunia dispensa todas as provas quando se 
empenha em ferir alguém. Ao meu passado sem mancha, á mi- 
nha consciência honrada repugna responder a estas infames 
imputações. Por isso só acrescentarei ao relato fiel dos acon- 
tecimentos, que acaba de ler-! e, a afirmação solemne, sob minha 
palavra de honra, que da Republica apenas tenho recebido 
aquilo a que a minha posição official me dá direito. Que se 
apresente a pessoa que pussa desmentir me n'este ponto ou em 
qualquer outro da minha exposição. Pelo contrario, notarei que 
fui tratado sem as atenções que para com outras autoridades 
houve, depois de proclamada a Republica. Não seria, ainda 
decorrida uma hora desde que se consumou este facto, quando 
me foi imposta a entrega do comando das guardas, emquanto 
que ao sr. comandante da divisão foi oferecido continuar no 
comando da mesma, o que rejeitou, e ao sr. comandante da 
policia foi pedida, ao que me consta, a continuação no seu posto 
por dois ou três dias mais. E basta. Sobre tão desagradável 
assunto, nem uma palavra mais. 

«Respondamos, agora, a outras accusaçoes. Em uma entre- 
vista d'um redactor de «O Século» com o sr. Teixeira de Sousa, 
li a seguinte declaração de sua ex. a . 

— « . . . N'esta altura (durante o armistício) já se tinham 
rendido o quartel do Carmo e quasi todos os corpos da guar- 
nição» 

«Sinto ter que o dizer, mas a verdade que pode ser teste- 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 50a 

munhada por muita gente, é a que vae descrita no relato an- 
terior. A guarda municipal declarou suspensas as hostilidades 
na manha do dia 5, arvorando a bandeira branca, 25 a 3o 
minutos depois de esta fluctuar no quartel general, e somente, 
depois de ter sido n'este edifício collocada a bandeira republi- 
cana é que no quartel do Carmo foi içada a primeira bandeira 
de cor encarnada. E não foi menos de meia hora depois que ao 
sr. Innocencio Camacho declarei a minha rendição pelo facto 
de estar disposto a entregar o comando das guardas. Outra 
das caluniosas invenções com que se pretende íerir-me é a de 
que, beijei a bandeira republicana, fazendo juramento de obe- 
diência á Republica. Com a mesma vehemencia repilo esta fal- 
sidade. O que a este respeito se passou é exactamente o que 
vae relatado anteriormente na parte em que trato da minha 
entrevista com o sr. Eusébio Leão e dos factos posteriores á mi- 
nha apresentação no quartel general dois dias depois de pro- 
clamada a Republica, procedendo então como vi proceder e fui 
informado que procederam tantos outros officiaes. Apello para 
testemunho de todos homens de bem que presencearam estes 
factos, para que declarem se ha a menor inexactidão no modo 
por que os exponho. A primeira e única bandeira republicana 
que tive nas minhas mãos foi a que me apresentou o sr. Eusé- 
bio Leão. 

«Também se diz que eu nunca devia ter obedecido ás or- 
dens superiores, das quais resultou a disseminação da guarda. 
E' desconhecer elementarmente as coisas militares e não sei se 
este ponto deva ser discutido. Eu declaro que nunca a desobe- 
diência me passou pela mente. Toda a educação militar que re- 
cebi, nas escolas de meus superiores e mestres e no exemplo e 
no conselho, de meu saudoso pae, me ensinou sempre a stricta 
observância da disciplina, base fundamental do exercito. Se, 
como do relato se pode conhecer, eu na madrugada de 5 de 
outubro pensei proceder de motu próprio, bom é que se tenham 
em conta as circumstancias anormalissimas que então se davam, 
de desanimo e contusão, para que o meu procedimento se ex- 
plique e justifique. Mas, alem da elementar consideração de dis- 
ciplina ha a ponderar que qualquer movimento de tropas das 

VOL. IV — FL. 64 



£06 ARMANDO RIBEIRO 



guardas, sem combinação, era arriscado para as mesmas tropas. 
Eu desconhecia a situação das forças da guarnição e dos seus 
campos de tiro, onde muito bem podia acontecer que as minhas 
tropas se tossem encontrar. Alem d'isso, desconhecedor, como 
era, dos planos do quartel general, como poderia eu atrever-me 
a dispor a meu belprazer das (orças das guardas municipaes, 
acarretando sobre mim a responsabilidade tremenda de ir con- 
trariar esses planos e, consequentemente comprometer os seus 
resultados? Houve, finalmente, quem me criticasse e crivasse 
de ironias pela minha permanência no quartel do Carmo du- 
rante todo o período revolucionário. A estas insinuações mali- 
ciosas teria respondido tudo, dizendo o que fica exposto sobre o 
assumpto no meu relato: que o sr. general comandante da 
divisão, no inicio do movimento, determinou que eu me con- 
servasse no quartel aguardando ordens. Qual poderia, realmente, 
ser o meu logar, depois da disseminação das forças que me foi 
ordenada? E' evidente que no quartel é que poderia prestar me- 
lhores serviços por ter á minha disposição cinco linhas telepho- 
nicas, que os revolucionários não poderam cortar e das quaes 
apenas algumas se deterioraram, no decorrer do movimento, 
por projecteis que as feriram. Mas note se bem que o quartel 
do Carmo, por estes criticos julgado um refugio seguro, foi um 
alvo quasi permanente da artilharia da Rotunda. Ao principio, 
distinctamente se ouviam os projecteis passar por sobre os te- 
lhados. Na tarde do dia 4, o quartel foi batido por granadas. 
Na noite de 4 para 5 e até ao armistício, as granadas não ces- 
saram de rebentar com intervallos maiores ou menores, sobre 
o mesmo quartel. Certo é, pois, que não se estava ali menos 
exposto que em qualquer outro localj e acrescente-se, ainda 
não poder haver duvidas sobre as intenções, por parte dos revo- 
lucionários, de assaltar o quartel e ali reproduzir, talvez, as sce- 
nas do da Estrella. Pergunto: quem seria n'este caso o primeiro 
alvejado? Notarei que nas ruas não íoram mortos, ou sequer 
feridos, que me conste, quaesquer oficiaes. Entretanto, grave- 
mente feridos foram alguns de marinha que se encontravam a 
bordo, nos seus postos, e mortos foram dentro do seu quartel, 
o coronel Celestino, do 16 de infantaria, e um capitão do seu 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 507 

regimento. Não sei que mais outras accusações me serão feitas, 
mas sejam quaes forem, poderia responder, como respondido 
fica aquellas de que tenho conhecimento e com a firmeza e se- 
renidade de quem tem a consciência tranquilla. Tenho a segu- 
rança de haver cumprido com lealdade e sem tibiezas o meu 
dever, como podem testemunha-lo os oficiaes que junto de mim 
se conservaram durante o movimento revolucionário.» 

Malaquias de Lemos, foi disciplinado, como poderia não o 
ter sido. 

Cumprindo, integralmente a ordem do commando da di- 
visão, sempre indecisa ou tardia ou mal cumprida, e até fugindo 
a ella, como á que lhe determinou a comparência no conselho 
de officiaes onde a sua voz echoaria na opposição a entregas, 
restringiu-se, ao amoldar das circumstancias que tudo impul- 
sionaram. 

Paiva Couceiro, foi, também, um disciplinado. 

Quando o não quiz ser, quando, descerrando os olhos á luz 
viva da realidade procurou reagir, apresentandose rebelde á 
disciplina que tudo deixara envolver pela rebeldia, era tarde: 
estava cahida a monarchia e ia longe o rei. 

O commandante das guardas municipaes, não soube exi- 
mir-se á tormenta subvertedora, embora em parte a apercebesse, 
discutindo determinações inúteis, como a que fez marchar para 
o paço das Necessidades, deserto, mais forças do seu commando. 

Não foi um culpado pela imperícia ou excessiva confiança 
nas ordens do alto vindas: foi uma presa indefeza do destino 
irrevogável, entravando ou affastando as boas intenções quando 
ellas não servem aos seus dictames supremos. 

Por si, a guarda municipal foi sempre e até ao fim, salvo 
excepções, o mais forte embaraço da revolução. 

Sacrificando tudo, até a vida, ella se constituiu em deflen- 
sora intemerata do regimen, indo aos recursos extremos. 

De longe vinha esse appoio e d'ahi uma aureola de con- 
fiança a guiarlhe os passos por parte da realeza e uma atmos- 
phera de ódio a envolver-lhe a existência, por parte do povo 
republicano. 

Aos trabalhos da revolta se lhes dedicaram especiaes atten- 



808 ARMANDO RIBEIRO 



coes, mallogradas pelo desanimo dos rebeldes logo ás primeiras 
horas da revolta. 

A acção da municipal, todavia, não teve o efficaz etfeito,, 
pelo desmembramento das suas forças, decretado em face da 
ordem secreta destinada a executar em período sedicioso. 

E* certo comtudo, que, em parte, se amoldou a guarda a si- 
tuação nascida do armisticio e até á anterior a elle. 

«O prtsidente conselho, António Teixeira de Sousa, for- 
mulou até no seu livro, a paginas 320, a accusação succinta: 

«Quando referir as baixas que houve nas diversas forças 
se verá que na infantaria da guarda, em que havia 874 homens, 
houve 1 morto e 1 ferido da l. a companhia. Nas restantes não 
houve nem uma única baixa. Passava por ser a força mais fiel 
e dedicada á Monarchia.» 

Houve, de facto, entre as dedicações, abstenções. 

A companhia aquartellada em Santa Barbara, percorrendo 
as ruas sob o commando do tenente António Cortez, recebeu 
d'este a ordem para não fazer fogo, salvo em caso de ataque. E 
assim cumprido foi, terminando a acção com o apresentar na 
Rotunda, ao tenente Mauro do Carmo. 

Mereceu isso até ao official, o seguinte elogio republicano: (*) 

«Assim andou esta companhia da guarda municipal, du- 
rante a noite e o dia todo de 4, n'uma roda viva, recebendo 
ordens e contra ordens, não parando um momento, e não dis- 
parando, ás ordens dos oficiais que a comandavam, um único 
tiro. Como acima dissemos, o tenente Cortez, que não é liberal 
de agora, mas espirito ha muito votado ás ideias democráticas, 
como o tem demonstrado no auxilio dedicado á obra da Escola 
31 de Janeiro, tomou, de acordo com os outros oficiaes, a re- 
solução de se não disparar um único tiro, salvo no caso de le- 
gitima defeza. E assim se fez. A odysseia pacifica e monarchi- 
camente inútil d'esta companhia só terminou no dia 5, ás 10 
horas da manhã, já depois de na Camará Municipal se ter pro- 
clamado a Republica. Foi quando recolheu ao quartel de Santa 
Barbara, de onde havia saido á 1 hora da madrugada de 4*. 



(*) O Mundo de 12 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 509! 



A nova da proclamação da Republica foi levada para Alcân- 
tara, ao quartel de marinheiros, por um dos esquadrões da 
municipal. 

A* ordem do coronel Malaquias de Lemos, para que ces- 
sassem hostilidades, submettiam-se desde logo, os quartéis dos. 
Paulistas e Loyos, arvorando bandeira branca. 

Na própria sede do commando, houve incidentes que mais 
tarde a publico surgiram, a propósito da mallograda tentativa 
monarchica de 2 i de outubro de 1 9 1 3: (*) 

«Entre os individuos agora presos figuram, como é sabido^ 
o tenentecoronel da administração militar, Miguel Cayola, já, 
reformado e seu filho o tenente Thomaz Cayola. Estes dois 
officiaes pertenciam no 5 de outubro £ guarda municipal, exer- 
cendo o primeiro funcçoes administrativas e de secretaria e senda 
o segundo, ajudante do coronel Malaquias de Lemos, comman- 
dante da mesma guarda. E* do domínio publico a maneira coma 
a guarda procedeu na revolução, limitando-se a uma defensiva 
que a levou á mais completa derrota. Mas o que não é conhe- 
cido é este episodio que, por ser opportuno, convém recordara 
Quando as granadas da Rotunda principiaram a cahir no Car- 
mo, a confusão que ali se estabeleceu foi enorme. Mas de toda 
a gente, praças e officiaes, quem mais aterrado se mostrou fo- 
ram os dois Cayolas, pae e filho, que aos primeiros estampidos 
correram a refugiar-se n'uma arrecadação cheia de fardos de 
palha. E como o bombardeamento do quartel continuasse, os 
dois, aflictissimos, foram buscar a familia e correram a occui- 
tar-se no edifício do lyceu Maria Pia, que fica a curta distancia 
e n'um plano inferior, e portanto, muito mais ao abrigo das 
granadas. Miguel e Thomaz Cayola por lá se demoraram até 
que as balas dos canhões da Rotunda deixaram o Carmo em 
paz, tendo porém o facto que fica narrado causado tal escândalo,, 
que o continuo do lyceu que lhes abriu a porta e lhes deu guarida 
foi asperamente reprehendído e castigado por tal motivo.» 

Dera se eâectivamente o facto e originando até o castigo 
do continuo do lyceu do Carmo, Francisco Hilário Rosa, sob 



(*) A Capital de 23 de Outubro de 1913. 



310 ARMANDO RIBEIRO 



a accusação de ter permittido que para ali entrassem com suas 
iamilias, os dois omciaes da guarda. (*) 

Contrariamente procedia um sargento da guarda, que, na 
manhã de 5, ainda enveredou, a cavallo, até á Rotunda, lan- 
çando ali o grito enthusiastico: 

— Viva o rei ! 

A 4 a companhia é que assumiu insubordinado aspecto. 

D'ali se transmittiram para a sede do cominando, constan- 
tes e valiosas informações, aliás não aproveitadas. 

Esse facto contribuiu talvez para que, á determinação de 
que se deviam submetter, dada apoz o regresso do paço, onde 
a guarda havia estado, o 1.° sargento Bernardino Vieira, insis- 
tiu pelo telephone, pedindo a ordem superior e pessoalmente 
confirmada. 

O coronel, salientando essa indisciplina, que comtudo signi- 
ficava lealismo, reiterava a rendição. 

O sargento, declarava- se apto ainda a resistir. 

Malaquias, teve então o exaspero que mais em íoco collocou 
o official inferior: 

— Entreguem se também que eu já me entreguei. 

— Mas nós ainda podemos resistir. 

— Entreguese, já lhe disse! 

E expandia a cólera, n'uma quasi censura ao soldado que 
tão cheio de animo condemnava a rendição: 

— Ora vejam a que estado de indisciplina chegou o exer- 
cito. Um sargento a discutir commigo a opportunidade de se 
render. Que me dizem a este sargento, hein? Que me dizem 
ao sargento?!. . . 

Não se conformou elle em absoluto, a despeito de a multi- 
dão, já sabedora, se ir accumulando em frente do quartel. 

Assim communicava ao commandante que ia procurar con- 
temporisar com os populares e arvorar a bandeira branca. 

De facto, assim se precedeu. 

Os revolucionários, armados de espingardas, sabres e revol- 



(*) O Século de li de Outubro de 1901. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 511 



veres, muitos d'elles tirados á soldadesca, sollicitaram do com- 
mandante d'esta companbia a substituição do estandarte branco 
pelo verde e encarnado. 

Um 2. sargento, dizendo-se interprete do oflicial, vinha á 
rua aflirmar que a guarda não era hostil e que o sollicitado se- 
ria satisfeito apoz a recepção de instruções. 

O povo viu a evasiva e procurou annullar-lhe as conse- 
quências. 

Ao mesmo tempo, na Rotunda, não se confiava, em absoluto,, 
na attitude da municipal e assim Machado Santos proclamava 
que ás forças ali acampadas seria dada folga, quando as armas 
da guarda estivessem em poder da Republica. 

Já soubera dos successos da Estrella, indo até ao principio 
da respectiva calçada com um oflicial da guarda, delegado do 
coronel Malaquias de Lemos para ordenar a submissão. 

Não haviam passado d'ali porem, ante os informes da popu- 
laça, affirmando, erradamente, que os soldados impediam todo 
o avanço. 

Retrocedendo ao alto da Avenida, fez se destacar um grupo 
de soldados do 16, que aggregando a si, em Campo de Ouri- 
que, forte núcleo de populares, se dirigia ao quartel da 4/ 1 com- 
panhia, na Estrella, para a recepção de todas as munições ali 
existentes. 

Parlamentando com o commandante, capitão João Maria 
Pinheiro Pinto da Cruz, recusou-se este á entrega, a despeito 
de se ostentar no edifício, a bandeira branca. 

Pensouse logo no assalto, e por isso se quiz passar por uma 
propriedade, residência ingleza. 

Os moradores, hasteando a bandeira, dificultaram o pro- 
jecto, do qual desistiram, para procurar outros meios. 

Um popular, de nome João Luiz Consolado, se encarregara 
de ir expor a Pinto da Cruz, a situação, já sob a forma d'uma 
intimativa, e d'ahi o consentimento para que 5o praças fossem 
á Rotunda manifestar a adhesão da 4 a companhia. 

Entre o povo seguiam os soldados, até que ingressaram no 
acampamento, d'onde não mais sahiram. 

Cada vez mais dúbia a attitude da companhia, organisou- 



512 ARMANDO RIBEIRO 



se novo destacamento de povo e praças, para intimar o capitão 
Cruz, a fazer a entrega immediata das armas. 

Preparado estava já o ardil, e o commandante da 4 a com- 
panhia, mandava franquear o quartel aos populares, que desde 
logo se apoderaram do armamento descarregado. 

Súbito, surgia um grupo de soldados da municipal, muni- 
dos de Brownings, que desfecharam, cahindo logo, morto com 
uma bala no pescoço e outra na região parietal, o marceneiro 
da rua da Escola Polytechnica, Polycarpo Luiz Redondo, de 
29 annos, natural de S. Domingos de Rana, soiteiro, membro 
do grupo anarchista A Sementeira e feridos, entre outros, Au- 
gusto Carlos da Costa, morador na rua de Campo de Ouri- 
que, 46. 

A soldadesca não Meou illesa. 

Fazendo das espingardas, clavas, resistiram heroicamente, 
«mquanto era pedido soccorro para a Rotunda, d'onde logo se- 
guiram 3o homens armados, sob o commando do sargento da 
-Rotunda, Pimentel, auxiliado pelo marinheiro Manuel José. 

A* sua approximaçao evadiram se muitos dos municipaes, 
mas cercado o quartel, e depois de busca, a maioria cahia em 
poder dos revolucionários, que para o acampamento conduziram 
presos e desarmados, os soldados que puderam apanhar, alguns 
leridos, como o soldado 97, José da Silva, e ainda o capitão 
Cruz e 1.° sargento Bernardino José Vieira, chegando mais 
tarde a dar- se o boato (*) da comparência dos dois últimos a 
conselho de guerra por homicidio. 

A scena da tomadia appareceu assim descripta: (**) 

<cOs populares que, a esse tempo já se achavam armados de 
sabres, revolveres e espingardas, dirigiram-sc ao quartel e pedi- 
ram ao commandante da força que a bandeira branca fosse su- 
bstituída pela da Republica. Um segundo sargento vem á rua 
e, depois de se descobrir e levantar um viva á Republica Pv:r- 
tugueza, declarou ao povo que a guarda não lhe seria hostil e 
a bandeira verde seria arvorada logo que para isso fossem rece- 



(#) O Paij de 7 de Outubro de 1910. 

{##) O Diário de Noticias de 6 de Outubro de 1910. 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 513 

bMas instrucçoes. Não agradou a resposta, o que deu origem a 
ser o quartel atacado com vigor, sendo disparados numerosos 
tiros e sendo retirado d'ali a maior parte do armamento. Muitos 
soldados da municipal tinham conseguido refugiar-se nos quin- 
taes que deitam para as trazeiras do quartel. Sabedor d'isso, o 
povo resolveu dar uma rigorosa busca a diversos prédios, sendo 
apanhados alguns soldados, que, depois de desarmados, eram 
mandados, sob prisão, para o quadrado da Rotunda da Avenida. 
Foram mortos dois soldados e a um outro loi-lhe poupada a 
vida a pedido de algumas senhoras, que se encontravam ás ja- 
nellas, na rua Saraiva de Carvalho. IJm municipal, que corria 
desabridamente, armado, com destino ao quartel, íoi egualmente 
morto pelos populares. A este tempo ainda não havia a certeza 
plena do quartel estar evacuado. De repente, surge da rua Fer- 
reira Borges o tenente-coronel de infantaria da guaida munici- 
pal, que é logo rodeado por um grupo de populares, armados, 
intimando o a que mandasse submetter os seus subordinados. 
Aquelle official declara que vae ali para esse fim. E' grande a 
anciedade. Eftecti vãmente, deu entrada no quartel, e volvidos 
minutos era declarado ao povo que lá dentro havia apenas mor- 
tos e íeridos. Os populares, certificados da verdade, serenaram.» 

O quartel ficava deserto, despojado do armamento e á guarda 
de 4 civis. 

Outra revindicta foi attribuida á guarda, apparecendo assim 
mencionada; 

«Hontem, pouco depois das u horas da manhã, uns vinte 
guardas municipaes armados, conduzindo uma bandeira repu- 
blicana e soltando enthusiasticos vivas á Republica, entraram 
no acampamento, onde, como é de suppor-se, foram carinhosa- 
mente recebidos. Pouco depois, aproveitando um momento de 
distracção dos soldados da Republica, os municipaes collocaram- 
se em linha de combate desfechando sobre elles, dois dos quaes 
ficaram mortos e muitos feridos. Foram immediatamente desar- 
mados e presos.» 

Tudo contribuiu para se pôr em pratica a perseguição aos 
municipaes, aprisionando se até o n.° 38, sob accusação feita pelo 
carbonário Francisco Cândido da Conceição, um dos detidos 

VOL. IV — FL. 65 



Si4 ARMANDO RIBEIRO 



das sociedades secretas, de haver praticado actos de ciueldade, 
ou fosse o corte dos dedos e língua, depois de o matar, a um dos 
assaltantes do quartel. 

Ao estrangeiro passou o boato, como certo e reproduziam- 
no, augmentado, os auctores do Como cae nn trono y (pagina 
123): 

«La Municipal en la calle, supone la renovacion de memo- 
rabies salvajadas, de crueles excesos de íerocidad. Ciertamente. 
Cinco populares, cojidos con las armas en la mano, tueron fusi- 
lados ya. A otro, la Guardiã aborrecida le corto los dedos y la 
lingua.» 

Era erro. 

O soldado 38, teve logo testemunhos de republicanos de 
que nem no quartel se encontrava, andando de licença. Por seu 
turno, o juizo criminal, officiando á direcção da morgue, recebia 
d'ella a resposta (11 de outubro de 1910) de que não dera ali 
entrada ninguém com a lingua e dedos decepados, resultando 
d'isso a restituição do soldado á liberdade. (12 de outubro) 

Para o momento serviu a infundada accusação e, emquanto 
uns tomavam o posto do Muzeu das Janellas Verdes e da 
rua Vasco da Gama, outros, se occupavam na caça aos solda- 
dos dispersos, e tendo, apesar d*isso a encorajada declaração de 
que não údheriam, como succedeu com o soldado 89 João da 
Silva Louro, passado á reserva como i.° cabo e dias depois ([4 
de outubro) detido na terra da naturalidade, o logar do Espi- 
nheiro, em Santarém, sob a accusação de andar ali eflectuando 
a propaganda de que se podiam manifestar contra a republica, 
pois em Lisboa infantaria 1, cavallaria 2 e 4 não haviam le- 
vantado o rancho aos gritos acclamadores da monarchia. 

Outros grupos, deixando a isolada perseguição á soldadesca 
e utilisando se da circumstancia de se encontrarem de guarda ao 
quartel da 4 a companhia, apenas quatro civis, resolviam-lhe a 
invasão, para o saque. 

De nada valeu a resistência dos vigilantes. 

O posto, deserto, era assaltado e de tudo se apoderaram^ 
em armas e objectos particulares e dando depois o capitão Pinto 
da Cruz, por falta de jóias suas e de familia e ainda de vários 



A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA 515 

títulos da divida interna e externa, alguns dos quaes apparece- 
ram rasgados, pertencentes á Caixa Económica dos Officiaes da 
Guarda Municipal de Lisboa, depositados no cofre do quartel, 
e cuja apprehensao foi logo pedida aos estabelecimentos bancá- 
rios, por circular policial de 19 de outubro. 

O retorço de civis e militares, ainda conseguiu deter cinco 
dos assaltantes, graças á enérgica resistência dos populares José 
Correia, Jayme de Sousa e Manuel Cândido. 

Já a 9 de outubro houve denuncia de terem sido escondidos 
n'um prédio da Rua Domingos Sequeira, vários dos objectos 
pertencentes á 4 a companhia Foi -o local cercado, durante a 
noite, por um pelotão de cadetes sobre o commando do tenente 
da marinha, Valdez, e de manha dava-se a investida. 

Constatou se a veracidade da denuncia, sendo apprehendido 
armamento e outros objectos. 

Seguiu se lhe a prisão e remessa ao quarto districto crimi* 
nal (15 de outubro), dos auctores do assalto e roubo no quartel 
da 4 a companhia da guarda municipal. 

Esfa, já a esse tempo se transformara em guarda republi- 
cana, mercê de um decreto, datado de 12 de outubro, pelo 
qual ainda se extinguiam as guardas municipaes, e se nomeava 
o general Ernesto da Encarnação Ribeiro, Manuel Maria Coelho 
e o dr. Manuel de Brito Camacho para estudarem a organisação 
de um corpo de segurança chamado Guarda Nacional Republi- 
cana. 

Annullado por decreto de 3 de maio de 1911, era validado 
pelo Congresso da Republica, por proposta de lei assignada em 
21 de Março de 1912. 





4 



VIII 



cidade e o povo de Lisboa— Os revolucionários e os 
governos — A força publica na revolução — A ques- 
tão Teixeira de Sousa e Alfredo de Albuquerque — 
A força publica apoz a revolta. 




stava coroada de êxito, a tentativa dos republi- 
canos. 

A cidade de Lisboa, recuperou a sua feição 
de vida. 

A dynamite, a diabólica descoberta do chi- 
mico sueco Alfredo Nobel, cessara a sua acçSo 
productiva e tanto que quasi consagrada seria 
mais tarde em plena camará dos deputados, (sessão de 19 de 
Fevereiro de 1914) por Machado Santos, dizendo; 

— Não vou comtudo mostrar, hipocritamente, que lhe tenho 
um sacrosanto horror, quando eu reconheço que circumstancias 
ha em que se mostra possuir mais coragem no arremesso de 
uma granada de mão do que no disparar d*uma peça para